Amazônia oferece a viagem mais rica em natureza

Dec 31, 1969
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A Amazônia é a região menos conhecida dos brasileiros. É muito mais fácil encontrar alguém que já tenha ido a Paris do que a Manaus (AM) ou a Belém (PA), as duas principais portas de entrada para conhecer a maior floresta do mundo.

Mas os turistas locais estão descobrindo que viajar para a Amazônia não é algo assim tão caro e complicado, tampouco exclusividade de gringos. A partir de Manaus ou Belém, as duas interessantes metrópoles amazônicas, há passeios de barco, cruzeiro pelos rios e diversos bons hotéis de selva que podem fazer você viver a emoção de estar no coração da floresta.

Manaus

Rio Ariaú, afluente do Negro, na região de Manaus, AmazôniaÉ muito comum o visitante que chega a Manaus querer se mandar logo para a selva. Não apenas por causa do magnetismo da mata, mas existe um certo preconceito em relação à capital amazonense. Imagina-se uma cidade pequena e sem graça, perdida no meio do nada. Um grande engano. Manaus está longe de ser uma cidade qualquer ou um mero ponto de partida para conhecer a Amazônia. Tem uma autenticidade, misturada com um punhado de exotismo, que a torna uma das mais interessantes capitais brasileiras.

Nos últimos anos, a cidade passou por várias reformas urbanísticas, ganhou um atraente calçadão às margens do Rio Negro (a praia dos manauaras), ônibus com ar-condicionado, novas praças e teve avenidas duplicadas. O resultado é que hoje, ao sobrevoar a capital amazonense, você pode jurar que está chegando a Porto Alegre, Curitiba ou qualquer grande cidade do Brasil. Aliás, Manaus é a oitava em tamanho, com quase 2 milhões de habitantes e um grande parque industrial por ser Zona Franca. Cresce com o dobro da velocidade da média nacional – o que não deixa de ser surpreendente para uma cidade cercada pela selva amazônica.

Manaus já foi chamada até de “Paris da selva”, alusão aos tempos áureos do Ciclo da Borracha, então um forte de riqueza.

O dinheiro do látex serviu para modernizar ruas e praças, assim como ornamentar a vaidade dos barões. Foi a primeira cidade brasileira a receber luz elétrica, bondes e serviço de água e esgoto. Isso no final do século 19. Sem falar nas obras de arquitetura, dos grandes casarões, como o Palácio de Justiça e o Teatro Amazonas, a mais suntuosa construção histórica de Manaus.

Primeira parada

Teatro Amazonas em Manaus, AmazonasO Teatro Amazonas virou uma espécie de símbolo da cidade. Ninguém resiste a uma paradinha diante dele. Se a obra impressiona hoje, imagine quando foi feita, em 1896. Era descomunal para a época e, por isso, demorou 15 anos para ser construído. Foi uma das primeiras obras pré-fabricadas do Brasil, pois veio todo da Europa, em partes. As grades de ferro dos camarotes e balcões, assim como os lustres de bronze, foram trazidas de Paris. As colunas de ferro fundido foram feitas na Escócia. Os vitrais do telhado, esmaltadas com as cores da bandeira brasileira vieram da Alemanha, e o mármore, da Itália. Só a madeira é amazônica, e ainda assim teve que ir a Londres para ser tratada e entalhada.

Pode-se conhecer as dependências do Teatro Amazonas em visitas monitoradas ou, o que é melhor, nas apresentações que acontecem em todos os fins de semana. O Teatro é a sede da Orquestra Filarmônica do Amazonas e da Amazonas Jazz Band, que promovem shows regulares. 

Quando a tardinha cai, a praça em frente se enche de gente. Os bares colocam mesinhas nas calçadas e ali rola a mais agradável happy hour de Manaus, ao som das patas do cavalo que puxa uma charrete com turistas.

Passeio no Centro

Cupuaçu, parte da variedade de frutas em Manaus, AmazôniaO Teatro Amazonas é um bom ponto de partida para bater perna pelo centro histórico de Manaus. Descendo algumas quadras da Avenida Eduardo Ribeiro – e disputando o espaço na calçada com os camelôs – você logo chega na “Zona Franca”, o centro do comércio de eletro-eletrônicos, com teóricas supervantagens de preço. Mas não é bem assim. Comprar na Zona Franca de Manaus deixou de ser aquela barbada faz um tempo. O turismo de compras aqueceu a economia da cidade principalmente nos anos de 1980, quando ainda havia muitas limitações às importações no País.

Mas desde 1990, quando o governo Collor abriu as portas aos produtos importados, viajar até Manaus para fazer compras deixou de ser uma grande vantagem.

Hoje, é mais fácil encontrar produtos eletrônicos com preços mais baixos em São Paulo ou no Rio. Mas o comércio da Zona Franca não acabou e as lojas continuam por lá, com vitrines cheias, especialmente de câmeras digitais e filmadoras, talvez os únicos produtos que ainda valem a oportunidade. Além disso, as maiores redes de lojas da cidade, como a Ramsons, a Bemol e a Mirai Panasonic, abriram filiais no Shopping Amazonas, com os mesmos preços, mas com o conforto do ar-condicionado, já que o calor na região é forte.

Nem perca tempo nas tais lojinhas e vá direto ao que interessa: a história e a cultura de Manaus. Uma boa amostra disso está no Mercado Municipal, uma réplica do Le Halles, de Paris. É o segundo mercado construído no Brasil, inaugurado em 1882, em estilo art nouveau. Foi por muito tempo o principal ponto de venda de peixe e frutas da cidade. Vá para lá mesmo que for só para olhar as barracas de artesanato e o monte de coisas estranhas que são vendidas, como escamas de pirarucu, que servem como lixa de unha; banha de boto, que promete efeitos afrodisíacos; ou ervas e raízes com supostos efeitos medicinais. É o caso da carapanaúba, com a qual se faz chá anti-inflamatório e até anticoncepcional. Ou ainda a folha de porangaba, que promete emagrecimento e combate ao colesterol ruim.

Isso sem falar nas exóticas frutas amazônicas. Já ouviu falar de taperebá? É o que conhecemos como cajá. E pupunha, buriti, araçá, camu-camu, tucumã? Essa última é uma frutinha amarela que serve até como recheio de sanduíche, o chamado “X-caboquinho”: um pão francês, algumas fatias de tucumã e queijo coalho, o que justifica a versão cheese. Muitos provam, mas nem todos aprovam. Nas esquinas do centro há sempre algum vendedor com carrinho cheio de frutinhas cheirosas para você experimentar.

O açaí e o guaraná são bem mais conhecidos no resto do Brasil. Para o manauara, porém, é uma mania; O habitante local chega a trocar o arroz-com-feijão do almoço por uma tigela de açaí, energético poderoso.

O guaraná é consumido em suco, puro, com mel e limão ou ainda em refrigerantes. Nenhuma outra cidade do Brasil tem tantas marcas de guaraná quanto Manaus. Dá para perder a conta: Regente, Baré, Real, Tauá, Tuchauá... Para pedir um guaraná na capital amazonense tem de dizer qual.

Tudo de barco

O porto de Manaus, uma “rodoviária fluvial” na capital da AmazôniaBem em frente ao Mercado Municipal fica o porto, uma espécie de “rodoviária fluvial”. Na Amazônia, as estradas são os rios, e os barcos, ou "recreios", são os ônibus, que interligam uma cidade ribeirinha a outra. As viagens não são medidas em quilômetros, mas em horas, ou dias, de barco. Pegar um recreio implica levar uma rede para dormir, comida e alguma outra coisa para passar o tempo. O movimento no porto de Manaus não pára o dia inteiro. É gente carregando mala, homem descarregando caminhão, outro de megafone na mão anunciando o dia e a hora da partida.

Tanto do porto como da Estação Hidroviária, nas proximidades (esta sim, bem organizada, com lanchonete e compra de bilhetes em guichês), saem os barcos que fazem o passeio mais conhecido de Manaus: o Encontro das Águas.

Os barcos levam uma hora até chegar ao ponto em que as águas escuras do Rio Negro encontram-se com as barrentas do Solimões. Curiosamente, a água dos dois rios correm lado a lado por seis quilômetros, sem se misturar, por causa de diferenças de temperatura, densidade e velocidade da correnteza. O encontro desses dois grandes rios formam o Amazonas, aquele que você cansou de ver nos livros da escola, o maior do planeta em volume de água. Tão largo, tão imenso, que de uma margem não se avista a outra. Mais parece mar.

Já para os moradores da cidade, o Encontro das Águas é um fenômeno comum. Eles preferem pegar os barcos para ir às praias de areia branquinha que se formam ao longo do Negro, como a bela praia do Tupé. Mas a maioria das praias só fica à mostra entre março e setembro, pois na época da cheia o rio sobe tanto que cobre a areia.

Outro programa bastante procurado nos finais de semana é tomar banho nas cachoeiras da vizinha Presidente Figueiredo, passeio que, inclusive, está incluído em pacotes para Manaus.

Presidente Figueiredo fica a uma hora de carro, seguindo pela BR-174, por sinal, a única estrada da capital amazonense e que só acaba em Caracas, na Venezuela. Talvez seja por isso que poucos brasileiros vão a Manaus. Acham distante, de difícil acesso, sem graça. Mas é por pura falta de informação, que agora, felizmente, você tem.

De cara com a natureza

Boto cor-de-rosa vem comer o peixe na mão de hóspedes do Ariaú, AmazôniaApenas caminhar pelo Ariaú vale um belo passeio. E você pode fazer isso tanto a pé, como de bicicleta ou em carrinho elétrico (no caso de idosos ou portadores de deficiência). São incríveis 8 quilômetros de passarelas cortando a mata. Ainda há duas torres de observação, de quase 50 metros de altura cada uma. Só não espere ver bichos por toda parte, pois a floresta é grande demais para que onças e capivaras fiquem desfilando à sua frente. Somente araras e macacos são fáceis de ver.

Entre as atividades oferecidas, como caminhada na selva e pesca de piranhas, há uma em especial que encanta os hóspedes: dar peixe na boca de botos cor-de-rosa. Um grupo de quase vinte desses animais foram domesticados por Charles Silva, nativo que mora com a família numa casa flutuante no rio. Os grupos de hóspedes vão para lá às tardes, após alguns minutos de canoa, para alimentar os botos e nadar entre eles. O parente do golfinho faz parte das lendas amazônicas: o animal se transforma num belo rapaz que seduz mulheres e as engravida. Antigamente, vinha bem a calhar para muitas mulheres “seduzidas pelo boto”. Hoje, não cola mais.

Alimentar o boto é um passeio tão bem falado pelos hóspedes quanto o curso de sobrevivência na selva – este, pago à parte. Pode durar um só dia ou vários. Os guias ensinam a obter água de cipós, fazer fogo, montar armadilhas para caçar e montar acampamentos.

Detalhe: todos os guias foram treinados pelo próprio dono do hotel, o manauara Ritta Bernardino, ex-militar que foi instrutor de sobrevivência na selva no Exército brasileiro.

Bernardino foi também guia da expedição de Jacques Cousteau pela Amazônia em 1981. Aliás, foi o francês que deu a ideia ao brasileiro de construir o hotel – foram necessários quase vinte anos para que o Ariaú, assim como o turismo de selva em geral, se tornassem conhecidos, primeiro no exterior e, mais recentemente, no Brasil. Nesse tempo muita gente famosa passou por ali: presidentes (como os americanos Jimmy Carter e Bill Clinton), artistas (como Julia Roberts e Romam Polansky), além de reis e princesas. O megamilionário Bill Gates esteve duas vezes no Ariaú e disse em entrevista para a revista Newsweek que vai morar lá quando se aposentar.

É compreensível a opinião de Gates. É que a Amazônia é tão espetacular que consegue fascinar até o mais ferrenho urbanóide. Não é por acaso que atrai tantos gringos, gente que vem de muito longe só para sentir-se dentro da selva. A mesma que os brasileiros começam a descobrir.

Hotéis de Selva

Vista aérea do Ariaú, o maior hotel de selva da AmazôniaUma viagem típica à Amazônia inclui dois ou três dias em Manaus, fazendo passeios pela cidade, para depois seguir rumo a um hotel de selva, ou jungle lodge, como eles preferem ser chamados, algo como “alojamento de selva”. É a forma de hospedagem típica em plena floresta. Ao passar pelo menos um ou dois pernoites em algum deles é que você sentirá a sensação de ter conhecido a Floresta Amazônica. Ao contrário do que se pensa, os hotéis de selva não são “programa de índio”. A maioria já oferece um bom nível de conforto, piscina e quartos com ar-condicionado. Chuveiro quente nem sempre há, mas nem faz falta no calorão que caracteriza a região pertinho da linha do Equador. 

Mosquito? Depende, não da época, mas do lugar onde for ficar. Se for um hotel às margens de um rio de águas escuras – e ácidas – você verá bem poucos deles. É por isso que a grande maioria dos hotéis de selva ficam no Rio Negro. Todos trabalham com sistema de pacotes, de duas ou três noites, incluindo no preço tanto as refeições como os traslados de barco até Manaus. Incluem ainda todas as atividades realizadas durante o dia: caminhada interpretativa na mata (onde um guia nativo ensina tudo sobre as plantas e árvores), passeio de barco por igarapés (região de mata alagada), visita a casas de caboclos (para que os hóspedes conheçam um pouco sobre a vida dos ribeirinhos), pesca de piranhas (geralmente nos finais de tarde com direito a pôr-do-sol no rio) e focagem noturna de jacaré com lanternas (que termina com o guia mergulhando no rio e trazendo um exemplar a bordo, para delírio dos turistas). Assim, ninguém fica entediado, tampouco preso no quarto. 

O maior e mais famoso hotel de selva da Amazônia é o Ariaú. Tornou-se até atração turística para quem vai a Manaus, já que há passeios “bate-e-volta” para quem quiser conhecê-lo. Todo mundo que vai se hospedar por lá sabe que se trata do maior hotel de selva da Amazônia, todo construído em madeira e sobre palafitas às margens do Rio Negro. Mas ninguém tem realmente noção do que irá encontrar, e justo ali, nos confins da selva. São oito grandes torres circulares de apartamentos, e outra com o restaurante e sala de convenções, do tamanho de pequenos prédios de cinco andares cada uma. 

As torres são interligadas por passarelas suspensas a vários metros acima do nível do rio. Há ainda oito “Casas de Tarzan”, acomodações construídas no topo de árvores e que estão entre as melhores – e mais caras – do hotel. Cada uma tem um nome diferente. Na casa “Folha de São Paulo”, por exemplo, são dois quartos, um de casal e outro com três camas de solteiro, piscina privativa e espaço com sala de jogos. Tudo, claro, sobre palafitas, entre as árvores, como haveria mesmo de ser em uma “casa do Tarzan”. Os apartamentos standard não oferecem o mesmo luxo, mas são bem confortáveis, rústicos na medida certa. Mas a proposta do hotel não é fazer ninguém passar o dia de bobeira no quarto, a não ser que essa seja a opção do hóspede – o que é um erro.

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