Espantos e pontos de exclamação

Dec 31, 1969
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Dubai, com apenas 40 anos de existência, tem prédios e arquiteturas sofisticadasOs leitores mais vete­ranos certamente ainda têm viva, na memória, a vi­tória do Brasil sobre a Itália no estádio As­teca, na Cidade do México. Impiedosos 4 a 1, o tri, a conquista definitiva da depois surrupiada Taça Jules Rimet. Pois nunca é demais lembrar que, naquele exato dia, Dubai sequer existia.

Havia, no lugar, um porto precário e dez ou vinte casotas contíguas, onde, vez por outra, atracava um antigo dhow, com mercadorias trafegando pelo Golfo Pérsico para que grupos nômades viessem adquiri-las. Mas não era país, não tinha dinheiro, nem planos.

Hoje, nove copas mais tarde, todo mun­do conhece Dubai. Está nas revistas. Na novela das oito (pagando milhões em mer­chandising), ocupa espaço no sonho dos viajantes.

As cadernetas que preenchi em duas viagens para lá – um ano e meio de diferença entre ambas –, destacam-se pela quantidade de pontos de exclamação que salpiquei entre uma nota e outra. Uma forma gráfica de re­­gistrar meu espanto pelas obras superlativas que despontam, interminavelmente, nesse emirado enigmático. Pistas de esqui cobertas no meio do deserto. O maior shopping do mundo. O maior aeroporto do mundo, em vias de ser destronado por outro, já em cons­trução, a 40 km de distância. Ilhas artificiais. Um prédio que perfura o céu e outros exemplares do talento dos melhores ar­quitetos do mundo. A futura Dubailândia que promete transformar Disney World em um parque de diversões de arrabalde.

Sonhos, projetos e obras efetivamente prontas que parecem superar, muitas vezes, todo o petróleo quase esgotado já extraído do subsolo do pequeno território desértico.

A empreitada toda é o projeto visionário (ou o delírio ensandecido) de um único homem: o todo-poderoso xeque Mo­hammed Bin Rashid Al Maktoum. À seme­lhança de Ramsés, o mais empre­endedor dos faraós egípcios, ou de Nabu­codonosor, que produziu os Jardins da Babilônia, o xeque Maktoum vai ga­rantindo a pos­teridade de sua obra.

Discute-se – e com muita razão – até que ponto a miragem do governante de Dubai terá a capacidade de se trans­formar no maior negócio turístico autos­sus­ten­tável do mundo. Ou se o preço de seus delírios megalomaníacos não con­duzirá Dubai à bancarrota.

De um jeito ou de outro, é preciso ver para crer. Você também fará pontos de exclamação no caderno (ou no ar) ao ver um bairro inteiro, como Marina Dubai, com centenas de prédios em torno de baías artificiais desviadas do mar despontar de um ano para o outro já com todos os iates devidamente ancorados em seus píeres.

Os iates têm donos? Suponho que sim: devem ser, todos eles, do próprio go­vernante, que não inauguraria uma marina com atracadouros vazios. Você pode até comprar um deles. Ou um dos milhares de imóveis novos à venda em Dubai. Mas se sua curiosidade for apenas a de um viajante, veja de perto porque não há nada igual em matéria de grandiosidade. E porque, ainda que fracasse, permanecerá para a posteridade como o vestígio de mais um grande sonho nas areias do deserto.

Bye, bye, Dubai - Notas rabiscadas em um longo voo de volta para São Paulo

Onde estão os “dubaianos”? O gentílico deve ser dubaiense, mas até pode ser dubaiano. Ou não? O fato é que, para usar um dito da região, é mais fácil um camelo passar pela cabeça de uma agulha do que encontrar um verdadeiro nativo em Dubai. Mais de 200 nacionalidades compõem a população, quase toda importada.

Há uma boa porcentagem de europeus, muitos árabes vizinhos – libaneses, iemenitas e sírios, entre outros – e uma quantidade notável de indianos e paquistaneses trabalhando, sobretudo, na construção civil. Entre os que inquiri (e não foram poucos), não encontr­ei nenhum nascido “na casa”.

Questão de gosto Há belos e riquíssimos prédios em Dubai, como o famoso hotel Burj El Arab e o novíssimo Atlantis, que consumiu US$ 1,5 bilhão em sua construção. Entretanto, a não ser que você tenha queda pelo extravagante, vá preparado: a riqueza gerou espaços espantosos, mas não necessariamente bonitos. Você verá paredes folheadas a ouro, mármores e materiais nobilíssimos. Na maioria dos casos, porém, a decoração parece ter saído da prancheta de Hebe Camargo depois de uma acidental ingestão de ácido lisérgico. Do camelo para o Cadillac Singelos, os táxis de Dubai são todos brancos e com o teto em cor-de-rosa. A frota, porém, é moderníssima, com carros sempre novos e impecáveis. Mais notáveis, contudo, são os carros de passageiros. Possivelmente, apenas em Mônaco seja possível vislumbrar tamanha concentração de Ferraris, Lamborghinis e outros modelos esportivos desses que só costumamos ver em salões de automóvel. A possibilidade de passear pelo deserto também desperta o desejo por poderosos 4x4, que estão por toda a parte.

O modelo preferido parece ser o Hummer, veículo desenvolvido para a Guerra do Golfo. É muito curioso ver ferozes Hummer dirigidos por senhoras envergando singelas burcas. A nota triste: o índice de acidentes é muito elevado. A explicação de um motorista paquistanês: “Eles passaram direto do camelo para o Cadillac…”.

Parece Las Vegas?

É a comparação mais recorrente. Porque fica no deserto e porque tem grandes obras, tão rapidamente erguidas que acabam sendo consideradas “artificiais”. Não, não parece Las Vegas. A base da economia de Vegas é o jogo. Em Dubai, o jogo e as apostas são proibidos em qualquer circunstância. A família real é adepta do turfe e há belos hipódromos com páreos muito concorridos. O povo comparece, mas não joga.

Mais um diferencial: Las Vegas não tem mar. Dubai tem praias lindas, de areias brancas e águas cristalinas. De resto, vá lá: Dubai até parece Las Vegas.

Islamismo “pragmático”

Os guias dizem que Dubai tem centenas de mesquitas. Pois, se é verdade, elas estão bem escondidas. Há uma ou outra de pequenas proporções, na comparação com outros países árabes. Os súditos do xeque Maktoum são servos fiéis de Alá, mas não se incomodam com quem siga outros caminhos. Nas ruas e shoppings, é possível ver famílias trajadas recatadamente à moda árabe – os homens de  kanduras (a túnica branca), as mulheres de burca ou abaya, assim como as crianças – e ocidentais em bermudas com camisetas tipo regata.

A tolerância com bebida alcoólica é ampla, embora existam estabelecimentos apenas para muçulmanos, onde não se vende nem sequer cerveja.

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