Vulcões ativos são algumas atrações que podem ser vistas em Galápagos
O nome do arquipélago é uma herança espanhola: define uma sela que, na forma, era muito parecida com a carapaça das tartarugas gigantes que ainda habitam a região. Apartado de qualquer continente, a 1.000 km da costa do Equador, o arquipélago de Galápagos é formado por 19 ilhas encravadas no Oceano Pacífico. Além dos navegadores espanhóis, franceses e ingleses, principalmente piratas e baleeiros, ancoravam constantemente nessas ilhas que surgiram de erupções vulcânicas submarinas, há cerca de 6 milhões de anos. Hoje, os europeus continuam a invadir Galápagos. Mas, em vez de armas para abater tartarugas, baleias, focas e leões-marinhos, trazem câmeras digitais e filmadoras. Querem registrar cada detalhe da visita a um lugar único no planeta.
Quase todos têm o mesmo desejo inconfesso: sentir-se um pouquinho como Charles Darwin, o cientista inglês que aportou nas ilhas em 1835 para colher dados fundamentais na elaboração da sua revolucionária Teoria da Evolução das Espécies.
Por esses e outros tantos motivos, não é à toa que um pacote para Galápagos tem um preço salgado, dependendo do tipo de viagem. Não é nada barato, mas vale o investimento. O cruzeiro de cinco dias dá uma ótima noção do que são essas ilhas com jeito de mundo perdido. No entanto, há muito mais para conhecer por lá.
A maior parte dos pacotes inclui Quito, a capital do Equador, e alguns, Guayaquil, a maior cidade do país ou Cuenca, cidade histórica – por isso as diferenças de preço. São lugares legais, mas o que vale mesmo é Galápagos. Anime-se e faça as malas!
De panga em panga
"Let's go, fragatas! Let's go!". Não, não se trata de um conterrâneo de Darwin dando ordem para que as aves, uma das muitas espécies que vivem em Galápagos, levantem vôo. A chamada é para que um dos grupos de turistas que estão a bordo do navio MN Santa Cruz se dirija à panga que o espera. É assim que a maioria dos visitantes que chega ao arquipélago faz as suas expedições de inspiração darwinista na região: navega de ilha em ilha, num cruzeiro ecológico e, depois, atinge até os pontos de visitação em botes de borracha, que os equatorianos chamam de pangas.
Cada grupo recebe o nome de um animal que habita Galápagos. São entregues coletes salva-vidas a todos e cada um ocupa seu lugar na panga, sob o comando de um guia especializado. Ao chegar ao ponto de desembarque, que pode ser seco (em um pequeno atracadouro) ou molhado (na areia da praia, em meio a ondas), os coletes são recolhidos e todos seguem o guia que, entre uma explicação e outra, repetirá dezenas de vezes por dia: “No salgan del sendero” (Não saiam do caminho). Cabe ao guia cuidar para que nenhum turista ultrapasse os limites demarcados, não perturbe os animais e não leve nada do local, nem mesmo uma pedrinha.
O MN Santa Cruz é um transatlântico pequeno e aconchegante. Navega com apenas 90 passageiros, na maioria europeus, e não tem nada demais nem de menos: cabines pequenas mas confortáveis, comida de boa qualidade e atendimento simpático dos tripulantes. A embarcação é uma das 12 autorizadas a navegar em Galápagos, pois o arquipélago está dentro de um parque nacional marinho e há um rigoroso controle de fluxo de turistas para lá – são cerca de 100 mil por ano.
A língua mais falada no navio entre os turistas é o inglês. Se você não fala inglês, não se preocupe. Há grupos em língua espanhola – e se mesmo assim for difícil, existem guias que se viram bem em português.
O time de guias equatorianos é competente. Todos falam inglês e alguns, mais duas ou três línguas. Há sempre muita informação sobre a fauna, a flora e as ilhas, tanto na programação fora do navio – que se resume a caminhadas contemplativas, alguns mergulhos e visitas a pontos turísticos – quanto no seu interior, onde todo dia há "charla" (palestra) com ajuda de recursos audiovisuais.
Prepare a câmera
Se você gosta de fotografar, vai se divertir muito em Galápagos. Se além disso, adora fazer fotos de animais, ficará à beira de um ataque de felicidade. Depois do desembarque no aeroporto da Ilha de Baltra, faz-se um curto percurso de ônibus e chega-se a um pequeno cais, onde você terá contato com sua primeira panga, que o levará ao Santa Cruz. Ali no cais mesmo, leões-marinhos preguiçosos, exalando um cheirinho não muito agradável, o forçarão a fazer os primeiros disparos com a câmera.
Mas, calma. Não precisa clicar desesperadamente. Você terá, nos dias que se seguirão, tantas oportunidades de fotografar (ou filmar) leões-marinhos e outros bichos que, chegará um momento, esnobará uma iguana a centímetros de seu pé. Só não dê bobeira com esquecimentos que podem levá-lo ao desespero, como o fim da única bateria da sua câmera bem no meio do passeio, longe da civilização.
Na hora de arrumar as malas, faça um check list com as coisas que são fundamentais em Galápagos: além de boné (ou chapéu), protetor solar de fator 30 para cima, roupas leves (pode ser de trilha), botas e papetes de caminhada. Também não esqueça de ter pelo menos uma bateria reserva ou um jogo de pilhas recarregáveis a mais para sua câmera digital (juntamente com o carregador, claro).
Cartões de memória devem ser de grande capacidade (leve três ou quatro, se for o caso). Se sua câmera é de filme, leve o máximo que puder. Exagero? Você não tem ideia de quantas vezes estará diante de um animal, paisagem ou cena que merecerá uma foto. Depois, não diga que não foi avisado.
Todas as idades
As trilhas previstas na programação são leves, não exigem de ninguém nenhum preparo físico acima da média. Nem poderia ser diferente: a turma da terceira idade – mais uma vez europeus, na maioria – reserva muitas cabines no Santa Cruz. Por isso, não estranhe que, entre os equipamentos que o navio disponibiliza para os passageiros, haja também bengalas. Elas são necessárias para alguns veteranos se equilibrarem em muitos dos caminhos irregulares, já que as ilhas são formadas de matéria vulcânica e há muitas pedras.
Não pense, porém, que encontrará um navio abarrotado apenas de velhinhos. Há também crianças e adolescentes, que viajam com os pais, além de casais em lua-de-mel e grupos jovens de amigos. Para a criançada, o cruzeiro é quase como um passeio a um zoológico sem muros, cercas ou grades. Quanto a lazer para os pequenos no navio, nesse ponto o Santa Cruz fica devendo: há apenas uma jacuzzi que, com quatro pessoas, já parece lotada.
Para aqueles que não querem ou não podem fazer mergulho livre, com máscara e snorkel, o navio oferece um pequeno barco com fundo de vidro. Assim, todos conseguem dar uma espiada na sensacional fauna marinha de Galápagos. Com sorte, pode-se observar iguanas e tartarugas marinhas, tubarões e os mais diversos peixes, em pequenos grupos ou em imensos cardumes que chegam a embaralhar a vista.
Dentro da programação do cruzeiro, são apenas duas as oportunidades de mergulhar com máscara, snorkel e nadadeiras. O pessoal do navio empresta o equipamento, mas se você tiver o seu, melhor levar, pois nem sempre o conjunto que é entregue está em perfeitas condições. E caso a sua forma física não esteja em dia para agüentar muitas braçadas no mar, use o colete de ar que também é oferecido. Dessa forma, você evita pagar o mico de, ao se afastar da areia para ver o fundo do mar nas encostas, ter de pedir ajuda (ou socorro) para retornar.
Fauna e flora
Segunda maior reserva marinha do mundo, atrás apenas da Grande Barreira de Corais, na Austrália, Galápagos foi declarada Patrimônio Natural da Humanidade em 1978 pela Unesco. A área ocupada pelas ilhas soma 8.000 km2 – a da reserva marinha toda chega a cerca de 45.000 km2 – e reúne uma fauna e uma flora com várias espécies endêmicas, ou seja, que só são encontradas lá (cerca de 90% dos répteis e 50% das aves, por exemplo). Os mais famosos são a tartaruga gigante, que deu nome ao arquipélago, as iguanas (marinhas e terrestres), os tentilhões (ou pinzones, com 13 espécies endêmicas), os cormorões (lá, existe o único do mundo que não voa), os pingüins (os únicos de águas equatorais), os piqueros (de patas azuis, patas vermelhas e mascarados), as fragatas (que seguem o navio em bandos e, no caso dos machos, inflam o papo de forma espetacular para atrair a fêmea), a foca de dois pêlos e leões-marinhos. Sem contar visitantes como albatrozes, pelicanos, flamingos, golfinhos, tubarões-martelo e baleias. Há ainda uma infinidade de peixes e seres marinhos...
Enfim: um playground para qualquer biólogo, zóologo ou cientista ligado à natureza. Isso explica o controle rígido dos visitantes, que jamais podem ir para as trilhas levando algo para comer, por exemplo. Para quem leva a sério o surfe e o mergulho autônomo (com cilindro de ar), Galápagos também é um daqueles pontos mais que especiais.
Solitário George
Das 19 ilhas que formam Galápagos – 13 maiores e seis menores, além de dezenas de ilhotas – o roteiro de cinco dias no Santa Cruz contempla seis delas: Baltra, Bartolomé, Rábida, Seymor Norte, San Cristóbal e Santa Cruz, a segunda maior ilha do arquipélago onde se encontra, no vilarejo de Puerto Ayora, a Estação Científica Charles Darwin – não espere nada grandioso, trata-se de um lugar de pesquisa, com criadouro de tartarugas gigantes que podem ser vistas como num zoológico. A visita é rápida.
Na Estação Charles Darwin, a maior atração é a tartaruga “Solitário George”, com idade estimada entre 70 e 90 anos. George é o único sobrevivente da sua subespécie, a Geochelone Nigra abingdoni. Os esforços de uma atraente zoóloga suíça, Sveva Grigioni, em convencer o recluso George a fazer sexo com uma tartaruga fêmea para preservar a espécie, são contados com uma pitada de maldade por guias. Eles fazem questão de lembrar que Grigioni, durante o tempo em que esteve na Estação Charles Darwin, chegou a masturbar George algumas vezes para animá-lo a ter uma relação sexual. Mas de nada adiantou o carinho da sueca. Ele manteve o voto de castidade.
Em junho de 2006, alguns até chegaram a dá-lo como morto. Mas foi uma confusão. Quem morreu, bem longe dali, na Austrália, foi Harriet, com 176 anos, o animal mais velho conhecido no mundo. Conta-se que a anciã Harriet, levada de Galápagos, teria sido peça importante para Charles Darwin formular a Teoria da Evolução das Espécies, além dos tentilhões – pássaros que são chamados nas ilhas de pinzones de Darwin. Harriet morreu por causa de um ataque cardíaco fulminante em um zoológico da Sunshine Coast, no Estado de Queensland.
Vulcões ativos
No cruzeiro de cinco dias com o Santa Cruz, você passará longe de outras das atrações de Galápagos: os vulcões ativos das Ilhas Isabela e Fernandina. Há uma opção de cruzeiro mais longa (e mais cara) de 11 dias, no próprio Santa Cruz, que navega pela costa leste da Ilha Fernandina, com parada em Punta Ezpinosa, e pela costa oeste da Ilha Isabela, com visita à Bahia Urbina. Esse roteiro ainda inclui as ilhas Española e Santa Maria, ambas mais ao sul do arquipélago. É uma opção mais interessante para quem quer ver o lado mais novo de Galápagos: ilhas que brotaram do fundo do mar e com crateras fumegantes de vulcões, caso de Fernandina, uma jovem com cerca de 700 mil anos de idade. Nela, reina, bem ativo, o vulcão La Cumbre – sua mais recente erupção foi em maio de 2005.
Um pouco mais antiga que Fernandina, Isabela é a maior ilha de Galápagos, com 4.588 km2 (a segunda é a Santa Cruz, com 986 km2). Isabela abriga cinco vulcões ativos, sendo o Sierra Negra o maior deles – sua última erupção ocorreu em outubro de 2005.
Até nos tipos de vulcão as ilhas também são incomuns: no lado oeste, onde estão Isabela e Fernandina, encontram-se os vulcões que lembram pratos de sopa invertidos, com caldeiras largas e profundas. Na parte leste, são comuns vulcões menores, já adormecidos, com uma formação cônica mais tradicional.
O ponto mais alto das ilhas está em Isabela, justamente na boca do vulcão Lobo, que alcança 1.707 metros de altitude – por 1.852 metros de profundidade. Os outros três vulcões que pontuam Isabela são o Darwin (olha ele aí de novo), o Alcedo e o Cerro Azul. Não é à toa que na região de Galápagos foram registradas as 55 maiores erupções nos últimos tempos.
Mesmo com o Sierra Negra fumegando, Isabela abriga um vilarejo com praia, Puerto Villamil, que recebe turistas em hotéis simples e pousadinhas. Mas o Santa Cruz não passa por lá no seu trajeto.
História
Como era comum na época das grandes navegações, a descoberta de Galápagos foi por acaso. O dominicano Frei Tomás de Berlanga, então bispo do Panamá, se dirigia para o Peru por ordem do rei espanhol
Carlos V para arbitrar uma disputa entre o conquistador Francisco Pizarro e seus subordinados, logo depois da conquista do império inca. Por causa de uma calmaria e de fortes correntes marítimas, o navio do bispo foi levado até Galápagos, em março de 1535.
No seu relato ao rei Carlos V, Berlanga descreveu as inóspitas condições existentes nas desérticas ilhas, assim como relatou ter visto gigantescas tartarugas que as habitavam, cuja carapaça lembrava selas de montaria, ou galápagos para os espanhóis. Falou ainda de iguanas, aves e lobos-marinhos, não escondendo a sua surpresa em encontrar tantos bichos em um lugar tão distante.
Durante os séculos 18 e 19, com o advento da Revolução Industrial, as necessidades de matéria-prima da Coroa espanhola fez com que o óleo extraído das baleias valesse tanto quanto ouro. Foi a senha para Galápagos ser invadida por navios baleeiros e, durante 100 anos de exploração, não só as baleias da região, mas tartarugas e focas estiveram à beira da extinção.
Darwin, a bordo do navio HMS Beagle, comandado pelo mítico capitão Robert FitzRoy, aportou no arquipélago em 1835 e por lá passou cerca de cinco semanas, estudando a flora e a fauna locais. Diante de espécies raras, em um local perdido no Oceano Pacífico, ele concluiu que, para sobreviver, elas sofrem alterações graduais baseadas nas condições do meio ambiente em que vivem. A parada em Galápagos e em outros pontos da América do Sul a bordo do Beagle, como a Patagônia, foram fundamentais para que o cientista, em 1859, depois de 20 anos reunindo evidências para apoiar suas teorias, publicasse o livro A Origem das Espécies por Seleção Natural, dando a largada para a tese evolucionista que mudaria os rumos da ciência para sempre.
O Equador anexou as ilhas ao seu território em 1832, e nos 100 anos que se seguiram, Estados Unidos e Grã-Bretanha disputaram o controle das ilhas, a despeito da soberania equatoriana. Uma curiosidade: entre os anos de 1949 e 1956 a Ilha Isabela abrigou uma terrível colônia penal equatoriana. Hoje, ir para Galápagos é um privilégio, até para os equatorianos. Naquela época, ser mandado para lá significava quase uma sentença de morte.
Mesmo com a região sendo reconhecida como santuário ecológico desde 1934, o arquipélago só se tornou parque nacional em 1959 – e o turismo passou a ser explorado logo depois, nos anos de 1960.
Hoje, predomina uma grande consciência ecológica nas ilhas, com controle de entrada de turistas e de moradores também, já que a população da ilha cresceu muito nos últimos 30 anos (de pouco mais de 3.500 pessoas nos anos de 1970 para cerca de 20.000 nos dias de hoje).
As maiores cidades são Puerto Baquerizo Moreno, a capital de Galápagos, na Ilha de San Cristóval, com cerca de 4.000 habitantes, e Puerto Ayora, o principal centro econômico, na Ilha de Santa Cruz, com algo em torno de 6.000 moradores.
Um problema bem mais antigo que o aumento da população nessa área de proteção ambiental é o que os estudiosos chamam de espécies invadoras, animais que nada têm a ver com o ecossistema local mas que foram introduzidos na ilha na ação do homem, deliberada ou não.
As maiores pragas são as cabras (que os equatorianos chamam de chivo), os ratos e os gatos. Os ratos, por exemplo, são antigos habitantes das ilhas, pois desde o século 18 navios de várias bandeiras aportavam em Galápagos. A esses três animais, que são caçados nas ilhas, somam-se ainda porcos, cavalos, cachorros, vacas, galinhas, patos... Hoje, a ordem é não deixar mais nenhum tipo de animal ser trazido à ilha.
Um estudo recente deu conta que cerca de 200 mil cabras e 400 mil ratos estão competindo por alimentos com a fauna nativa, o que acendeu um sinal de alerta entre os ambientalistas.
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