Praia do Forte une o turismo de luxo a simplicidade de uma vila de pescadores

As piscinas naturais do Papa-Gente: a Praia do Forte vira um grande aquário na maré baixa (Foto: Revista Viaje Mais)
A Praia do Forte é diferente de todas as outras praias da Bahia. Fica ao lado de Salvador, a apenas 50 km, distância percorrida em uma hora de carro. Mas lá não há alto-falantes liberando axé no último volume, nem jet ski ou banana boat zanzando no mar em frente. A praia de areias brancas, que se estende por 12 km, é cercada por uma interminável fileira de coqueiros e tem arrecifes, que, na maré baixa, expõem piscinas naturais. Até aí, tudo normal, pois não é mesmo a beleza da praia ou a proximidade com a capital que torna este destino litorâneo diferente dos outros.
O que faz da Praia do Forte um lugar especial no vasto e concorrido litoral baiano é a estética do bom gosto, que tomou conta do vilarejo de dez mil habitantes. Lá, lojas bacanas estão ao lado de restaurantes gourmet, harmoniosamente combinados com a autenticidade da vila de pescadores, com ruas de terra e traineiras de pesca ancoradas na praia.
É curioso: ao lado da butique elegante, nativos batem papo. Em frente à joalheria, há uma barraquinha vendendo cocadas. A turista de bolsa Louis Vuitton toma sorvete sentada no mesmo banco onde uma senhora de pele bem bronzeada faz artesanato de palha. Esses dois universos tão diferentes convivem, em sintonia, ao longo da rua principal da vila, batizada de Avenida ACM, ou Antônio Carlos Magalhães. Afinal, a Praia do Forte fica na Bahia.
A Avenida ACM, na realidade, é um nome megalomaníaco para um agradável calçadão arborizado, onde está o comércio e os bons restaurantes do lugar. Carros são proibidos de circular. Devem ficar estacionados nos bolsões do lado de fora do centrinho. Para conhecer o vilarejo, portanto, só caminhando, o que é um grande prazer, já que as grandes atrações ficam perto umas das outras.
Os únicos veículos autorizados a rodar na rua principal são as coloridas bicicletas, adaptadas com bancos para transportar até quatro pessoas. Lembram os riquixás da Índia ou os tuc tucs da Tailândia. É um transporte diferente, simpático, e não existe nada igual em outra praia do Brasil.
Em nome da tal estética do bom gosto, até os postes foram abolidos e toda a fiação elétrica da Avenida ACM foi transferida para debaixo do solo. Não há letreiros luminosos no comércio, nem luzes na beira da praia, já que a claridade interfere no senso de orientação das tartarugas marinhas, que escolheram a Praia do Forte como principal ponto de desova de toda a costa brasileira.
Num primeiro momento, poucos notam todos esses detalhes, apenas percebem que o lugar tem um astral realmente legal, com muita ordem e sossego.
Regras, muitas regras
O sucesso do projeto urbanístico da Praia do Forte é fruto de um trabalho de turismo responsável que começou na década de 1970, quando inúmeras regras foram implantadas para que o lugar não sofresse com o crescimento desordenado. Uma delas proíbe que qualquer construção ultrapasse a altura de um coqueiro adulto e fique visível na paisagem. Assim, quem está na praia e olha em direção à vila vê apenas coqueiros, o que é muito mais agradável do que olhar um prédio. Outra regra determina que quem derrubar uma árvore terá de plantar outras quatro no lugar, sob pena de também receber uma multa.
O resultado é que a Praia do Forte transformou-se numa das vilas de praia mais autênticas da Bahia, onde impera um louvável sentimento de preservação. Lá está a sede do Projeto Tamar, a ONG que cuida da proteção das tartarugas marinhas e que, em 2011, completou 30 anos de atividades. Nesse tempo, nada menos do que dez milhões de filhotes de tartarugas nasceram por lá e foram delicadamente conduzidos ao mar pelos biólogos e técnicos do Tamar. Conhecer as diversas espécies desse animal nos tanques da sede do projeto é um dos programas mais indicados para fazer por lá.
Por tudo isso, a Praia do Forte talvez seja o melhor exemplo de turismo sustentável do litoral do Brasil. E deve grande parte desse sucesso a Klaus Peters, um empresário paulista, neto de alemães, que se encantou com a praia e arrematou toda a região há cerca de três décadas, quando as fazendas de coco dominavam aquele trecho da costa baiana. Temendo pelo futuro do lugar, Peters doou parte da propriedade para a prefeitura local, transformando a antiga vila de pescadores numa espécie de micromunicípio. Ele estabeleceu, ainda, as regras de urbanização para o crescimento da vila, que desde aquela época evolui sob a bandeira verde que defende a ecologia.
Peters também apoiou a criação do Projeto Tamar, iniciando a conscientização da comunidade que, por gerações, se alimentou da carne e dos ovos das tartarugas. O empresário ainda entregou, gratuitamente, a posse das casas aos moradores, com a condição de que eles não as vendessem aos forasteiros, motivo da original convivência na vila entre moradores e turistas.
O resort que é uma praia
A grande cartada de Klaus Peters, porém, foi a construção do Praia do Forte Ecoresort, em 1985, que não só gerou centenas de empregos diretos e impulsionou fortemente o turismo local, como também consolidou a praia baiana como um destino turístico de fama internacional. À reboque do resort, vieram as pousadas de charme, como Farol das Tartarugas e Refúgio da Ilha, além das lojas transadas e das dezenas de bons restaurantes. Há cinco anos, o ecoresort pertence à rede portuguesa Tivoli, que vem trabalhando na reforma e na redecoração dos apartamentos.
O Tivoli Ecoresort impressiona pelo belíssimo projeto arquitetônico. Tem estrutura horizontal, com blocos de, no máximo, dois andares, espalhados por um enorme jardim de 300 mil metros quadrados. Assim, a sensação é de que o hotel surge naturalmente em meio à vegetação.
Os quartos do piso térreo, dotados de sacada, têm acesso direto a um gramado cheio de coqueiros à beira-mar, onde ficam as piscinas, os quiosques com espreguiçadeiras, os restaurantes e o spa.
É um grande barato curtir a piscina de borda infinita quase na areia da praia, que tem a água no mesmo nível da linha do mar.
Outro detalhe é que o resort não trabalha no sistema all inclusive, que virou moda entre os resorts baianos, justamente para incentivar seus hóspedes a passear e jantar no vilarejo.
Proposta diferente tem o vizinho Iberostar, um complexo com dois mega resorts de sistema all inclusive, com uma estrutura digna de minicidade autossuficiente. Os dois Iberostar contabilizam mil acomodações e oferecem um espetacular parque aquático, campo de golfe à beira-mar e cinco restaurantes, que exploram especialidades da culinária baiana, japonesa, italiana e mediterrânea.
Quem vai ao Iberostar Bahia ou ao Iberostar Praia do Forte normalmente não quer sair de lá para nada. No máximo, vai caminhar um pouco pela praia, mergulhar nas piscinas naturais ou visitar o Projeto Tamar, para logo retornar e aproveitar toda a mordomia e as atividades de lazer ao redor das piscinas. Isso sem contar a variedade de sabores nos bufês dos diversos restaurantes do complexo.
A Praia do Castelo
A Praia do Forte também recebe outro perfil de turista: aquele que gosta de bater perna, o qual inevitavelmente vai visitar o Castelo Garcia d’Ávila. A construção histórica fica bem próxima da vila e acabou dando nome à praia, muito embora não seja propriamente um castelo, nem um forte.
A edificação, hoje em ruínas muito bem preservadas, é uma grande casa, construída por volta de 1550, que serviu de morada para o português Garcia d’Ávila, almoxarife da expedição real de Tomé de Souza, que se tornou dono do maior latifúndio do mundo à época: uma imensidão de terras que ia da Bahia ao Maranhão, cerca de 10% de todo o território brasileiro.
A casa construída com pedras, à semelhança das construções medievais – o que explica o “castelo” incluso no nome do local –, era a sede desse latifúndio, responsável, entre outras coisas, pela introdução do maior símbolo do Nordeste: o coqueiro, trazido da Ásia. A árvore se adaptou e casou tão bem com a paisagem da região que ninguém teve coragem de mandar arrancar o interminável coqueiral que se formou naquele trecho do litoral baiano, que não por acaso recebeu a alcunha turística de Costa dos Coqueiros.
Na Praia do Forte, os coqueiros ajudam a compor, junto com uma grande barreira de arrecifes, a mais inusitada paisagem do litoral norte da Bahia. Na maré baixa, com a vazante da água, formam-se piscinas naturais que represam peixes coloridos.
Os nativos alugam máscara de snorkel para quem quiser mergulhar nas águas que ficam iguais a aquários, transparentes e cheias de vida marinha. Com a vantagem de que, com o calor do sol, a temperatura da água das piscinas naturais é quase morna. O espetáculo ocorre diariamente, ao longo de praticamente toda a praia, que tem 12 km de extensão.
A encantadora e exótica paisagem, que “visita” a vila todos os dias, não existe em qualquer lugar. Mas a Praia do Forte, como se disse, é mesmo diferente de todas as outras.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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