Hong Kong concentra toda a movimentação urbana da China

Dec 31, 1969
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Os moradores de Hong Kong na China, queiram ou não, são chineses e mantêm o hábito continental de jantar cedo. O Hutong – nome extraído dos velhos becos de Pequim  e recém-inaugurado – tem uma localização abençoada: fica no 28º andar do One Peking Road, edifício todo feito de escritórios e restaurantes, com vista para a Baía de Hong Kong. O sentido da visão alia-se ao do sabor e transforma qualquer jantar em Hong Kong numa espécie de sonho bem temperado.

À noite, as largas janelas do Hutong oferecem a mais espetacular paisa­gem que um turista pode ter da Ilha de Hong Kong. É um festival de luzes coloridas e néons surpreendentes, assumindo formas inesperadas. Prédios como o do Banco da China e do local HSBC (a sigla vem justamente de Hong Kong & Shanghai Banking Corporation) ali­nham-se com os 88 andares do esguio Two International Finance Centre e parecem bailar diante dos visitantes. A festa esfria por volta das 22h30, quando as luzes começam a diminuir de intensidade e vão se apagando.

Inspirado na tradicional cozinha do norte chinês, o chef Calvin Yeung criou um cardápio no qual uma das principais atrações é a ausência de farinha de trigo – o que torna tudo bem mais leve – e o acréscimo de sutis temperos picantes. No cardápio, uma costeleta de cordeiro, cozida e assada até adquirir uma casquinha pururuca, atrai todos os olhares.

Se preferir frutos do mar, arrisque um lagostim grelhado com molho de tangerina e agradeça a Deus por aquele momento. Até os tradicionais rolinhos primavera têm outro sabor quando vêm às mesas decoradas com gigantescas gaiolas de bambu. Os preços não superam os restaurantes mais badalados de São Paulo (SP), por exemplo.

Skyline futurista

As linhas futuristas do Banco da China, obra do arquiteto chinês I.M. PeiComeçar a visita a uma cidade por um restaurante pode não ser muito ortodoxo, mas é seguramente muito saboroso. Em especial, numa cidade cheia de atrações e bons pratos, como é o caso de Hong Kong. O antigo protetorado – sob jurisdição britânica da Segunda Guerra até 1997 – herdou dos antigos colonizadores o gosto pela modernidade. Tudo parece incrivelmente futurista: o skyline da ilha de Hong Kong é, sem dúvida, o melhor exemplo disso. Não é por acaso que no filme Batman, O Cavaleiro das Trevas, o herói vai atrás de um mafioso em Hong Kong – tudo foi gravado no coração da cidade. E tanto na tela como na vida real, o visual é impressionante.

Se à noite, as luzes seduzem, durante o dia os olhares são atraídos pelo primoroso trabalho de arquitetos renomados, como o chinês I. M. Pei, criador da famosa e controversa pirâmide do Museu do Louvre, em Paris. Pei assina o projeto do Banco da China, um prédio cheio de ângulos inesperados e paredes que parecem sumir de repente. Em sua prancheta, o arquiteto ignorou solenemente os mandamentos do feng shui e, por isso, muita gente em Hong Kong torce o na­riz para o prédio. Não se deixe influenciar por isso. O prédio é um show e pode-se até visi­tar seu lobby durante o dia.

Dá para planejar os passeios do dia seguinte em Hong Kong sentado numa das cadeiras do Deck'n Beer, um simpático bar instalado no calçadão batizado de Avenue of Stars, em home­nagem às estrelas do cinema nascidas em Hong Kong. Depois de caminhar pelo calçadão, posando ao lado da estátua de Bruce Lee, fingindo que é diretor de filme ou comparan­do suas mãos com as do astro Jackie Chan, você se senta no Deck’n Beer e pede uma cerveja. Não é uma decisão rápida. O cardápio é variado e os preços, bem acessíveis. 

Em Kowloon, garanta suas compras

Hotel Cassino Grand Lisboa, Macau. ChinaCom quase 100 por cento de garantia, o seu hotel estará em Kowloon, a parte continental de Hong Kong. Lá estão as grandes redes internacionais – como Sheraton, Renaissance, Mandarin e Hyatt –, todas com excelente nível de serviços e também os maiores shopping centers, como o chiquérrimo Harbour City. Mas há outros, facilmente encontrados: basta que­rer atravessar uma rua pelas galerias subterrâneas. Cada uma delas esconde um desses templos do consumo. Depois de almoçar ou jantar bem, fazer compras é um dos esportes mais populares entre os turistas que visitam a cidade. E não é por acaso.

Como porto livre, Hong Kong não cobra impostos, o que torna tudo muito mais barato. Eletrônicos, roupas de grifes internacionais e materiais esportivos de primeiríssima linha – tudo recém-lançado – chegam às lojas por preços mais que tentadores. É preciso uma força de vontade gigantesca para não sair comprando tudo. Mas é sempre bom respirar fundo e não sucumbir à primeira lojinha de eletrônicos que encontrar na Nathan Road, a principal avenida da região de Kowloon. Por ali, há muita arapuca, que apresenta um produto no balcão e embala outro, inferior – quando embala. Melhor ficar atento ao selo de qualidade emitido pelo governo e que deve ser colado nas vitrines. Ou perguntar ao seu guia. Ele certamente saberá levá-lo a um lojista honesto.

O bairro de Tsim Sha Tsui, que cerca a Nathan Road, em Kowloon, é famoso pela infinidade de restaurantes da cozinha chinesa do Cantão, a mais parecida com a que co­nhecemos no Brasil. Não espere nenhum com porta para a rua. Em geral, eles ficam em prédios ou shoppings.

É o caso do Tsui Hang Village, instalado no Miramar, um shopping center bem bacana que fica na Nathan Road. No visual, é igual aos melhores chineses de São Paulo. Elegante, discreto, com enormes mesas redondas ocupando um salão descomunal. No cardápio, ele também pouco difere dos congêneres. É no tempero que a coisa pega. Provar a sopa de barbatana de tubarão do Tsui Hang, trazida à mesa dentro de um melão salgado gigante, é provar a mãe de todas as sopas. Delícia total. 

Barco e teleférico são as atrações

Passeios de barco pela baía. Honk Kong, China

Nos horários livres entre as refeições, convém que você passeie bastante. E, para isso, há muito o que fazer em Hong Kong. Passear de sampan em Aberdeen pode ocupar boa parte de sua manhã. Sampans são barcos a vela, conduzidos por velhos pescadores. O divertido é navegar entre as centenas de barcos-residência que loteiam aquela parte da baía. Pescadores cruzam o seu caminho e, ao longe, dezenas de enormes prédios residenciais parecem observá-lo. O passeio dura uns 40 minutos e, é claro, você posará para fotos usando aquele chapéu de palha que faz qualquer um parecer um chinês deslocado.

Na ida e na volta, o barco atiça o apetite ao quase abordar o Jumbo Kingdom, um restaurante flutuante gigantesco, com capacidade para servir até mil pessoas. O Jumbo parece ter sido roubado de algum cassino de Las Vegas. À tarde, o restaurante oferece rodízio de dim sum, o pãozinho cozido chinês, servido com diversos tipos de recheio. 

Se resistir ao rodízio, pegue um táxi e vá até a estação do funicular para o Pico Victoria. Com 552 metros de altitude, o pico é um dos lugares que permitem as melhores vistas da Baía de Hong Kong e, justamente por isso, dispõe de um serviço de transporte especial desde o século 19. Naquela época, em que os ingleses promoviam o consumo desenfreado de ópio entre os chineses, só mesmo os súditos da rainha Victória podiam ter casa nos bosques do morro. Até pouco tempo, aliás, chineses não podiam comprar imóveis ali – e nem mesmo morar em outras regiões bacanas de Hong Kong. Era o colonialismo mostrando sua pior face.

Subir com o teleférico é divertido. A inclinação de 27 graus é tão espantosa, que algumas pessoas ficam de pé, praticamente atiradas ao chão do bondinho, para manter o equilíbrio. No alto, uma série de lojinhas – Hong Kong oferece um shopping center a cada esquina, lembre-se – distraem o público, mas não se deixe enganar: o melhor é mesmo a vista. É quase uma versão do que seria a Baía da Guanabara, caso os ricos morassem nos morros e os pobres, na parte baixa. 

Uma paradinha para o almoço

Almoço no vegetariano no One Peking Road. Hong Kong, ChinaDe volta a Kowloon, bateu aquela fomi­nha? Volte ao One Peking Road, o tal prédio dos restaurantes. No sétimo andar, visite o King Tak Lam Shanghai, vegetariano de fazer o mais carnívoro dos comensais pedir perdão pelo sangue derramado. O visual pode não ser tão espantoso quanto o do Hutong, 21 pisos acima, mas a comida merece aplausos.

Panquecas de champignon, cozidos de erva-doce e acelga chinesa com outros vegetais pouco familiares e outras surpresas saem da cozinha em pratos bem servidos e sempre fumegantes. Ao contrário das nossas casas vegetarianas, o King Tak não exclui o álcool de suas refeições. Assim, pode-se saborear as atrações do menu, acompanhadas de uma boa cerveja San Miguel, a prata da casa. 

No dia seguinte, um passeio bem inusitado pode juntar os antiquários de Hollywood Road aos bares apimentados de Lan Kwai Fong, a porção mais boêmia de Hong Kong – mas este é um daqueles passeios que você só recomenda assim: apareça por lá e fique onde seu espírito se encontrar. Basta saber que na região há bares de todos os tipos e tendências.

Bem antes de a noite cair, faça uma visita à Ilha de Lamma, a 20 minutos do centro, por ferry boat. Lá, a grande atração são os restaurantes quase simplórios – de mesa de plástico e toalha xadrez – capazes de servir estonteantes rodízios de frutos do mar. Os pei­xes e crustáceos ficam em enormes aquários, para você escolher. Em pouco tempo, chegam à mesa postas de peixe frito, patinhas de caranguejo e uma variação de ostra gratinada, todas memo-ráveis. O cardápio ainda inclui costeletas de porco e pombo frito, com ca­beça e tudo.

O Templo Man Mo, construído em 1847. Hong Kong, ChinaNa volta à Ilha de Hong Kong, faça o tal passeio por Hollywood Road. A avenida, uma das mais antigas de Hong Kong, guarda uma atração emocionante: o templo Man Mo, construído em 1847 para homenagear as deusas da Literatura e da Guerra. Até hoje, o lugar é visitado por devotos, que acendem gigantescos incensos espiralados e dei­xam o ar perfumado o tempo inteiro.

Saindo de lá, tome a escada rolante pública que liga o Soho ao Central: são quase 800 metros de degraus elétricos, imagine. A escada tem uma só direção, alternada apenas nos horários de pico. De dia, ela desce, trazendo os moradores do Soho para os escritórios da Central. E no fim da tarde, inverte-se o sentido, levando todo mundo de volta para casa. Pode parecer que não, mas Hong Kong também descansa.

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