Visite os locais históricos além do muro de Berlim

Dec 31, 1969
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Ekki nasceu há quase 40 anos em Berlim, do lado da ex-Alemanha Oriental. Quando criança, ameaçou pular o muro diversas vezes com os amigos. Queria conhecer o outro lado, saber como era o resto do mundo, cujas histórias ouvia de seus pais ao recordarem com saudade. Nunca teve cora­gem. A não ser no dia 9 de novembro de 1989 – exatos 20 anos atrás –, quando a parede de concreto de 155 quilôme­tros que dividia a cidade em duas partes finalmente veio a baixo. “Jamais me esquecerei dessa data. Passei para o oeste assim que pude, abracei pessoas que jamais tinha visto, bebi muita cerveja e festejei até o dia seguinte”, relembra emocionado.

Ekki é um exemplo vivo da cidade mais vanguardista da Europa, que se renova a cada dia sem deixar de exibir as marcas profundas do seu passado recente. Traba­lha para ganhar dinheiro com o objetivo de dar ao filho a infância que lhe foi roubada, mas cujas lembranças fazem dele um dos melhores profissionais de seu ramo. Ekki é um contador de histórias e um dos guias da Berlin on Bike (berlinonbike.de), empresa que promove diversos tours de bicicleta pela capital alemã, entre eles, um que segue os rastros do muro.

Neste ano em que Berlim comemora o 200 aniversário da queda da estrutura que simbolizou a Guerra Fria, travada entre o mundo capitalista, comandado pelos Estados Unidos, e o comunista, liderado pela União Soviética – cuja derrocada se daria pouco depois –, pedalar ao lado do guia é uma oportunidade ímpar de conhecer a fundo a história recente do mundo. É um exercício prático de filosofia, ao mesmo tempo cruel e deslumbrante, que nenhum livro é capaz de estimular. O passeio custa por volta de € 18 (cerca de R$ 47) e pode ser feito individualmente ou em grupo de até 15 pessoas, com guias que falam alemão, inglês ou espanhol. Dura quatro horas, com um trajeto de aproximadamente 12 quilômetros. Não se assuste: Berlim tem um “mar” de ciclovias e uma cultura bem desenvolvida de res­peito aos ciclistas. Fora isso, a cidade é plana e exige esforço físico mínimo. 

Vida difícil no lado oriental

O tour da Berlin on Bike - BerlimO trajeto tem início na Kulturbrauerei, antiga fábrica de cerveja transformada em centro cultural, localizada em Prenzlauer Berg, próxima à estação de trem Eberswalder Str., no antigo lado oriental. É ali a sede da Berlin on Bike, onde os visitantes escolhem suas bicicletas e seguem para as ruas do bairro, que guarda alguns prédios ainda não revitalizados após a unificação e
que teimam em permanecer de pé.

Ekki abre o portão de um deles, que dá acesso a um corredor sinistro cercado por paredes pichadas e que termina num pátio. Lá dentro, é possível comparar a fachada semidestruída da construção à do edifício late­ral, já modernizada. Com isso, o guia mostra como as famílias viviam nesse lugar nos tempos mais difíceis do período comunista, usando banheiros comunitários e sem calefação; enquanto a outra metade da cidade, curiosamente ilhada ao centro da ex-Alema­nha Oriental (sim, o lado oeste de Berlim ficava fora da ex-Alemanha Ocidental, quase no coração do país comunista), progredia a passos largos. Hoje, os apartamentos pertencem a estudantes e artistas que se mudaram para a cidade em busca da atmosfera renovadora que paira por lá.

Os prédios semidestruídos são apenas um aperitivo amargo para a parada seguinte, Bernauer Strasse. É nessa rua que foram documentadas as imagens mais impactantes do dia 13 de agosto de 1961, quando, após uma madrugada de trabalho intenso dos soldados da então Alemanha Oriental, Berlim amanheceu rachada por uma franja de concreto, arames farpados e tanques de guerra. A Bernauer Strasse se destacou porque as casas ficavam exatamente na “fronteira” entre os dois países geograficamente imaginários e politicamente divididos, o que impossibilitou a construção de um muro por ali. Eis então que os militares decidiram simplesmente tapar as janelas e portas dos fundos das residências com tijolos, de modo a impedir que os moradores passassem para o lado ocidental.

Era um domingo. As pessoas queriam apenas ir à igreja ou ao cemitério locali­zados na área oposta, mas tiveram sua privacidade brutalmente violada. Houve desespero. Dezenas de cidadãos se atiraram pelas janelas das casas. O mundo assistiu a tudo desolado, mas em silêncio. Sob o temor da explosão de uma nova guerra e com boa dose de comodismo, o Ocidente esboçou críticas, mas pouco reagiu. Os governantes da Alemanha Oriental, que até então negavam a construção do muro, pregaram que a divisão foi necessária, pois seria a única forma de separar o futuro (comunista) do passado (capitalista). Nove dias depois, em 22 de agosto de 1961, morria Ida Siekmann em decorrência dos ferimentos sofridos após saltar da janela do terceiro andar de sua casa, na Bernauer Strasse. Ida foi a primeira vítima da fatídica parede que mudou a história de Berlim.

Faixa da morte

Faixa de paralelepípedos, chamada de faixa da morte. Berlim.Diante dos murais com informações e fotos que, ao longo de 2009, estão expostos nas partes mais marcantes por onde passava o muro, Ekki encaminha o grupo de ciclistas para o Mauer Park (Parque do Muro). A região, hoje coberta por um extenso gramado onde os berlinenses costumam tomar sol nos meses mais quentes, era dividida pela franja de concreto. A marca pode ser vista até hoje no chão, em uma linha dupla de paralelepípedos.

Do lado leste, há um fragmento do muro sobre o qual os torcedores do Dynamo de Berlim – time de futebol da parte oriental, cujo estádio fica nessa área – tinham uma vista panorâmica da porção ocidental. Esse fragmento, porém, nunca fez parte do muro original, mas de uma divisão secundária que corria paralelamente à parede de concreto por quase toda a sua extensão. Explica-se: ao contrário dos moradores do oeste, que durante quase toda a existência do muro puderam passar para o outro lado, os cidadãos do leste sequer podiam chegar perto dele. O limite era a tal divisão secundária, quase toda feita de madeira e arame farpado, mas que ao lado do estádio do Dynamo era de concreto justamente pelo acúmulo de pessoas que se juntavam para assistir às partidas. A área entre o muro original e o paralelo ficou conhecida como dead strip, algo como faixa da morte. Por ela, espa­lhavam-se soldados armados, cães de guarda e tanques de guerra. É possível entender melhor como a faixa funcionava na parada seguinte, quando as bicicletas retornam à Bernauer Strasse após passarem pela Bornholmer Strasse, a primeira rua liberada após a queda do muro.

Nesse trecho, um pedaço com cerca de 200 metros de extensão e quase quatro metros de altura da parede de concreto foi recons­truído, assim como a dead strip. Tudo para relembrar – e ninguém nunca mais querer repetir – os anos em que a cidade era rasgada ao meio. Há até uma torre de observação para ver a faixa da morte do alto. Na base da estrutura, vídeos mostram imagens do dia em que o muro foi erguido e de como os cidadãos foram forçados a se habituarem à tenebrosa construção. 

Fragmentos intactos

East Side Gallery, maior galeria ao ar livre do mundo - BerlimQuem quiser ver um pedaço original e intacto do Muro de Berlim terá de ir até a região de Berlin-Friedrichshain, mais precisamente à rua Mühlenstrasse. É lá que fica a East Side Gallery, parede com cerca de dois quilômetros de extensão situada às margens do Rio Spree e que se transformou na maior galeria de arte a céu aberto do mundo. O roteiro da Berlin on Bike não passa por lá, mas basta pegar o metrô (há uma estação praticamente em cada esquina da capital alemã) e descer nas estações Ostbahnhof ou Warschauer Strasse. De longe, já dá para ver o trecho de concreto completamente grafitado.

No tour de bicicleta, há outra construção relacionada ao período em que a cidade era dividida em duas partes: uma das 302 torres de vigilância usadas pelos soldados da ex-Alemanha Oriental, para impedir a fuga dos cidadãos para o oeste. Segundo Ekki, apenas três permanecem de pé e uma delas se transformou em um memorial em homenagem a Günter Litfin, primeira vítima abatida a tiros após o muro ser erguido.

Litfin planejou passar a nado para o lado ocidental, em 24 de agosto de 1961, 11 dias após a parede surgir, quando foi alvejado por um soldado posicionado na torre da Kieler Strasse 2. Seu irmão, Jürgen Litfin, mantém um pequeno museu no local com fotos e informações a res­peito de muitas outras vítimas do regime, entre eles, Peter Fechter, que sangrou até a morte em frente a dezenas de pessoas, que nada podiam fazer, e Chris Gueffroy, o último a pagar com a vida, em fevereiro de 1989. Como a Alemanha Oriental não registrava os casos, não há um número exato de mortos na época do muro, mas estima-se cerca de 200 pessoas.

O roteiro de bike segue pelo distrito de Mitte, onde há símbolos de animais nas ruas – em referência a esses seres que eram os únicos que podiam passar livremente de um lado para o outro. Também aparecem estações de trem fantasmas, como a Nordbahnhof, e avenidas fronteiriças onde ficavam postos de controle. O clima de tensão só começa a mudar quando se avista a moderníssima Hauptbahnhof, a estação central de trem de Berlim. A reluzente construção de vidro, reformada para a Copa do Mundo de 2006, é a primeira amostra de como a cidade se moder­nizou intensamente nos 20 anos que sucederam a unificação, a ponto de se transformar, hoje, na capital cultural da Europa e em um dos destinos mais interes­santes e fervilhantes do planeta.

Borracha em Hitler

O Reichstag - Parlamento alemão - BerlimJá do outro lado do Rio Spree, logo após passar pela estação central de trem, Ekki aponta para um dos maiores cartões-postais de Berlim: o Reichstag. Pouco relacionado ao muro, já que durante a divisão da cidade ficou praticamente abandonado, o prédio do Parlamento alemão remete a outra época negra que marca a cidade: a do período nazista. No Reichstag, Hitler comandava o 3o Reich. Em 1945, tomado pelos soviéticos, o prédio se tornou símbolo da queda do nazismo.

Hoje, o Reichstag alia o prédio antigo, feito em 1894, a estruturas moderníssimas, construídas nos anos de 1990 para celebrar a volta do parlamento ao local. Entre elas,  destaca-se uma monumental cúpula de vidro, que pode ser observada de longe e é aberta ao público. Uma vez dentro dela, tem-se uma ótima vista panorâmica da região.

A parada seguinte é uma das mais espera­das do passeio: o famoso Portão de Brandemburgo, construído entre 1788 e 1791, de acordo com a entrada da Acrópole de Atenas, e palco de diversos aconte­ci­mentos históricos, bem como de passeatas e manifestações. Ekki conta que, enquanto o Muro de Berlim existiu, o maior símbolo da capital alemã ficou isolado dentro da faixa da morte, mantendo-se inacessível para os cidadãos do leste e do oeste.

O guia aproveita para desmentir um dos maiores boatos da Guerra Fria: o de que a Quadriga – escultura no alto do portão em que a deusa da Vitória conduz quatro cavalos – ficava originalmente apontada para o oeste e teria sido invertida pelos comunistas. “Ela sempre esteve virada para o lado oriental”, garante. E é desse lado que os visitantes podem fazer as melhores fotos do monumento. Do outro fica o Tiergarten, um dos maiores parques urbanos do mundo, com 200 hectares de área, situado ao lado de uma majestosa avenida cheia de estátuas de estadistas, legisladores e persona­lidades do país, como o escritor Goethe e o compositor Wagner.

Não muito longe está o Monumento do Holocausto, feito entre 2003 e 2005 pelo arquiteto Peter Eiseman para homenagear os judeus mortos pelos nazistas. Trata-se de um espaço gigante onde se assentam 2.711 blocos de concreto escuro e dos mais variados tamanhos. Lembra um cemitério repleto de túmulos. Não é atraente, mas atinge o seu objetivo: impactar.

Apenas alguns metros depois, entre as ruas Ebert e In den Minster, os ciclistas são convidados a parar no estacionamento de um condomínio, aparentemente sem importância. É nesse local, explica Ekki, que ficava o famoso bunker de Hitler, cujos sinais foram totalmente apagados para que o líder nazista não se tornasse “pop” e atraísse simpatizantes. “O governo deve ter algum tipo de acesso ao esconderijo, mas o povo sequer sabe onde fica a entrada, pois tudo na superfície foi destruído”, diz o guia. “Melhor assim. Há loucos para tudo”, completa.

Charlie, cadê você?

Potsdamer Platz - BerlimO passo seguinte é conhecer a Potsdamer Platz. Trata-se de uma praça que, até a unificação, não passava de um lugar ermo e que, agora, reúne edifícios modernos, cinemas, restaurantes e um átrio coberto por uma imensa tenda, além de uma superloja da Sony, a Sony Center. O local merece ser visitado à noite, quando luzes coloridas o deixam fascinante. Lá perti­nho, há novos fragmentos do muro que valem boas fotos.

As próximas pedaladas levam a Gendarmenmarkt, uma das praças mais bonitas da Europa. Nela, há uma sala de concertos ladeada por duas belíssimas cate­drais, a Germânica e a Francesa. É um ótimo ponto para tomar um café e relaxar.

Refeitos, os ciclistas rumam para o Checkpoint Charlie, único posto de controle por onde estrangeiros podiam atravessar de uma Alemanha para a outra, no passado. O próprio guia avisa: “O lugar é famoso, mas quase todo mundo se decepciona, porque é bem sem graça”. E ele tem razão. No centro de uma avenida de mão dupla, há apenas uma pequena guarita com soldados falsos, do tempo da Guerra Fria, e muitas barraquinhas de souvenires – em uma delas é possível fazer carimbos da ex-URSS e da ex-Alemanha Oriental no passaporte.

No meio de tudo isso, a única atração realmente interessante é o Mauermuseum (Museu do Muro), logo atrás do posto de controle, que retrata o período da Cortina de Ferro. No mais, o melhor a fazer é sair de lá e pedalar até o prédio onde funcionava a Gestapo e a SS, antigas forças policiais do regime nazista. Hoje, o local abriga uma exposição, com informações e fotos, da Segunda Guerra Mundial chamada Topografia do Terror.

Um brinde ao futuro

Ilha dos Museus - Rio Spree - Palácios e construções. Berlim.O Checkpoint Charlie marca o fim do trajeto elaborado pela Berlin on Bike, mas o passeio não acaba por lá. O roteiro de volta à agência é marcado por gratas surpresas, sempre espalhadas pelo lado oriental, hoje o mais valioso da cidade, já que conta com uma série de lugares históricos e foi quase todo modernizado.

O ponto alto do retorno é a Ilha dos Museus, área situada entre dois braços do Rio Spree e que concentra palácios antigos transformados em museus. Em dois deles, pelo menos, todo mundo tem de voltar outra hora, com mais tempo para explorar duas preciosidades. O Pergamonmuseum, que guarda um dos portões da Babilônia e tem uma das mais importantes coleções de antiguidades da Europa. E o Deutsches Historisches Museum, perfeito para os fãs de história, com cerca de 8 mil objetos que  traçam o panorama da história europeia, desde os tempos da dominação romana à sequência de eventos do século 20 – guerras mundiais, polarização do mundo entre países capitalistas e países socialistas, queda do Muro de Berlim, fim da União Soviética e independência das repúblicas que a compunham, guerra nos Balcãs... Fatos que mantinham o mundo sempre de olho no continente.

A avenida que corta a ilha dedicada às artes chama-se Unter den Linde e é uma espécie de Champs-Elysées dos berlinen­ses. Nela, há outras joias da cidade, como a catedral Berliner Dom, a histórica prefeitura Rotes Rathaus, o antigo Palácio da República e a Alexanderplatz, que guarda um dos marcos da antiga Alemanha Oriental: a Torre da TV, com 368 metros de altura. O ingresso para ir ao topo, onde funciona um restaurante rotativo que oferece vista de 360 graus da capital alemã, custa € 10, menos de R$ 30.

Para completar o passeio, o guia da Berlin on Bike sugere uma parada em uma barraquinha de rua para que todos conheçam outro item famoso da cidade, tão histórico quanto o muro, mas muito mais saboroso: o currywürst, pão com linguiça ao picante molho curry, que se tornou o prato mais tradicional da cidade, tal como a feijoada no Brasil.

Para acompanhar, claro, cerveja alemã de altíssima qualidade, com direito a um brinde a uma das cidades mais fascinantes do mundo, cujas feridas jamais deverão cicatrizar, mas que hoje estão curadas o suficiente para permitir que o filho de Ekki brinque do lado de Berlim que quiser.

Berlim tem muito mais

Palácio Charlottenburg tem um belo jardim, salas e quartos abertos à visitação O roteiro de bicicleta seguindo os vestígios do muro passa por diversos pontos turísticos da capital alemã, mas em quatro horas é impossível conhecer tudo o que a cidade mais vanguardista da Europa oferece. Assim, não deixe de visitar a Kaiser Wilhelm-Gedächtniskirche, outro ponto emblemático da cidade (e que também escancara os tempos difíceis que a cidade encarou no século 20).

Trata-se de uma igreja protestante em estilo neorromânico, do final do século 19, atingida por bombardeios aéreos em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial e que felizmente não sofreu danos críticos na estrutura de sustentação. Os destroços foram retirados, mas manteve-se a a torre da frente, parcialmente destruída. A essa estrutura foi somada, em 1963, um novo templo, de vidro azul e visual moderno, que demonstram, mais uma vez, como a cidade avança sem esquecer seu passado.

Próximo dali fica o Zoologischer Garden, parte do Tiergarten, aquele parque urbano que é um dos maiores do mundo. Alguém pode perguntar: por que ir a um zoológico em Berlim? Simplesmente porque ele é o mais antigo da Alemanha e conta com o maior número de espécies do mundo, além de ter um dos maiores aquários da Europa. Destaque para os ursos, animaissímbolo da cidade, incluindo uma porção de ursos polares e um panda, queridíssimo por lá.

Ainda no imenso Tiergarten, a rua que corta o parque ao meio, chamada Strasse des 17 Juni, abriga mais um dos símbolos de Berlim que todo mundo vê nas revistas: a Siegessäule, mais conhecida como Coluna da Vitória. Ela tem 67 metros de altura e foi erguida com uma estátua dourada para celebrar vitórias gloriosas conquistadas pelos reinos da região.

Um palácio é outra das joias da cidade. O Charlottenburg, construído para ser a residência de verão da primeira rainha da Prússia, Sophie Charlote, é o maior entre todos os palácios que se espalham pela cidade. Tem um jardim maravilhoso, além de salas e quartos cheios de pompa abertos à visitação, como a galeria espelhada do Porzellankabinett – com paredes inteiras tomadas por belas porcelanas chinesas – e os aposentos que pertenceram a Frederico, o Grande, que atualmente funcionam como museu e apresentam artigos que foram dos Hohenzollern, a família imperial germânica.

Enquanto o Charlottenburg é uma pérola arquitetônica do passado (data do final do século 17, começo do 18), o Olympiastadion é uma das marcas da arquitetura arrojada que se espalhou por Berlim depois da reunificação.

Construído originalmente para receber os Jogos Olímpicos de 1936, foi totalmente reformado para a Copa do Mundo de 2006 e sediou a partida final do torneio, vencido pela Itália. Além de ter marcado a conquista do tetracampeonato mundial pelos italianos, também foi nesse estádio que o atleta negro Jesse Owens emocionou o mundo ao ganhar quatro meda­lhas de ouro, desafiando o regime de Hitler.

E não é só pelos 20 anos da queda do muro que Berlim está em festa: 2009 também marca o 900 aniversário de fundação da Bauhaus, a escola de arte e arqui­tetura que discutiu a natureza da arte na era da tecnologia, mudando o conceito de design de casas e de produtos moder­nos. O resultado obtido por essa vanguarda pode ser conferido no Archiv Berlin (Klingelhöferstrasse 14; ingressos a partir de € 3),o museu dedi­cado à Bauhaus. Lá podem ser vistas peças e protótipos feitos à mão e exemplares fabricados em série, além de projetos arquitetônicos e maquetes, fotos artísticas, documentos e imagens de arquivo que contam a história do movimento.

Com tanta celebração e tanto para ver, o frio forte que impera entre novembro e março chega a ser irrelevante para os visitantes de Berlim, uma cidade que, como poucas outras, sabe, como diria Caetano Veloso, a dor e a delícia de ser o que é.

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