Châteauneuf du Pape um pedacinho do universo da enologia da França

Dec 31, 1969
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O vilarejo de Châteauneuf du Pape está situado em plena Provence. Com cerca de dois mil habitantes, dá nome a uma das regiões produtoras de vinho mais reputadas da França e, por extensão, do mundo, já que produção vinícola francesa é a grande refe­rência no universo da enologia.

Quem visita Châteauneuf tem a impressão de estar mergulhando em uma terra mítica. Na estreita estrada vicinal que dá acesso à cidade, as parreiras estão por todo lado. Algumas são tão antigas que podem passar dos cem anos de idade. A paisagem é domi­nada pelo onipresente Monte Ventoux, conhecido como “o gigante da Provence”, por ter 1.912 metros de altitude.

No centro comercial, as lojas de vinho estão por toda parte e a maioria oferece degustação. Pequenos quadros negros são colocados com o aviso em giz de quais safras ainda estão disponíveis para comprar. Os vendedores têm orgulho em explicar detalhes sobre a produção dos vinhos: quais uvas foram usadas, as safras mais bem sucedidas e com que tipo de comida é indicado fazer a harmonização. 

Cidade fortificada

Vista da vila de Châteauneuf du Pape. No fundo, restos do castelo papal.Como o nome define, Châteauneuf du Pape tem uma história diretamente influenciada pela chegada dos papas na cidade de Avignon, no início do século 14. O vilarejo existia anteriormente, desde o século 10, e o termo Châteauneuf, ao contrário do que parece, não quer dizer “novo castelo”, mas sim “nova cidade fortificada”.

A paisagem de Châteauneuf foi transformada com a construção do castelo papal, entre 1315 e 1333, por ordem de João XXII, o segundo papa eleito em Avignon. O castelo era usado como residência de veraneio, distante o suficiente da sede do papado para garantir o descanso do sumo pontífice, mas, ao mesmo tempo, próximo o suficiente para manter estreita comunicação com o que ocorria em Avignon.

O castelo foi construído estrategicamente sobre um monte rochoso de onde é possível observar o Vale do Ródano e foram plantadas parreiras para a produção de vinho. A vinicultura havia sido introduzida na região pelos romanos, que fundaram Orange (a 12 km de Châteauneuf) no final da era pré-cristã. Mas foi por causa do castelo papal que o vinho ali produzido se desenvolveu, passando a ser conhecido como vin du pape (vinho do papa).

Atualmente, restam apenas ruínas do castelo, que foi severamente danificado durante as guerras religiosas do século 16 e Revolução Francesa, no final do século 18. Na Segunda Guerra Mundial, os alemães fizeram da construção um ponto de observação. Quando abandonaram o castelo por causa do avanço das tropas aliadas, dinamitaram grande parte dos cômodos que ainda estavam de pé. Sobrou apenas uma sala, onde são feitos eventos municipais, como a abertura anual da vindima, a colheita das uvas para a produção do vinho.Mesmo assim, uma visita às ruínas do castelo é indispensável. A vista para os vi­nhedos cultivados em torno da cidade compensa o esforço da subida.

Primeira vinícola da França

Vinhos vendidos na vila ChatêauneufApós a partida dos papas e a decadência do castelo, a tradição da vinicultura permaneceu enraizada no vilarejo. No século 19, os vinhos provenientes de Châteauneuf se tornaram os mais célebres dentre os produzidos no vale sul do Ródano, graças aos esforços dos vinicultores locais para incrementar a qualidade do produto.

Com a fama, vieram também as fraudes. Produtores de áreas vizinhas passaram a usar o nome de Châteauneuf du Pape nos  rótulos. Na luta contra a falsificação, os produtores locais se uniram em uma comissão criada em 1905 para fiscalizar os vi­nhos comercializados com o nome.

Os esforços dos vinicultores começaram a surtir efeitos práticos com a chegada de Pierre Le Roy de Boiseaumarié. Formado em Direito, ele se casou com a filha de tradicionais proprietários rurais da cidade. Foi ele quem redigiu as normas que passaram a reger a produção de vinhos na região e quem as defendeu junto aos produtores locais, para que estes as seguissem.

Em 1936, essas normas se transformaram em lei, dando origem à primeira Appellation d’Origine Contrôlée (AOC) vinícola da França. O conceito de AOC, que aos poucos se estendeu para todas as demais regiões produtoras francesas e influenciou a regulamentação da vinicultura de outros países, é de grande importância para garantir a procedência e a qualidade dos vinhos. Segundo as regras da AOC Châteauneuf du Pape, a área de produção está restrita aos limites do município e a alguns hectares dos vizinhos Bédarrides, Courthézon, Orange e Sorgues. Os vinhos rosés são proibidos, a graduação alcoólica deve ser de 12,5% ou superior e a colheita é feita manualmente. Outras regras específicas cuidam do processo de vinificação.

Treze notas musicais

Uva Parreira de grenache. Típica da região.Além da circunscrição da área de produção, uma norma importante diz respeito às uvas permitidas em Châteauneuf. São treze, dentre as quais, as mais importantes são grenache, mourvèdre, syrah, cinsault, clairette, bourboulenc e roussanne.

A grenache é a estrela da vinicultura local, tanto para os tintos (93% da produção) quanto para os brancos. Capaz de suportar o clima quente e seco do sul da França, resulta em vinhos de alto teor alcoólico, forte coloração e sabor acentuado. Mas esta uva principal quase nunca está sozinha. Nos tintos, são acrescentadas porções de syrah, mourvèdre e cinsault, para conferir maior equilíbrio, classe e harmonia. Nos vinhos brancos, o complemento é feito com clairette, bourboulenc e roussanne. Alguns produtores ousados usam uma gama ainda mais ampla de cepas e, por vezes, até deixam a grenache em menor proporção.

Os vinicultores gostam de dizer que o vinho é como a música, cuja harmonia depende de uma combinação adequada de diversas notas. Por analogia, eles têm à disposição 13 “notas”, 13 cepas com as quais podem criar complexas composições.

Vinhos de guarda

Cave da vínicola Domaine de la SolitudeOs vinhos de Châteauneuf, principalmente os tintos, são capazes de suportar  períodos de guarda de 15 a 20 anos (ou mais). Quando novos, exalam gostos frutados e têm coloração rubi. Quanto mais velhos, a cor tende mais para o marrom e o gosto se torna mais severo, com notas de café e azeitonas pretas.

Dois fatores são determinantes para as características dos vinhos da região: ela é atingida periodicamente pelo Mistral, o vento gelado que vem dos Alpes. Ele ajuda a manter as parreiras livres de pragas e para­sitas, além de arrefecer a temperatura. Outro fator é o solo, com predomínio de grandes pedras redondas que retêm calor e servem como isolante térmico natural.

A soma de fatores climáticos e geológicos resulta no que os franceses chamam de “terroir”. O sabor de um vinho não é determinado apenas pelas uvas usadas na produção. É a expressão do “terroir” também, das condições de solo e clima. Junta-se a essa complexa equação o fator safra, que varia segundo a temperatura média e a quantidade de chuva e de horas de sol de cada ano. Em Châteauneuf, a variação de safras atinge mais os vinhos tintos, que podem ganhar contornos bem diferentes de um ano para outro.

Preço justo

Lousa com os preços de alguns vinhos. Chatêauneuf.O preço dos vinhos de Châteauneuf du Pape nas lojas da região possuem preços variados. É um dos vinhos mais valorizados do Vale do Ródano, cujo preço se deve em grande parte às condições especiais de produção. A densidade de parreiras por hectare é pequena, gerando uma baixa produtividade e uma alta qualidade.

A colheita manual permite que apenas as uvas em perfeito grau de maturação sejam selecionadas. Os vinhos tintos geralmente envelhecem em barricas de carva­lho novas, usadas uma ou duas vezes e, depois, são revendidas a produtores menos exigentes.

Como se trata de uma AOC pequena e reputada, a oferta é modesta frente à procura, fator que também está na causa do preço elevado. Mesmo assim, para os brasileiros que visitam a região e gostam de apreciar um bom vinho, é uma ocasião perfeita, já que no Brasil eles são raros e custam caros.

Além do centro da cidade e das ruínas do castelo papal, onde há diversos restaurantes e lojas para degustação e compra de vinhos, quem vai a Châteauneuf pode visitar os produtores. Para saber quais produtores estão abertos à visitação, basta ir até o Office de Tourisme local, que fica na Place du Portail. Viaje Mais visitou o Château Fortia, que foi administrado por Pierre Le Roy de Boiseaumarié, e o Domaine de la Solitude, que tem vinhos importados para o Brasil pela Zahil.

Uma opção interessante para introdução no universo dos vinhos ou para aprimoramento é fazer um curso no laboratório-escola de enologia Mouriesse (oenologie-mouriesse.com) onde há cursos de duas horas.

Os amantes da enologia que desejarem ir mais fundo na região podem adicionar ao roteiro uma passagem pelos vilarejos de Gigondas, Vacqueyras e Tavel. Os dois primeiros são conhecidos pela qualidade dos vinhos tintos, enquanto Tavel produz vinhos rosés de prestígio.

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