Surpreenda-se com as belas paisagens do Chile repletas de montanhas, vulcões, lagos e ilhas

Dec 31, 1969
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Do alto de seus 2.652 metros, o adormecido Vulcão Osorno testemunhou tudo. Há 15 mil anos, no sul do Chile, uma fileira de vulcões cuspiu lava e derreteu geleiras, compondo uma geografia única na América do Sul. Na terra desse vulcão,  uma centena de lagos vão se emendando e formam uma espécie de corredor que atravessa a Cordilheira dos Andes.

Monta­nhas cobertas de neve e bosques exuberantes refletem-se nas águas de cores surpreendentes, ora verdes ora azuis. Em meio à pai­sagem digna de caixa de chocolate surgiram cidadezinhas onde prevalece uma inusitada atmosfera europeia, fruto da colonização alemã que trouxe para aquele pedaço do Chile as casas de estilo enxaimel, os jardins impecáveis e as receitas de strudel. O roteiro clássico pela região envolve os 200 km que separam as cidades de Puerto Montt e San Carlos de Bariloche, já na Argentina.

Um Chile sem comparação

Uma das cucinerias anexa ao mercado de Angelmó, em Puerto MonttPercorrer esse trajeto é topar com um dos cenários mais belos do planeta e que já foi comparado com os Alpes Suíços. Talvez seja exagero afirmar isso. Contudo, duas coisas não se pode negar em favor da região dos Lagos Andinos: o Chile fica aqui ao lado e custa bem mais barato ir para lá do que à Suíça.

O maior inconveniente é ter de fazer um voo de conexão, já que a porta de entrada para conhecer a região dos lagos chilenos é Puerto Montt, mil quilôme­tros ao sul de Santiago, uma das maiores cidades do sul do país, com 200 mil habitantes. Não é exatamente um lugar turístico, apesar das praias de pedras em frente às águas do Oceano Pacífico.

Os únicos que curtem aquela água fria, em torno de 12 0C, são os salmões. A espécie foi introduzida na região há dois séculos e virou uma mina de ouro para os chilenos. A criação de salmão em cativeiro é uma atividade econômica que gera cerca de 60 mil empregos diretos na cidade. Trata-se de uma indústria forte e importante. O peixe ali criado é um dos principais produtos de exportação do país. Os criadouros sustentam uma complexa cadeia de produção industrial, que inclui desde a ração que alimenta os peixes às casas flutuantes usadas para abrigo dos funcionários em alto-mar.

O turismo em Puerto Montt, porém, está restrito a uma visita ao Mercado de Angelmó, especializado em frutos do mar. A água fria do Pacífico é riquíssima em espécies marinhas. Muitas delas nem exis­tem por aqui, nem os nomes têm tradução para o português: locos, navajuelas, almejas, machas... Outros até são conhecidos, como os calamares (lulas) e mejillones (mexilhões), só que vendidos defumados ou em conservas. 

Ao lado do mercado há vários pequenos restaurantes familiares, denominados de  cucinerias, que preparam os tais frutos do mar. Nem todo mundo arrisca o estômago. Mas se você aceita uma sugestão, vá ao El Apa e peça o tradicionalíssimo chupe de locos, espécie de suflê de queijo com os citados locos, ou então um clássico salmão com molho de camarão. Outra especialidade local é o curanto, um cozidão com sustância, que leva legumes, peixe, marisco e carnes defumadas, muito bem servido no Chilotito Marino.

Puerto Varas

Puerto Varas, à beira do Lago Llanquihue, em frente ao Vulcão Osorno.Se Puerto Montt é a porta de entrada, cabe à vizinha Puerto Varas, a apenas 20 km de distância, o papel de principal ponto de apoio para explorar os lagos chilenos.

Bem mais charmosa e turística, a cidade fica às margens do Lago Llanquihue (pronuncia-se “djanquírue”), o mais importante da região que, de tão grande – com cerca de 800 km2 de área – marca com água a linha do horizonte e produz ondinhas que quebram na praia de Puerto Varas. Formado pelo degelo de um imenso glaciar, o lago chega a ter até 350 metros de profundidade em alguns pontos. Espelha a imponência de dois vulcões que o adornam, o Osorno, cuja forma cônica faz lembrar um dese­nho de criança, e o Cabulco, um dos 56 vulcões ainda em atividade no Chile.

O Osorno teve sua última erupção em 1935 e desde essa época, descansa adormecido. Visitantes passeiam com segurança na estação de esqui instalada no topo da montanha tomado pela neve eterna e por uma geleira que escorre pelas encostas.

O Cabulco mostrou sua fúria pela última vez em 1960, quando cuspiu cinzas que deixaram a cidade às escuras por três dias seguidos, embaixo da nuvem espessa de pó. Porém, foi apenas um susto. Nada comparado ao que havia acontecido meses antes, no dia 22 de maio do mesmo ano. Às 3 horas da tarde, durante a siesta, a terra começou a se mover. E o terremoto fortíssimo, registrado na época com 9,5 graus na escala Richter, provocou um tsunami que varreu o litoral de Puerto Montt, deixando a cidade destroçada. Cerca de cinco mil pessoas morreram no desastre. O 22 de maio ainda é lembrado com pesar pelos moradores mais antigos.

Mas isso é coisa do passado. O que importa hoje é o visual belíssimo das proximidades de Puerto Varas, cidade que melhor representa a beleza dos Lagos Andinos. O lago azul e o vulcão ao fundo da paisagem compõem com a igreja gótica do Sagrado Coração de Jesus um dos mais belos cartões-postais do país.

A cidade é tranquila e agradável. Conta com hotéis de muito bom nível, com janelonas voltadas para o lago, sendo quatro deles de padrão cinco estrelas. O toque germânico está em toda parte, principalmente nas cafeterias que vendem strudel e cucas, e nas pousadas instaladas em antigos casarões de imigrantes alemães, tombados pelo patrimônio histórico.

Os alemães chegaram a Puerto Varas por volta de 1853, após uma campanha de incentivo do governo chileno para povoar aquelas terras, na época abandonadas até pelos próprios índios mapuches. Era difícil viver por ali por conta da umidade e da chuva que cai quase o ano todo. São 220 dias de chuva por ano, em média. Cada família alemã ganhou terras, sementes, ferramentas e até uma vaca prenhe como incentivo do governo.

Quase 20 mil alemães saíram do porto de Hamburgo em antigos vapores, numa viagem que tomava seis meses, para atracar naqueles confins da América do Sul nos primeiros 30 anos do programa de incentivo à imigração. Os recém-chegados abriram caminhos em meio aos bosques, antes impenetráveis, ao redor do Lago Llanquihue e ergueram casas e igrejas com a madeira do alerce, pinheiro nativo, hoje ameaçado de extinção, muito resistente à umidade. Pequenos povoados começaram a brotar aqui e ali, sempre no entorno das águas do lago, caso de Frutillar e Porto Octay.

Os descendentes de alemães, hoje na terceira ou quarta geração, ainda cultivam os hábitos trazidos da Europa, como a habilidade para fazer tortas caseiras e fabricar cervejas artesanais. Puerto Varas muito se orgulha da sua festa da cerveja, que acontece no começo de fevereiro. O alemão é idioma corrente dentro de muitas casas e até nos cultos das igrejas luteranas aos domingos. Nos cardápios dos restaurantes, baseados em salmão e frutos do mar, também há kasslers e salsichões.

Passeios dia e noite

A centolla servida no Hotel Los Cumbres, em Puerto VarasAs agências de turismo de Puerto Varas oferecem diversos passeios de um dia pelas proximidades. Há tour guiado rumo às cidades vizinhas de Frutillar e Porto Octay, navegação até a Ilha de Chiloé e visita a estação de esqui instalada no topo do Vulcão Osorno. Os ônibus das agências pegam os turistas nos hotéis de manhãzinha e só retornam à tardinha.

Uma das opções de lazer é passear pela cidade, que é plana e gostosa para caminhar. Num dia você senta para co­mer num restaurante especializado em frutos do mar. Noutro pode encostar no balcão do pub Barómetro – Walter Martinez, 584 – para experimentar uma cerveja regional. Ou até dar um pulinho no cassino high tech da cidade apenas para torrar nos caçaníqueis aquele dinheiro que você tinha guardado para comprar umas garrafas de vinho chileno na volta.

A melhor extravagância a ser feita em Puerto Varas é jantar no bistrô Divino Mesón – Mirador, 135 –, inaugurado no começo de 2010 e que traz a chancela dos pratos elaborados pelo chef Christian Alván. A maior curiosidade desse restaurante é que nele o cliente não escolhe o que vai comer. Simplesmente porque não existe menu algum. É o próprio Christian quem decide e inventa os pratos da noite, ali na hora. “São todas criações únicas, pois eu nunca repito uma receita”, disse o chef.

De repente, podem ser servidos cogumelos recheados com queijo de cabra e carpacho de cordeiro, seguidos de uma truta com tomate com redução de vinho branco. O grande barato é que a cozinha é aberta e funciona atrás de um balcão, onde o cliente pode beber um pisco sour de aperitivo enquanto vê o chef traba-hando na preparação de pratos que são verdadeiras obras de arte gastronômicas.

O jantar pode ter de quatro a 12 pratos, todos harmonizados com uma taça de vinho.  Com isso, a refeição pode tomar duas horas ou mais, o que não é problema, pois o restaurante tem ambiente aconchegante, à meia luz, e decoração em tons vermelhos, pensada para receber casais. Poucos casais, por sinal, já que são apenas cinco mesas – portanto, se você quiser conhecer o restaurante, peça na recepção do seu hotel para que façam uma reserva com antecedência.

Frutillar e o Cruce Andino

Travessia do Lago Todos os Santos em direção a BarilocheO primeiro passeio de quem vai a Puerto Varas costuma ser Frutillar, uma cidade minúscula, de apenas 15 mil habitantes, que também traz forte herança germânica, com direito a floreiras nas janelas e diversas casas de kuntchen, que vendem tortas caseiras, o terror de qualquer dieta. Para chegar até lá é preciso pegar a famosa Ruta Panamericana, a estrada que é a espinha dorsal não apenas do Chile mas de todo o continente sul-americano. Começa na Ilha de Chiloé e segue até o Alasca, sendo interrompida apenas pela selva colombiana e pelo Canal do Panamá. Mas são apenas 6 km na famosa estrada até tomar a chamada Rota dos Colonos, que circunda o Lago Llanquihue.

O nome Frutillar significa “campo de frutilla”, o morango silvestre que os imigrantes encontraram aos montes pelas redondezas. Ainda que esteja a apenas 70 metros acima do nível do mar, a cidade parece uma vila de montanha, com arquitetura que mistura o enxaimel alemão com o estilo de construção andino, à base de madeira de ciprestes e arrayanes.

Não há muito o que fazer por lá além de bater perna tranquilamente pelo calçadão na beira do lago, provar das tais kuntchen no restaurante Guten Apetit – Balmaceda, 98 – e visitar o museu colonial alemão, que preserva quatro casas antigas de colonos que remontam ao estilo de vida dos imigrantes da terra de Goethe.  Em uma delas, que simula um estábulo do século 19, está Francisco Dann, senhor sisudo e grisalho, de olhos claros e pele alva, descendente de alemães, batendo o martelo sobre uma velha bigorna para gravar o nome dos turistas em ferraduras. 

Mas qualquer passeio bate e volta a partir de Puerto Varas é apenas mero aquecimento para o mais grandioso e esperado de todos os passeios que se possa fazer na região: a travessia dos Grandes Lagos, entre Puerto Varas e Bariloche, na Argentina. Saiba, de cara, que essa não é uma viagem convencional. Embora exista o deslocamento entre cidades, o objetivo não é chegar, mas estar a caminho. Mesmo porque é o caminho o grande atrativo do passeio, onde os lagos azuis e os vulcões de picos nevados se sucedem em vistas inesquecíveis.

Ao todo, são 12 horas de travessia, num pinga-pinga entre ônibus e catamarã – são quatro trechos de ônibus e três em catamarã. O trajeto pode ser feito em apenas um dia ou com um pernoite em Peulla, que fica no meio do caminho.

A viagem em um único dia é oferecida apenas no verão, quando escurece somente lá pelas 9h da noite. Dois dias é mais recomendável para quem quer relaxar, pois o roteiro segue em ritmo tranquilo e o entra-e-sai em ônibus e barcos não fica tão cansativo.

Tudo começa às 9h da manhã. O ônibus da empresa passa de hotel em hotel para buscar os turistas. Depois, o guia entrega um voucher com meia dúzia de tíquetes que vão sendo destacados conforme cada etapa da travessia é vencida. Não é preciso se preocupar com a bagagem, que segue despachada e reaparece para ser entregue no quarto do hotel, em Peulla, ou no desembarque final, em Bariloche.

Saltos de Petrohué

Puerto Varas, à beira do Lago Llanquihue, em frente ao Vulcão Osorno.O primeiro percurso, de 40 minutos em ônibus, leva ao Parque Vicente Pérez Rosales, onde estão os Saltos de Petrohué. Uma passarela de madeira conduz até a queda d’água. O Osorno, sempre ele, está ao fundo compondo o cenário. O vulcão também aparece em cada curva da estrada, postado como um gigante a guardar as belezas do sul do Chile (dica: vá sentado do lado esquerdo do ônibus). A parada na cachoeira é rápida, coisa de 20 minutos cravados no relógio. Tudo para não atrasar o catamarã que espera no porto de Petrohué.

A primeira navegação acontece no Lago de Todos os Santos, também chamado de Lago Esmeralda devido à cor da água. Por conta dos mineirais em suspensão, cada lago adquiriu uma cor diferente – os chilenos dizem que cada um dos 160 lagos da região tem uma tonalidade própria. Na embarcação, há cafeteria com mesi nhas e loja de souvenir para ajudar a passar o tempo de quem enjoar do vento frio que muitas vezes sopra do lado de fora.

Uma hora e meia depois, o catamarã encosta em Peulla, vilarejo fincado num vale entre as montanhas da cordilheira. Na realidade, não chega nem a ser um vilarejo. Não há ruas, nem supermercado, lojas, artesanato... Há apenas dois hotéis, muito bem equipados, que servem de ponto de apoio no meio da travessia. O mais novo deles, o Hotel Natura, tem padrão quatro estrelas, quartos impecáveis com janelona e sacada com vista para as montanhas, um bom restaurante e spa com piscina aquecida, sauna e massagens.

Peulla funciona como um entroncamento estratégico. Tem gente que chega ali, almoça e segue viagem. Outros que ficam para pernoitar e partir no dia seguinte. Há quem pare para almoçar e logo retornar a Puerto Varas no mesmo dia. E também quem chega no sentido oposto, vindo de Bariloche. O fluxo de viajantes é constante. A agência chilena Turistour informou que cerca de 200 passageiros, em média, fazem a travessia dos lagos a cada dia.

Dormir em Peulla vale muito a pena pois há passeios legais a fazer por lá. Você pode caminhar um pouco em volta dos hotéis – e a paisagem é maravilhosa – para conhecer a Cachoeira Véu de Noiva, fazer canopy, cavalgar, passear de caiaque ou num caminhão 4x4 com bancos na carroceria, ao estilo safári fotográfico, rumo a outra cachoeira.

É interessante saber que desde o século 19 já se andava por aqueles vales e se navegava pelos grandes lagos andinos. Os cami­nhos foram abertos para servir de rota comercial entre Bariloche e Puerto Montt, para onde seguia o couro argentino a ser exportado via Pacífico. A construção do Canal do Panamá, porém, fez a rota cair em desuso e turistas substituíram o couro argentino transportado nos barcos a partir de 1913. No restaurante do Hotel Natura há fotos históricas dos antigos vapores e hosterías que ilustram a infância do turismo na travessia dos Lagos Andinos.

Seguindo viagem, são mais 20 km ou cerca de uma hora de ônibus, até Puerto Frías, na fronteira com a Argentina, onde é feito os trâmites de aduana para entrada no país vizinho. E de lá segue-se de catamarã para Puerto Blest. Ao lado do pier há um bom restaurante em que é servido o almoço no segundo dia da travessia. No trecho final, o barco aponta pelas águas do Lago Nahuel Huapi até encostar em Puerto Pañuelo, já ao lado de Ba­riloche.

O Chile é barato

CaHotel Natura - Peulla, o pernoite no meio da travessia entre  Puerto Varas e Barilocheso o Cruce Andino, como é chamada por lá a travessia completa dos lagos, não esteja incluso no pacote é só procurar um guia para incluir o passeio. Alguns pacotes já oferecem o passeio com pernoite no Hotel Natura, em Peulla, mas apenas com o café da manhã. 

O Chile é um país barato para os brasileiros. Para ficar uma semana por lá, com uma noite em Santiago e outros cinco dias para visitar os parques e vulcões do sul do país, gasta-se pouco. A melhor opção costuma ser os pacotes com, no mínimo, dez dias, pois a correria não compensa. 

A época do ano é outro fator a ser considerado, pois chove muito na região. Dias nublados e chuvosos são a regra entre maio e novembro. E quando o tempo vira, a paisagem muda completamente.

As nuvens encobrem as montanhas, não se consegue avistar os vulcões e os lagos perdem a cor verde-esmeralda. E a chuva ainda vem acompanhada de vento e frio. A travessia torna-se um traslado burocrático. Fica incômodo sair para cavalgar ou caminhar ao ar livre.

Aos turistas resta somente o carteado e o mergulho nas piscinas aquecidas dos hotéis. “Mas só avisam que chove tanto depois que vendem o pacote”, reclama a curitibana Rosângela Angonese, surpreendida pela chuva que cortava o barato da viagem. A brasileira cansou de ver as fotos do Vulcão Osorno enquanto traçava em casa o roteiro que faria pela Patagônia, que incluiria ainda Torres del Paine e El Calafate, na Argentina. Esteve três dias ao lado da grande montanha, mas terá que continuar com a imagem do vulcão vista apenas em fotos, pois as nuvens não arredaram o pé, como cortinas de um teatro que permanecessem fechadas durante todo o espetáculo.

Sorte de quem faz o roteiro no verão, pois tem grandes chances de navegar pelos lagos da Cordilheira dos Andes com sol e céu claro, e, assim, desfrutar de uma das paisagens mais fabulosas do mundo. Os Alpes Suíços podem ter seu encanto. Mas o Chile fica logo ali. 

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