Caminhe pelas areias das praias semidesertas da Bahia e explore os vilarejos

Dec 31, 1969
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Cumuruxatiba fica a 223 km de Porto Seguro (Bahia), dos quais 32 km são de estrada de terra. Dá umas quatro horas de carro. Não é um lugar muito fácil de chegar, e dizer que suas belas praias semidesertas valem o esforço é um tanto subjetivo se tratando de um País com cerca de 8.000 km de costa, com trechos tão belos quanto o sul da Bahia. O que realmente faz do vilarejo tão especial não é uma coisa só. É a união de praias tranquilas e limpinhas com restaurantes de primeira. A junção de baianos, índios pataxós, mineiros, cariocas, suíços, alemães, africanos, italianos e até as polo-sulenses baleias jubarte. A impressão que dá é que todos que passam por lá querem ficar, montar restaurantes ou pousadi­nhas. Talvez isso explique o grande número de estabelecimentos voltados para o turis­mo em um lugar que recebe tão poucos visitantes, especialmente se comparado com outras praias do Estado.

Mas se você considerar as atrações desse distrito do município de Prado, que além das praias tem um povo aco­lhedor e as baleias mais próximas da costa do Brasil, a conclusão é que Cumuruxatiba ainda não foi descoberta. O lado bom é que isso faz com que a natureza lá seja muito mais preservada que em qualquer outro lugar da Bahia. Por isso, o visitante que gosta de praia, sossego, boa comida e gente hospitaleira não sabe o que está perdendo.

Gastronomia importada

Arroz de polvo - Cumuruxatiba Cumuru,  região do vilarejo  que inclui o núcleo urbano e arredores, tem cerca de 5.000 habitantes – e grande parte deles nasceu muito, muito longe. Dolores Lameirão, por exemplo, veio de Angola, na África, levando à Cumuru todo o co­nhecimento gastronômico que adquiriu em anos trabalhando como chef no seu continente e na Europa.

Foi nessas andanças que conheceu o suíço Walter Kunzi, com quem se casou e montou na cidade baiana o restaurante Mama África. Entre os pratos que unem a culinária africana e internacional há o popular Muamba, originalmente à base de frango e lá adaptado com os pei­xes da região, acompanhado do molho especial que dá nome à refeição. Para provar a especiaria, nem precisa ir em alta temporada – basta entrar em contato com Dolores e encomendar o prato que serve duas pessoas.

A gastronomia em Cumuru é bem caprichada. Além dos estrangeiros que levaram à região pratos bem particulares, há ótimos restaurantes de comida regional, que são beneficiados pela fartura do mar da Costa das Baleias. Peixes, camarões, lulas, polvos e lagostas dominam os pratos na vila. E, para os padrões das cidades turísticas, os preços até que não são salgados.

No restaurante Catamarã, come-se muito bem, o prato mais caro (e imperdível) é o arroz de polvo – espécie de risoto à base de leite de coco, azeite e coentro. O Catamarã fica no alto de uma falésia em frente à Praia da Areia Preta, uma das mais belas de Cumuru. O visual é espetacular.

Quando for ao restaurante, aproveite para descer na Areia Preta e caminhar até as praias Japara Grande e Japara Mirim. A última é a única praia de nudismo de Cumuru. É legal até para quem não é adepto do naturismo, pois mesmo na alta temporada não fica muito cheia. Assim como em todas as praias de Cumuru, o lance é curtir o mar quente e colorido em qualquer época do ano sem esbarrar em ninguém ou ser obrigado a ouvir o axé em alto volu­me que domina praias não muito distantes dali, como as de Porto Seguro.

Japara Mirim é do tipo que faz cair o queixo até de quem não é muito fã de praia. A larga faixa de areia é limitada por altas falésias, todas enfeitadas por coqueiros nas bordas. Não bastasse, o caminho entre o mar e a falésia é cortado por um bucólico rio, que desemboca no mar e é fruto das intensas variações da maré (fato, aliás, que nomeia o vilarejo – cumuruxatiba, em pataxó, significa “a grande diferença entre a maré baixa e a maré alta”). A mesma paisagem de mar e rio pode ser vista em outra bela praia, a Imbassaúba, enfeitada pelo rio de mesmo nome. Apesar de não ter as altas falésias das praias mais ao sul (as próximas ao Catamarã), o rio da Imbassaúba é parti­cularmente sinuoso, causando um efeito excepcional na areia.

Vale a pena perder o dia todo em uma praia assim, alternando entre o mar de água quentinha e ondas imprevisíveis e o tranquilo rio, mais frio e com simpáticos peixinhos explorando a borda. Só não esqueça de levar água e algo para enganar o estômago, porque nas praias de Cumuru não há barracas nem ambulantes.

Também não deixe de ir à Barra do Cahy, uma das melhores para banho, na divisa entre a Costa das Baleias e a mais ao norte Costa do Descobrimento. É a mais famosa de Cumuru, não apenas pela beleza, mas principalmente pelo passado histórico. Muitos historiadores e, claro, a população local, acreditam que foi exatamente ali que Nicolau Coelho, um dos capitães da frota de Cabral, travou o primeiro contato entre portugueses e índios. Essa teoria é reforçada por trechos da carta de Pero Vaz de Caminha e por fatos geográficos, como a vista particular nesse ponto do Monte Pascoal desde quilômetros no mar.

O show das jubarte

Baleias Jubarte em acasalamento em CumuruxatibaAo caminhar por essas praias,  você verá que o mar tem muita espuma, daquela que até fica alguns minutos desmanchando na areia depois que a onda recua. A espuma é consequência da união de ar e compostos orgânicos provenientes do mar. Ganha intensidade quando há ondas mais fortes para agitar a mistura.  O grande diferencial turístico da região é o avistamento de baleias jubarte, que visitam todos os anos as águas quentes desse trecho do litoral baiano para se reproduzir, no período de julho a novembro.

Conhecer essas baleias em Cumuru é uma experiência muito especial, por dois motivos. Em primeiro lugar, elas se reproduzem em águas rasas e calmas – portanto, próximo à costa, a no máximo uma hora de barco. Em segundo: as jubarte são muito exibidas.A menos que você tenha má sorte, vai ver não apenas um dorso enorme nadando junto à superfície, mas muito mais – pulos impressionantes, rabos espalhando água e diversos comportamentos de acasalamento que, para a sorte dos visitantes, são notados na superfície. Os pulos são a forma que os machos usam para chamar atenção das fêmeas e por isso, capricham. Já o rabo, que pode ficar vários minutos para fora, batendo na água, é a maneira sutil de as fêmeas dispensarem os pretendentes. E eles definitivamente não se incomodam com a presença do barco, seguindo com a rotina de paquera normalmente.

Mas é bom ressaltar: até encontrar as baleias e terminar o passeio satisfeito com o show, você provavelmente passará umas quatro horas no barco, remexendo ao gosto do mar. Por isso, nem pense em ingerir um café da manhã caprichado no dia. É bem recomendável para os que têm estômago mais fraco tomar algum remédio para enjoo pelo menos uma hora antes de se aventurar. Nada pode estragar mais o seu passeio do que uma reviravolta estomacal. 

Além das praias

Praia de Imbassaúba - CumuruxatibaVocê pode escolher entre passar um dia preguiçoso em uma praia, um dia explorador pipocando pelo litoral ou um dia aventureiro, procurando baleias em alto mar. São ótimos passeios para aproveitar o sol baiano, que só encerra o expediente bem tarde, depois das 18h. Não é uma boa ideia ficar na praia até escurecer, até porque muitas das estradinhas da região não têm asfalto nem iluminação. Portanto, antecipe-se: em um fim de tarde, corra ao mirante do Morro da Fumaça e aproveite a melhor vista da vila, enfeitada pelo mar ao fundo repleto de barquinhos de pescadores. Apesar de o sol não se pôr no mar, e sim na montanha oposta, a vista vale a pena.

Depois de curtir o espetáculo do mirante, outra vantagem: você já está perti­nho da vila, a poucos minutos de co­nhecer os pacatos estabelecimentos e simpáticos moradores de Cumuru. Um dos lugares lá que mais se enquadram nessas categorias (pacato e simpático) é o EspaSu, bistrô que é também um pouco de tudo. Além da cozinha deliciosa, o espaço da goiana Sued Vieira de Souza tem banca de revistas, locadora de DVDs, biblio­teca comunitária, loja de artesanato, internet wireless e brinquedoteca.

Perto do EspaSu, bem em frente à praça principal, o Ateliê Renata Homem é a loja de artesanato mais especial da vila. Seus quadros, potes, móbiles e mandalas são feitos de cerâmica e coloridos com estampas bem particulares – inconfundíveis até. Notei que quase todos os restaurantes e pousadas de Cumuru tinham alguma peça de Renata (e que também era bem difícil sair de seu ateliê sem alguma comprinha).

Outro lugar bacana para quem está atrás de arte é o Atelier Eliana Begara, há apenas um ano no vilarejo baiano. As peças não são tão exclusivas (quem conhece Cunha, a cidade paulista do artesanato, já viu coisas muito parecidas), mas ainda assim vale uma olhada. Eliana domina técnicas como o raku, tradicional queima japonesa. A visita é legal para conhecer as obras e também para aprender – a artista adora explicar como são feitas as peças.

Além do artesanato à base de cerâmica, você encontra na vila lojas com produtos indígenas feitos com materiais naturais. Os colares, por exemplo, são bem trabalhados e baratos. Em uma dessas lojinhas conheci a índia Naiá, que apesar de morar na vila (em uma casa que ganhou dos filhos), ainda preserva algumas tradições dos Pataxós. E capricha no visual se notar algum turista por perto.

Perto de Cumuru há diversas aldeias Pataxó, como a Cahi e a Tibá. Esta última fica a pouco menos de 10 km do centro e as agências de receptivo de Cumuru organizam passeios de carro ou jipe para quem quiser conhecê-las. É mais interessante na alta temporada (dezembro a março), quando os índios organizam apresentações de música e dança para os turistas.

Para quem estiver realmente interessado na cultura Pataxó, a dica é ir até a aldeia Barra Velha, entre Corumbau e Caraíva. O acesso a ela é possível somente por meio de barco. 

Pousadas de charme

Praia do Rio do Peixe Grande - CumuruxabaA melhor surpresa de Cumuru é que, ao mesmo tempo em que o vilarejo é simples e pacato, as opções de hospedagem são ótimas – tem até pousada com ar de cinco estrelas. A Rio do Peixe, considerada a top da região, fica em frente à praia Rio do Peixe Grande, a pouco mais de 2 km do centro. Não deixa nada a desejar em comparação com hotéis de cidades maiores – os apartamentos têm ar-condicionado, TV, frigobar, telefone, colchão de molas e varanda com rede. Adicione a isso o privi­légio de estar cercado de árvores, mar e nada mais e dá para imaginar um pouqui­nho a delícia que é se hospedar ali.

No mesmo estilo da Rio do Peixe (e a poucos metros no sentido do centro), a Pousada É conquista o hóspede com café da manhã repleto de pães preparados lá mesmo, quartos aconchegantes com vista para a praia, piscina e bar lateral pé na areia e a deliciosa cozinha comandada por Esther Faria – a lagosta flambada no uísque e servida com molho especial, que ela prepara, é deliciosa. Se você ficar na É, escolha um dos quatro quartos com mezanino, onde fica a cama de casal. Além de espaçosos, têm a melhor vista da pousada.

Se você continuar seguindo a estrada de terra em direção ao centro, vai passar ainda pela Uai Brasil e a Pousada das Cores. Não tem erro: ambas são muito bem cui­dadas, com comidas caprichadas e distância pequena do mar, na mesma praia Rio do Peixe Grande. Há algumas boas pousadas na vila também, recomendadas para quem não está com condução própria – depende da van da operadora, por exemplo. As pousadas Axé e Clara são os destaques  do centro, com piscinas, varandas e todos os serviços mais básicos. Não têm o charme de um quarto em frente ao mar, mas ao menos o hóspede fica pertinho dos restaurantes, da praça (com apresentações de dança, capoeira e dos índios na alta temporada) e do forró – a única balada da vila.

Na realidade, se você tiver disposição e uma lanterna, dá para ir a pé das pousadas na praia até o centro. Pode ser até uma aventura a mais. Vá cedo, quando ainda estiver escurecendo, para ter tempo de cami­nhar na vila e conversar com os moradores, a maioria pescadores e descendentes de Pataxós – sem falar naqueles que vieram de fora e acabaram ficando. Nesse exercício, topei com um “figura”, um ino­fensivo “bebum” com jeito de amante latino, que se apre­sentou como “Cigano, o cara mais bonito de Cumuru”. Gente engraçada e hospita­leira é algo comum nesse refúgio litorâneo no sul da Bahia. 

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