Conheça os monumentos históricos e modernas cidades da Alemanha

Dec 31, 1969
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 (Foto: Hans Peter Merten/ViajeMais)

(Foto: Hans Peter Merten/ViajeMais)

Existem vários erros de concepção dos brasileiros em relação à Alemanha. O primeiro deles é pensar que o país resume-se a Munique e à região da Baviera, ao sul da terra de Michael Schumacher. De fato, Munique é bem interessante e as pequenas cidades da Rota Romântica são tão encantadoras quanto cenário de conto de fadas.

Mas resumir a Alemanha a isso seria o mesmo que pensar no Brasil apenas como Rio de Janeiro e Búzios, esquecendo as praias do Nordeste e todo o resto.

Outro erro comum é achar que a comunicação será impossível. Tudo bem que o idio­ma alemão é complicado. Mas quase todo mundo por lá fala pelo menos uma outra língua, quase sempre o inglês.

Qualquer rudimento resolve o problema. E também não é tão difícil entender placas como Marktstrasse ou Filmuseum. Além disso, o povo é cordial e educado, disposto a ajudar, nada a ver com os mal-encarados soldados nazistas dos filmes norte-americanos. Há diferenças, como no Brasil, de hábitos entre uma região e outra. No norte do país, eles são mais reservados, enquanto no sul, próximo a Munique, onde acontece a Oktoberfest, mais alegres e expansivos.

A comida também não é problema, pois não se restringe a repolho com batatas. O chucrute, as salsichas e a carne de porco estão em boa parte dos cardápios, é verdade, mas sempre ao lado de especialidades do mundo inteiro. Por todo o país há restaurantes italianos, japoneses, tailandeses, turcos e até portugueses. Em Hamburgo, por exemplo, que fica próximo ao litoral, o carro-chefe são os peixes e frutos do mar.

Talvez o maior erro entre todos, porém, seja achar que há pouca coisa pra ver na Alemanha. Pois saiba que o país todo é muito atraente. Tem monumentos históricos, castelos medievais e cidades moderníssimas que contrastam com outras, pequenas e tranquilas. É claro que não dá para conhecer o país inteiro numa só viagem. A Alemanha é dez vezes maior do que Portugal, por exemplo. Por isso, Viaje su­gere aqui um roteiro, para ser realizado em pelo menos duas semanas, que inclui paradas nas principais cidades, como Berlim, Colônia, Hamburgo e Munique, e outra série de pequenos e charmosos vilarejos, como Heidelberg, Füssen e Rothenbur­­g-ob-der-Tauber, estes dois últimos ao longo da famosa Rota Romântica, que melhor retrata o contraste de uma Alemanha avançadíssima e ao mesmo tempo bucólica, feito presépio de Natal.

Se você não tiver tanto tempo assim, pode dividi-lo em duas partes: com Berlim, Colônia e Hamburgo na metade norte do país, ou focando em Munique, Heidelberg e na Rota Romântica na parte sul. Cada uma delas vale uma viagem inteira também. Uma coisa é certa: quem viaja para conhecer a Alemanha volta tão maravi­lhado que acaba lamentando: “Por que não fui para lá antes?”.

De Frankfurt a Heidelberg

A ponte Alte Brücke leva à entrada do núcleo histórico de HeidedlbergHeidelberg é uma das mais belas cidades da Alemanha. Tanto que, segundo o folclore local, passou incólume pelos bombardeios aéreos da Segunda Guerra Mundial. Os exércitos aliados não tiveram cora­gem de destruir o burgo medieval, fundado no século 12, a apenas 90 km ao sul de Frankfurt (40 minutos de trem). Como a maioria dos voos vindos do Brasil (e de outras partes do mundo) são para esta cidade, que tem um dos maiores aeroportos da Europa, vale passar um dia por Frankfurt e visitar a charmosa Heidelberg, que manteve o encantamento preservado nas fachadas de prédios com telhados avermelhado e no traçado medieval de becos e ruas estreitas.

A ponte de pedra Alte Brücke, que conduz ao belo portal de entrada do núcleo histórico, também passou intacta, ajudando a compor a perfeição da paisa­gem urbana, com o imponente Castelo de Heidelberg ao fundo. Até a natureza colaborou, abraçando a cidade com montanhas, florestas e com as águas do Rio Neckar bem ao lado.

Os alemães dizem que Heidelberg é a melhor representação da alma do país. Talvez por ter inspirado poetas, filósofos e músicos num período rico em criação inte­lectual e artística na Alemanha do século 19. Goethe e Mark Twain, por exemplo, deixaram relatos apaixonados sobre a cidade após caminhar pelas encostas de suas montanhas, do outro lado do rio, de onde se tem uma vista espetacular. O caminho por onde eles passavam virou até atração turística e foi chamado de Philosophenweg ou “Caminho dos Filósofos”.

Heidelberg é um dos raros lugares com o dom da fotogenia. Cada canto parece render uma bela imagem e é verdade. Foi feita para ser degustada, comida com os olhos, seja numa mesinha ao ar livre dos bares da Marktplatz, onde no passado bruxas e hereges eram queimados pela Inquisição, ou num passeio até o Castelo de Heidelberg, um dos grandes monumentos arquitetônicos da Alemanha, erguido entre os séculos 13 e 17, em estilo gótico-renascentista. Mas está em ruínas desde que os franceses o destruíram na Guerra dos Nove Anos, em 1689. Sinal de que nem todos souberam apreciar a beleza de Heidelberg.

Tudo na cidade pode ser alcançado a pé. Mesmo a subida até o castelo, que fica na encosta da montanha, não leva mais do que 15 minutos. Para quem gosta de história, agências locais promovem wal­king tours com guia em inglês. Já quem prefere as compras vai demorar-se nas lojinhas na Haupstrasse, a rua principal.

A cidade é pequena e tem apenas cerca de 150 mil habitantes. Um quarto dessa população é composta por estudantes da Universidade de Heidelberg, a primeira da Alemanha e uma das mais antigas do mundo, fundada em 1386. Jovens de hoje frequentam os mesmos bares criados há séculos por irmandades estudantis. A atmos­fera universitária reflete-se visivelmente na animação dos pubs e das studentenkneipen, as tabernas dedicadas aos estudantes, a maioria delas ao longo da Hauptstrasse e ao redor da Marktplatz. A mais famosa e reverenciada é a Zum Roten Ochsen (Hauptstrasse, 217), aberta desde 1703 e dirigida há seis gerações pela família Spengel. Está bem ao lado de outro pub tradicionalíssimo, o Zum Sepp’l (Haupt­­­strasse, 213), que é ainda mais antigo, em funcionamento desde 1634.

A cada ano, passam cerca de 3 mi­lhões e meio de turistas pela cidade. O período de maior efervescência vai do final de junho ao começo de agosto, no verão, e coincide com um festival de música que traz apresentações de jazz, ópera e orquestras clássicas, inclusive nos jardins do castelo. Nesse período, Heidelberg fica completamente lotada e os preços chegam ao limite máximo. Paga bem menos em hospedagens quem opta por hotéis um pouco mais afastados, indo para o centro histórico de ônibus ou táxi. No inverno, a cidade esvazia, mas o cenário ainda é fantástico, com a possibilidade de neve e de ver uma névoa fina cobrindo a velha Heidelberg, o que confere um clima de mistério e passado às suas ruas estreitas.

Munique

A Oktoberfest, em setembro em Munique, ponto alto das festividades de verão na cidadeDe volta a Frankfurt, pode-se tomar o rumo da Baviera pelas excelentes autobahns alemãs, ou de trem por uma das melhores malhas ferroviárias do mundo, ou de avião, num voo curto até Munique, meca dos turistas na Alemanha. A capital bávara tem ar de cidade grande (e é mesmo, com cerca de 1 milhão de habitantes), mas com um agradável astral de cenário alpino, com casas de telhados triangulares e montanhas cobertas de neve no horizonte. É dona de uma atraente arquitetura do século 19, com monumentos históricos e museus importantes, além de um clima de festa único durante os meses quentes do ano, cujo ponto alto é a celebração da Oktoberfest, entre setembro e outubro.

Assim, Munique é a mais completa tradução da Alemanha típica, com direi­to aos canecões de chope de litro, garçons vestidos com roupa de tirolês e muitos lugares para brindar. Até os próprios alemães vão para lá nas férias, como se a cidade fosse uma espécie de Salvador germânica, ainda que esteja a centenas de quilômetros da praia mais próxima.

Qualquer passeio em Munique começa pela Marienplatz, no coração da cidade, onde está o principal cartão-postal local, o edifício que funciona como prefeitura (ou rathaus) e tem uma impressionante fachada em estilo neogótico.

No quinto andar do prédio há um café, o Glockenspiel, de onde se tem uma vista divina da praça. Outro ponto muito favorável para apreciar a Marienplatz está no lado oposto à rathaus, na Frauenkirche ou “Igreja de Nossa Senhora”, que tem duas torres bem altas. É possível subir até o topo por uma velha escadaria e, se o dia estiver claro, dá para avistar as montanhas dos Alpes alemães no horizonte.

Bem mais fácil do que encarar a longa escadaria da igreja é chegar até a Houfbräuhaus, ali perto, a cervejaria mais famosa da Alemanha e onde o clima de Oktoberfest segue pelo ano todo. Na entrada  da casa o garçom já pergunta qual cerveja você quer, como se fosse impossível  pedir outra coisa. Bebe-se muita cerveja na Alemanha. A média anual é de 127 litros por cidadão.

Mas em Munique bebe-se ainda mais. Há muitos parques e restaurantes com biergarten ou, literalmente, “jardim da cerveja”, que nada mais é do que um espaço ao ar livre com mesas. Os biergartens fazem parte da tradição germânica e costumam lotar nos dias de verão, principalmente na Baviera, onde o passatempo predileto dos habitantes é encontrar os amigos para entornar canecões acompanhados das wursts, a deliciosa linguiça alemã, servida em toda parte, dos restaurantes badalados às barraquinhas de rua.

Cervejaria Pátio da Hofbrauhaus, a mais famosa em MuniqueMunique também é um prato cheio para quem gosta de programas voltados para arte e cultura. Lá está o Deutsches Museum, um dos museus de ciência e tecnologia mais importantes do mundo. Há ainda a fabulosa Residenz, a residência oficial dos reis da Bavária (os moradores de Munique enchem o peito para dizer que é maior do que o Palácio de Buckin­gham, de Londres), que hoje abriga um museu e um dos teatros mais bonitos da Europa. A Alte Pinakotech, por sua vez, é recheada de obras famosas, com riquíssimo acervo de pintura dos séculos 14 ao 18. Entre as obras mais conhecidas está a Descida de Cristo da Cruz, de Rembrandt.

Já os amantes de esporte vão gostar de passear de bicicleta pelo English Garden, o maior parque da Alemanha, com, inclusive, áreas reservadas a nudistas, e ainda terão a chance de assistir a uma partida do Bayern de Munique no belíssimo Allianz Arena, um dos estádios mais modernos do mundo. Construído para a Copa de 2006, o Allianz parece um pneu branco, que muda de cor à noite graças a uma iluminação especial.

Com tantas atrações vale a pena reservar pelo menos quatro dias para a capital da Baviera. Até porque também há ótimas esticadas nas proximidades. A principal delas leva ao castelo mais conhecido do mundo, o Neuschwanstein, a poucos quilômetros de Füssen, uma pequena cidade que faz parte do circuito da Rota Romântica. O castelo alemão foi a grande inspiração para Walt Disney criar o castelo da Cinderela e uma multidão o visita todos os dias, especialmente jovens japonesas, pois há uma crença nipônica de que a mulher que for até lá antes de casar será feliz para sempre.

Outro passeio leva a Altöting, espécie de Aparecida do Norte alemã, que recebe milhares de peregrinos católicos todos os dias. Eles vão ver de perto o que chamam de Estátua Milagrosa, uma Virgem Maria negra encontrada em 1330 e que, segundo a crença popular, seria responsável por curas milagrosas. A Madonna Negra está dentro da igreja de Wallfahrtskapelle St. Maria, fundada em 750, cuja capela externa reúne uma quantidade absurda de oferendas. Ao longo dos séculos as doações foram tantas que os alemães construíram um museu, o Schatzkammer ou “sala dos tesouros”, para guardar os presentes mais valiosos oferecidos por nobres e membros do alto clero do Vaticano à santa, que inclui joias, coroas de diamantes e até batinas de papas.

A Rota Romântica

O Castelo de Neuschwanstein, em Füssen, o gran finale da Rota RomânticaOs vários castelos, as igrejas barrocas e os charmosos vilarejos que remontam ao período medieval são o motivo principal de uma viagem pela Rota Romântica, um percurso de 350 km, passando por 27 cidades que surgem em meio à paisagem bucólica de montanhas, vales e rios. É uma viagem que pode ser feita à parte, m­as há como visitar alguns dos principais pontos partindo tanto de Munique quanto de Frankfurt. Normalmente, o trajeto com cenário de conto de fadas começa em Würzburg, a 120 km ao sul de Frankfurt e termina em Füssen. Quem vai até esta cidade para visitar o Castelo de Neuschwanstein pode fa­zer o sentido inverso.

O modo mais comum de fazer o roteiro é de carro. Mas o trajeto também pode ser realizado de trem ou mesmo de bicicleta, pela ciclovia paralela à Rota. Würzburg é cortada pelo Rio Main, que conta com atrativos suntuosos em ambas as margens. Em uma delas fica o Palácio Residencial (Residenz), considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, construído no século 18 por Balthasar Neumann, famoso arquiteto barroco alemão. O castelo foi moradia dos chamados príncipes-bispos, a quem pertencia a cidade. O grande salão, a escadaria sob uma abóboda com belos afrescos e a capela são os principais atrativos da construção, que impressiona também pela quantidade de ouro, tapeçarias e entalhes no teto.

Na mesma margem está a San Kilian que, situada no centro histórico, é a quarta maior catedral românica do país. Por lá, os vários cafés e cervejarias dispõem mesas nas ruelas, que ficam tomadas por turistas e estudantes da Universidade de Würzburg. Mas há mais que cervejas: a região, cheia de vinhedos, é famosa também pelos vinhos. Na margem oposta fica a Fortaleza de Marienburg, com um belo palácio construído no século 17, além de uma igreja do ano 1000, que completa essa rápida volta no tempo.

O caminho para as cidades seguintes é rodeado por vinhedos e cenários cinematográficos: os vilarejos estão dispostos em meio a vales de quatro rios – Main, Tauber, Danúbio (Donau) e Lech. A paisa­gem serviu de inspiração para poetas ro­mâ­n­­­ticos alemães dos séculos 18 e 19, o que influenciou no nome do trajeto. Além do cenário natural, todas as cidadezinhas contam com atraentes rathaus (prefeitura), igrejas barrocas, praças e as casinhas em estilo enxaimel.

Depois de passar por Tauberbischofsheim e Lauda-Königshofsheim, a cidade de Bad Mergentheim é outra parada interes­sante. Foi sede da Ordem Teutônica, confraria de cavaleiros nobres, e hoje mistura o burgo medieval a dezenas de spas, parques aquáticos e ao parque Kürpark. A parada seguinte é Weikersheim, onde vale visitar o castelo que leva o nome da cidade. Depois, Röttingen, que tem 20 relógios solares distribuídos em 2 km de uma cami­nhada partindo da Praça do Mercado (Markt­platz). Alguns quilômetros mais e chega-se a uma das mais espetaculares cidades do roteiro: Rothenburg-ob-der-Tauber, conhe­cida como a cidade medieval mais bem preservada da Europa.

Com casas de janelas e portas pequenas, a vila tem cara de cenário de dese­nho animado da Disney. E não é sem motivo: Rothenburg inspirou o cenário do  filme Pinóquio, de Walt Disney. Na histórica, o boneco de madeira é criado por Gepetto em uma casa do vilarejo. O clima mágico da cidade deve-se também às charretes que circulam por lá, às pedras do calçamento, às fontes das praças e às sacadas das casas típicas alemãs. Rodeada por uma muralha de 3 km de extensão, Rothenburg tem entre as atrações a Igreja de St. Jacques, o Museu Criminal, o Museu da Boneca e do Brinquedo, e a apresentação diária de dois bonecos na Praça do Mercado. A encenação relembra o feito histórico em que Nusch, o prefeito, salvou Rothenburg-ob-der-Tauber da destruição em 1631, na Guerra dos Trinta Anos. Segundo a lenda, o general Tilly, que pretendia colocar o vilarejo abaixo, prometeu preservá-lo caso qualquer cidadão tomasse, em um só gole, um cântaro (3 ¼ litros) de vinho local – o que foi conseguido por Nusch.

Concorrente da vila é Nördlingen, pouco mais adiante. A cidade, também murada e bem preservada com o estilo da Idade Média, tem como atrativo o campanário da Igreja de St. Georg, com 90 metros de altura, alcançados por meio de 365 degraus. De lá se tem uma vista incrível da cidade e dos arredores.

Outra vez na estrada, chega-se à pequena Harburg, com um castelo tão antigo que já foi citado em documentos de 1093. Segue-se, então, ao longo do Rio Wörnitz, que se encontra com o Danúbio em Donauwörth, onde a atração principal é a Deutschordenshaus, casa da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, fundada em 1197. Mais 41 km e a parada seguinte é em Augsburg, pertinho de Munique, a maior entre as cidades da Rota. O sofisticado centro histórico indica o apogeu comercial vivido nos séculos 15 e 16. A rathaus, com o suntuoso Salão Dourado, chegou a ser a maior da Alemanha na época em que foi construída, no século 17.

Rothenburg-ob-der Tauber, na Rota Romântica, cidade medieval mais bem preservada da EuropaEm frente à rathaus saem tours guiados pelas outras atrações, como o inte­ressante Fuggerei, provavelmente o mais antigo projeto social de moradia. Trata-se de um conjunto de 104 casas construídas em 1516 pelo milionário católico Jakob Fuggerei para serem doadas a pobres da cidade. Hoje, elas servem para o mesmo propósito, desde que os moradores sejam cidadãos católicos de Augsburg.

O trecho seguinte, em direção à região pré-alpina, tem altitude que varia de 500 a mil metros e é rodeado por rios, lagoas e riachos. Uma das cidades que tem as águas como paisagem é Landsberg, em frente a um dique artificial do Rio Lech. Com um centro histórico situado na encosta de uma colina, o vilarejo é repleto de lojinhas, galerias de arte e bons restaurantes. Também vale visitar duas torres da cidade: a gótica Bayertor, construída no século 15, e a Mutterturm, com cara de torre de brinquedo.

Depois de Landsberg, surgem no horizonte os Alpes bávaros e o visitante passa por mosteiros e igrejas barrocas em estilo rococó, como a Wieskirche, cons­truída entre 1745 e 1754 e situada pró­ximo a Steingaden. Depois da cidade, entre Schwangau e Füssen, fica o ponto alto da Rota Romântica: o Castelo de Neuschwanstein. Perto dali, está o palácio do pai de Ludovico II, o criador do castelo, chamado de Hohenschwangau. A decoração das duas construções está intacta e, apesar de menos famoso, o interior do Hohenschwangau é o mais suntuoso. Esculturas, quadros e afrescos tomam os salões e as escadarias dos dois palácios, que contrastam com o verde da vege­tação ao redor. A parada final é em Füssen, pequena cidade ao pé das montanhas que separam a alemã Bavária do austríaco Tirol. Por isso,  quem faz a Rota Romântica desde Frankfurt pode emendar com Munique e fazer o sentido contrário, passando por Heidelberg.

A liberal Colônia

A Catedral de Colônia, à beira do Rio RenoRumo ao norte desde Frankfurt, passa-se pela região da Renânia do Norte ou Vestifália, onde há cidades importantes como Bonn (capital da Alemanha Ocidental na época em que o país era dividido) e Düsseldorf, de ares cosmopolitas, às margens do imenso Rio Reno. A cerca de 30 km dali está Colônia, uma das mais antigas cidades da Alemanha, fundada pelos romanos por volta do ano 50 e anexa­da ao Império Franco em 785.

Com tantos séculos de história, Colônia, que durante a Idade Média foi uma das cidades mais prósperas na região de predomínio de língua alemã, não poderia deixar de abrigar um rico patrimônio arquitetônico. Além de 12 igrejas românicas construídas entre os séculos 10 e 13 (como a Gross Saint Martin, da metade do século 11), a cidade abriga a maior catedral da Alemanha, a gótica Dom.

A imponente construção, inscrita na lista de Patrimônios da Humanidade pela Unesco, domina a paisagem da cidade. Começou a ser construída em 1248, evoluindo gradualmente até 1520 e permaneceu inacabada até o século 19, quando foi retomada pelo rei da Prússia, Fre­derico Guilherme IV. Somente entre 1842 e 1880 foi finalmente concluída.

Reserve pelo menos uma manhã inteira para visitá-la. Além do exterior rebuscado, com  pináculos e portais elaborados, o interior da catedral traz esculturas, pinturas, vitrais e entalhes que impressionam. Há ainda uma grande coleção de objetos de ouro, livros litúrgicos e vestimentas com ornamentação refinada. Depois de visitar o interior, encare 509 degraus até o alto da torre sul da catedral, onde os 100 metros de altura revelam uma vista completa de Colônia.

Caminhar pelas ruas estreitas do centro da cidade, com casas coloridas de teto pontiagudo, marcas da arquitetura germânica, é um passeio bem agradável. A região é território de pedestres e quem vai de carro deve deixá-lo em um dos vários estacionamentos por lá. A cidade é muito arborizada, principalmente na orla do Reno, cheia de bares e cafés com mesinhas do lado de fora. Aproveite para experimentar pratos típicos alemães e a tradicional cerveja. Uma das mais conhe­cidas é a Früh, marca local fabricada pelo restaurante de mesmo nome.

Fora as inúmeras construções históricas, Colônia se destaca também como um centro de artes, cultura e negócios. Abriga uma grande variedade de museus e um riquíssimo acervo. O Wallraf Richartz  558-h*-Fundação Corboud conta com a maior coleção de pinturas da Alemanha e o Ludwig tem um dos mais significativos conjuntos de arte moderna e contemporânea do mundo. Além das obras, a própria arquitetura desse último prédio é um atrativo, com grandes janelas de onde dá para observar o centro histórico da cidade. Outro museu moderno é o Römisch-Germanische (Museu Romano-Germânico), onde estão vestígios dos períodos romano e pré-romano em Colônia, como armas, enfeites e artigos de uso diário.

A cidade conta ainda com um imenso espaço expositivo, a Köln Messe, onde há feiras o ano todo, de diversos segmentos. A mais tradicional é a Photokina,  realizada desde 1950, a maior do mercado fotográfico mundial. Colônia é ainda a capital GLBT da Alemanha e sediará em julho de 2010 o 8o Gay Games.

A espetacular Berlim

A Theatinerkirche ou Igreja dos Teatinos, construída no século 17. Munique.Em um roteiro pela Alemanha, não há como deixar Berlim de fora. Por isso, ainda seguindo para o norte, a capital alemã, hoje uma das cidades mais fervilhantes do mundo, é um dos pontos altos da viagem. Assim como aconteceu com Londres, nos anos de 1970, e com Nova York, nas décadas seguintes, Berlim é a capital da vanguarda atualmente.

Quem quiser saber as tendências,  qualquer que seja, deve ir pra lá. Berlim tem lojas elegantes, bares transados e uma vida noturna agitada, embalada pelo som da música techno, que nasceu naqueles cantos.

Nem de longe lembra a cidade que há 20 anos era dividida por um muro que sepa­rava as duas Alemanhas e, por consequência, o capitalismo do comunismo.

Do muro só restaram fragmentos, logo transformados em souvenires e atração turística. Quem vai a Berlim quer ver o que restou de uma época amarga. O primeiro lugar a ser visitado é o Check Point Charlie, no centro da cidade, único portão por onde os estrangeiros po­­diam­ atravessar de uma Alemanha para ou­tra. A velha guarita ainda está lá, no mesmo lugar, a relembrar o passado.

O lugar é famoso, mas sem graça. Muito mais interessante é o Museu do Muro, o Mauermuseum, logo atrás da tal guarita, que retrata o período da “Cortina de Ferro” e exibe um pedaço do muro original, transformado em galeria de arte ao ar livre, com pinturas de vários artistas. A parede tem cerca de dois quilômetros de extensão, bem às margens do Rio Spree. Para chegar basta tomar o metrô e descer na estação Ostbanhof ou Warschauer Strasse. A partir dos anos de 1990, logo após a reunificação, Berlim iniciou uma grande fase de modernização. A área que antes era atravessada pelo muro foi a que recebeu maior atenção. Daí, surgiu a Postdamer Platz, antes apenas um feio entroncamento de ruas no setor oriental. Hoje é um moderno complexo com shoppings, bares e um átrio coberto por imensa tenda, tido como um dos grandes símbolos do futurismo que tomou conta da capital alemã. O lugar merece ser visitado à noite, quando as luzes coloridas lhe conferem uma aparência fascinante.

Muitos arquitetos conceituados foram contratados para redesenhar espaços e remodelar alguns edifícios. O Reichstag, prédio do Parlamento alemão e antiga sede do governo nazista, erguido em 1894, por exemplo, ganhou estruturas moder­níssimas, como uma grande cúpula de vidro transparente – que pode ser interpretada como uma metáfora da transparência política que a Alemanha impôs para si após a reunificação.

A velha Berlim, por sua vez, resiste no quarteirão que compõe a Nikolaiviertel, o núcleo histórico da cidade, com ruas estrei­tas, calçadas de paralelepípedos e casinhas que lembram os tempos da Idade Média. A área foi intensamente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, mas a restauração tentou manter a feição original da arquitetura. Com a diferença de que naqueles tempos não havia os excelentes restaurantes, cafés e lojas que espalham-se atualmente pela vizinhança.

Nas proximidades da Nikolaiviertel está outra atração clássica de Berlim: a Alexanderplatz, praça famosa por abrigar uma enorme torre, com 368 metros de altura, inaugurada em 1969, e que pode ser vista de diversas partes da cidade. No topo da torre há um restaurante rotativo que oferece vista de 360 graus da capital alemã. A praça fica na antiga parte oriental de Berlim, que reserva muitos outros pontos turísticos interessantes, como a Hackesche Höfe, um conjunto de edi­fícios residenciais agrupados ao redor de oito pátios internos e interligados, forrados de bares, restaurantes, galerias, cinemas e teatro.

Os berlinenses costumam dizer que a cidade tem mais museus que dias de chuva. Deve ser verdade: são mais de 170, dos mais variados temas. Os principais estão localizados na Museumsinsel ou “Ilha dos Museus”, uma área situada entre dois braços do Rio Spree que concentra palácios antigos, hoje abrigo de importantíssimos acervos.

É quase impossível visitar todos, mas um deles é parada obrigatória, o Museu Pergamon, que guarda um dos portões da Babilônia e tem uma das mais importantes coleções de antiguidades da Europa. Quem gosta de história deve ir ao Historisches Museum, com cerca de 8 mil objetos que traçam um panorama da história europeia desde os tempos dos romanos até o século 20. E o Neues Museum abriga um grande acervo de arte egípcia, com destaque para o famoso busto da rainha Nefertiti.

Sem trânsito pesado

Com muitos canais, pontes,sex shops e agitada vida noturna, Hamburgo é a Amserdã alemãOutra vantagem para quem vai a Berlim é que não existe trânsito pesado ou grandes multidões. A cidade ocupa uma área diversas vezes maior do que Paris, por exem­plo, mas tem população bem menor do que a capital francesa, o que se traduz em baixa densidade demográfica e poucas aglomerações de pessoas e carros, exceto quando rola a famosa Love Parede, um festival de música eletrônica realizado durante o verão, que reúne cerca de 1,5 milhão de pessoas pelas ruas.

Circular pela cidade é bem fácil graças a um eficientíssimo sistema de transporte urbano, que além dos ônibus convencionais conta com três tipos de trem: o metrô (ou U-Bahn), os trens de superfície (S-Bahn) e os bondes elétricos que circulam pela parte oriental (Strassebahn). Há praticamente uma estação a cada dois quarteirões. A melhor coisa a fazer, logo que chegar, é adquirir o Berlin Welcome Card, cartão que dá acesso a todos os meios de transporte públicos, além de garantir descontos em museus. 

E para quem gosta de zoológicos, o de Berlim é um dos melhores do mundo. Fica dentro de uma imensa área verde, o Tiergarten, e exibe uma variedade incrí­vel de espécies, o que inclui uma família de ursos polares e o raro urso panda. A entrada do zoo é bem próxima a um dos cartões-postais da cidade, a Igreja Kaiser Wilhelm, quase toda destruída na Segunda Guerra – em 1963 foi construída uma nova torre ao lado das ruínas.

A metropolitana Hamburgo

Porto de Hamburgo, um dos maiores da Europa, circula boa parte da riqueza do paísDe Berlim, o roteiro segue mais para o norte da Alemanha, até Hamburgo. Ao contrário do sul, cheio de casinhas enxai­mel e bandinhas de tirolês, a cidade não tem nada a ver com esse estereótipo: é uma metrópole moderna, original e, ao mesmo tempo, underground.

Hamburgo é a cidade mais rica do país graças ao comércio marítimo em seu enorme porto, que ocupa boa parte da área urbana. É sede das principais empresas de comunicação alemãs: dezenas de agências de publicidade, canais de televisão e editoras, inclusive das grandes revistas nacionais, como a Spiegel e a Stern, que geram­ cerca de 130 mil empregos diretos. É o reduto predileto de celebridades e bilio­nários em geral, e também é adorada por punks e prostitutas.

É um destino para quem gosta de lugares pouco convencionais, onde é possível caminhar durante o dia por um agradável parque à beira do Lago Alster, contemplando as mansões e as vitrines das lojas de grife, e à noite, entre garotas de programa e jovens de cabelo moicano colorido na Reeperstrasse, a lendária rua onde os Beatles e outros mitos do rock se apresentavam nas diversas casas noturnas que ainda hoje iluminam as noites de Hamburgo com suas fachadas de néon.

Plantada às margens do Rio Elba, a cidade é uma velha senhora com 1.180 anos, fundada no século 9, tempo em que prosperou em função do comércio marítimo. O porto de Hamburgo é um dos maiores e mais movimentados do planeta e por ali circula boa parte da riqueza alemã. No século 19, a cidade teve que aumentar sua capacidade portuária e um grande complexo de armazéns foi cons­truído às margens do Elba.

Os galpões históricos, de paredes de tijolinhos, se tornaram o principal cartão-postal de Hamburgo e atualmente não abrigam apenas contâineres, mas também restaurantes, lojas e museus.

Caminhar pela Speicherstadt, como é chamado o velho bairro portuário, é o programa número um, tanto para turistas como para moradores. Vale a pena conhe­cer o Miniatur Wunderland, Museu de Miniaturas que reproduz a cidade em reduzidas proporções, e, se for domingo, o Fishmarkt, feirinha de rua tradicionalíssima, que reúne democraticamente senhoras que acordam cedo para comprar peixe fresco e as verduras da semana aos baladeiros que chegam para arrematar a noitada do sábado com um lanchinho nas barraqui­nhas do mercado.

Da Speicherstadt saem catamarãs que navegam pelos inúmeros canais do Elba, um ótimo passeio para entender a geografia urbana local. São tantos canais para serem atravessados que a cidade ganhou uma espantosa quantidade de pontes: 2.160, o que é bem mais do que Veneza e Amsterdã juntas.

Hamburgo, aliás, é frequentemente comparada a holandesa Amsterdã, e não apenas por causa das pontes. Sobretudo pelo estilo underground da cena noturna, com uma rua exclusiva para homens, onde prostitutas se mostram nas vitrines. Na noite de Hamburgo tudo acontece em Saint Pauli, que faz as vezes do bairro holandês De Wallen, onde bares e danceterias des­coladas são vizinhas de cabarés, strip clubs e sex shops.

O epicentro do agito é a Reeperbahn, uma das ruas mais famosas da Alemanha, que impressiona pela quantidade de estabelecimentos. E a trilha da luz vermelha segue também pela Davidstrasse e, logo adiante, pela Herbertstrabe, a das mu­lheres na vitrine (fechada com um portão e só liberada para homens com mais de 18 anos). As prostitutas em Hamburgo recebem um tratamento quase VIP: têm carteira profissional e licença, que deve ser renovada a cada duas semanas, junto com os exames médicos. Policiais podem pedir para conferir a licença a qualquer momento e quem não estiver em dia pode ser multada ou presa.

Sorte que a noite de Hamburgo não vive só dos inferninhos. Entre um cabaré e outro escondem-se casas lendárias, como a Mojo Club (quadra 1 da Reeperbahn), especializada em soul e jazz, ou a Kaiser Keller (Grobe Freiheit, 36). Os Beatles eram loucos por Hamburgo no início dos anos de 1960. Tocaram lá muitas vezes, em diversos bares de Saint Pauli, ao longo de toda a carreira da banda, inclusive nos primórdios, com Pete Best na bateria. O que eles mais gostavam era o Star Club (Grosse Freiheit, 39), mas a casa original foi destruída num incêndio em 1969, um ano antes do último concerto da banda inglesa.

Apresentação de ópera nas ruínas do Castelo de HeidelbergNão é à toa que a cidade é a capital da música na Alemanha, o que não é pouca coisa no país de Beethoven e Bach. Os estilos que ecoam vão do punk rock das casas noturnas ao hip hop das ruas, passando pelo clássico das salas de concertos e templos religiosos. Na Igreja de Saint Michaelis, por exemplo, acontecem apresentações com orquestras de música clássica todas as tardes, com destaque para o som de um centenário órgão de tubos. A igreja é um dos símbolos da cidade. Do alto da torre, após 453 degraus de escadaria, tem-se uma vista panorâmica do centro e da zona portuária.

A segunda maior cidade da Alemanha foi quase totalmente destruída pelos bombardeios aéreos durante a Segunda Guerra Mundial. Apenas 20% das casas permaneceram de pé. As mais antigas, que resistiram aos ataques, estão nas proximidades da Saint Michaelis, em estreitíssimas vielas construídas no século 17, caso da Rua Kramer Witmen, onde estão lojinhas de artesanato e um ótimo restaurante de comida típica, o Krameramtsstuben.

Depois da guerra, os alemães cuidaram para que a reconstrução seguisse o padrão arquitetônico original, o que conferiu à cidade um certo de ar de antiguidade ainda que a maioria dos prédios tenha menos de 50 anos. Hoje, a metrópole é modelo, com baixíssimo índice de criminalidade, sistema de metrô eficiente e selo verde de qualidade de vida, com metade da área urbana tomada por parques, jardins e lagos.