Barra Grande é povoado quase intocado no litoral baiano

Dec 31, 1969
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Das mais badaladas vilas de praia da Bahia, Barra Grande é sem dúvida a menos conhecida. Faça um teste: pergunte aos amigos e verá que, mesmo hoje, nem todo mundo conhece esse pequeno povoado localizado na ponta da Península do Maraú, no trecho menos explorado do litoral baiano. Até no auge do verão, dá para curtir praias vazias em Barra Grande, pois são 40 quilômetros de litoral quase intocado até Maraú, a sede do município. E é isso que faz da pequena Barra Grande um lugar tão especial.

A principal atração é a praia de Taipus de Fora que todos os anos marca presença na lista das dez mais lindas do Brasil. O nome "Taipus" vem da língua indígena e quer dizer "pedras".

Agito no verão

Os barcos fazem o leva-e-traz o dia todo para Barra Grande, BahiaEm compensação, quase não há carros por causa da tal estrada. E ninguém acredita que o asfalto deva chegar tão cedo. Enquanto isso, tudo ainda passa pelo pequeno pier: pessoas, mercadorias, tijolos, materiais de construção... No verão, o chega-e-sai de barcos e lanchas não para. É a época em que a vila se enche de gente, se transforma. As pousadas ficam quase todas lotadas e o silêncio da madrugada estrelada é quebrado pelo forró do bar Graças a Deus e pela música eletrônica da danceteria Lua Morena, à beira da praia.

Barra Grande não tem muitos restaurantes. Mas não se preocupe, pois você não deixará de comer bem por lá. Há ótimas opções, como o Tapera, da baiana Naiá, que recebe os clientes sorrindo e se orgulha de já ter aparecido até no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo. O restaurante tem ambiente bem agradável, com mesinhas ao livre embaixo das árvores. Só não é tão rústico quanto o Matatuaba, uma pizzaria de um casal de italianos para lá de inusitada. A começar pelo fato da pizzaria ficar em uma ilha. Para chegar, é preciso andar 20 minutos pela praia até parar diante da margem do rio e... assobiar. Um menino vem de canoa buscar os clientes, que comem pizzas de massa fininha, na tábua mesmo, também em mesas sobre as mangueiras. À noite, rola até música ao vivo. Mas só abre no verão, como a maioria dos barzinhos noturnos.

A boêmia e as festas só embalam as noitadas de Barra Grande na alta temporada. Passou o carnaval, a vila adormece cedo e não há muito o que fazer à noite. Nem mesmo bater perna para ver lojinhas.

Não faz parte da rotina do turista olhar vitrines e carregar sacolas. O pique lá é outro. Barra Grande é rústica, sem frescuras. O que não quer dizer que falta conforto, ao contrário. O turismo de alto nível já chegou faz um tempinho. Há várias pousadas muito elegantes e até um resort, o charmosíssimo e badalado Kiaroa.

Rodando na península

O jipe-tour pela península de Maraú. Barra Grande, BahiaOs passeios pela Península de Maraú são feitos a pé ou nas picapes com bancos na caçamba, chamadas jardineiras, que levam os turistas até a praia de Taipus de Fora. Os veículos ficam concentrados na praça logo pela manhã, prontos para sair com os grupinhos de turistas, e só retornam no final da tarde.

O passeio mais tradicional é fazer o jipe-tour, que permite conhecer os principais pontos da península num só dia. O roteiro inclui a parada em Taipus de Fora, Praia do Cassange, Morro do Celular, Lagoa Azul e trilha das bromélias gigantes (algumas chegam ao tamanho de um Fusca). Os jipeiros cobram um preço fechado para levar grupos de seis pessoas e o valor é rateado entre todos.  O jipe-tour agrada tanto quanto o passeio de barco pelas ilhas da baía de Camamu, que dura aproximadamente quatro horas, com as paradas nas ilhas. A mais interessante de todas é a ilha da Coroa Vermelha, que não passa de um banco de areia em forma de ferradura em pleno alto-mar.

Taipus fica a sete quilômetros da vila. Também dá para ir a pé até lá seguindo a beira-mar, embora isso leve duas horas. Se tiver disposição, faça essa caminhada ao menos uma vez, só para ter a sensação de curtir aquelas praias vazias, exclusivas para você. Na realidade, a praia é uma só, que parece não acabar mais, cheia de curvas e pontas salientes de coqueiros.

O cenário só muda mesmo em Taipus, quando surgem os arrecifes e as piscinas naturais. Mas o fenômeno tem hora e data certa para acontecer: sempre na maré baixa em períodos de lua cheia ou nova. Lembre-se de consultar o calendário lunar antes de programar a viagem, pois senão nada de piscina natural.

Taipus de Fora tem três restaurantes, algumas pousadas – muito boas por sinal – e uma barraquinha que aluga máscara e snorkel  para fazer mergulho livre. Não perca esse mergulho por nada, caso não queira deixar de ver metade das belezas dessa praia idílica.

O cantor Bel, da banda Chiclete com Banana, tentou tomar posse do lugar, construiu uma cabana e fez até uma barreira com pedras para segurar o avanço do mar, que aos poucos vem encobrindo a ilha. Mas a obra foi embargada pela Marinha, para alegria dos turistas que chegam nos barcos e simplesmente ficam embasbacados com o visual.

Barra Grande é assim: tem um astral de paraíso recém-descoberto. Quando chega a hora de ir embora, você tem a impressão de estar levando um segredo bem guardado. Mas não é bem assim. Esse point do verão na Bahia já foi pouco conhecido. Hoje virou moda. E enquanto o asfalto não cobrir a BR-030, ainda será preciso pagar penitência para chegar. A velha e boa dificuldade de acesso deverá manter por mais algum tempo Barra Grande como está: um sossego só, ao menos na baixa temporada.

Miro, piloto de um catamarã que faz o passeio das ilhas, conta que já viu gente se despedir chorando dos amigos que fez na viagem. É que as pessoas da vila são muito bacanas e sabem receber. Você chega turista, vira amigo e volta com o coração apertado.

Isolamento na praia é sinônimo de calmaria

Praia da Barra Grande, BahiaA praia é mais ou menos o que Porto de Galinhas foi num passado distante. Tem uma barreira de arrecifes que bloqueia as ondas e forma piscinas naturais onde se pode mergulhar junto a peixinhos coloridos. E o melhor é que Taipus não fica tão muvucada quanto outros paraísos litorâneos mais famosos.

O maior problema de Barra Grande é chegar até lá. Embora seja continente, a impressão é de estar indo para uma ilha. Até porque a imensa maioria dos visitantes chega nos barcos que saem de Camamu (BA). Mas há formas mais fáceis de chegar, como nos pequenos aviões da empresa Aerostar, que saem de Salvador (BA) e pousam na pista ao lado da vila.

Por terra, também dá para ir, mas a estrada que vai de Maraú a Barra Grande, a infame BR-030, só é transitável para veículos 4x4. Pouca gente se arrisca – a não ser quem vai de pacote – pois a chegada é via Ilhéus, já com traslado incluso. Sim, é longe. Quem desce em Salvador (BA) de manhã leva uma tarde inteira para chegar. Mas o esforço sempre vale a pena.

Foi graças a esse isolamento que Barra Grande conseguiu evitar o turismo predatório, embora a vila não pare de crescer e se veja obras por toda parte. As poucas ruas ainda são de areia e as casas nem endereço têm. Na praça central há uma igrejinha azul e branca, simpática, e uma frondosa mangueira para fazer sombra. A vila não tem caixa eletrônico, nem maquininhas para pagamento eletrônico com cartão. Por isso, leve dinheiro.

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