Conheça a capital do Amazonas e seus principais atrativos turísticos

Dec 31, 1969
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Mil vezes mais fácil achar um brasileiro que já tenha ido a Paris do que à Amazônia. Não é exagero: é fato! Faça o teste. Diga, por exemplo, que está indo para Manaus e espere a reação dos outros. Muito provavelmente, alguém perguntará "por quê?". Como se fosse preciso haver um motivo para ir até lá. Ora, ninguém pergunta "por quê?" quando você diz que está indo para Porto de Galinhas ou para Fortaleza. Mas, para Manaus não. Manaus precisa de uma razão!

É certo que o autor da pergunta será um daqueles 999 brasileiros que jamais foram à própria floresta, embora conheçam bem os jardins dos parques da capital francesa. É certo, também, que ele não tem a menor ideia do que seja a Amazônia e que, tal qual os mais desinformados dos estrangeiros, imagina cobras e jacarés soltos pelas ruas de Manaus. Por fim, é de se supor que ele jamais pensou em ir até lá. Não sem um bom motivo! E turismo, definitivamente, não é um deles. Pelo menos na cabeça dele. Pobre brasileiro...

Amazônia toda nossa

Passeio de barco em Manaus, Amazonas

Amazonas é um dos estados mais sonhados pelos estrangeiros. Quase tanto quanto o Rio de Janeiro. Já os brasileiros praticamente o ignoram. Como se fosse um retrocesso ter o maior estado brasileiro (três vezes superior em tamanho à Bahia, por exemplo) ainda quase totalmente coberto de verde.

Da mesma forma como o caso dos brasileiros visitantes de Paris contra os turistas nacionais em Manaus, é cinco vezes mais provável encontrar uma família de suecos passeando em canoas nos rios amazônicos do que um casal de paulistas batendo pernas nas ruas da capital do Amazonas. É curioso: enquanto os estrangeiros morrem de inveja dos brasileiros justamente por causa da Amazônia, nós parecemos constrangidos de possuir um lugar ainda assim. Eles não nos entendem: deveríamos sentir orgulho da selva; não vergonha dela. Mas é isso o que a maioria dos brasileiros sente. No mínimo, indiferença.

Para os gringos, o Amazonas é um outro Brasil, bem diferente das praias do Rio e da ginga do Nordeste. Para nós, também. Tanto que, praticamente, quase não vamos para lá. Afinal, se for para ir ao exterior, é melhor ir logo para Paris, certo? Errado! A única maneira de valorizar um país é saber, primeiro, o que ele tem. E os brasileiros não conhecem a Amazônia. No máximo, rotulam como "programa de índio" qualquer proposta de viagem para lá, mesmo sem saber que a célebre expressão veio, de fato, do Amazonas. Mas por outras razões.

Décadas atrás, quando os primeiros aviadores do extinto Correio Aéreo Nacional – CAN começaram a visitar os povoados amazônicos, era comum os índios pegarem carona nos aviões, pelo simples prazer de voar. Eufóricos, viajavam minutos de uma vila para a outra, mesmo sabendo que, na volta, teriam que caminhar dias na mata, para retornar à tribo. Um programa tipicamente indígena, já que só eles mesmo conseguiriam achar o caminho de volta na selva – daí a expressão, cunhada pelos próprios pilotos do CAN. Você não sabia? Pois saiba que nós não sabemos mesmo praticamente nada sobre a Amazônia.

Faça, por exemplo, um simples passeio por um pedacinho da floresta, naquilo que os guias dos hotéis de selva chamam de "caminhada interpretativa" e você se sentirá tão analfabeto sobre a nossa selva quanto um esquimó recém-chegado do Alasca. Primeira surpresa: a mata não é fechada, muito menos impenetrável, como se imagina. Ao contrário, lembra um bosque, com árvores frondosas mas solo à mostra, perfeitamente caminhável. De cima, lembra um tapete verde e inacessível. De baixo, mais parece um parque, com caminhos naturais mais ou menos abertos para todos os lados. É como uma estufa: quente e sem a luz direta do sol, que não consegue penetrar na vegetação – daí a falsa sensação de ser inexpugnável. Dentro dela, aprende-se, há cipós que estocam água potável, capins que servem como facas e árvores que produzem leite, que se pode beber direto do tronco. Supreso? Todo mundo fica.

Segundo mito: não há bichos por todas as partes. Ou, melhor, há, mas você não os vê, nem – relaxe! – eles querem saber de você. Portanto, não acalente ilusões: em dois ou três dias num hotel de selva, o máximo de contato que você terá com a fauna amazônica serão  macacos nas copas das árvores, jacarés na beira dos rios, piranhas nos anzóis das pescarias e muitos insetos, já que onde não há mosquito não há vida.

A razão é biológica: sem mosquitos, os sapos não seriam atraídos; sem sapos não viriam as cobras; e, sem as cobras, desapareceriam muitos outros predadores, esculhambando de vez a cadeia alimentar, que na selva é bem equilibrada – e essa é uma das primeiras coisas que você aprende na região. Outra é que, também ao contrário do que se pensa, quanto mais se aprofunda na selva, menos vida há.

A Amazônia é imensa: tem o dobro do tamanho da Índia, ocupa 60% do território brasileiro e ainda avança por mais outros oito países da América do Sul. Mas suas riquezas concentram-se em apenas 5% dessa área. E sempre às margens dos rios, onde, não por acaso, ficam todos os hotéis de selva e sempre viveram os índios.

Os hotéis de selva são uma novidade recente na floresta. Mesmo no Amazonas, ainda não passam de uma dúzia de bons estabelecimentos, todos com uma proposta de fazer você sentir-se dentro da selva, mas – péra lá! – com algum conforto básico. Já os índios sempre estiveram ali. E continuam. Alguns propositalmente tão isolados e primitivos como sempre foram. Não deixa de ser fascinante saber que, no nosso próprio país, ainda há humanos que nunca viram gente como nós! Pois, depois das dimensões da selva, isso é o que mais fascina os estrangeiros. Mas, nós mesmos também não damos muita bola para os índios. Mesmo sabendo que muito da nossa cultura veio deles. Nomes, por exemplo. "Piranha" nada mais é do que a contração de "pira" ("peixe", em linguaguem indígena) com "anha" ("que morde"). 

Que ideia você tem de Manaus?

Mercado Central de Manaus, Amazonasa) Uma cidade pequena, cercada de mato por todos os lados?

b) Uma capital atrasada, perdida no meio da selva amazônica? 

c) Uma cidade vazia, sem cultura e com poucos atrativos?

Se escolheu qualquer uma das opções acima, você precisa urgentemente ir a Manaus. No mínimo, reverá seus conceitos sobre a capital do Amazonas, uma cidade de já quase dois milhões de habitantes, que, especialmente nos últimos tempos, deu saltos espetaculares de urbanismo, tornando-se ainda mais surpreendente. Principalmente porque continua isolada pelo verde da selva amazônica – nisso ela não mudou.

De resto, Manaus é hoje uma cidade que não faria feio a nenhum lugar do Sul do país. Tem avenidas largas e sem buracos, calçadas enfeitadas com palmeiras, ônibus urbanos com tevê e ar-condicionado, bares e calçadão às margens do Rio Negro, que é a praia dos manauaras, além de modernos shopping centers, que, aos poucos, vão substituindo as falidas lojas da Zona Franca, que, estas sim, são um dos símbolos da antiga Manaus.

Não que a Zona Franca e suas teóricas vantagens na compra de produtos importados tenham acabado. Mas, na prática, os quarteirões centrais da cidade viraram apenas uma espécie de Paraguai, repleto de eletrônicos suspeitos de Hong Kong. A abertura das importações no país praticamente liquidou com todos os benefícios para os compradores. Hoje é mais negócio arrematar um aparelho de DVD (fabricado na Zona Franca de Manaus, por sinal) em São Paulo do que na própria capital do Amazonas. Portanto, esqueça qualquer pretensão de compras na cidade. Concentre-se no que realmente vale a pena. Como a curiosa cultura e história local.

Manaus é uma espécie de capital da Amazônia e principal cidade de toda a região Norte do país, apesar da rixa histórica com Belém do Pará. Já foi muito mais famosa, é verdade, nos tempos em que o látex dos seringais produzia, além da borracha, rios de dinheiro, que inundaram a cidade com modernismos (foi a primeira do Brasil a ter bondes, por exemplo, e a segunda com luz elétrica) e construções audaciosas (o incrível Teatro Amazonas impressiona até hoje, imagine na época em que foi feito!).

No início do século passado, Manaus era chamada de “Paris da Selva” – Paris! Veja só! Mas esta Paris você nunca pensou em conhecer, não é? Depois, com o roubo das sementes de seringueiras, pelos ingleses, e o surgimento da borracha sintética, a cidade entrou em total decadência e só agora está voltando à vida, amparada – quem diria? – exatamente no turismo. O mesmo que, todos os anos, traz mais de 100 navios estrangeiros, abarrotados de gringos, embasbacados com a selva, para a cidade. Mas, turistas brasileiros mesmo ainda são poucos. É um equívoco, sem dúvida. O Amazonas consegue chamar tanto a atenção de um americano quanto de um carioca. Porque é desconhecido para ambos.

Pegue-se o caso das frutas amazônicas, por exemplo. Você já ouviu falar de taperebá? E cajarana? Ou tucumã, que é usada até como recheio de sanduíche? Ou, ainda, pupunha, que embora seja uma fruta tem que ser cozida para ficar comestível? Pois o Mercado Central de Manaus, que, inclusive, é uma réplica de um antigo mercado de Paris (Paris! De novo!), tem todas elas. Mais um montão de coisas esquisitas para nós, como escamas de pirarucu que viram lixas de unha, camarões vendidos por litro e não por quilo e saquinhos de banana frita e fatiada, que são o tira-gosto preferido da cidade. Engraçado? É porque você ainda não viu como os manauaras chamam cachorro-quente: "kikão".

Em frente ao Mercado Central fica o porto, que também passou por uma completa remodelação. Virou uma "estação hidroviária", com direito a ar-condicionado e avisos em inglês, já que os barcos estão para a Amazônia assim como os ônibus para o resto do Brasil. Sem eles não se vai a lugar algum. Até porque, voar é caro e as estradas, praticamente, não existem no estado. A única BR asfaltada que parte de Manaus segue para a Venezuela. Ou seja: para sair do Amazonas por terra, só indo para o exterior. Talvez seja por isso que quase ninguém vai para lá: é mais simples viajar logo para o estrangeiro. Não, não é isso, é claro. Mas que serve como mais uma desculpa, ah, isso serve.

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