Dicas de turismo religioso e cultural em Avignon a cidade dos papas

Dec 31, 1969
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Situada no sul França, Avignon é conhecida pelos franceses como a cidade dos papas e do teatro. A fama se deve tanto ao passado como ao presente. No século 14, período conturbado em Roma, Avignon abrigou a sede do papado e tornou-se a capital do mundo cristão, com a construção do suntuoso Palácio dos Papas.

Pouco mais de 600 anos depois, Avignon se transformou em palco para o maior festival de teatro da França. Desde 1947, inúmeras peças, de diferentes estilos, são apresentadas na cidade durante o mês de julho. Até mesmo as ruas locais viram espaço cênico para criações teatrais, num festival em que a experimentação é muito bem-vinda, promovendo a mistura do teatro com outras formas expressivas, como a dança e o vídeo.

Há outros motivos para visitar Avignon. Um dos mais relevantes é que a cidade se encontra na inspiradora Provence, região que sempre atraiu pintores e outros artistas e fisga os turistas pela saborosa gastronomia, o rico patrimônio histórico e as belas paisagens fartamente banhadas de sol.

Junte também o fato de Avignon ser considerada a capital dos vinhedos do região do Vale do Ródano, importante rio que nasce nos Alpes suíços e desce em direção ao centro-sul da França, até desaguar no Mar Mediterrâneo. Na região, é possível encontrar grandes vinhos a bons preços, sobretudo se comprados (e degustados) diretamente com os produtores ou em lojas especializadas. Tanto pelas atrações do passado, como pelo cotidiano tranquilo de uma típica cidade provençal, você verá como Avignon não pode ficar de fora numa viagem pelo sul da França.

Prosperidade medieval

Pont du Gard - AvignonA região onde está situado o centro de Avignon é ocupada desde tempos remotos. No grande rochedo à beira do Rio Ródano, chamado Rocher des Doms, onde hoje se encontra um agradável parque público, foram encontrados diversos vestígios de ocupação pré-histórica, reunidos atualmente no Museu Calvet.

Com a expansão do Império Romano, no final da era pré-cristã, todo o sul da França foi dominado por Roma, que construiu ali importantes cidades. O nome Provence tem origem justamente na forma como os romanos chamavam a região, uma “província” onde os militares aposentados ganhavam terras e podiam erguer suas propriedades rurais.

Até então, Avignon tinha um papel secundário se comparada a cidades como Arles, Orange e Nîmes, que ainda hoje mantém imponentes monumentos da era romana. Avignon começou a se desenvolver sobretudo durante a Idade Média, beneficiando-se das rotas comerciais que atravessavam o Ródano.

Uma testemunha da prosperidade vivida pela cidade nessa época é a Ponte Saint-Bénezet, construída no século 12 para ligar Avignon à outra margem do rio. Com 900 metros de comprimento, a ponte contava com 22 arcos, uma obra grandiosa para a época. Atualmente restam apenas três arcos, já que a ponte foi quase completamente destruída durante o século 17 em decorrência de enchentes. Os vestígios da ponte são uma das principais atrações turísticas de Avignon e marcam o horizonte da cidade.

Mas a grande transformação de Avignon viria com a chegada dos papas, há exatos 700 anos, em 1309, quando, em pouco tempo, a cidade pulou dos 6 mil para 30 mil habitantes. Casarões e palácios foram construídos para receber a sede do papado, sua corte e os cardeais ligados a ela. As ruas receberam melhorias e foi construída uma nova muralha de 4,3 quilômetros em torno do centro expandido, ainda hoje preservada.

Palácio dos Papas

Palácio dos Papas - AvignonA construção mais imponente dessa época é sem dúvida o Palácio dos Papas, que domina o panorama de Avignon como marca do glorioso período em que a cidade foi o centro do mundo cristão. O palácio, cujas torres atingem 50 metros de altura, foi construído em duas etapas, a primeira conduzida pelo papa Bento XII (1334-1342), e a segunda pelo papa Clemente VI (1342-1352).
O chamado palácio velho foi construído por ordem de Bento XII a partir de um antigo palácio existente no local, que já era usado como sede papal. Clemente VI ordenou a construção do palácio novo, que duplicou a área do conjunto. O projeto foi criado pelo arquiteto Jean de Louvres e teve como decorador o artista italiano Matteo Giovannetti.

Nesse período, o Palácio dos Papas tornou-se um centro de acolhimento de artistas e eruditos provenientes principalmente da Itália, caso do pintor de Siena, Simone Martini, que morreu em Avignon em 1344, e do poeta Petrarca, que ali permaneceu até 1353.

Avignon abrigou a sede da Igreja Católica até 1376, quando o Papa Gregório XI reconduziu a residência papal para Roma. Um grupo de cardeais franceses, no entanto, não reconheceu a mudança, criando um cisma na Igreja. Os papas Clemente VII e Bento XIII ainda foram eleitos em Avignon, à revelia de Roma. A cisão só acabou em 1414.

Desde a partida dos papas, o palácio sofreu diversas avarias e saques em decorrência das guerras travadas entre católicos e protestantes. Durante a Revolução Francesa, por exemplo, o palácio foi usado como prisão e presenciou a execução de dezenas de contra-revolucionários. Depois, tornou-se quartel do exército até o ano de 1906, quando foi decretado monumento histórico sob proteção do Estado francês.

Durante todo o século 20, o Palácio dos Papas passou por sucessivas restaurações, que permitiram recuperar parte significativa dos afrescos contidos em seu interior. Para os visitantes, no entanto, a construção guarda apenas uma remota ideia de como era na época dos papas, ricamente ornado de móveis e objetos de decoração.

De qualquer forma, a visita ao lugar é uma experiência inesquecível, que permite uma viagem no tempo e a contemplação de um exemplar marcante da monumental arquitetura gótica. De dentro do palácio, considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco juntamente com a Ponte Saint-Bénezet, é possível desfrutar de diversos panoramas da cidade, suas muralhas e do Rio Ródano.

Museus e ruelas

Avignon - Cafés e restaurantesPara quem gosta de passeios culturais, Avignon oferece alguns museus interessantes. O Petit Palais, ao lado do Palácio dos Papas e construído por um poderoso cardeal no século 14, hoje abriga uma farta coleção de pintura italiana dos séculos 13 ao 16.

Os museus Calvet e Agladon, com coleções bastante heterogêneas, estão instalados em magníficos palacetes do século 18, chamados de hôtels particuliers (o nome em francês pode enganar). No Angladon está a única tela de Van Gogh que resta na Provence, a despeito de o pintor holandês ter residido na região por pouco mais de dois anos, entre 1887 e 1889, período em que produziu intensamente.

O Museu Lapidaire impressiona pela combinação entre o acervo de esculturas e peças greco-romanas, muitas delas encontradas na região, e o espaço expositivo montado na antiga capela do Colégio dos Jesuítas, uma construção barroca do século 17 de beleza ímpar.

Caminhar a esmo pelas ruelas de Avignon é uma experiência instigante, pelo variado patrimônio arquitetônico e pela jovem e pulsante população com que a cidade conta. Assim, o visitante irá encontrar ruas inesperadas, como a pitoresca Rue des Teinturiers, ladeada pelo Rio Sorgue, que movimenta grandes rodas d’água, usadas no século 18 por produtores de tecidos. Atualmente, é uma das ruas mais animadas da cidade, com muitos cafés e restaurantes acolhedores.

Para uma bela vista da cidade e de toda a região é imprescindível subir aos jardins do Rocher des Doms, que fica atrás do Palácio dos Papas. O local é perfeito para fazer um piquenique – nada mais francês – ou apenas para sentar à sombra de uma árvore e contemplar a paisagem. Não se esqueça de explorar os diversos caminhos existentes no parque, que conduz a inúmeros pontos de vista interessantes.

Um passeio pela orla do Ródano também pode se revelar um programa agradável, sobretudo para quem atravessar a ponte e andar pelo lado oposto da cidade, na Ilha de Barthelasse, onde muitos moradores desfrutam suas horas de lazer.

Na outra margem

Ponte Saint-Bénezet e o Palácio dos Papas - AvignonVilleuneuve-les-Avignon, na outra margem do Rio Ródano, tem sua história intimamente ligada à de Avignon e é um complemento indicado para viajantes que dispõem de um dia extra. A cidade nasceu em torno da abadia e do forte de Saint-André e prosperou após a construção da Ponte Saint-Bénezet. Na época dos papas, poderosos cardeais e outros nobres construíram ali seus palacetes.

Na Abadia de Saint-André, é possível visitar somente o jardim, que está entre os cem mais belos da França. No forte, os visitantes têm acesso às torres mais altas, que proporcionam um amplo panorama da região e de Avignon. O mesmo pode ser dito da Torre Philippe le Bel, que fica na parte baixa de Villeuneuve, mas cuja altura também garante um visual privilegiado.

Uma vez na cidade, torna-se imprescindível visitar a Chartreuse Du Val de Bénédiction, enorme construção religiosa que funcionava como um mosteiro. O nome chartreuse é usado para definir os locais de retiro religioso da ordem de São Bruno. Foi o próprio santo que criou a chartreuse de Villeuneuve, em 1084, juntamente com seis companheiros.

O mosteiro se estabeleceu com a passagem dos anos e inspirou a criação de outros exemplares na França. Em 1353, o cardeal Etienne Aubert, líder da ordem de Villeuneuve, foi eleito papa, adotando o nome de Inocêncio VI. Durante seu papado, ele conduziu a ampliação da chartreuse e lá foi enterrado após sua morte, em 1362. Desde essa época, o lugar continuou a crescer e a receber melhorias, alimentado por doações de famílias locais.

A partir do século 17, tornou-se a residência de artistas, que enriqueceram o local com diversas peças decorativas de pintura e escultura. A biblioteca chegou a contar com 8.500 volumes.

Mas, como no caso do Palácio dos Papas e de muitas outras construções religiosas, o mosteiro foi invadido e pilhado durante a Revolução Francesa, com as propriedades da Igreja passando às mãos do Estado e as ordens religiosas ficando proibidas de funcionarem. Com isso, restaram apenas poucos vestígios do que foi o mosteiro em seus dias de glória, mas a visita do local é marcante.

Atualmente, ali funciona o Centro Nacional de Escrituras do Espetáculo, uma residência de criação para escritores, atores e outros profissionais das artes cênicas, num local também usado para a realização de festivais, encontros e apresentações.

O misto de monumento histórico e centro cultural permite que o mosteiro retome em parte a sua vida e seu papel de propagação artística, em perfeita sintonia com o que vem sendo feito em Avignon, onde o Palácio dos Papas e diversas outras construções religiosas abrem suas portas às peças teatrais durante o Festival de Teatro.

Na França atual, a herança religiosa é respeitada e cultivada como um bem cultural de valor inestimável, apesar de o Estado ser uma instituição laica. Nota bem essa característica quem conhece Avignon, que já foi a capital da Igreja Católica e hoje se esforça para resgatar e preservar sua história intimamente ligada a essa religião.

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