Desfrute do contraste entre o mar e a floresta na paradisíaca praia de Itacaré
Itacaré tem mesmo algo de especial se comparada a outras praias do Nordeste. A começar pela geografia marcada por morros à beira-mar que desenham enseadas pequenas, algumas tão diminutas que nem aparecem nos mapas, escondidas por um lençol verde de mata atlântica. Nada que lembre os praiões a perder de vista que caracterizam quase toda a costa nordestina. A comparação mais próxima poderia ser feita com as praias do litoral norte paulista, só que com mar bem mais azul, com muito mais coqueiros e bem menos loteamentos.
Para completar o cenário, diversos rios de água cristalina escorrem pelas encostas, formando dezenas de cachoeiras acessíveis por trilhas no meio da mata. Em um único passeio dá para tomar banho de mar e de cachoeira, numa imersão completa na natureza.
As boas condições de preservação das praias de Itacaré devem-se em grande parte às fazendas de cacau, que protegeram a região da especulação imobiliária. Durante décadas, pouca gente sabia da existência daquelas praias. O acesso se dava apenas por propriedades particulares cujos donos nem sempre gostavam de estranhos andando sem autorização pela área. Outro motivo foi a dificuldade de chegar lá, pois, há cerca de 20 anos, havia apenas uma estrada “transitável”, que partia de Ilhéus, para chegar à cidade. A viagem levava horas em função da buraqueira que caracterizava o caminho. Era coisa para aventureiros.
Os surfistas, sempre eles, foram os primeiros a chegar em busca das melhores ondas da Bahia. Logo espalharam que atrás daquela mata fechada havia praias que ninguém jamais sonhou. A notícia correu e os primeiros turistas sem prancha começaram a aparecer para conferir se o boato era mesmo verdade. Não levou muito tempo para Itacaré se tornar a praia da vez e passar a receber gente de várias partes do Brasil. O litoral baiano parece ter mesmo uma capacidade interminável para revelar, de tempos em tempos, um novo destino nota 10.
Durante esse período, Itacaré ganhou muitas pousadas, resorts de luxo e bons restaurantes. Deixou de ser um lugar apenas para aventureiros, ainda que continue sendo um destino informal, para ser curtido à vontade, de chinelo e roupa de banho. Portanto, esqueça sapato fechado e perfume importado. O lugar tem vocação para o ecoturismo. A cidade cresceu nos últimos anos, mas sempre sob a bandeira da ecologia.
Praias urbanas
Assim que chegar a Itacaré, você pode errar o caminho à vontade que as ruas dão sempre no mesmo lugar. Engate a segunda marcha e já conheceu a cidade inteira. No centrinho, vai perceber algumas casas de fachadas coloridas, dos tempos do auge da lavoura do cacau, e a bela Igreja de São Miguel, construída em 1718. Itacaré já teve pompa. Mas não espere encontrar charme – esse substantivo é usado bem mais ao sul, pelos lados de Trancoso. Saiba também que rola até um certo caos durante a alta temporada, já que as ruas são estreitas demais para tanto carro. O melhor mesmo é sair caminhando. Passe pela Rua da Orla, entre na Lodônio de Almeida, siga pela Pituba e terá visto o principal.
Meia dúzia de praias também podem ser alcançadas rapidinho, sem precisar pegar o carro. A primeira é a Praia da Coroinha, praticamente na foz do Rio de Contas, uma baía de águas abrigadas e tranquilas. É o pedaço dos nativos e do “baba”, como os baianos chamam o futebol sem compromisso. É mais frequentada por moradores do que por visitantes, tem muitos barquinhos de pesca ancorados e um excelente restaurante, o Casarão Amarelo.
No final da Coroinha, uma subida de terra leva à vizinha Praia da Concha, que apesar de ser uma praia quase urbana conseguiu manter o concreto a uma distância razoável. Ali está concentrada a maioria das boas pousadas de Itacaré. Mas quem está na praia não vê construção alguma do outro lado do coqueiral.
Concha tem mar calmo e por isso costuma ser frequentada por famílias com crianças. Há muitas barracas que espalham mesas e cadeiras de plástico na areia. Num canto fica o farol que orienta os barcos na saída do rio e, no outro, uma ponta de pedras onde o pessoal se junta para ver o pôr do sol embalado pelo som do berimbau de algum nativo tocando por perto. Concha é a praia da capoeira, do banana boat e do forró.
Seguindo em frente pela Rua da Pituba, a principal de Itacaré, há acesso rápido para quatro praias: Resende, Tiririca, Costa e Ribeira. São faixas de areia curtas, quase coladas uma à outra, separadas apenas por costões de pedras. Na primeira delas são oferecidas aulas de surfe e de capoeira – os gringos adoram. Tiririca, logo em seguida, é o melhor point de surfe da Bahia. Tem boas ondas, serviço de praia e vive cheia de surfistas e moças bonitas. A Costa é sempre vazia e com estrutura que se resume ao isopor que alguns moradores levam para vender bebidas e água de coco. No final da rua, fica a praia da Ribeira, onde há barracas, som alto e muitas mesas para passar o dia entre petiscos.
Trilhas para chegar ao paraíso
Mas nem tudo é assim tão perto. Para chegar às melhores praias é preciso encarar caminhadas por trilhas, caso da Prainha, ao final de uma picada de 40 minutos mata adentro. É aconselhável contratar um guia, pois o caminho tem algumas bifurcações que podem confundir. Os garotos com camiseta azul da Associação de Condutores ficam concentrados no estacionamento da Praia da Ribeira, onde começa a trilha.
Embora não haja consenso sobre qual é a praia mais bela de Itacaré – 14 delas estão na disputa –, a Prainha é considerada uma das mais bonitas. Tem mar bravo, uma espessa fileira de coqueiros à beira-mar e pouca gente na areia, mesmo no verão. Essa é outra vantagem de Itacaré. Com tantas praias à disposição, os visitantes se espalham e sobra muito espaço para estender a esteira.
Ao pegar a mesma estrada de volta a Ilhéus há outra sequência espetacular de praias. Porém, nenhuma próxima o bastante para ir a pé. É preciso alugar um carro ou contratar um passeio com as agências de turismo locais. São José é a primeira delas, um lugar praticamente exclusivo dos hóspedes dos resorts Itacaré Village e Ecoresort. Jeribucaçu, mais adiante, tem acesso para veículos somente até uma parte do trajeto. O trecho final do caminho pode ser feito em uma caminhada de meia hora por uma estrada de terra que desce até chegar no leito de um rio que desemboca no mar. Ali, um gramadão repleto de coqueiros estende-se até a areia e forma um dos visuais mais incríveis de Itacaré.
Bem mais fácil é chegar a Itacarezinho, que, apesar do nome, é um praião com cinco quilômetros de extensão, a única afastada da cidade que não exige caminhada – dá para ir de carro até a areia. Os frequentadores mais famosos do pedaço nem são as celebridades que hospedam-se no Txai, um dos resorts mais exclusivos e elegantes do país, que fica nessa praia, mas as tartarugas que a escolheram para colocar seus ovos.
Entre setembro e março, os simpáticos quelônios chegam diariamente para fazer os ninhos que, 45 dias mais tarde, vão liberar dezenas de tartaruguinhas apressadas em correr em direção ao mar.
Ecologistas trabalham na proteção das tartarugas de Itacaré, todos os dias, os dois percorrem a praia para marcar os ninhos e monitorar a eclosão dos ovos. O trabalho é mantido pelo Txai, sob orientação do Projeto Tamar. A soltura de filhotes virou uma das grandes atrações do lugar, aguardado com ansiedade pelos hóspedes do Txai e que também pode ser vista pelos banhistas que estiverem na frente do resort na parte da manhã.
No canto esquerdo de Itacarezinho parte uma trilha que leva a Camboinha e Havaizinho, duas praias pequenas, desertas e muito encantadoras. A segunda é uma das mais fotogênicas e com um nome que faz jus à beleza que tem. Dela parte outra trilha, a qual, em 20 minutos, conduz até a Praia da Engenhoca.
Além das praias
Em todas as praias de Itacaré o que mais encanta é o contraste entre o mar e a mata atlântica. Num mesmo passeio é possível combinar um mergulho no mar morro abaixo e um banho de cachoeira morro acima. E no calorão da Bahia, ninguém tem medo da água fria. A cachoeira mais visitada é a do Tijuípe, com entrada próxima de Itacarezinho. Tem boa estrutura de lazer e até um restaurante com mesas para almoçar ao ar livre. Bem próxima de Jeribucaçu fica a Cachoeira da Usina, deliciosa, com cerca de dez metros de queda e um poço fundo.
O Rio de Contas ajuda a enriquecer a paisagem ainda mais. Esse rio, aliás, rende as cenas mais prosaicas de Itacaré. É onde a cidade abandona o lado surfista e mostra a essência de vila de pescadores.
Ali, frondosos troncos de árvores transformaram-se em canoas que servem de meio de transporte para os ribeirinhos. Vez por outra, elas servem aos turistas que vão à Cachoeira do Cleandro, dois quilômetros rio acima. Leva cerca de uma hora a silenciosa navegação à beira do manguezal, até chegar na entrada do sítio onde fica a cachoeira. No caminho, a canoa segue por um braço de rio no qual a vegetação das margens forma uma espécie de túnel verde. O passeio toma cerca de quatro horas, mas sempre sobra um tempinho para pegar uma praia na volta.
O Rio de Contas proporciona também os momentos de maior adrenalina. Em Taboquinhas, a uma hora de carro de Itacaré, um trecho com muitas corredeiras garante um dos melhores raftings do Brasil. Se você nunca experimentou a sensação de descer um rio turbulento a bordo de um bote inflável, não faz ideia do que está perdendo. A melhor época para fazer esse rafting vai de junho a agosto, durante o período de chuvas, quando o nível das águas está alto. Radical demais? Pois Itacaré tem dessas coisas. Não é nenhuma Brotas, mas tem uma boa oferta de esportes de aventura. As agências de turismo da cidade exibem um cardápio que inclui caminhadas pelas praias, trilhas para as cachoeiras, rapel, tirolesa...
Centro de Esportes Interatividade
E ninguém precisa ser metido à Indiana Jones, já que qualquer um pode curtir um dia bem agradável no Centro de Esportes Interatividade. Trata-se de um parque com 260 hectares de área, no qual o visitante participa de um circuito em que começa encarando uma parede de escalada e continua por um cabo aéreo, uma trilha com cachoeira e uma tirolesa, entre outras atividades, até terminar no pêndulo, um “brinquedo” no qual a pessoa, amarrada a uma corda, se joga em queda livre de uma altura de quase dez metros e, depois, fica balançando para lá e para cá.
Com tantas opções assim, é fácil concluir que Itacaré não é exatamente o tipo de lugar para quem gosta de ficar parado. Com exceção dos hóspedes dos resorts, que aproveitam as mordomias e a estrutura de piscinas e restaurantes, o turista, em geral, tem dias bem movimentados.
Um dia típico começa cedo com algum passeio, que pode ser uma caminhada até uma praia deserta, banho de cachoeira na volta, seguido de almoço e um leve descanso antes de retornar, no final do dia, para ver o pessoal jogar capoeira ao pôr-do-sol. Na sequência vem o jantar num lugar legal, bater perna na Rua da Pituba e depois, se ainda tiver pique, dançar nos forrós da Praia da Concha. Isso se a programação não incluir uma aula de surfe ou capoeira na praia. Ou o passeio de canoa para a Cachoeira do Cleandro – há remos no barcos para quem quiser dar uma força para o canoeiro.
Itacaré é assim, agitada, convidativa aos esportes e à vida saudável. Os passeios e os muitos mergulhos dão uma fome danada e o sono chega pesado ao cair da noite. Em poucos lugares dorme-se tão bem quanto lá, a menos que sua pousada seja ao lado do forró.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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