Saiba por que Vale do Loire é considerado o jardim da França
Belíssimo, esplendoroso, grandioso, imponente, inspirador, envolvente, charmoso... Parece exagero, mas quando se começa a circular pelo Vale do Loire, uma região única na França, que se estende dos arredores de Chartres – a 60 quilômetros de Paris e dona da bela catedral gótica que leva o nome da cidade – até uma distância de 400 quilômetros da capital, nas proximidades de Nantes, na porção oeste do país, é como se todos os adjetivos que exprimem beleza, grandiosidade e encanto se aplicassem ao pedaço.
Como ficar indiferente a uma região que é classificada como Patrimônio da Humanidade por causa das dúzias de castelos inteiramente de pé, decorados como se ainda fossem os tempos de esplendor da Renascença francesa? Sem falar das torres, muralhas e pontes levadiças, como nas histórias de príncipes e princesas que “foram felizes para sempre”. Há ainda os bosques e jardins que, seguindo o paisagismo planejado há vários séculos, fazem o Vale do Loire ser considerado o jardim da França.
A região fascina os turistas, ainda, com suas cidadezinhas cheias de construções medievais e com um quê a mais por estarem no curso de rios como o Loire, o Indre e o Cher, onde se passaram importantes episódios da história europeia. É o caso de Amboise, que guarda um château que remonta ao século 11 no qual viveu Mary Stuart, a rainha católica da Escócia que foi decapitada sob ordem da lendária monarca protestante inglesa, Elizabeth I. Ou Blois, no qual o duque de Guise, líder da Sagrada Liga Católica, foi assassinado a mando de Henrique III. E ainda Saumur, entre outras, casa de uma renomada escola de equitação (cujos treinamentos e apresentações dos cavaleiros e amazonas podem ser assistidos) e de um vinho frisante que, elaborado com o método champenoise, é tido como o segundo melhor da França, perdendo apenas para o autêntico champanhe, feito na região de mesmo nome.
O bacana é que depois de um dia de passeios por tantas maravilhas arquitetônicas, é possível continuar nesse ritmo de conto de fadas e sentir-se “amigo do rei”: basta estar disposto a gastar um pouco mais pela estada e ficar em lugares que realmente já foram castelos e construções históricas e hoje, mantendo a decoração e o clima pomposo de outrora, são meios de hospedagem de luxo. Sem prescindir, claro, de mimos modernos como piscinas, quadras de tênis, spa e campo de golfe, num padrão de excelência que também se estende à gastronomia.
Esse é o objetivo do Grandes Etapes Françaises, um grupo familiar que, desde 1957, comprou, restaurou e passou a administrar esse tipo de negócio turístico no Vale do Loire e em regiões francesas como Côte d’Azur, Borgonha e Alsácia, chegando aos atuais dez empreendimentos muito requintados e em locais belíssimos.
Luxo sem afetação no Le Prieuré
A primeira investida do casal René e Simonne Traversac foi justamente no Vale do Loire, com o Le Prieuré, próximo de Saumur, que desde o século 12 serviu de residência para os monges beneditinos, os quais, com muito bom gosto, ergueram a construção diante do Rio Loire. Em 1957, o mosteiro-residência estava sob restauro para tornar-se um hotel e restaurante, mas faltou dinheiro a quem estava apostando no negócio. Então, René Traversac, um fabricante de equipamentos de fotografia que procurava diversificar os negócios, foi com sua mulher até o local, movido simplesmente pela curiosidade, e... ocorreu um caso de amor à primeira vista pela propriedade. Assim, naquele mesmo ano, o casal tornou-se dono da construção histórica e levou a cabo a restauração.
Hoje, o Le Prieuré conta com 21 acomodações na casa principal e 15 quartos nas residências, todos diferentes entre si, com paredes recobertas por tecido florido – que se repete nas colchas – sem que falte comodidades modernas como TV, camas imensas, lençóis macios e travesseiros que guardariam o sono de mais hóspedes do que os que realmente vão ocupar o quarto. Tudo de uma extrema delicadeza e bom gosto, favorecendo, de fato, a experiência de viajar ao passado e sentir-se como um membro da nobreza daqueles tempos. O empreendimento conta ainda com um terraço e uma sala de jantar com vista panorâmica do vale, cujo bucólico visual divide atenção com a alta gastronomia ali praticada. E se quiser ocupar o quarto onde famosos do quilate de Mick Jagger e Luciano Pavarotti já estiveram, reserve o de número 17. Mas o hóspede não pode acreditar em “coisas do além”, já que essa acomodação mereceu o livro Mistérios do Quarto 17. Será que é por que a área teve um cemitério na época que os monges ali viviam?
Suntuoso Château d’Artigny
Talvez uma antiga residência beneditina ainda possa ser “espartana” para suas nobres ambições. Então, seu lugar é no Château d’Artigny, em Montbazon, próximo da cidade de Tours, um imponente palácio que, com fachada de pedras brancas e um bem cuidado jardim, é visto ao longe.
Erguido entre 1912 e 1929 sob o estilo do século 18, o esplendor do château reflete o glamour do antigo dono, François Coty, considerado o primeiro perfumista em escala industrial a criar toda uma linha de cosméticos com uma mesma essência. Enquanto a fachada é uma cópia do Château de Champlâtreux, no Vale d’Oise, o interior foi inspirado no Palácio de Versalhes, com uma capela feita em escala de um quarto em relação à existente naquele endereço oficial da realeza francesa.
E ainda há a grandiosa escadaria principal (dessas que fazem muitos hóspedes se imaginarem circulando por ali elegantemente vestidos), as colunas folhadas a ouro e, no primeiro andar, um salão – que pode ser usado para reuniões, jantares privativos e até casamentos –, com uma cúpula com detalhes dourados e toda pintada, retratando um baile na mansão, tendo a própria família do perfumista Coty como personagens.
O jantar, servido num salão com detalhes de mármore e bronze, é outro momento que torna a estada ainda mais especial, quando os comensais podem degustar iguarias inspiradas na culinária asiática, como o tempurá de crustáceos com consomê ao perfume de jasmim e o prato de lagosta, vieiras e mexilhões em molho de petitgrain de laranja e gengibre. Para acompanhar, o sommelier pode indicar algum vinho, como os maravilhosos Vauvray e Bourgueil, feitos na região e integrantes da adega abastecida com 20 mil garrafas, a qual inclui também raridades como um Armagnac – bebida irmã do conhaque – de 1886.
Tão atraente quanto Artigny, mas com muito mais história – foi construído no século 16 e entre 1807 e 1981 pertenceu a uma antiga e importante família da França, os Rochefocauld, quando foi então incorporado ao Grandes Etapes –, o Château d’Esclimont é uma pérola do Renascimento francês. Entre todos os castelos do grupo é o mais próximo de Paris, de onde dista apenas 60 quilômetros.
Como castelo autêntico, erguido no auge das construções que adornaram o Vale do Loire, em Esclimont não faltam um lago adornando a propriedade; uma estátua equestre de um dos descendentes da família Rochefocauld; um trianon (pequeno palácio); uma torre de guarda e o Pavilhão dos Troféus, que teve as cabeças empalhadas de animais substituídas por réplicas feitas de mármore.
Tais espaços abrigam quartos, salas de refeições, de estar e para a realização de convenções. Ao longo do ano também recebem casamentos, principalmente de casais japoneses, que adoram o clima de conto de fadas da região e do próprio castelo.
Ali, no gradil ao redor das janelas, por vezes surge a inscrição c'est mon plaisir (o prazer é meu), parecendo antever, com séculos de antecedência, que o destino de Esclimont era tornar-se um luxuoso hotel e bem receber os hóspedes. E isso é percebido ao deitar-se na cama com macios lençóis de percal, banhar-se na banheira com torneiras douradas, ler sob a iluminação de lustres como os de antigamente, tomar um café da manhã com pães, iogurtes, manteiga e geleias frescos, feitos no próprio castelo...
Mais requinte em Tours
O Domaine de Beauvois, que como o Château d’Artigny fica nos arredores de Tours, é mais um castelo afastado da cidade, cercado por um parque de 140 hectares e de frente para o Lago Briffaut, oferecendo um recanto de quietude e beleza.
Um dos melhores lugares para aproveitar a calmaria, seja para ler, conversar ou tomar uma taça do frisante regional para celebrar o momento, é no terraço com fonte e mesinhas protegidas por guarda-sóis. O espaço recentemente foi remodelado com um jardim característico francês, junto da torre no centro do castelo, a única que restou do prédio original, do século 15, e oferece vista para o lago. O panorama é quase o mesmo para quem está nos elegantes salões decorados nos estilos Luís XIII e Luís XV à espera das criações culinárias do chef Régis Guilpain que, seguindo três palavras-chave – qualidade, simplicidade e realce do sabor dos alimentos –, aposta em criações que destacam a culinária regional.
Numa viagem em que os próprios meios de hospedagem (e seus restaurantes) são as atrações do caminho, impossível não se render aos encantos do Château Le Choiseul, em Amboise, cidadezinha a 25 quilômetros de Tours que é uma parada consagrada no Vale do Loire por guardar o Castelo de Amboise, aquele que serviu de morada para a rainha escocesa Mary Stuart. Também é lá que está o palacete Clos Lucé, onde o gênio do Renascimento, o italiano Leonardo da Vinci, passou seus últimos anos de vida (confira na página ao lado os principais passeios para compôr um roteiro no Vale do Loire).
Com todas essas credenciais para Amboise, hospedar-se no Le Choiseul, aos pés do castelo que leva o nome da cidade e às margens do Rio Loire, é um complemento perfeito para o dia passado ali. Primeiro porque a construção tem tudo a ver com a história da região, com três casarões erguidos entre os séculos 16 e 18: a Casa do Eremita (que está sobre os resquícios de um convento ali montado a pedido do rei Luís XI), a Casa do Duque (que pertenceu a Etienne François, ministro de Luís XV) e a Casa do Boticário, onde Jehan de Gastignon, espécie de farmacêutico de Carlos VIII e Francisco I – cujo reinado, de 1515 a 1547, marcou o apogeu do Renascimento francês –, preparava cremes para as damas da corte.
Faz parte do complexo, ainda, o Les Greniers de César, um antiquíssimo armazém de pedras declarado monumento histórico, que recebe tanto exposições de pintores e escultores como coquetéis e banquetes para lá de especiais.
Sinfonia de sabores
Ah, a culinária do Le Choiseul... Se tiver de escolher apenas um dos castelos-hotéis para cometer uma orgia gastronômica e esfolar o bolso, faça-a aqui, já que o restaurante do lugar, o Le 36, é um dos mais bem conceituados entre os que compõem o Grandes Etapes.
A responsabilidade cabe ao chef Guillaume Dallay, que abusa do frescor dos produtos da estação e dos encontrados na região – sobretudo os peixes do Rio Loire – para levar à mesa delícias como o fois gras de pato com maçã verde e enguia defumada do Loire com vinho do Porto. Se o prato já impressiona na apresentação, espere até provar a sinfonia de sabores, que pode ser servida em dois pomposos salões na Casa do Duque ou, num clima mais informal, no terraço ladeado por jardins à italiana.
Castelos majestosos para visitar e para dormir, quartos e mimos que fazem o hóspede se sentir noutros tempos, refeições esmeradas e noites embaladas por música clássica, remetendo aos banquetes da realeza francesa – que efetivamente terminou em 1870 com a deposição de Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte. Impossível não querer entrar nessa “máquina do tempo.
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