Cidade do Cabo é marcada pelo luxo e vida noturna agitada

Dec 31, 1969
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A Cidade do Cabo, ou Cape Town, é a maior surpresa de quem vai à África do Sul sonhando encontrar um país selvagem e exótico. Com hotéis de luxo, carrões BMW pelas ruas e boa vida noturna, a cidade não combina muito com o chavão de terra habitada por leões e tribos zulus. Aliás, a cidade está mais para europeia do que africana. Até no clima temperado, que possibilita às muitas vinícolas que existem em seu entorno produzir alguns dos melhores vinhos do mundo. É, sem dúvida, um ótimo começo para uma viagem à África do Sul.

A esquina do mundo

A baía de Camps Bay, na Cidade do Cabo, África do SulPoucos lugares no mundo têm mérito igual para se auto-nomear "esquina do mundo" como a Cidade do Cabo. Fundada por holandeses em 1652 – a primeira do país – e depois tomada de assalto pelos ingleses, que não arredaram o pé dali por 150 anos, serviu durante séculos como zona portuária e ponto de passagem no comércio marítimo com a Ásia. O resultado é que as coisas por ali acabaram um pouco misturadas, o que tornou a cidade de várias cores e culturas, com negros, descendentes europeus, árabes e indianos – estes, trazidos como escravos no século 19 para trabalhar nas plantações de cana. A mistura foi tanta que nem dá para saber em qual idioma o cidadão local vai falar quando você perguntar alguma coisa. O inglês é o mais comum, mas se o seu interlocutor for um branco descendente de holandeses, pode muito bem ser o africâner, ou se for negro, palavras em xhosa ou zulu. Na arquitetura, o moderno divide o espaço com casas em estilo vitoriano, igrejas neogóticas e mesquitas.

O bairro mais curioso é o malaio, com ruas estreitas  e casinhas geminadas coloridas, onde mulheres de turbante param nas varandas para conversar ou jogar milho para os pombos.

Apesar de curioso, não foi o lado cosmopolita que fez a Cidade do Cabo virar o maior fenômeno turístico da África do Sul, com 21 milhões de visitantes todo os anos. Há também as paisagens e belas praias, embora a água gelada naquelas bandas do Atlântico as tornem impraticáveis para o banho de mar. Mesmo assim, muitas estrangeiras adoram um topless nas areias de Camps Bay.

A cidade fica aos pés da famosa Table Mountain, a Montanha da Mesa, um cartão-postal tão divulgado pelas operadoras de turismo quanto as manadas de elefantes. Nem é das mais altas montanhas da África do Sul, com meros 1.086 m,mas com um magnetismo impressionante na paisagem, graças aos seus 3 km de comprimento. Poucos deixam de pegar o bondinho em um dia de sol para ver a cidade lá de cima dos mirantes.

A Table Mountain representa para o sul-africano o mesmo que o Pão de Açúcar para o brasileiro. Aliás, comparar a Cidade do Cabo com o Rio de Janeiro não é nenhum absurdo: por causa da geografia, ambas contam com uma fotogênica parceria de praias e montanhas.

A semelhança entre as duas cidades tem até explicação científica: seriam parte da mesma porção de território antes da separação dos dois continentes, há milhões de anos.

V&A Waterfront

O Waterfront, e ao fundo, a Table MountainA principal atração da cidade é o Victoria & Alfred Waterfront, o antigo porto que foi restaurado para se tornar um charmoso centro gastronômico e de compras. Ao som de gaivotas, os turistas passeiam entre lojas de artesanato fino, roupas de grife, bares e restaurantes sofisticados.

Passar o dia no Waterfront é um imenso prazer. Além de passeios de barco para ver baleias jubarte, que aparecem entre julho e novembro para acasalar naquele pedaço da costa sul-africana, ninguém deixa de ir ao Aquarium Two Oceans, com quase 8 mil exemplares de peixes e corais dos oceanos Atlântico e Índico. No grande aquário principal, ao fim de um percurso de meia-hora, estão os peixes predadores e tubarões brancos. O lance é estar lá pontualmente às 15h30, quando o pessoal do aquário cuida da alimentação das espécies vorazes.

Nos finais de tarde, músicos fazem apresentações ao ar livre em cada esquina do Waterfront. Ouve-se de tudo: jazz, tango, corais sul-africanos e até bossa nova. Faça hora por ali até o pôr-do-sol tingir de dourado a Table Mountain, o pano de fundo do Waterfront, e volte mais tarde, quando os bares do agito abrem as portas. No Manenberg´s, o jazz de qualidade vai tentá-lo a permanecer nos drinques até a última música. A noite da Cidade do Cabo acontece também na Long Street, no centro, que tem uma atraente sequência de bares e boates.

Conheça o ex-presídio, hoje a Robben Island

A visita ao ex-presídio de Robben Island inclui até a cela onde Mandela ficou presoO melhor passeio histórico-cultural começa nos deques do Waterfront, de onde saem os barcos à Robben Island, a ilha-presídio na qual Nelson Mandela e outros líderes que combateram o apartheid ficaram presos.

Está a 12 km da costa (20 minutos de lancha) e o passeio leva cerca de duas horas. A visitação incluiu uma volta de ônibus pela ilha e uma caminhada pelo presídio, inclusive na cela em que Mandela passou 27 anos, antes de ser libertado em 1990 e virar presidente quatro anos depois.

Na vila onde moravam os guardas e carcereiros brancos da prisão, vive hoje uma maioria negra e muitos ex-prisioneiros, como Lionel Davis, que passou seis anos como detento e hoje trabalha como guia no museu. Davis conta para os turistas detalhes sobre como era a vida na cadeia e as condições desumanas a que os presos eram sujeitados. Para se ter uma idéia, até a década de 1970, não havia banheiro nem camas nas celas.

Robben Island se tornou o principal símbolo do apartheid. O regime político de segregação entre brancos e não-brancos durou séculos, até que o embargo internacional e a luta do Congresso Nacional Africano  – tendo Nelson Mandela e Desmond Tutu, o primeiro arcebispo negro sul-africano, como principais porta-vozes – livraram o país dessa mazela.

Se pelo menos acabou o racismo formal que proibia os negros de circular em ônibus e banheiros exclusivos para brancos, as consequências sociais do regime não teriam como desaparecer em tão pouco tempo. Mas as coisas, aos poucos vão melhorando. Logo após o fim do apartheid, em 1994, o país deixou uma década de estagnação para entrar num ciclo de crescimento econômico, com médias de 3% ao ano, que vem favorecendo um aumento crescente da classe média negra no país.

Cabo da Boa Esperança

Pingüins na praia de Seaforth, no caminho para o Cabo da Boa EsperançaO passeio mais inevitável para você fazer na Cidade do Cabo o levará até a Reserva Natural do Cabo da Boa Esperança, a uma hora e meia de carro seguindo pela Chapman´s Peak Drive, uma autopista cênica que beira os costões, rente ao mar. Pode ser feito com um carro alugado ou em excursões organizadas pelas agências de turismo – no Waterfront há algumas.

Lembre que seus livros de história já falavam do Cabo da Boa Esperança, península rochosa alcançada pelo navegador português Bartolomeu Dias, em 1488, na primeira viagem às Índias que dava a volta no continente africano. Dias deu nome ao local de Cabo das Tormentas, depois de sofrer três dias com fortes tempestades. Obrigado a retornar depois de um motim no navio, o navegador contou ao rei que havia descoberto o novo caminho. D. João II gostou tanto da notícia que rebatizou o nome do lugar para Cabo da Boa Esperança. Mas levaria dez anos ainda para que o navegador Vasco da Gama conseguisse esticar a viagem até as Índias. Tudo por causa das especiarias (pimenta, curry, canela e outros temperinhos tão comuns hoje). Mas apesar do pioneirismo português, foram os holandeses que mais se beneficiaram do comércio marítimo na região, especialmente depois que fundaram a Cidade do Cabo.

Durante um tempo acreditou-se ser o Cabo da Boa Esperança o ponto mais austral do continente africano e divisor das águas dos oceanos Atlântico e Índico, quando essas honrarias cabem, na realidade, ao Cabo das Agulhas, 48 km mais ao sul.

Os passeios para o Cabo da Boa Esperança incluem uma parada para ver a colônia de pingüins na praia de Boulders Beach. Uma passarela de madeira foi construída sobre a areia da praia, a uma distância que dá para fotografar os bichinhos. Segundo os guias, os pingüins chegaram ali em 1980, não se sabe bem o porquê, e nunca mais foram embora.

A vinícola da região de Stellenbosh

Vinícola na região de StellenReserve um dia também para visitar as vinícolas dos arredores da Cidade do Cabo, de onde saem vinhos que frequentam, com louvor, as melhores adegas do mundo.

E esse dia valerá, não só pelo vinho, que é muito bom, mas também pelas paisagens dominadas por parreiras e simpáticas casas brancas em estilo cape dutch. A região dos vinhedos é considerada a mais extensa do mundo, tanto que são 16 rotas diferentes e quase todas as vinícolas oferecem degustações. Entre os vinhos tintos mais apreciados estão o Pinot Noir e Hermitage, produzidos com a uva híbrida Pinotage, só cultivada naquela região e que virou marca registrada dos vinhos sul-africanos.

O roteiro do vinho deve incluir também uma visita à cidade de Stellenbosh, de 1679, a segunda mais antiga da África do Sul, que foi berço da cultura dos sul-africanos de origem holandesa. A cidade tem ar provinciano, é tranquila e arborizada, com belas casas em estilo vitoriano e cape dutch. Faça um passeio a pé e pergunte onde fica a Oom Samie se Winkel, que quer dizer "loja do tio Samie", charmosa, em estilo vitoriano, que há 100 anos vende produtos em conserva e utensílios de cozinha do século 19.

Com um carro alugado, vale esticar até Mossel Bay, a melhor parada da chamada Rota Jardim, um roteiro cinematográfico que vai da Cidade do Cabo até Porto Elisabeth, 600 km adiante.

Mas nem precisa ir tão longe. Mossel Bay, a 400 km da Cidade do Cabo, tem bons restaurantes, hotéis e uma atração emocionante: mergulhar com tubarões brancos, devidamente protegidos dentro de gaiolas metálicas. No Dias Museum Complex pode-se encontrar uma réplica da caravela de Bartolomeu Dias. O lugar é também um dos melhores pontos do litoral sul-africano para ver baleias – da praia mesmo é possível avistá-las.

Com tanto para curtir na Cidade do Cabo e redondezas, o ideal é reservar quatro ou cinco dias inteiros para circular com liberdade e ainda fazer os passeios. Os pacotes básicos para a África do Sul têm duração de 8 dias (6 noites) e todos com a Cidade do Cabo no roteiro. Mas incluem apenas dois dias na cidade, pois são complementados com safáris no Kruger, ou ida a Sun City, o megacomplexo de hotéis de luxo e cassinos onde está o The Palace, o primeiro hotel seis estrelas do mundo. Peça uma cotação incluindo mais tempo (um ou dois dias) para explorar a Cidade do Cabo e a região como se deve. Vai valer a pena.

 

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