Patagônia é um lugar para se aventurar em paisagens inacreditáveis
Na entrada da Pousada Los Notros, requintado empreendimento em El Calafate, na Patagônia Argentina encontra-se a seguinte frase: "Um lugar para voltar a começar". Ainda que a sentença passe batido ou não faça sentido naquele momento de chegada, basta começar a se aventurar pela majestosa região (a qual equivale a mais de duas vezes o tamanho da Itália), avançando pelo deserto que, no horizonte, faz um contraponto com as montanhas salpicadas de neve e leva justamente à mais celebrada atração desse pedaço da Patagônia, o glaciar Perito Moreno, para aquelas palavras possivelmente começarem a ecoar dentro de você, como se a desconcertante experiência tête-à-tête com a grandiosa paisagem local fosse a fonte de inspiração para um "novo começo". Que pode ser algo para a própria vida ou, como o momento propicia, até em prol da natureza, que, naquele rincão do continente, a três horas de avião desde Buenos Aires, se mostra exuberante, soberana e muitas vezes, ao contrário de outros espetáculos naturais, facilmente visitada.
Prova disso é o próprio Perito Moreno, distante 80 quilômetros de El Calafate e parte do Parque Nacional Los Glaciares, que não recebeu esse nome à toa: em sua área, existem mais de 300 geleiras, das quais a mais famosa é o Perito justamente por sua facilidade de acesso. Assim, ao se chegar, num veículo de excursão ou num carro alugado, ao estacionamento desta entrada do parque, basta descer uma escada de madeira, acessar as passarelas e... você estará de frente para esse gigante branco-azulado que, deste ponto de vista, exibe 4 km de extensão e 60 metros de altura (no total, o comprimento é de 14 km, com uma superfície de 257 km2), sendo contemplado de uma distância de cerca de 50 metros, apenas. O deslumbre seguinte é com o desprendimento, vez por outra, de grandes blocos de gelo, que causam um senhor estrondo quando tocam a água congelante.
O Perito Moreno também é famoso por ser um dos poucos glaciares do mundo, a exemplo de alguns colegas do lado chileno da Patagônia, que a despeito do aquecimento global, continua com as dimensões inalteradas. Isso ocorre porque a geleira é cercada de montanhas, cujos cumes formam o Campo de Gelo Patagônico, uma espécie de imensa "fábrica de gelo" em que uma área de 13 mil km2 acumula a neve de milhares de invernos, não derretida por causa da altitude em que as montanhas estão. Com o tempo (muito tempo mesmo), toda a neve "guardada" vira gelo sólido, que, não cabendo mais nesse tipo de platô no alto das montanhas, transborda e corre pelas encostas, reabastecendo o Perito Moreno e outros 355 glaciares.
Ocorrendo lentamente nas encostas da cordilheira, esse fenômeno não é visto pelos visitantes. Mas há um outro que é para lá de interessante e mobiliza, sem exagero, milhares de turistas e até as TVs argentinas. A cada quatro anos, em média, o gelo que desce das montanhas é tanto que chega à ponta da península, impedindo a circulação normal das águas do Lago Argentino, que circunda o Perito Moreno. Mas a água "quer" seguir seu fluxo e força a passagem, fazendo fissuras nesse mar de gelo, que cede e se desprende em blocos gigantes, num barulho quase ensurdecedor, que chega a ser escutado à distância.
Quando a ocorrência do fenômeno é anunciada - a última vez foi em 2008 -, um batalhão de gente se junta nas passarelas, mesmo sem saber ao certo o momento em que o gelo vai rolar, numa vigília que se prolonga por dias. É por isso que, nesses períodos em que a água está para vencer o gelo, as câmeras de TV chegam a ficar ligadas o dia todo ali, para não haver o perigo da rara imagem não ser captada e com grandes chances de ser exibida ao vivo nos canais argentinos. É, nos últimos tempos o Perito merece mesmo mais atenção e audiência que a seleção hermana comandada por Diego Maradona.
Trekking no Perito Moreno
Se já é impactante observar esse gigante de gelo das passarelas, imagine poder caminhar sobre ele. Pois sim, há um trekking, feito com grampões nos pés - um revestimento metálico com cravos no solado, colocado por cima do calçado que se está usando, que garante maior aderência à neve -, para explorar as entranhas do Perito Moreno. É possível optar entre dois tours, o Minitrekking, caminhada com duração de 1h30, e o Big Ice, que, num período de quatro horas, revela paisagens inacreditáveis.
Como é praxe na Patagônia, o passeio tem início cedo: às 7 horas, a van de agências locais como a Hielo & Aventura (hieloyaventura.com) começa a passar nos hotéis e hosterías para pegar os que reservaram o passeio. Já no parque Los Glaciares, pega-se um barco que deixa os trekkers do outro lado do Lago Argentino, onde, depois das instruções do guia sobre como "ficar amigo" dos grampões presos aos pés, a aventura começa rumo ao interior da geleira.
Com desníveis, fendas, sumidouros (pontos onde a água se enfia e se esconde dentro do glaciar) e até uma improvável "caverna" de gelo, que comporta o grupo todo, sem falar de uma laguna, nas margens da qual é feita a parada para um bem-vindo almoço, não é exagero considerar que se está num outro incrível planeta, que propicia uma experiência mágica e possivelmente inigualável. Exatamente por esses fatores, prepare o bolso na hora de pagá-la. Não é nada barato, mas por sensações que talvez não se repitam mais na vida, desestabilizar o orçamento da viagem com esse passeio está mais do que valendo.
Atração das mais tradicionais do parque, a navegação do Lago Argentino, que tem saída do píer de Punta Banderas, a 40 km de El Calafate, também tem preço salgado. Mas, como numa viagem de férias quem converte o tempo todo não se diverte, abra a carteira de novo para ver o bloco, quer dizer, as geleiras - como a Upsala, a maior da Argentina, mais a Spegazzini e a Bahia Onelli, outros glaciares de respeito - passarem. E curta o majestoso visual, esteja você instalado nas confortáveis poltronas internas ou disputando espaço no deque ao ar livre da embarcação, já que a maioria dos turistas não quer perder um detalhe sequer do passeio, nem deixar de registrá-los ao longo de todo o passeio.
Com três dias inteiros em El Calafate, investindo em passeios durante o dia e em circular, à noite, pela Avenida Libertador (onde estão os restaurantes, lojas de roupas, artesanato e souvenires e as agências de passeios locais), os principais pontos do Parque Nacional Los Glaciares são visitados. Para os verdadeiros aventureiros, no entanto, esses arredores de El Calafate são apenas um aperitivo do que a Patagônia Argentina reserva.
El Chaltén, meca dos aventureiros
A 230 quilômetros dali fica El Chaltén, ainda parte do parque Los Glaciares e casa de uma quase incessante sequência de picos nevados, cuja principal estrela é o Cerro Fitz Roy, que se impõe na paisagem com seus 3.405 metros de altura. Esse pico pode ser suspirantemente contemplado, no sentido figurado e principalmente no literal, depois de trekkings puxados, o que rende a El Chaltén o título de meca argentina dessa atividade. Está aí um lugar onde a natureza não convida ao descanso, mas sim à curiosidade, ao movimento, resultando na passagem por caminhos muitas vezes difíceis, mas de beleza e encantos recompensadores ainda em maior medida.
É assim na trilha rumo à Laguna de Los Tres, que começa pouco depois do Acampamento Poincenot e é uma das mais procuradas pelos trekkers porque, a despeito do percurso íngreme, de se levar quase o dia todo percorrendo-a e da exigência de um bom preparo físico (que será posto à prova numa escalada normalmente "temperada" por um vento forte), ela sempre exibe vistas fantásticas. Afinal, como continuar resmungando do cansaço quando se tem à frente uma lagoa de águas verde-azuladas ladeada por vários picos, incluindo o poderoso Fitz Roy, que vão enfeitiçar o aventureiro principalmente num dia de céu limpo? Ok, por lá, nem sempre o tempo é generoso, fazendo o cerro ficar encoberto por nuvens, o que, mesmo não sendo o presente ideal depois de tamanho esforço, dá lá um certo clima bucólico e místico ao cenário.
A adrenalina também está garantida na caminhada rumo ao glaciar Torre, para a qual é altamente recomendável estar com o fôlego em dia. É que nas dez horas de trilha estão embutidas a travessia de um rio em tirolesa e a subida ao glaciar por um caminho bastante empinado, feita depois de se vencer o Rio Fitz Roy e contornar a Laguna Torre passando por entre as rochas dos cerros Solo e Techado Negro.
Ao fim dessa longa e complicada jornada, alcança-se o glaciar Torre, que premia os valentes visitantes ao estilo do Perito Moreno: com um passeio por suas entranhas, ou seja, pelas cavidades, túneis e trilhas de puro gelo, além de uma caverna cujo gelo apresenta uma esplêndida cor azulada, um lugar perfeito para o almoço reservado à turma.
Mas nem toda atividade na região de El Chaltén é para caminhantes tão experientes e avançados. O Lago Viedma, que abriga o glaciar de mesmo nome, é palco para um passeio de barco, que pode premiar os passageiros com o espetáculo dos blocos de gelo se desprendendo da geleira. O Salto del Chorrillo, uma cascata emoldurada pelas montanhas nevadas e que fica a três quilômetros da cidade, também é um tour tranquilo, que exige uma caminhada leve de uma hora.
Programa nada cansativo e deslumbrante, mas que vai tirá-lo cedíssimo da cama e nem sempre é garantido de ocorrer, é o amanecer del fuego (amanhecer do fogo, literalmente). Trata-se de um lindo fenômeno que, assim que o sol nasce, dá as montanhas uma coloração vermelho vivo, que só dura por alguns instantes. Outra opção que não exige muito esforço é o Lago del Desierto, alcançado de carro ou de ônibus por uma estrada de cascalho que segue o curso do Rio de las Vueltas - e ponto de partida para várias trilhas -, que pode simplesmente funcionar como um mirante para contemplação.
Rumo ao fim do mundo
Mais 900 quilômetros ao sul e... tome Patagônia, que nestas paragens ocupa a mais austral região argentina, a Terra do Fogo, tão cheia de ilhas que pode ser chamada de continuação insular da Patagônia. O pedaço, de clima rigoroso, com temperaturas próximas de zero em boa parte do ano, é famoso - e convida a uma visita - por uma série de razões turísticas e históricas, a começar pelo ponto onde desembarcam os visitantes vindos de avião de Buenos Aires: Ushuaia, conhecida como "a cidade do fim do mundo" por ser a porção de terra mais austral do planeta, a apenas 1 mil quilômetros da Antártica além de ser a base para vislumbrar a paisagem primorosa do Parque Nacional Terra do Fogo.
Também é aqui que está o Canal de Beagle, por onde Charles Darwin e Fitz Roy passaram durante suas explorações nos confins da América do Sul, no século 19, e o mítico Estreito de Magalhães, passagem encontrada pelo navegador português Fernão de Magalhães em 1520 e a qual foi o primeiro caminho seguro ligando os oceanos Atlântico e Pacífico, e que acabou batizado com seu sobrenome.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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