Macau surpreende com lembranças de Portugal

Dec 31, 1969
0 votos | Votar

Para ir da China a Portugal, você faz uma viagem de apenas 60 minutos. É o tempo que leva o confortável ferry boat, que liga Hong Kong a Macau, a antiga colônia portuguesa do Sudeste Asiático. Não é um passeio obrigatório, claro, mas todo brasileiro se sente tentado a ver o que os "nossos" portugueses andaram fazendo por lá durante mais de 400 anos de dominação.

Como há diversos horários de barco entre os dois portos o dia inteiro, o programa não exige pernoite em Macau, mas abre possibilidades bem diferentes de diversão – incluindo os cassinos monumentais, que se avista antes mesmo de atracar. É como se o programa do computador misturasse China e Las Vegas na mesma foto.

Uma pitada de Lisboa

O Largo do Senado, no centro da cidade, China.Dá vontade de cantar fado em Macau. Quem desce do ônibus que vai do terminal de barcos ao centro da cidade tem a nítida sensação de desembarcar em Lisboa. O Largo do Senado, com casario tipicamente lusitano, é tudo, menos chinês. A sensação de deslocamento se aprofunda, conforme se avança pelo centro velho. Placas de rua são formadas por azulejos e escritas em português, com nomes tão poéticos como Rua do Matapau ou Beco da Dissimulação. Brasileiros quase se sentem em casa, a não ser por um ligeiro detalhe: ninguém fala português em Macau. Aquelas placas e letreiros só estão ali por respeito ao povo que colonizou a cidade até 1999.

Hoje, Macau é um território chinês com ares independentes como Hong Kong. Não obedece diretamente ao governo comunista – tanto que é preciso mostrar o passaporte na entrada e na saída – e aprendeu direitinho a faturar com o turismo. O movimento dos cassinos é tão alto, que já ultrapassou o faturamento das casas de jogo de Las Vegas. Mas, pelo menos até agora, a única marca que os cassinos deixaram em Macau são alguns prédios de formato duvidoso na linha do horizonte. A flor de vidro e aço do Hotel Cassino Grand Lisboa é um desses casos. Dói na vista.

É fácil sair do Largo do Senado rumo às ruínas da Catedral de São Paulo. Basta agir como um personagem de desenho animado e seguir o perfume saído dos fornos das doçarias portuguesas – obviamente comandadas por famílias chinesas. Pastéis de nata, biscoitos amanteigados e outros quitutes de receitas d'além-mar são o principal atrativo das ruas. Com sorte, você pega justamente a abertura do forno. É quando alguns lojistas oferecem amostras grátis dos doces quentinhos e perfumados.

As ruínas de São Paulo, uma catedral que chegou a ser construída pelos jesuítas no século 16, mas que não resistiu à ação do tempo, são a marca registrada de Macau. A fachada do templo parece mesmo um cenário de cinema, com seus santos e nichos bem preservados, marcando a entrada de um terreno vazio. Depois de uma ampla obra de restauro, a catedral tem agora um pequenino museu de arte sacra, no qual brilham algumas telas com temas religiosos.

Depois de perambular mais um pouco, consulte o guia ou o mapa e siga para um restaurante tipicamente macaísta: ou seja, português. Um dos bons endereços é o A Lorcha. Como não poderia deixar de ser, é estranho estar num território chinês e entrar numa casa portuguesa, com certeza. Paredes caiadas, um fadinho na trilha sonora, o cardápio em português... E o garçom, chinês, entende o que você pede. Mas é só isso o que ele sabe da nossa língua: o som dos nomes dos pratos. 

Para comentar é preciso autenticar-se. Clique aqui para se autenticar.