Além de luxo e modernidade, Dubai tem atrações radicais no meio do deserto
Há bem poucos anos Dubai não despertava sonho ou interesse em ninguém. Aliás, pouca gente tinha ouvido falar dessa cidade, um dos sete Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio. Para olhos ocidentais era apenas uma pequena interrogação fincada nas areias de um deserto sem fim onde nada poderia existir além de calor e pó. Nem mesmo a informação sobre praias de águas muito azuis às margens do Golfo Pérsico ajudaria a convencer alguém a viajar para lá. Golfo Pérsico? Nos anos de 1990 esse nome soava algo como Faixa de Gaza ou sul do Líbano hoje em dia. Mas as coisas mudaram por lá. E mudaram rápido. Em apenas três décadas Dubai passou de vilarejo de mercadores árabes a um dos destinos de luxo mais cobiçados do mundo. Não era nada e inventou-se completamente.
Transformou-se num ícone de modernidade, onde prédios futuristas, shoppings gigantescos e hotéis sete estrelas brotaram das areias por onde circulavam apenas camelos. Dizem que tudo é possível em Dubai. Pode ser mesmo. O arrojo dos projetos arquitetônicos, que inclui até complexos turísticos em gigantescas ilhas artificiais, parecem recriar o cenário de um filme de ficção científica.
Trata-se talvez do maior boom imobiliário que o mundo já viu. E que está longe do fim. Numa velocidade alucinante, o skyline do centro e da região chamada de New Dubai está sendo tomado por construções cada vez mais audaciosas, improváveis e magalomaníacas. Para um lugar que em 1950 contava cerca de vinte mil moradores vivendo as agruras desérticas num povoado sem energia elétrica, esse crescimento parece tão surreal quanto sua história.
A primitiva Dubai floresceu ao longo de dez quilômetros às margens do rio Creek. Por séculos, seu habitantes sobreviveram de um parco comércio proporcionado pela única vantagem competitiva que poderiam usufruir, a posição geográfica estratégica, na boca de entrada do Golfo Pérsico. Era caminho e entreposto das rotas marítimas entre a Europa, Ásia e a costa leste da África. A cidade exportava pérolas, a base da economia local até os anos de 1960, que eram extraídas da forma mais rudimentar possível, em audaciosos mergulhos de apnéia. Iam as pérolas e peixe seco, chegavam tudo o que a aridez não proporcionava: arroz, açúcar, temperos, cereais, madeira... A grande mudança aconteceria a partir de 1966 com a descoberta de petróleo na região, cuja lucrativa exploração financiou o rápido crescimento.
O sheik da época, Rashid Bin Saeed, considerado o “pai de Dubai”, foi o primeiro de uma geração de governantes que obsessivamente trabalhou nos alicerces da Dubai moderna. Primeiro vieram os portos de Mina Rashid e Jebel Ali, o aeroporto Emirates, hospitais e um eficiente sistema educacional. Em 1990, seu filho, o sheik Maktoum bin Rashid, assume o comando administrativo. Ele viria a ser o grande responsável pelas maiores mudanças arquitetônicas e culturais da cidade. A ideia era preparar o futuro para o inevitável fim dos estoques de petróleo com investimentos para diversificar a economia. O turismo receberam atenção máxima, de onde vem atualmente a maior parte da grana que move as engrenagens das máquinas e paga a mão-de-obra imigrante a construir Dubai.
Arquitetura megalômana
Com dinheiro sobrando tanto quanto ideias mirabolantes, Dubai se fez ao sabor da extravagância. Os shoppings gigantescos tem lojas das grifes mais famosas do mundo e a preços bem convidativos. O Dubai Mall, inaugurado no final de 2008, é o maior do mundo, e oferece como atrações uma pista de gelo e aquário com tubarões. Para os adultos a melhor parte talvez seja o piso reservado aos eletrônicos, onde é quase impossível ir embora sem cobiçar a compra de um novo notebook. Em outro shopping, o Emirates Mall, todo mundo fica boquiaberto com a pista de esqui, com neve e até teleférico, que existe lá dentro, num enorme ambiente climatizado a –3ºC.
O maior prédio do planeta também fica lá. O Burj Dubai – Torre de Dubai, em português – sobressai na paisagem urbana com seus 800 metros de altura. É praticamente uma pequena cidade vertical, com instalações para até 50 mil pessoas distribuídas em escritórios, restaurantes, apartamentos residenciais e um hotel. Alguns juízes do Guinness Book devem viver em Dubai, pois há sempre uma novidade pronta para ser agraciada com um recorde.
E o que explicaria uma queima de fogos duas vezes maior do que a realizada na cerimônia de abertura dos jogos Olímpicos de Pequim durante a inauguração do Atlantis, o mais novo superhotel local? Sem dúvida, a grandiosidade do projeto que tenta recriar no solo árabe a lendária cidade perdida de Atlântida com seus castelos dourados. Aquários do tamanho de paredes inteiras no saguão, no restaurante e até em algumas suítes tratam de jogar seus privilegiados hóspedes dentro de um cenário digno de Poseidon, o deus grego dos mares, que com um poderoso tridente era capaz de criar maremotos.
Se os sheiks árabes não tem o poder de Poseidon em causar maremotos, conseguirão ao menos mudar a geografia litorânea ao criar o The Palm, três enormes ilhas artificiais em formato de palmeira que, segundo a propaganda alardeada mundo afora – poderiam ser vistas do espaço, e vão abrigar dezenas de hotéis cinco estrelas e condomínios de alto luxo.
Na fúria dos canteiros de obras, não há como prever quando vai acabar o boom imobiliário de Dubai. Trata-se de uma cidade inacabada. No bairro Dubai Marina, onde está o metro quadrado mais caro, foram construídas cem edifícios e um iate clube no prazo quatro anos. Ainda há muita coisa em andamento. Crise? Aparentemente não chegou lá. Dizem que um terço de todos os guindastes do planeta estão em Dubai. De fato, as girafas metálicas estão por toda parte, em cada topo de prédio há várias delas.
Do ponto de vista arquitetônico, o resultado é uma miscelânea de estilos, do árabe ao contemporâneo. Não há prédios retangulares convencionais e bem comportados. Optou-se em erguer o concreto nas geometrias mais improváveis, em triângulo, trapézio, côncavo-convexos, ou tudo isso ao mesmo tempo. Tal busca exaustiva pela inovação é fruto não só de mentes criativas mas também da ambição em conquistar os sonhos de viajantes do planeta inteiro. Ninguém sabe qual será a identidade final dessa cidade que não pára de se inventar.
Isso não significa dizer que a arquitetura moderna vá engolir a velha Dubai, que ainda existe. A arquitetura árabe tradicional está presente nas antigas casas, mesquitas e souks, mercados populares que são provavelmente a mais antiga instituição local. Está também nas agras, os antigos barcos de madeira que fazem a travessia do Creek, interligando os bairros de Deira e Bur Dubai. O novo e o antigo fundem-se confortavelmente. Algumas construções recentes, como o Hotel Madinnat Jumeirah retoma as formas árabes consagradas.
Cultura árabe
A mesma fusão não se aplica em termos culturais. Naturalmente, a herança árabe prevalece mesmo diante da forte ocidentalização e de um ambiente tão cosmopolita, no qual um terço dos dois milhões de habitantes são estrangeiros, principalmente paquistaneses, filipinos e indianos. Mas adquiriu ares culturais mais tolerantes em relação a comportamentos e religiões alheias (com exceção do judaísmo). Em parte também por conta da secular presença dos visitantes estrangeiros desde os tempos em que Dubai era um entreposto comercial nas rotas do comércio entre Europa, Ásia e a costa leste da África. Os árabes tradicionais estão lá, vestidos com a kandura branca feitos mercadores beduínos, mas nenhum deles franze as sombrancelhas grossas para as europeias de saia e barriguinha de fora, como convém ao calorão desértico de lá. As mulheres usam burcas negras, mas não perdem a chance de enfeitar-se com ouro e pérolas vendidos nas souks e nas lojas de grife dos shoppings. Ao contrário de outros países árabes, ali elas podem trabalhar e até mudar o visual se quiser, como fazem as simpáticas taxistas de burca cor-de-rosa no aeroporto.
A Dubai tradicional está principalmente às margens do rio Creek, nos bairros de Deira e Bur Dubai, que são ideais para serem explorados a pé. As agras (os tais barquinhos) fazem o traslado de um lado ao outro. Nessa parte antiga da cidade, ainda é possível sentir a vocação comercial que caracterizou a história local nos diversos mercados ao ar livre, os souks. Nada mais típico. Há vários deles, e todos são temáticos. Há souks de peixe, roupa, frutas, perfumes, eletrônicos...
Em Deira, o Spice (pimenta) Souk é o mais tradicional e conhecido. Já foi o maior mercado de Dubai, no início do século 20, com cerca de 300 lojinhas de incensos, ervas, legítimo açafrão (que lá são baratíssimo), além de utensílios do lar, já que se trata de um mercado que é mais do que uma atração turística, mas também um local do dia a dia dos moradores das redondezas. Não se esqueça que barganhar também faz parte do programa. Nunca aceite o primeiro preço que o vendedor lhe oferecer.
No Gold Souk todo mundo fica pasmo diante das centenas de lojas de ouro e todo tipo de joias, quase todas sempre cheias de clientes debruçados nos balcões e olhando vitrines, principalmente mulheres de burcas. É uma tradição nos casamentos árabes que a noiva se cubra de ricos tesouros conforme a capacidade do noivo em financiá-los. Pare um pouco por ali, acomode-se num banco e observe por alguns minutos ao seu redor. Verá que tão interessantes quanto as peças – há até camisas femininas feitas com fios de ouro – é a variedade humana circulante, que inclui de europeus branquelos de óculos escuros à ambulantes indianos.
Bur Dubai é a parte mais antiga. Ali surgiu o primeiro núcleo do povoado de mercadores que daria origem a cidade. No prédio mais antigo, de 1785, que funcionava como forte, está o Museu Histórico, que abriga objetos antigos, como barcos de pesca e armas, além de apresentações audiovisuais que contam a história da jovem cidade. Próxima a estação das abras está o antigo souk com suas arcadas de madeira ao longo de dois quarteirões abarrotados de lojinhas de artesanato, souvenires e roupas típicas. Homens podem considerar, de repente, uma kandura árabe para o próximo baile a fantasia, enquanto as mulheres vão preferir um sari indiano daqueles bem coloridos.
Deira e Bur Dubai são também as partes mais multiculturais da cidade. Então aproveite-as. Caminhe um pouco, perca-se espontaneamente e fará ótimos achados. Dubai é bastante segura e praticamente não existem áreas não recomendadas, com ressalva apenas para mulheres desacompanhadas. Muito das peculiaridades locais estão além dos pontos turísticos. Nos arredores dos souks há inúmeras ruelas com lojas para comprar as tradicionais pashminas – grandes xales feitos com cashmere ou seda – e itens como colchas e toalhas de mesa a preços bem convidativos. Se quiser viver uma aventura gastronômica, por exemplo, esse também é o lugar certo, pois ali estão restaurantes das mais diversas nacionalidades: siria, etíope, russa, iraquiana, filipina...
Jumeirah Beach
Do bairro de Bur Dubai parte a Jumeirah RD, avenida que segue rente a costa por 16 km e dá acesso às praias de areias brancas e mar azul do Golfo Pérsico, numa região chamada New Dubai. Alguns dos resorts e hotéis mais extravagantes do mundo estão por ali, incluindo o Burj Al Arab, que se tornou o maior símbolo local. Com formato de vela de barco, com 321 metros de altura, foi construído sobre uma ilha artificial e, desde sua abertura em 1999, foi aclamado como o único sete estrelas do mundo. Embora a classificação máxima da hotelaria mundial reconheça até a categoria cinco estrelas, a propaganda pegou e o empreendimento nunca mais saiu de moda entre os endinheirados que visitam Dubai.
Internamente, o hotel tem luxos inimagináveis, como ouro recobrindo maçanetas, torneiras e outros detalhes de suítes. Na saída da pista de pouso para helicópteros os recém-chegados são recepcionados com spray de água aromatizada e toalhas refrescantes para aliviar o calor, e já podem usufruir de mordomias como rolls royce à disposição e personal shopper para ir às lojas buscar peças de roupa que o hóspede escolher na própria suíte.
Claro que tudo isso tem um preço que não é nada barato. Uma maneira elegante de conhecê-lo, sem estourar o limite do cartão de crédito, é fazer uma reserva para jantar ou tomar um chá da tarde no Al Muntana no 27º andar e ter, de quebra, uma das melhores vistas para a cidade e para as ilhas The Palm e The World. Na mesma praia está outro gigante hoteleiro, o Jumeirah Madinnat, um complexo de arquitetura em estilo árabe com hotéis, shopping, parque aquático e de diversões. Tão grande que há até canais com abras navegando sem pressa de uma atração para a outra.
Aventura no Deserto
Os árabes em Dubai nutrem um carinho pelo deserto assim como os brasileiros por praias. É uma afinidade forte deles, herdada dos tempos em que todo os Emirados Árabes não passavam de um conjunto disperso de tribos de beduínos. A tradição cultural persiste em danças típicas, na música e na arte da falcoaria. Domar poderosas aves de rapina era uma maneira eficiente de complementar a alimentação com carne de caça – aves, coelhos e outros animais pequenos que os falcões podem capturar.
Passear pelo deserto faz parte de qualquer viagem a Dubai. Uma espécie de pausa para a contemplação diante de uma paisagem vazia e poeirenta, ao mesmo tempo única e misteriosa. Mas não há monotonia. As excursões pelo cenário dos antigos beduínos acontecem em veículos 4x4 capazes de galgar dunas e levar a algum acampamento no meio do deserto, convenientemente montados com mesas ao ar livre sobre tapetes persas, onde um jantar típico será servido.
Não perca por nada uma excursão ao deserto. Mais do que qualquer shopping ou hotel de luxo, essa é uma das melhores maneiras para entender um pouquinho à respeito da alma de Dubai, uma cidade que veio literalmente do pó e hoje faz parte do imaginário coletivo de qualquer turista.
Para comentar é preciso autenticar-se.
Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
Sobre duas rodas, explore Mendoza nas férias
Uma série de empresas de turismo já está com pacotes prontos para quem deseja viajar nas próximas férias. A Bike Expedition, por exemplo, criou um roteiro de cinco noites de bicicleta pela região de Mendoza, na Argentina. No total, são 200[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:07 - Atualizado em 14/05/2012 12:32
Acampamento do Santos oferece à garotada rotina igual a dos atletas
Se seu pimpolho ou adolescente demonstra ter talento com uma bola nos pés, por que não inscrevê-lo no Santos Training Camp? Trata-se de um acampamento, entre 16 e 21 de janeiro de 2012, no Oscar Inn Hotel Eco Resort, em Águas de Lindoia (SP),[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:11 - Atualizado em 14/05/2012 12:18
Estude e ainda aproveite as belas paisagens da Austrália
A Austrália tem praias lindas e com ótimas ondas, em diferentes pontos do país. Sem contar a beleza e a diversidade subaquáticas, como comprova a exuberante Grande Barreira de Corais. Por isso, tem tudo a ver estudar inglês por lá e ainda[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:00 - Atualizado em 14/05/2012 12:09
Inglês e diversão num curso de férias em Vancouver
Os pais que pretendem presentear os filhos com uma viagem, a qual ainda resulte num upgrade da língua inglesa, podem conferir os programas de estudo no exterior oferecidos pela Experimento. Uma das alternativas é um curso de três semanas em[...]







