Aventure-se em esportes radicais no meio do deserto do Atacama
O Atacama é um mundo à parte dentro do território chileno. A começar por suas dimensões. Esparramado no norte do país, ocupa uma área de 180 mil quilômetros quadrados, o equivalente a quatro vezes o Estado do Rio de Janeiro ou duas vezes o tamanho de Portugal. Em todo esse vasto pedaço de terra, a diversidade de paisagens encanta os cerca de 250 mil forasteiros de várias partes do mundo que vêm para cá a cada ano. Todos ávidos por ouvir a voz mágica e amigável do grande deserto. E ela está por toda parte.
Apesar de ter pontos que nunca receberam uma gota de chuva sequer, o Atacama possui áreas cobertas de verde, nas quais há até inesperadas – e pequenas – quedas d’água. Em cada canto desse magnífico universo de vales arenosos, montanhas rochosas, vulcões, lagoas de intensa salinidade e riachos encontra-se uma surpresa da natureza.
Que outro deserto do mundo pode se orgulhar de possuir lagoas de águas límpidas em tons de verde e azul e de ser emoldurado pela lendária Cordilheira dos Andes? Ou de ter vulcões que se espicham a mais de 6 mil metros (para efeito de comparação, o ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, no Amazonas, tem 3014 metros)? E ainda abarcar regiões que lembram o solo lunar, riachos e o segundo maior salar do planeta? Ocupando 3 mil quilômetros quadrados, é uma imensa planície forrada de sal, o dobro da área da cidade de São Paulo. E pensar que tudo isso já foi um grande mar, cuja água evaporou com o calor adurente do deserto, restando apenas esse mundão salgado.
Da combinação de água e calor extremo surge um dos famosos fenômenos naturais do deserto chileno: os gêiseres, as colunas de vapor quente que emergem do chão. Esse espetáculo atacamenho ocorre nas primeiras horas da manhã, quando a temperatura no deserto fica sempre abaixo de 0 grau, e é resultado do encontro da água fervente de um vulcão com o ar gelado. Como se vê, o Atacama aprendeu até a usar antigos inimigos – como calor e frio – em benefício próprio. Em um roteiro de apenas três dias, o deserto do Atacama esbanjou hospitalidade, espírito de aventura e revelou, sem pudores, as muitas e diversificadas facetas.
Primeiro dia
Logo no início da aventura, o deserto chileno fez questão de mostrar uma de suas virtudes: a capacidade de receber bem os visitantes.
Durante o dia, mesmo com o céu sem nuvens e o sol brilhando com tudo, a temperatura raramente ultrapassa os 24 graus e a sensação térmica costuma ser ainda um pouco menor, graças ao vento saboroso que o deserto sopra sobre os visitantes. No primeiro a programação é um trekking por algumas das mais fabulosas regiões do Atacama, vislumbrando as três cordilheiras que o abraçam: a dos Andes, com 60 milhões de anos, a Domeyko, de 35 milhões de anos, e a Cordilheira de Sal, a caçula do grupo, com apenas 10 milhões de anos.
Caminhando pela vastidão do Atacama, é difícil não se sentir minúsculo. Insignificante mesmo. Algumas centenas de metros à frente, um outro grupo de andarilhos parece meia dúzia de formigas percorrendo um amplo salão de festas. O deserto é grande demais para qualquer um.
A partir do mirante da Cordilheira do Sal pode-se enxergar o Salar de Atacama, a Cordilheira dos Andes e alguns dos muitos vulcões que pontuam a paisagem. Próximo ao mirante está a Cordilheira do Sal, coberta de pedras brancas do mineral e onde há uma caverna de cerca de 20 metros de extensão e forrada de sal por todos os lados. Na sequência, surge o Vale da Lua, com formações rochosas que lembram o solo lunar. Tanto que os cientistas da Nasa saíram dos Estados Unidos para testar no deserto alguns de seus robôs espaciais.
Parece miragem
Ao norte de San Pedro, a cerca de 3 mil metros de altitude, o Atacama se mostra muito mais verde e rico em águas do que se pode imaginar.
A trilha segue às margens do Vilama – um dos dois rios da região –, cujas águas deslizam carinhosamente sobre o solo atacamenho, ganhando força e volume a cada quebrada e fazendo surgir inesperadas cascatas. Um universo repleto de verde e abundante em água. Os campos forrados de vegetação nativa, parecem ter sido pintados à mão pelo Atacama, com o único propósito de impressionar quem vem de fora.
No meio do deserto é comum encontrar enormes exemplares do cactus Cardon, típico da região e que cresce cerca de 1 centímetro por ano, chegando à altura máxima de 7 metros. Como vários deles já alcançaram essa altura, significa dizer que têm, no mínimo, 700 anos de vida.
A pousada Atacama Adventure com apenas três suítes, tem agradado até aos viajantes mais exigentes. Os quartos são amplos – com camas king size, tv, dvd e, claro, banho quente, em uma das suítes tem até banheira, com um clima intimista.
O acesso à cozinha e à geladeira, por exemplo, é livre 24 horas por dia. Ou seja, se você tiver vontade de comer um sanduíche às 2h da manhã, basta levantar, ir até a cozinha e preparar seu lanche. Um dos grandes diferenciais são os deliciosos pratos que chegam à mesa da sala de jantar. Todos criados pela doce e talentosíssima Carmen, chef e cozinheira da pousada. Carnes, peixes, frangos, sopas, saladas, sobremesas… tudo que sai das mãos da Carmen é maravilhoso, em pratos sempre com bela apresentação, o que dá a sensação de se estar num ótimo restaurante.
Segundo dia
No segundo dia a dica é um programa mais tranquilo: uma cavalgada pelas paisagens áridas do deserto. Para chegar até a Lagoa Cejar, é preciso pedalar 17 km, sempre em terras do Salar de Atacama, que possui uma placa de 1 km de espessura de puro sal.
Uma das surpresas da viagem é encontrar no meio do deserto uma lagoa de águas de azul cristalino. Ao entrar na água fria e relaxante é impossível afundar, a água da lagoa é muito salgada – o nível de salinidade é três vezes maior do que no Atlântico – fazendo a pessoa flutuar mesmo que fique de braços e pernas cruzados, como se estivesse sentada. Exatamente como ocorre no Mar Morto.
O passeio à cavalo pelo deserto é a programação menos interessante e menos divertida. Consiste, simplesmente, em percorrer 8 km no lombo de um cavalo, num trote lento que, em alguns momentos, chega a ser enfadonho.
O grande deserto quebra a monotonia com belíssimas paisagens, como o vulcão Licancabur (de 5.950 metros de altitude) e a Cordilheira de Sal, onde dá para sentir leves doses de adrenalina, deixando o cavalo correr um pouco. No fim da noite o céu é um espetáculo infestado de estrelas. No Atacama há estrelas demais para céu de menos.
Terceiro dia
O vulcão Toco é um gigante a 5.617 metros acima do nível do mar, em cujos pontos mais elevados há sempre uma capa de gelo.
A 45 km da fronteira entre os dois países, é possível desviar para uma pista de terra, que leva até o ponto de início da caminhada. Dali em diante, o Atacama se mostra muito mais cruel e traiçoeiro. Para começar, o frio é intenso, por volta dos 5 graus. E à medida em que é feita a subida, a temperatura caí ainda mais.
Em alguns trechos a trilha fica coberta de gelo, dificultando ainda mais a caminhada. Em alguns momentos é preciso parar para recuperar o fôlego.
Debaixo de uma temperatura de uns 5 graus negativos, a vista é uma belíssima vista do lado chileno e do boliviano. A descida é bem menos complicada, muitas pessoas precisam descer sentadas, com as mãos no chão, devido a grande quantidade de gelo na trilha.
Muitos visitantes podem sentir uma dor de cabeça resultado da combinação de esforço físico com elevada altitude. Mesmo com algumas dificuldades, desbravar algumas das regiões mais fantásticas do deserto mais árido e fascinante do mundo é uma experiência inesquecível.
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