Arraial d'Ajuda é destino certo para curtir luais e descansar em aconchegantes pousadas
Se você ainda está procurando um lugar para curtir o verão, a resposta pode estar numa vila que andou sumida por uns tempos e passou longe dos roteiros mais badalados: Arraial d'Ajuda, no litoral sul da Bahia. Esse pequeno vilarejo, vizinho a Porto Seguro – mas completamente diferente dela –, tem tudo para agradar quem procura um lugar de altíssimo astral, onde todo dia tem festa. Os luaus começam no finalzinho da noite e só terminam no dia seguinte. Se, porém, seu pique for outro, há uma seqüência de praias tranqüilas, algumas quase desertas, onde tudo que você tem a fazer é ficar olhando para o horizonte e se perguntando porque não foi para lá antes. Lugar para ficar não falta, porque há tantas pousadas por lá que ainda dá tempo de encontrar um quarto até para a semana do réveillon. Os preços sobem bastante na alta temporada, é verdade. Mas, por causa da concorrência, sempre é possível barganhar um pouco. Mesmo assim, vale a pena pesquisar a fundo. E você pode começar nas próximas páginas.
Arraial d'Ajuda já foi terra de hippies, gringos e descolados. Os primeiros chegaram nos anos 70 e ainda hoje podem ser encontrados por lá, embora sejam espécie em extinção. Já os estrangeiros apareceram bem depois e deram fama internacional ao vilarejo – alguns moradores costumam dizer, com muito orgulho e certa dose de exagero, que Arraial é a "esquina do mundo". Suíços, franceses e, principalmente, argentinos são figurinhas fáceis nas ruelas da vila. Mas esse povo todo não está mais sozinho. Agora, eles dividem a cena com casais – e brasileiros mesmo – em busca de um lugar sob o sol generoso da Bahia.
Turismo sempre em alta

Sim, Arraial mudou muito nos últimos anos. Mas não para pior. Primeiro, porque não perdeu o astral desencanado que os primeiros malucos deixaram de herança – e dificilmente perderá, porque, ali, bicho-grilo nasce até em árvore. Segundo, porque cresceu e se organizou de tal forma que é capaz de agradar até os turistas mais exigentes – daquele tipo que só vai onde o asfalto está. E não foi só o acesso fácil que contribuiu para Arraial se expandir. Hoje, come-se e dorme-se muito bem no vilarejo. Há pousadas que não devem nada para o conforto de resorts e chegam a ser até mais aconchegantes. Na maioria delas você é atendido pelo próprio dono, o que faz toda a diferença. Além disso, há ótimos restaurantes. E tudo com uma boa relação custo-benefício.
Essa guinada foi uma forma de evitar a influência do turismo massificado de Porto Seguro, o que alimentou ainda mais a richa entre as duas cidades – tanto que os moradores de Arraial adoram dizer que, enquanto Porto tem grupos, Arraial tem tribos. Mas você só se sente no verdadeiro Arraial quando chega ao centrinho da vila, cinco quilômetros depois da balsa que faz a travessia para Porto Seguro. Antes disso, passa pelas praias do Apaga-Fogo e Araçaípe, mas mal dá para ver o mar, por causa de uma seqüência impressionante de pousadas pelo caminho. Ao chegar no vilarejo, uma das primeiras coisas que surge é uma pracinha com um cemitério no meio – não estranhe, é até simpático. Em volta, há restaurantes e botecos que, à noite, colocam o som no último volume – e, o que é pior, ao mesmo tempo! É de lá que saem as duas principais ruas de Arraial: a Estrada do Mucugê, que de estrada não tem nada e, por isso mesmo, também é chamada de Caminho do Mar; e a Bróduei (versão tupiniquim da Broadway americana), que já foi a rua do agito, mas, hoje, caiu bastante.
Aonde ir
É na Estrada do Mucugê que o negócio começa realmente a esquentar. Lá concentram-se os melhores bares e restaurantes da vila, além de boas pousadas e várias lojinhas. À noite, quando fica toda colorida e iluminada, transforma-se num dos pedaços mais animados do sul da Bahia. E tem festa para todos os piques. Um bom começo é o Beco das Cores, uma viela sem saída onde músicos tocam jazz e MPB ao ar livre, e restaurantes – também ao ar livre – servem de pizzas a um farto prato de bacalhau. Como ninguém fica mesmo muito tempo num só bar, pertinho dali rola a música eletrônica do Girassol, um espaço psicodélico que tem até peças infantis encenadas pelas crianças da vila. O único inconveniente da Estrada do Mucugê é que, além de gente batendo perna e rodando pelos bares, ela fica cheia de carros estacionados. Portanto, se estiver com um alugado ou o seu próprio, deixe na pousada e saia a pé mesmo. É mais divertido.
Mas não é só a noite de Arraial que fez (e ainda faz) a fama da vila. Há, também, uma maravilhosa seqüência de belíssimas praias que compõe, com a vizinha Trancoso, um dos trechos mais bonitos do litoral baiano. A melhor forma de curti-la é andar no contra-fluxo das massas e acordar bem cedinho, quando todo mundo ainda está dormindo e se recuperando da noite anterior. Movimento mesmo, só depois das 11 da manhã ou à tarde. Antes disso, dá para driblar até os vendedores de quinquilharias, que parecem brotar da areia nos horários de pico. Aproveite para fazer longas caminhadas e esticar até as praias mais distantes (e mais bonitas), como Taípe e Rio da Barra, a dez quilômetros do centro de Arraial. Ou, então, vá para a Pitinga, que tem a maior concentração de barracas e gente bonita da orla. Ela fica pertinho da vila, mas não é tão urbana quanto Mucugê e Parracho. É nesta última, por sinal, que rola a maior muvuca do vilarejo. Primeiro, no fim de tarde, quando todo mundo se encontra para cair na lambaeróbica. No verão, acontece todos os dias e não custa nada. E depois, à noite, nos luaus que varam a madrugada e só terminam quando o sol já raiou. Resumindo: se não sabe por onde começar, vá para o Parracho. É lá que as coisas acontecem.
Se não estiver no pique de caminhar para conhecer as praias mais distantes, alugue um buggy ou um carro. Além de passar por Rio da Barra e Taípe, dá para esticar até as praias do Espelho e Curuípe, consideradas duas das mais bonitas do Brasil – e até descer rumo a Caraíva, uma vila de pescadores onde não tem carro nem luz elétrica. Ou, se sobrar um tempinho, subir no sentido contrário, na direção de Santa Cruz de Cabrália (para ver índios e artesanato) e Santo André, uma vila de apenas 600 habitantes que tem uma praia belíssima.
Preços
Não, Arraial não é tão barata quanto Porto Seguro, mas está longe de ser cara. Na baixa temporada, é possível ficar numa boa pousada, com vista maravilhosa para o mar, pagando barato. O único problema é que as diárias duplicam – algumas quase triplicam – na alta estação. Já com comida é bem mais fácil economizar. Há restaurantes simples, mas que fazem bons pratos caseiros e têm preços acessíveis.
Mas não é só a concorrência que faz com que os preços se mantenham num patamar decente. Apesar de ter diversificado os turistas que recebe, Arraial ainda é um lugar eminentemente jovem. Além dos adolescentes, há, agora, os filhos daqueles que descobriram a vila. É a nova cara de Arraial. Que, no entanto, continua sendo um lugar muito especial.
Trancoso já foi quase um complemento de Arraial d'Ajuda, que, décadas atrás, segurava a trupe desencanada que vivia caçando refúgios no litoral da Bahia. Mas o tempo passou e o astral peculiar de Trancoso deu vida própria ao povoado. E não poderia ser diferente: onde mais poderia haver um lugar como o Quadrado, uma praça retangular no alto de uma falésia, cercada por casinhas coloridas e com uma igrejinha no fundo, de onde se vê o mar de cima? Ali, as árvores protegem do sol as mesinhas de restaurantes que servem boa comida boa e caseira e dão sombra, também, à fachada das melhores pousadas da vila. O Quadrado é, também, o ponto de partida para quem quiser descer para a Praia dos Nativos, a primeira e mais movimentada de Trancoso. Quem, porém, buscar um pouco mais de tranqüilidade, terá que caminhar até a Praia dos Coqueiros ou, se preferir, a Naturalista, que ficou conhecida pelo nudismo de alguns (poucos) banhistas. Mas as praias mais bonitas ficam mais à frente e só se chega lá por uma estradinha de terra. É a dupla Curuípe e Espelho, que estão entre as mais belas do Brasil.
Um lugar como esse não poderia mesmo ficar no limbo. Foi-se o tempo em que Trancoso só atraía hippies que se empoleiravam em Kombis caindo aos pedaços, para comer a poeira da única estrada de terra que ligava o povoado a Arraial. Hoje, a vila é palco de artistas, políticos e famosos em geral. No lugar das peruas, carros importados; da estrada de terra, o asfalto da BA-001. Vez por outra, vê-se, também, uma excursão posando para a foto clássica na frente da igrejinha. Mas o curioso é que nem por isso a vila deixou de ser interessante. Principalmente na baixa estação, quando parece voltar no tempo e resgatar o astral hippie-chique, que, na verdade, nunca perdeu. A única diferença é que hoje Trancoso divide suas areias com todo mundo. E não pertence a ninguém. Nem aos hippies, nem mesmo a Arraial.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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