A lua de mel, o nazista e a metrópole de pedra

A Patagônia ainda era o fim do mundo quando estive lá pela primeira vez, imagine só, procurando um criminoso de guerra nazista. Era o mês de abril de 1978 e eu, repórter solerte e ingenuamente irresponsável, juntei minha viagem de lua de mel a algumas vagas informações para tentar encontrar um certo Walter Julius Rauff na lonjura de Punta Arenas, ventosa cidade à beira do Estreito de Magalhães. Não sei o que foi mais surpreendente: o fato de minha então muito jovem esposa ter topado essa empreitada ou a facilidade com que encontrei o responsável pela morte de cem mil pessoas na Segunda Guerra Mundial gerenciando, com seu nome verdadeiro, uma empresa de pesca e processamento de centollas – o saboroso caranguejo local. Rauff fugiu de meu assédio, não me concedeu entrevistas, mas pude conversar com seus funcionários, vizinhos e acabei produzindo uma reportagem de repercussão internacional.
E como (quem diria?) não fui fuzilado ou perseguido após minha descoberta, resolvi aproveitar os dias remanescentes para tentar chegar a um lugar escassamente mencionado nos guias como “espetacular e grandioso”, do qual eu jamais havia tido notícia: as Torres del Paine.
Alugamos um Opala (brasileiro) e partimos cerca de 400 km quilômetros rumo ao norte por uma estrada de terra. A Patagônia entrou na minha vida com a força de uma ventania que tentava virar o automóvel na paisagem imensamente plana e deserta, aqui e ali pontuada por árvores retorcidas e rebanhos de ovelhas.
Poucas vezes vi tamanha beleza na desolação, as nuvens formando estranhos desenhos, um frio cortante e horas seguidas sem vivalma para avistar, estranha mistura de pânico e poder. Após um pernoite na minúscula e também quase deserta Puerto Natales, em frente a um mar para pinguins e lobos-marinhos, percorremos o trecho final – 80 ou 100 km.
Eis que, na paisagem sempre plana, de ar cristalino, algo como o vulto de uma grande metrópole despontou na linha do horizonte. A inesperada cidade foi crescendo enquanto o carro vencia o cascalho do caminho. E foi crescendo, e mais, até se transformar em uma improvável fortaleza de picos, todos eles gigantescos, formando um maciço arrancado da planície por um grande cataclisma. O encontro da horizontalidade com a verticalidade absolutas. As Torres del Paine. Em toda a minha vida de viajante, jamais experimentei sensação tão impactante. Lanças de mais de três mil metros de altura brotando do zero absoluto. Que, mais de perto, pude ver, eram banhadas por lagos cor de turquesa, provenientes do degelo das neves eternas de seus picos. Naquele mesmo ano, sem qualquer alarde, as Torres iriam se tornar Reserva da Biosfera, por decisão da Unesco. E, mais tarde, o sonho de consumo de aventureiros, andarilhos e montanhistas de todo o planeta.
Anos depois, também, voltei por duas vezes às Torres del Paine, sem nazistas, sem Opalas e com todo o conforto de hotéis que antes não existiam. E a cada vez, esperei, ansioso, o inigualável alvorecer da grande cidade de pedra na imensidão patagônica. O casamento, é claro, deu certo.
O colosso da Patagônia - Algumas notas sobre as surpreendentes Torres del Paine
Última esperança
Até os nomes que constam nos mapas atestam o quanto a região onde fica o maciço do Paine era remota e inóspita — e, a bem da verdade, pouco mudou. As torres localizam-se, por exemplo, na província de Última Esperanza. Perto delas ficam lugares como a Baía Inútil e a Ponta Decepção, entre outros acidentes geográficos batizados com significativa tristeza. Os responsáveis por tanto desânimo foram navegadores como Juan Fernandez Ladrillero e outros que, em vão, tentaram encontrar a passagem para o Oceano Pacífico, mais tarde descoberta pelo português Fernão de Magalhães.
Agulhas de Cleópatra Esse poderia ter se tornado o nome das torres, caso o livro da aventureira inglesa Lady Florence Dixie, escrito em 1857, tivesse ganho maior alcance. Dixie foi a primeira europeia a mencionar a existência da fabulosa cordilheira em seu poético livro de narrativas Across Patagonia. Na falta de ideia melhor, chamou as poderosas lanças de pedra de “agulhas” e batizou-as com o nome da célebre rainha egípcia. O livro, felizmente, teve pequena tiragem.
E o nome? A versão mais aceita é a de que Paine significa azul no extinto idioma dos indios selknam, que, junto com os kiyangos, foram os primeiros ocupantes da região. Seria uma alusão à cor impressionante dos lagos que entremeiam as torres. Há, porém, quem acredite que o nome original seria Payne (com ipsilon) em honra a um dos muitos aventureiros que por ali passaram.
Trilhas e picos O parque conta com 250 quilômetros de trilhas para andarilhos e alguns refúgios para pernoite. Todo o lixo produzido deve ser trazido de volta na mochila e o controle dos guarda-parques é rígido. A pequena e majestosa cordilheira tem, também, quinze picos com mais de dois mil metros de altura. São, todos eles, monolitos praticamente inconquistados. O vento inclemente e as geleiras derrotam, ano a ano, os que ousam desafiá-los.
Mar de gelo O maciço encontra-se, a oeste, com os Campos de Hielo del Sur (Campos de Gelo do Sul), que se estendem por 340 km rumo ao norte, interrompendo o acesso rodoviário ao resto do Chile e invadindo, sem passa-porte ou cerimônia, parte da Patagônia Argentina. O Glacier Gray, dentro do Parque Nacional, é uma das pontas desse mar de gelo, que vem se reduzindo ano após ano. Crime e castigo No ano de 2005, um mochileiro checo, usando um fogareiro a gás, provocou um incêndio que consumiu 160 quilômetros quadrados da vegetação do parque. O caso repercutiu de tal forma que a própria República Checa pagou pelos estragos, replantando a flora original.
Para comentar é preciso autenticar-se.
Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
Sobre duas rodas, explore Mendoza nas férias
Uma série de empresas de turismo já está com pacotes prontos para quem deseja viajar nas próximas férias. A Bike Expedition, por exemplo, criou um roteiro de cinco noites de bicicleta pela região de Mendoza, na Argentina. No total, são 200[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:07 - Atualizado em 14/05/2012 12:32
Acampamento do Santos oferece à garotada rotina igual a dos atletas
Se seu pimpolho ou adolescente demonstra ter talento com uma bola nos pés, por que não inscrevê-lo no Santos Training Camp? Trata-se de um acampamento, entre 16 e 21 de janeiro de 2012, no Oscar Inn Hotel Eco Resort, em Águas de Lindoia (SP),[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:11 - Atualizado em 14/05/2012 12:18
Estude e ainda aproveite as belas paisagens da Austrália
A Austrália tem praias lindas e com ótimas ondas, em diferentes pontos do país. Sem contar a beleza e a diversidade subaquáticas, como comprova a exuberante Grande Barreira de Corais. Por isso, tem tudo a ver estudar inglês por lá e ainda[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:00 - Atualizado em 14/05/2012 12:09
Inglês e diversão num curso de férias em Vancouver
Os pais que pretendem presentear os filhos com uma viagem, a qual ainda resulte num upgrade da língua inglesa, podem conferir os programas de estudo no exterior oferecidos pela Experimento. Uma das alternativas é um curso de três semanas em[...]





