Brasília abriga grandes atrações arquitetônicas de Oscar Niemeyer
Brasília ainda é desprezada, pelos brasileiros, como destino turístico. Seria reflexo da aversão aos políticos? Os hotéis locais dão grandes descontos nos fins de semana (chega a 50%) e a visitação à maioria das atrações arquitetônicas é gratuita. Estes são dois dos vários bons motivos para você conhecer a cidade, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco desde 1987. A cidade fascina os visistantes pela beleza e grandiosidade das construções, além da engenhosidade do seu planejamento. Acredite, Brasília é muito mais do que você vê diariamente na TV.
Justamente a TV é uma das desestimuladoras, ainda que indiretamente, do turismo em Brasília. Como mostra a cidade todo santo dia, acaba enjoando. É como se todos já conhecessem a cidade de longa data. Já os políticos são a maior antipropaganda turística imaginável. Esqueça-os. Em Brasília, você simplesmente não vai vê-los. Ficam a maior parte da semana fora de lá…
O fato é que meio metro de telinha de TV é um espaço irrisório, que espreme toda a beleza cinematográfica da capital. É preciso ir ver de perto, perceber o lugar, se sentir pequeno diante desse imponente museu arquitetônico a céu aberto. Que tal reservar pelo menos dois dias para conhecer as principais atrações? Há ótimas opções e quase todas ficam concentradas no chamado Eixo Monumental. Para quem tem mais tempo, há surpreendentes atrações nas redondezas do Distrito Federal.
História e passeio
Brasília foi idealizada pelo patriarca José Bonifácio em 1823, um ano após a Independência do Brasil. Em 1892, já estava demarcada a área da futura capital, fundada precisamente 68 anos depois, em 21 de abril de 1960, por iniciativa do então presidente Juscelino Kubitschek. O astronauta Yuri Gagarin esteve na cidade em 1961 e comentou: “tenho a impressão de que estou desembarcando em um planeta diferente e não na Terra”. A cidade tem aproximadamente 2,5 milhões de habitantes. Fora planejada para comportar 600 mil pessoas. Mas, mesmo assim, não se observa grandes engarrafamentos – os moradores locais reclamam muito, mas é por desconhecer o trânsito paulistano.
As principais atrações arquitetônicas de Brasília estão concentradas no Eixo Monumental, conhecido como “Eixão”. Dividindo a cidade em Norte e Sul, é uma larguíssima avenida que corta a cidade. São doze faixas de rolamento, mais um amplo canteiro central (veja como o urbanista Lúcio Costa foi um visionário, para prever o trânsito com 50 anos de antecedência). Para atravessá-lo, é preciso percorrer 250 metros, o dobro da avenida Nove de Julho, em Buenos Aires, e o quádruplo da avenida 23 de Maio, em São Paulo. A peculiaridade é que os motoristas brasilienses respeitam a faixa dos pedestres. Um belo exemplo.
Um ótimo local para começar o passeio é a Torre de TV, com seus 224 metros de altura, a estrutura mais alta do Brasil. A plataforma para visitantes fica a 75 metros, proporcionando uma vista belíssima, principalmente em direção à “cabeça” do avião, onde está localizado o Congresso Nacional. De lá de cima tem-se a noção do conceito de Plano Piloto (cujo nome se deve à semelhança do projeto da cidade com o desenho de um avião), pois Brasília é muito plana.
Para ver, realmente, o Plano Piloto como um todo, a dica é pegar um helicóptero, cuja base fica bem ao lado da Torre de TV. Um passeio com uma visão realmente privilegiada. Alguns aventureiros pousam de asa delta bem no meio Plano Piloto, perto do Congresso Nacional, vindos do Vale do Paranã.
Entrando no Eixo
Ainda no Eixo Monumental, pode-se passar e dar uma paradinha rápida em vários locais de interesse, como o Palácio do Itamaraty (muito bonito à noite) e o Palácio do Planalto e o da Justiça, todos com visitas guiadas. Inaugurado em 2006, o pitoresco Museu Nacional da República merece pelo menos uma foto rápida. Parece metade do planeta Saturno, com parte de seu anel. Mas refletido no espelho d’água, lembra um ovo deitado.
Na extremidade do Eixo está o conhecido Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes. Se os habitués do local, deputados e senadores, são em sua maioria uma vergonha nacional, a arquitetura é elogiada internacionalmente, consagrando o arquiteto Oscar Niemeyer. Aqui há um detalhe interessante: diz a lenda que os prédios paralelos do Congresso foram construídos para que, no dia 21 de abril, o sol nasça exatamente entre eles.
Os mais ufanistas podem visitar também algumas dependências do Congresso e do Senado.
Obras religiosas
Não é preciso ser religioso para apreciar duas obras marcantes de Brasília: a Catedral Metropolitana e o Santuário Dom Bosco. A Catedral é um dos cartões-postais da cidade, até porque é mais frequentada por turistas do que por fiéis. Está sempre presente em camisetas vendidas nos aeroportos. De fato, a construção tem visual impactante, com 16 colunas parabólicas, pesando 90 toneladas cada. Inaugurada em 1970, tem no interior diversas obras de arte, como as de Athos Bulcão, Di Cavalcanti e Alfredo Ceschiatti (os gigantescos anjos pendurados).
O Santuário Dom Bosco tem a engenhosidade de ser, em si, um vitral. A cada hora do dia, conforme a incidência do sol, muda a tonalidade da cor, mas predomina o azul celeste com detalhes em branco. Ao centro, um enorme lustre com 7.400 peças de cristal de Murano (para vê-lo aceso durante o dia, é preciso pagar uma taxa). Já o templo da Legião da Boa Vontade, em forma de pirâmide, pode ser interessante para os místicos. A trilha espiral em seu centro, para andar descalço, sob um enorme cristal de 21 quilos têm lá seus adeptos. Curiosamente, abre 24h.
Não muito longe dali, a Ponte Juscelino Kubitschek merece uma visita. A engenhosidade e a beleza da obra conquistaram prêmios internacionais por causa da forma, inspirada em uma pedra quicando n’água. É também possível ver a ponte por baixo, no passeio de barco pelo Lago Paranoá. Dura, em média, duas horas e sai do Clube Asbac nos fins de semana.
Ainda pensando no turismo dentro da cidade, vale conhecer o Zoológico. A peculiaridade é poder percorrê-lo de carro, estacionando perto de cada atração. Um prato cheio para os preguiçosos. A principal atração são os tigres-de-bengala nascidos ali. Cuidado com a mãe deles: já matou um funcionário e quase escapou do recinto.
Como se localizar
Causa estranheza ao visitante de primeira viagem o modo como a cidade é organizada, nas chamadas superquadras. Tudo na cidade é setorizado e localizado pelos pontos cardeais, até as avenidas. O Leste é identificado como L. Mas o Oeste, como W (do inglês West). Cada superquadra, com três números. Rapidamente você se acostuma com o sistema e se localiza rapidamente.
Tudo é muito concentrado em função desse sistema. O melhor exemplo são os hotéis e, mais ainda, os shoppings, cuja quantidade deve ser a maior do Brasil por metro quadrado. Chegam a, literalmente, dividir parede. A consequência negativa dessa concentração é a distância que se cria entre coisas cotidianas, como um banco e uma farmácia. O brasiliense considera o carro uma necessidade.
Natureza e concreto
Pensar em Brasília é pensar, primeiro, nas obras de concreto. Mas o ecoturismo também merece atenção da capital dereal e, principalmente, nas proximidades. A cidade conta com alguns grandes parques (Parque Água Mineral, Parque Sarah Kubitschek e Jardim Botânico), além da Chapada Imperial e da Estação Ecológica Águas Emendadas – basicamente frequentados por moradores locais e pouco atraentes para o visitante.
Já o Vale do Paranã (com til mesmo) merece destaque. Fica a apenas 90 km e conta com dois pontos de salto (asa delta e parapente), cujo visual bacana Está a 1.314 metros acima do nível do mar e o desnível em relação ao solo é de 560 metros. Devido aos ventos muito fortes, não é indicado para principiantes, mas existem vôos duplos. É possível voar até o Eixo Monumental – e dar um rasante em algum político desavisado. O recorde de voo, a partir da rampa, é de 225 km de distância, com asa delta, e 134 km, com parapente. Não há infraestrutura turística, mas chega-se facilmente ao topo com um carro comum. Leve um lanchinho e uma blusa, mesmo que esteja quente.
O Salto do Itiquira, nas proximidades de Formosa, tem interesse razoável, pela altura (168 metros) e volume de água da cachoeira. A 115 km da capital, oferece facilidade de acesso, lanchonetes, estacionamento... Pela comodidade, atrai famílias, crianças, idosos… e farofeiros.
Um pouco mais além
A charmosa cidade de Pirenópolis, a 145 km da capital, preserva muitas tradições, sendo tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Conta com algumas atrações ecoturísticas, mas se destaca pelas festas populares, tal como a famosa Cavalhada, representando a luta entre cristãos e mouros.
Um pouco mais distante, recomendo a Cidade de Goiás, a 300 km de Brasília, Patrimônio Histórico e Cultural Mundial pela Unesco. Antigamente conhecida como Goiás Velho (termo que os moradores consideram depreciativo), destaca-se pelo seu centro histórico impecavelmente preservado – nessa área, toda a fiação elétrica é subterrânea. Um atração muito famosa na cidade é a Festa dos Farricocos (ou Procissão do Fogaréu), que tem quase 270 anos de tradição, e é realizada na Semana Santa. Há um desfile de figuras cuja indumentária lembra muito a organização racista Ku Klux Klan, dos Estados Unidos, mas são do bem.
Outra indicação muitíssimo interessante é visitar a Chapada dos Veadeiros, a cerca de 270 km de Brasília, onde é possível fazer trilhas incríveis.
A última indicação é bem longe: o Parque Estadual do Terra Ronca fica a 400 km de Brasília, mas vale muito a pena. Tem cavernas belíssimas. Poucas são abertas à visitação, mas a visão do teto da Caverna Angélica, refletido em um espelho d’água natural, já justifica a visita. Normalmente se indica a hospedagem em Posse (GO), a 80 km do Parque. Entretanto, a pequena cidade de São Domingos fica mais próxima das atrações principais. Atrai aventureiros do mundo inteiro. De acordo com os guias, os que menos visitam o local são os goianos.
O certo é que Brasília é muito mais do que um amontoado de prédios burocráticos. As atrações dentro e fora justificam plenamente um passeio para conhecer a cidade e a região. Nas próximas férias ou num feriado prolongado, que tal encaixar a capital federal em um fim de semana? Quanto mais pessoas dignas frequentarem Brasília, melhor. Quem sabe isso ajuda a mudar o clima que impera na câmara e no senado.
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