Surpreenda-se com o visual árido da pequena cidade de Cariri
No sul do Ceará, há uma microrregião da qual muitos já ouviram falar, mas que poucos conhecem. O Cariri já abrigou dinossauros, peixes, espécies animais do sertão seco e de mata tropical – sem mencionar os índios kariri e nas tribos pré-históricas. Hoje consagrado pelas músicas de Luiz Gonzaga e poesias de Patativa do Assaré, a região é um grande berço cultural. Mas essa é a única noção que eu tinha sobre o lugar, que não se provou completamente equivocada.
A porta de entrada para o Cariri (que compreende as cidadezinhas de Juazeiro, Crato, Barbalha, Santana do Cariri, Nova Olinda, Assaré, Altaneira, Jardim, Porteiras e Missão Velha) é o Aeroporto Regional de Juazeiro do Norte. Pousei lá na minha segunda tentativa – na primeira vez, a chuva era tanta que o aeroporto ficou interditado por muitas horas. Chuvas torrenciais em pleno sertão nordestino?
A paisagem não tem nada a ver com aquela imagem árida, onde apenas cactos sobrevivem e a avermelhada areia desértica predomina na paisagem. Claro, ainda há muitos lugares assim no Nordeste, mas o Cariri passa longe disso. Lá, a cor é o verde, permeado pelo marrom da imponente Chapada do Araripe, que vai desde Pernambuco até o Piauí.
O Cariri não tem nada de árido
Quando chove, mais entre dezembro e maio, as nascentes são fartas e a mata, exuberante. As temperaturas não são tão altas quanto no resto do ano (quando picos de 40°C não são raros), e na serra pode até fazer um friozinho.
Esse período é o que eles chamam de inverno e, apesar do clima agradável, não é a melhor época para se conhecer o Cariri – as chuvas insistentes atrapalham passeios, interditam estradas e dificultam o acesso ao aeroporto. Estruturalmente, a região não está preparada para receber turistas nessa estação do ano.
Aliás, a estrutura para o turismo no Cariri ainda é precária. Por isso, a região é indicada para viajantes mais aventureiros, que não vão se intimidar com os excessivos buracos na estrada e os simpáticos jegues que vira-e-mexe cruzam o caminho. Mas se, por um lado, as estradas e os aeroportos deixam muito a desejar, por outro os hotéis da região são surpreendentes: há desde opções mais urbanas, com piscinas e quartos equipados com TV e ar-condicionado, até versões ecológicas e tranqüilas, como o Sítio Pinheiros, com chalés isolados em meio às plantas da preservada região de Barbalha, a mais famosa pelas fontes e nascentes.
Quando se trata de natureza, o Cariri é muito especial. Cortado pela Chapada do Araripe, oferece um visual inesperado em meio a uma região teoricamente infértil. A exuberância é tanta que, no trecho da Chapada inserido na cidade de Crato, há a Floresta Nacional do Araripe, que abrange 500 km² de área protegida desde 1946 – foi a primeira unidade de conservação da natureza do Brasil.
A natureza conta a história
Como se as inesperadas formações e nascentes da chapada não fossem suficientes, a natureza do Cariri conta histórias ainda mais surpreendentes.
Cientistas e pesquisadores de várias partes do mundo vão até lá estudar os fósseis encontrados na região, especialmente preservados devido a uma particularidade geológica: há milhões de anos, o Cariri era coberto pelo mar, fato que pode ser comprovado pela grande quantidade de sal na terra e pelos fósseis de animais marinhos, como estrelas do mar, descobertos todos os anos. A maior graça disso, porém, não é se deparar com vestígios de animais do mar hoje tão distante e sim seu estado de conservação. Devido ao excesso de sal, já foram encontrados na região fósseis de dinossauros muito bem preservados, o que fez com que fosse inaugurado em Santana do Cariri o primeiro geopark das Américas.
Nomeados pela Unesco, os geoparks são áreas de preservação ambiental reconhecidas por seu interesse científico. O Geopark Araripe é composto por uma rede de monumentos naturais protegidos, que ocupam um território de cerca de 5.000 km². A porta de entrada para conhecê-lo é Santana do Cariri, que também abriga o Museu de Palentologia, onde são reunidos achados de um dos mais representativos sítios fossilíferos do planeta. Vinculado à Universidade Regional do Cariri, o Museu possui quase 10.000 peças de registros fósseis que abrangem espécies aquáticas e terrestres da Bacia Sedimentar do Araripe, contando a história da evolução da vida animal por meio de registros de até 110 milhões de anos.
Além do Geopark Araripe, há na região do Cariri outras nove áreas de preservação menores, eleitas pelo mesmo valor científico. São os geotopes. E cada um deles representa um tempo geológico definido, que ajuda a compreender origem, evolução e estrutura geológica e biológica da região. Ficam nas cidades de Arajara, Santana, Ipubi, Nova Olinda, Batateiras, Missão Velha, Devoniano, Granito e Exu (a última, já no território de Pernambuco).
Cariri da cultura
Mais singular que a natureza e até mais raro que os fósseis de Santana, o melhor que o Cariri tem a oferecer é sem dúvida a cultura. O Nordeste todo é conhecido por preservar algumas tradições de forma mais efetiva. No Cariri, isso é ainda mais presente. Talvez devido a relativo isolamento do resto do País, a microrregião mantém o hábito das terreiradas (festas de rua, realizadas no quintal do anfitrião), se orgulha de seus mestres de cultura, organiza os reisados – festa com música, dança e fantasias que envolve toda a comunidade, de crianças a idosos –, produz literatura de cordel e xilogravuras, lê e homenageia seu poeta-símbolo, o Patativa de Assaré, e mantém fortíssima a religiosidade baseada no amado “padim” do Cariri: o Padre Cícero.
Juazeiro do Norte, a maior e mais conhecida cidade da região, é também a mais preparada para receber visitantes. Lá, viveu e morreu o mais brasileiro dos padroeiros. O Padre Cícero e as heranças que deixou para a cidade, como igrejas, memorial e a emblemática estátua do Horto, atraem todos os anos três grandes romarias – a de Nossa Senhora das Candeias, em 2 de fevereiro; a de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro; e a romaria pelos Finados, em 2 de novembro. Participam de cada uma delas centenas de milhares de romeiros, grande parte deles de outras regiões do sertão nordestino. É bom saber disso não só para conhecer a importância do “Padim” para aquele povo como também para fugir dessas datas, caso seu objetivo não seja peregrinar na lotadíssima ladeira do horto, que leva à estátua do padroeiro.
Se você for nos tranquilos períodos em que não há romarias ou nenhuma grande data religiosa, poderá aproveitar também outras atrações da cidade, como a imperdível Lira Nordestina. Trata-se da primeira gráfica de literatura de cordel, de 1956, que tem até hoje as robustas máquinas para a produção dos livrinhos e xilogravuras por meio de diferentes tipos de prensa.
Hoje, a casa funciona mais como museu do que como gráfica propriamente, e o visitante mais interessado pode não só conhecer as ferramentas de produção como assistir a uma demonstração feita por um dos rapazes que há anos tomam conta das ilustrações, como Airton Laurindo, de 26 anos. O jovem me mostrou o funcionamento da gráfica e me contou a história do Príncipe Ribamar da Beira Fresca, dos livrinhos de cordel, um louco visionário apaixonado pela Gioconda de Da Vinci que realmente existiu, percorrendo as terras de Juazeiro nos anos 1950 e 1960.
Na parte comercial da cidade, há também outro ponto cultural muito interessante: o Centro de Artesanato Mestre Noza. O nome passa a idéia de ser algo muito maior do que realmente é, mas nem por isso o centro causa frustrações.
No quintal de uma loja, milhares de esculturas de madeira, barro ou palha surpreendem os visitantes. Algumas são coloridas, outras apenas talhadas na matéria-prima natural.
Umas têm motivos religiosos, outras, culturais (como a estátua em tamanho real do músico Luiz Gonzaga), e outras ainda cômicas. Mesmo que você não compre nada, é incrível ver tantas obras diferentes em um mesmo lugar e admirar a destreza dos artesãos que parecem produzir muito, mas muito mais do que vendem.
E, claro, falando-se da cultura do Cariri, é impossível deixar de fora seus dois maiores representantes: o poeta Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga.
Patativa é o grande homenageado na cidade de Assaré, que tem monumentos, fundações e memorial em sua honra. Pequeno, o memorial abriga objetos pessoais do poeta, fotografias, prêmios recebidos e suas obras, exibidas também na forma de trechos que ornam as paredes da casa.
As modestas dimensões do museu são compensadas pelo esmero e conhecimento dos monitores, dentre os quais está Fátima, neta de Patativa, responsável pelas memórias do avô. Já Luiz Gonzaga, que na realidade não é do Cariri cearense, e sim da pernambucana Exu, também merece citação, pois suas letras traduzem com fidelidade a imagem do sertão. O músico, que deixou o Cariri com apenas 18 anos, sempre fez questão de cantar seu povo.
Quem quiser conhecer mais sobre estas e outras histórias do Cariri, enquanto se encanta com a preservação da cultura, da natureza e da história dessa região, não pode deixar de conhecê-la pessoalmente. A microrregião fica bem no centro do Nordeste, a uma pequena distância das principais capitais (especialmente se você for de avião, o que é recomendável – a viagem tem aproximadamente uma hora).
É um destino ideal para mergulhar na alma sertaneja nordestina, um complemento interessante para quem quer ir além do litoral e planeja uma viagem mais longa. Especialmente a partir de julho, quando e as estradinhas ficam bem mais transitáveis. Só assim, conhecendo pessoalmente, é possível entender como o sertão pode tão convidativo, cultural e rico.
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