Berlim uma cidade que preserva o patrimônio histórico e a arquitetura secular

Dec 31, 1969
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Quando se pensa em Berlim, a primeira coisa que vem à cabeça é o tão famoso muro de dezenas de quilômetros que dividia a cidade, incrustada em meio ao território da antiga Alemanha Oriental. Hoje, passados muitos anos da reunificação da Alemanha, e de volta à condição de capital nacional, Berlim mostra a receita de uma cidade do futuro no presente, por meio da combinação de preservação do meio ambiente e arquitetura arrojada, transporte urbano impecável e conservação do patrimônio histórico.

A primeira menção escrita à cidade de Berlim se deu em 1244. Desde então, a cidade foi capital nacional sob cinco diferentes governos – o Império Germânico, a República de Weimar, o Partido Nacional Socialista Alemão (Nazista), a Alemanha Oriental e, agora, a Alemanha reunificada. Cada um desses governos promoveu programas de construção e urbanização bastante ambiciosos, fazendo com que Berlim seja, provavelmente, a cidade com maior diversidade de estilos arquitetônicos no mundo.

A descoberta da Potsdamer Platz

Os edifícios suntuosos construídos em Potsdamer Platz, em Berlim, após a guerra friaNa última fase de renovação urbana, deu-se especial atenção à área que antes era atravessada pelo Muro de Berlim e seus arredores. Daí surgiu um dos complexos arquitetônicos mais impressionantes do mundo, na Potsdamer Platz, que, até a reunificação, era apenas uma imensa área vazia, feia, do lado oriental, onde ficava o entroncamento de tráfego urbano mais movimentado da cidade.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, Berlim foi dividida em quatro setores, cada um administrado por um dos quatro países aliados: Inglaterra, França, Estados Unidos e União Soviética. Como a linha divisória passava entre o setor soviético e um dos setores ocidentais passava bem no meio da Potsdamer Platz, o espaço da cidade foi praticamente abandonado.

Com o recrudescimento da Guerra Fria e a conseqüente construção do Muro de Berlim, em 1961, uma barreira física entre todo o setor soviético e os outros três setores ocidentais, a região virou, literalmente, terra de ninguém. Após a queda do muro e a reunificação da Alemanha, a Potsdamer Platz voltou a atrair a atenção, pois sua localização era estratégica, próxima ao centro da cidade, bem na divisa com o antigo setor oriental, ávido por investimentos. 

Arquitetura: o antigo e o novo

Nikolaiviertel, primorosa reconstrução do núcleo original de BerlimEntre 1993 e 1998, o terreno deu lugar ao maior canteiro de obras da Europa, que gerou um complexo de diversos edifícios, shopping center, cinemas, bares, restaurantes, e um átrio coberto por uma imensa tenda, tudo em estilo arrojado e futurista. Caminhar pelo átrio e observar os edifícios sob a tenda é como estar em um cenário de ficção científica. Especialmente à noite, quando todas as luzes estão acesas. Isso tudo graças ao trabalho de alguns dos mais renomados arquitetos do mundo.

Já no quarteirão que compõe o Nikolaiviertel, o que chama a atenção não é o arrojo arquitetônico, mas a irretocável e primorosa reconstrução do núcleo original de Berlim. Vagar por suas ruas estreitas, calçadas por paralelepípedos, é como retornar à Idade Média. A única diferença é que, naquela época, não existiam os restaurantes, cafés e lojas que encontram-se hoje pelas vizinhanças. Isso faz com que Nikolaiviertel seja um dos recantos mais populares da cidade.

Apesar da aparência conservadora do lugar, no quarteirão encontra-se o inusitado Museu do Cânhamo (Hamfs Museum). Além da exposição de utensílios antigos usados para se plantar e consumir a planta (mais conhecida como maconha), o museu é o único lugar de Berlim com permissão para cultivar o cânhamo. Toda a pequena produção é utilizada para a confecção de roupas e remédios.

Além dos prédios extremamente bem conservados, o rio Spree – que, com o rio Havel, corta toda a cidade – ajuda a compor um cenário charmoso em Nikolaiviertel. É uma mostra de como manter vivo o patrimônio histórico de uma cidade, visto que a área foi intensamente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. 

Atrações históricas

A Catedral de Berlim (Berliner Dom)Bem próximo a Nikolaiviertel existem outras duas atrações: a primeira é a Berliner Dom, a catedral da cidade. A igreja foi erguida para substituir uma capela imperial que havia no mesmo lugar, demolida por ordem do imperador Guilherme II, e sua construção terminou em 1905. A razão original da construção era competir visualmente com a Basílica de São Pedro, em Roma. Entretanto, os berlinenses não gostam muito do seu estilo barroco, com influências do renascimento italiano. Outra curiosidade em relação à catedral é que ela abriga, em seu interior, os túmulos de mais de 80 membros da família real prussiana.

A segunda, também próxima, é a praça mais famosa da cidade, a Alexanderplatz. Como ocorreu em praticamente toda Berlim, o local passou por diversas fases de revitalização. Aárea era utilizada como mercado de gado, no início do século 19. Em uma dessas fases, quando a Alexanderplatz estava dentro do território de Berlim Oriental, foi erguida uma enorme torre de televisão, a Fernsehturm, segunda mais alta estrutura da Europa, com 368 metros de altura. Inaugurada em 1969, esse marco arquitetônico, que pode ser visto de várias partes da cidade, é um dos locais mais visitados de Berlim e um dos símbolos da cidade.

Contrapondo a seu estilo moderno, a igreja Marienkirche, situada ao lado da torre, exibe um estado de conservação impecável para uma construção com mais de 750 anos. Postadas do outro lado da praça, como para lembrar o passado comunista da Alexanderplatz, estão as estátuas de Marx e Engels.

Aliás, a parte leste de Berlim reserva atrações muito interessantes, principalmente após a enorme injeção de capital que se seguiu à reunificação alemã. É o caso do Hackesche Höfe, um conjunto de edifícios em estilo art nouveau agrupados ao redor de oito pátios internos e interligados, fervilhando de bares, restaurantes, galerias, pequeno comércio, cinema, teatro e também residências. Os andares superiores dos prédios que circundam os pátios são apartamentos residenciais em sua maioria. Somente os andares térreos são destinados ao comércio. Para quem não tem um senso de direção muito bom, é fácil se perder entre as passagens pelos pátios e demorar um pouco para retornar às ruas externas. 

De bonde, ônibus, trem ou metrô

Estação de Trem - Berlim- AlemanhaUma vez fora do labirinto, pode-se perceber uma coisa que não existe no lado oeste da cidade: os bondes, ou como se diz em alemão, strassenbahn. Esses pequenos trens amarelos percorrem trilhos que passam pelas mesmas ruas trafegadas pelos automóveis, disputando espaço e preferência com eles. Tudo com muita disciplina, claro.

O sistema de transporte urbano coletivo em Berlim é extremamente organizado e eficiente. Além dos ônibus, existem três tipos de trens urbanos: o metrô, o trem de superfície e o bonde, ou U-Bahn, S-Bahn e Strassenbahn, respectivamente. Com eles,pode-se chegar a qualquer parte da cidade com relativa rapidez.

 O Parque Tiergarten

Parque Tiergarten, um dos mais frequentados pelos berlinenses. Foto de Manfred BrückelsBerlim é uma cidade com extensa área territorial, nove vezes maior que Paris, embora possua uma população menor do que a da capital francesa. Essa baixa densidade demográfica, além das avenidas e calçadas largas, faz com que não se veja grandes aglomerações de pessoas ou carros pela cidade, com exceção dos pontos turísticos, nos períodos de alta temporada. Também sobra espaço para a conservação de árvores e outras plantas: cerca de um terço da cidade é ocupado por área verde. A principal delas é o Tiergarten, imenso parque situado no centro da metrópole, muito freqüentado pelos berlinenses.

Nas imediações do Tiergarten existem algumas atrações bastante populares. Uma delas é o Portão de Brandemburgo, ou Brandenburger Tor. Dentre os diversos estilos arquitetônicos encontrados em Berlim, o Portão de Brandemburgo representa o neoclássico. Sua concepção foi inspirada pela Propylea, o portão de entrada da Acrópole de Atenas. A construção terminou em 1791 e, hoje em dia, serve como cenário para diversos megaeventos que acontecem na cidade.

A Quadriga, escultura representando a Deusa da Vitória conduzindo quatro cavalos, foi acrescentada a seu topo somente em 1794. A propósito: a Quadriga já teve algumas idas e vindas. Em 1806, após a derrota prussiana para o exército de Napoleão, ela foi levada para Paris, tendo retornado a seu local de origem apenas oito anos depois. Durante a Guerra Fria, quando o Portão de Brandemburgo estava dentro dos limites de Berlim Oriental, o governo comunista da Alemanha Oriental decidiu retirá-la do topo do monumento.

Além de a escultura ter sido bastante danificada durante a Segunda Guerra, seu estandarte carregava a Cruz de Ferro, símbolo do militarismo prussiano. Após a reunificação alemã, a Quadriga foi restaurada e recolocada em seu lugar com grande festa. Só um detalhe: originalmente, a Quadriga estava apontada para o Oeste; agora, está apontada para o Leste. 

Reichstag

Interior da cúpula de vidro, o Reichstag, BerlimMuito próximo dali está o Reichstag, onde funcionava o parlamento alemão. Inaugurado em 1894, o Reichstag foi palco de vários acontecimentos históricos, inclusive o incêndio que destruiu o prédio em 1933, planejado e executado pelos nazistas. Após os anos de Guerra Fria e a reunificação alemã, com Berlim voltando ao status de capital nacional, o Reichstag voltou a sediar o parlamento, ou Bundestag, em 1999. Para isso foi submetido a uma extensa reforma, inclusive com a adição de uma cúpula de vidro sobre seu teto.

A cúpula, idealizada pelo famoso arquiteto britânico Sir Norman Foster, é aberta ao público e é um dos lugares mais visitados de Berlim. Possui, em seu centro, uma coluna coberta por espelhos e uma rampa em espiral que vai até o topo, de onde se pode ver boa parte da região central da cidade. É uma obra de arquitetura e engenharia admirável, sendo um programa imperdível.

Existem outros edifícios ao lado do Reichstag, que compõem o Bundestag. Todos eles foram inaugurados recentemente e possuem um padrão arquitetônico bastante arrojado, privilegiando o uso do aço, vidro e concreto aparente. Dentre eles destacam-se o Paul Löbe Haus e o Marie Elisabeth Lüders Haus.

O primeiro abriga os escritórios dos parlamentares e outros funcionários do parlamento. No segundo encontra-se a Biblioteca e os Serviços de Pesquisa e Referência do Bundestag. Os dois edifícios estão em margens opostas do Rio Spree, sendo conectados por uma passarela de aço que atravessa o rio, e por túneis subterrâneos.

História, guerra e reconstrução estão sempre presentes em Berlim, seja na memória de seus habitantes, seja nos monumentos e construções ao redor da cidade. Dentre os monumentos dedicados a lembrar os berlinenses dos horrores que um conflito armado pode provocar, o mais incisivo é a Igreja Memorial Kaiser Guilherme II, ou Gedächtniskirche.

A igreja, de estilo neoromano, foi severamente atingida por bombardeios aéreos em 1943, mas sua estrutura de sustentação não sofreu abalos críticos. Em vez de ser demolida, foi mantida em sua aparência semidestruída, como testemunha inanimada de tempos obscuros, que os berlinenses jamais vão querer reviver, assim como não vão querer reviver o passado nazista, que tanto constrangimento ainda provoca nos alemães. Um dos ícones e uma das principais obras executadas pelo governo do Terceiro Reich foi o Estádio Olímpico, construído para ser a sede da Olimpíada de 1936. 

Conhecer a Alemanha é uma experiência extremamente enriquecedora. Visitar Berlim é obrigatório: além de possuir uma concepção urbana que une o moderno e arrojado à preservação do patrimônio histórico, a cidade tem uma vida cultural riquíssima, com centenas de museus, galerias, teatros, cinemas e eventos culturais dos mais diversos. Lá, o problema não é encontrar algo interessante para ver ou fazer, mas dispor de tempo suficiente para desfrutar tudo o que a cidade oferece.

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