Xangai une tranquilidade e clima urbano sobre as águas
Composta por uma selva de pedra bem maior que a de Manhattan e com noites iluminadas que superam a Cidade Luz – tanto que é chamada de Paris do Oriente –, A cidade de Xangai, na China, vive hoje sua melhor fase econômica e isto tem proporcionado uma rápida transformação cultural. Desde que as restrições de mercado caíram por terra, a metrópole chinesa agarrou com unhas e dentes a oportunidade de mudar. Assim, reescreve seus princípios e tradições influenciada pela força dos negócios que invadem a cidade com investimentos das maiores companhias do mundo. O resultado pode ser visto num simples passeio pelas ruas ou numa subida de elevador até um dos inúmeros bares localizados em um dos vários arranha-céus.
Shanghai em chinês quer dizer “sobre o mar”. O nome ganha nos dias atuais uma nova conotação, dada às proporções astronômicas que a cidade vem tomando. A população já ultrapassa os 15 milhões de habitantes e a densidade, em alguns bairros, é hoje maior que a de Tóquio ou Nova York. A única área que parece não estar ocupada ainda é a das águas do Rio Huangpu, que separa o lado mais novo, Pudong, do mais antigo, que ainda preserva prédios históricos na região de Bund.
Xangai de hoje
Pudong é o postal da Xangai à la Blade Runner. É na margem direita do rio que se encontram a Oriental Pearl TV Tower e a Jin Mao Tower, um senhor arranha-céu futurista com 420 metros de altura. É lá que funciona o hotel mais alto do mundo, o Grand Hyatt Shanghai, a partir do seu 54º andar. Mesmo que não se hospede nele, não deixe de fazer uma visita.
O lobby e todo o vão central do hotel são impressionantes na arquitetura e na decoração. No 87º andar, na cobertura, sinta-se no topo do mundo enquanto admira a vista e o ambiente misterioso e ao mesmo tempo sofisticado do restaurante Cloud 9, que nos dias mais úmidos fica literalmente entre as nuvens. Para os mais claustrofóbicos, uma boa notícia: o elevador viaja à velocidade de 9 metros por segundo. Portanto, não tem desculpa: você não pode perder a chance de desfrutar essa magnífica visão panorâmica.
O mais surpreendente é que há menos de 15 anos, quando Deng Xiaoping um dos mais poderosos líderes revolucionários do governo chinês, visitou Xangai e deu início ao desenvolvimento de Pudong, havia ali somente alguns armazéns e depósitos de armadores e pescadores, tudo construído sobre terrenos pantanosos.
Essas terras tiveram de ser drenadas antes do arranque das novas edificações. Mas um conjunto de estudos recentemente divulgado indica que a cidade tem afundado à razão de 1 centímetro e meio por ano, o que levou as autoridades de planejamento urbano de Xangai a suspender alguns dos 800 arranha-céus anteriormente autorizados. Ainda assim, a cidade segue seu curso, quebrando e desfazendo antigas moradias em função de novos e grandiosos projetos modernos.
Xangai de ontem

Na outra margem do rio, o que se avista é uma Xangai radicalmente diferente, com muitas construções antigas impecavelmente preservadas e que souberam absorver o lifestyle requintado. A região do The Bund, como é chamada, conta com edifícios neoclássicos construídos entre os anos de 1920 e 1930 que testemunharam muitas guerras. Impossível não se deixar seduzir pelo charme arquitetônico dessas construções, que hoje abrigam excelentes atrações culturais.
Os destaques são muitos, como o edifício da alfândega, cuja torre de relógio recria o som do Big Ben de Londres; o famosíssimo Peace Hotel (antigo Cathay Hotel), obra-prima da art déco; a antiga sede do Hong Kong and Shanghai Bank, com uma cúpula onde ainda brilha a estrela vermelha colocada pelos comunistas em 1949.
Um dos mais emblemáticos é o Three on the Bund. Trata-se de um complexo que une o melhor da vida contemporânea como gastronomia, arte, música, cultura e moda. Já na entrada, quem dá as boas-vindas é uma butique Armani com sua Casa Armani, em anexo, e a grife Hugo Boss. O segundo andar vale uma visita por dois ótimos motivos. É onde se encontram a Evian Spa – um spa urbano de excelente qualidade, que conta com terapeutas especialistas em reflexologia chinesa – e o salão Barbers by Three, com hairstylists antenados com as últimas tendências internacionais. Se estiver no clima de mudar o visual, esse é o lugar. E, de quebra, você ainda sai reenergizado para continuar sua exploração urbana.
O andar de cima reserva a Art Gallery, com exposições de arte contemporânea de artistas locais e internacionais. Do 4º ao 7º andar, você vai encontrar os melhores restaurantes da cidade, a começar pelo glamouroso Jeans Georges, do celebrado chef Jean-Georges Vongerichten, que mescla, num mesmo prato, oriente e ocidente como poucos, em um ambiente deliciosamente agradável.
O próximo andar reserva o opulento Whampoa Club, com a interpretação moderna da cozinha tradicional de Xangai assinada por Jereme Leung. Os móveis do ambiente são todos originais dos tempos da China colonial e o banheiro, que conta até com uma lareira, foi eleito pela revista local City Weekend como o melhor da cidade. Para os amantes de frutos do mar, o lugar é o Laris, no 6º andar. O bufê de frutos do mar é fresco e oferece também ostras, lagostas, foie gras e até caviares internacionais.
A cobertura do Three on the Bund é disputada nas noites de quinta por causa da boa música que atrai muita gente bonita, que gosta de ver e ser vista. Não deixe de conferir o terraço, de onde se pode admirar toda a região da futurista Pudong. Uma ótima pedida é chegar pouco antes das 19h e aguardar o acender das luzes da cidade. Um espetáculo inesquecível que já virou ritual, até mesmo para quem não é turista.
Ao sair desse complexo, aproveite a proximidade e siga em direção à rua Nanjing Road East, a quatro quarteirões dali. No caminho, as vitrines luxuosas de Dolce & Gabbana, Ermenegildo Zegna, entre outras, chamam a atenção e contrastam com a simplicidade de boa parte dos cidadãos locais. Basta também um olhar mais cuidadoso para dentro das ruelas que seguem para o lado oeste da cidade para se avistar tais contrastes.
Natal todo dia
Ao andar por certas ruas, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer dia da semana, a sensação é a de se estar na véspera de Natal. Pior, no último fim de semana que antecede o feriado do dia 25 de dezembro. A Nanjing Road é exatamente desse jeito. Muitos ocidentais se perdem e chegam a se assustar na primeira meia hora de caminhada por essa rua, uma das mais movimentadas no canto leste da cidade.
Isso porque como se não bastasse o vaivém de pessoas (locais e turistas), há um verdadeiro exército de chineses realmente dispostos a vender mercadorias falsas a qualquer preço. Mesmo que você não tenha habilidade para pechinchar, por aqui essa prática é muito comum e se o cliente não começa, o próprio vendedor dá início à barganha. Eles correm atrás dos pedestres e abordam com um chavão: “Lolex” ou ainda “Very Fake”. O mais engraçado é que eles surgem de todos os lados no início da rua Nanjing Road East e parecem nem ligar para as grandes lojas do império de luxo que também se encontram na mesma área, desde a região do The Bund.
O que se percebe é que há clientes para todo mundo e ninguém de fato se sente ameaçado por nenhum concorrente. Mas as grandes marcas do mercado de luxo europeu e americano já demonstraram sinais de incômodo e algumas medidas governamentais foram tomadas. Há alguns anos, o governo municipal de Xangai anunciou o encerramento do mercado de Xiangyang, onde se concentravam mais de 800 vendedores ambulantes de falsificações e um dos locaismais visitados pelos turistas.
Novo status
O mais irônico disso tudo é que quem sustenta esse mercado não é a China propriamente. A mercadoria falsificada produzida no país tem como principais clientes os turistas ocidentais, pois os chineses das classes média-alta e alta, ávidos por ostentar o novo status conquistado a duras penas após anos de comunismo, só compram produtos genuínos. Tanto que o mercado de luxo deve boa parte de seu renascimento ao mercado chinês.
Em poucos anos, a China se transformou no terceiro maior mercado mundial de produtos de luxo e as estimativas da consultora Ernst & Young apontam para um crescimento ainda maior.
Ao cair da noite, ainda na região do Bund, nada melhor que um passeio calmo ao longo da marginal do Rio Huangpu, tendo por cenário os edifícios históricos iluminados de um lado e, do outro, os arranha-céus e os néons das multinacionais japonesas.
Cultura sobrevivente
A Old Town ou Antiga Cidade de Xangai hoje, na realidade, está mais próxima de uma Chinatown comercial do que das origens históricas. Ainda assim, foi preservada boa parte da arquitetura colonial, presente entre os pavilhões reconstruídos, templos taoístas e lojas velhas e modernas, que vendem de tudo um pouco, e a todos os preços. Milagrosamente preservados da voracidade comercial, os jardins Yu Yuan, criados na dinastia Ming (século 16), oferecem ao visitante um oásis de paz e tranquilidade, que se estende à centenária casa de chá no pavilhão situado ao meio do lago.
O mesmo não aconteceu com a Antiga Concessão Francesa. As belas residências rodeadas de jardins parecem ter desaparecido há muito tempo, engolidas pelo avassalador desenvolvimento urbano. As torres de apartamentos crescem como capim, no ritmo das lojas nas ruas mais comerciais.
Com o surto urbanístico vigente em Xangai, a Antiga Concessão Francesa provavelmente se verá obrigada a sobreviver em pequenos guetos para turistas, como os do bairro Xintiandi que, prestesa virar ruína, foram restaurados por um grupo imobiliário de Hong Kong. Casas antigas foram reconstruídas e ruelas originais recriadas para abrigar lojas, restaurantes, cafés e praças.
Os visitantes asiáticos e ocidentais adoram passear por essas ruas e admiram as construções que ainda restam da velha Xangai, como se estivessem em um museu vivo. A propósito: reserve uma manhã inteira ao Museu de Shanghai, localizado na praça de Xintiandi. Nele, estão expostos inúmeras peças em bronze, esculturas, porcelanas, gravuras, selos, mobiliário, vestuário e moedas antigas, além de exposições de artistas internacionais.
Chineses contra a pirataria
Em 2005, para se ter uma ideia, foram confirmados 1.277 casos de violação de marcas registradas em Xangai e apreendidas um 1,6 milhão de cópias piratas de peças de roupas, malas, relógios, CDs de música e filmes em DVDs. Esta ofensiva das autoridades chinesas contra as imitações começou nos primeiros dias daquele ano, quando um tribunal de Pequim condenou o célebre Mercado da Seda da capital chinesa a pagar uma indenização de € 10.700 a cinco marcas de luxo – Burberrys, Chanel, Gucci, Louis Vuitton e Prada – por falsificação de produtos. Apesar do valor muito abaixo do montante reclamado pelas marcas ( € 240 mil), a empresa que geria o Mercado da Seda recorreu da sentença
Desde o início da campanha contra a falsificação na China, em julho de 2004, foram investigados seis milhões de negócios e 283 mil mercados. Foram detidas e julgadas 158 pessoas e pagos € 38,5 milhões em indenizações. Segundo fontes do Departamento do Comércio dos Estados Unidos, as grifes internacionais perdem cerca de US$ 69,3 bilhões por ano no mercado chinês. Mas nenhuma das medidas freou as falsificações.
O famoso mercado (com centenas de lojinhas com cópias perfeitas de underwears da Abercrombie & Fitch e Calvin Klein, cintos Dolce & Gabbana, calças Levi's, tênis Adidas e bolsas, de Chloé a Louis Vuitton) extinto em 2005, tem novo nome e endereço. Ele segue firme e forte num prédio de três andares, na mesma Nanjing Road, só que no lado oeste, no número 580, com o nome de Fengxiang.
E assim como os vendedores ambulantes inoportunos da Nanjing Road East, eles também têm vizinhos ricos como o sofisticado shopping Plaza 66, no número 1.266 da mesma rua, com grifes de roupas como Chanel, Dior, Hermès, Fendi, Prada, entre outras, e de joias como Bulgari, Cartier, Tiffany e Van Cleef & Arpels. Há ainda outros shoppings de alto padrão como o CITIC Square e o Westgate Mall. Todos vizinhos do “mercadão” de Xangai – sem contar com as inúmeras esquinas que apresentam barraquinhas de ambulantes com bolsas e carteiras dos grandes nomes da moda.
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