Velejar e mergulhar nas Ilhas Virgens Britânicas pode ser uma boa dose de aventura
Muito mais do que pelo mar que exibe matizes de turquesa ao azul profundo e das quase infinitas praias de areia fina e branquíssima, as Ilhas Virgens Britânicas, no mar do Caribe, a leste de Porto Rico, são famosas pela inegável vocação marítima. É um dos melhores locais para velejar e um dos dez melhores pontos de mergulho do mundo. Seus naufrágios – são mais de 400 registrados, a maioria em águas rasas – atraem mergulhadores de várias partes do mundo. Há até um evento especial dedicado a eles, a Wreck Week, ou semana do naufrágio.
É verdade que as Ilhas Virgens Britânicas, ou simplesmente BVIs (pelas iniciais em inglês), não são um destino habitual para os brasileiros – a dificuldade de acesso e a exigência de visto norte-americano para a escala obrigatória em Miami ou San Juan, em Porto Rico, são um bom motivo para que outros destinos no Caribe sejam mais populares. No entanto, se você gosta de mergulhar e busca por algo diferente, cercado por lendas e mistérios e temperado por uma boa dose de aventura, pode acreditar: fará uma viagem única.
Foi lá que um certo Edward Thatch, capitão do galeão Queen Anne's Revenge, se refugiou entre os anos de 1715 e 1718. Diz a lenda que Thatch foi vítima de um motim, mas conseguiu dominar a rebelião. Como vingança, fez caminhar os rebeldes na prancha ao largo da Ilha Dead Chest, ameaçando passar no fio da sua espada os que hesitassem, enquanto cantava, ironicamente, “Yo,ho, ho, e uma garrafa de rum”. Não havia capitão de navio que singrasse as águas caribenhas àquela época que não tremesse à simples menção de sua alcunha: Barba Negra.
Rota de galeões
Além do notório malvado, muitos outros piratas e corsários famosos agiam na região, rota obrigatória dos galeões repletos de prata e ouro que seguiam para a Europa. É bem provável, inclusive, que as histórias de um tio marinheiro de Robert Louis Stevenson, que esteve na ilha Norman, tenham inspirado o célebre autor inglês a escrever as aventuras de Jim Hawkins no clássico da literatura A Ilha do Tesouro, em 1883.
Não há mais piratas por lá, mas sua memória continua preservada. Seja nas bandeiras pretas com a caveira sobre os ossos cruzados hasteadas nos mastros dos veleiros, ou no rum, usado como base para coquetéis como a piña colada, que lá leva também suco de laranja além dos tradicionais abacaxi e coco, e o bushwacker, misturado a licores. Mas, principalmente, está na imaginação de quem se aventura pelas ilhas que outrora ofereceram refúgio e abrigo aos mais famosos flibusteiros da história e que hoje levam seus nomes – Thatch, Norman, Morgan, Jost van Dyke... O maior deles, Sir Francis Drake, dá nome ao canal que “corta” o arquipélago ao meio.
A aventura começa antes mesmo de se chegar à Road Town, a capital, na ilha de Tortola, assim batizada pela imensa revoada de rolinhas (tórtola, em espanhol) que vivia lá. A partir de San Juan, a capital de Porto Rico, a cidade é servida por voos da American Airlines, por meio da sua subsidiária American Eagle, e pela Cape Air, uma pequena companhia que voa para vários destinos no Caribe. Fui de American até Porto Rico e, de lá, pela Cape Air. E recomendo que você faça o mesmo. O voo da Cape Air foi uma experiência e tanto.
Semana do naufrágio
Os naufrágios são mesmo a maior atração. Como estão em águas rasas, são acessíveis até por quem tem apenas o curso básico, desde que acompanhados por um dive master – um mergulhador experiente que lidera um grupo de mergulhadores. Exatamente por isso, existe uma semana inteirinha dedicada a eles quando os operadores oferecem pacotes com várias saídas e preços especiais e há festas e luaus nas praias.
O mais famoso naufrágio das BVIs é, sem dúvida, o RMS Rhone, um grande navio a vapor de 94 metros de comprimento que transportava passageiros, cargas e também fazia o serviço postal entre a Inglaterra, a América do Sul (sim, havia escalas no Brasil) e o Caribe.
RMS, significa Royal Mail Stea-mer, ou vapor postal real. Naufragou durante uma tempestade em 1867, próximo da Salt Island (Ilha do Sal) quando sua imensa caldeira explodiu e o separou em duas partes – normalmente exploradas em dois mergulhos distintos, um na proa, praticamente intacta, e outro nos destroços da popa, em profundidades que variam de 8 a 27 metros. Mergulhar no Rhone era a minha maior expectativa. Após quase 150 anos submerso, o imenso casco e o mastro principal continuam em boas condições. Mergulhadores experientes e habilitados podem, inclusive, entrar.
À primeira vista, os corais presos à estrutura se mostram em tons de azul. É que, à medida que a profundidade aumenta, as cores quentes vão sendo filtradas camada de água e ficam invisíveis ao olho humano. Uma lanterna, no entanto, é o suficiente para devolver os amarelos, laranja e vermelhos perdidos, revelando, como um pincel nas mãos de um mestre impressionista, uma bela, colorida e intrincada estrutura de corais e esponjas..
Escolha a sua ilha
Embora o arquipélago seja composto por mais de 60 ilhas, a maioria não é habitada, sendo acessível apenas por barco. Há três ilhas principais, com várias opções de hospedagem, passeios e, claro, praias paradisíacas. Além de Tortola, vale a pena também conhecer a sofisticada Virgem Gorda, a pequena e incrível Jost van Dyke, ideal para passeios de um dia. Mais afastada, ao norte, há também a ilha Anegada, famosa pelas enormes lagostas.
Tortola abriga a capital, Road Town, e o aeroporto. É a sua porta de entrada nas BVIs. Ao longo da ilha existem muitos hotéis-marina, perfeitos para hospedagem, e de onde toda a vida começa, pois é a partir deles que você pode fretar veleiros com ou sem tripulação e contratar saídas de mergulhos. Também em Road Town você encontra um pequeno centro comercial, bons restaurantes, pubs e alguma agitação.
Há muitas opções de praias também, mas uma obrigatória é a belíssima Smuggler’s Cove, onde você pode nadar em piscinas naturais excelentes para o snorkelling na companhia de pelicanos que aparecem para pescar.
Outra parada obrigatória é a ilha de Virgem Gorda, acessível a partir do centro de Road Town por um serviço de ferry-boats – a única linha regular de transporte marítimo nas BVIs. A ilha, extremamente bela, possui praias excelentes para o snorkelling e ainda o complexo Baths National Park, que você não pode perder por nada. Após uma pequena trilha de pouco mais de 300 metros você chega à primeira praia, onde palmeiras parecem brotar de grandes blocos de granito. A segunda praia, Devil’s Bay, é acessada por um labirinto de grutas e alagados rasos, em meio a grandes blocos de granito. A trilha não é difícil, mas deve ser evitada por pessoas com pouca mobilidade.
A pérola da visita é, sem dúvida, a pequena e charmosa Jost Van Dyke. Com pouco mais de 200 habitantes permanentes, uma escola para apenas 35 alunos, as praias são a principal atração. À sua volta ficam as dezenas de bares e restaurantes, frequentados principalmente por quem a acessa de barco em passeios de um dia.
As águas protegidas do canal Sir Francis Drake tornam a navegação extremamente prazerosa, especialmente para os veleiros. Hasteie sua bandeira pirata: com um cardápio de mais de 60 ilhas à disposição, as Ilhas Virgens Britânicas merecem ser invadidas. E explorá-las pode ser uma emocionante caça ao tesouro, premiada, quase sempre, com paisagens estonteantes e praias quase desertas e maravilhosas.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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