Roteiros em luxuosos cruzeiros atraem muitos turistas para a Espanha e Grécia

Dec 31, 1969
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 (Foto: Paulo Basso Jr./ViajeMais)

(Foto: Paulo Basso Jr./ViajeMais)

Quem não sonha em embarcar rumo à Espanha para fazer um cruzeiro de oito noites com destino à Grécia e passagem por dois lugares que poucos brasileiros ousam conhecer, mas que são absolutamente surpreendentes: Malta e Tunísia.

Ao contrário do que muitos imaginam, fazer uma viagem como essa, de navio, pode sair tão em conta quanto passar uma semana na Disney World, em Orlando (EUA), ou mesmo em um resort no Nordeste brasileiro. Os pacotes variam bastante de acordo com os destinos, número de dias, época do ano e tipo de cabine escolhida, mas não são valores absurdos.

Os pacotes oferecem uma viagem em navio de nível cinco estrelas, com todas as refeições inclusas, muitas delas em estilo gourmet, sem contar a série de opções de lazer.

Vapt-vupt em La Coruña

Marina de La Corunã, cidade na Galícia. Espanha.Do porto à praça principal da La Coruña, chamada María Pita, são menos de dez minutos a pé. A paisagem é marcada por diversos veleiros que tomam conta do cais e dão à cidade o status de uma das mais regiões portuárias mais proeminentes da Espanha. Ao fundo, as fachadas de vidro dos prédios horizontais que deram ao local o apelido de Cidade de Cristal escondem galerias com antigas casas de pescadores, hoje transformadas em restaurantes, lojinhas e comércio em geral.

O charmoso labirinto de vielas revela, entre uma peluquería (salão de cabeleireiro) e outra, lojas como a Zara, que nasceu na região, e armazéns com jamón de pata negra (o mais nobre tipo de presunto) pendurados nas vitrines. Vale a pena curtir as mesinhas espalhadas pelo calçadão e provar o fantástico presunto ou então pedir por mariscadas e kebabs (espécie de sanduíche feito com pão pita, que pode receber diferentes recheios), entre outras delícias. A “praia galega” fica próxima à prefeitura de La Coruña, cujas três torres avermelhadas que espetam o céu sobre a fachada modernista do palácio podem ser vistas de quase todos os pontos da marina da cidade.

Alma brasileira

De dentro do navio Vision of the Seas.Construído pela Royal Caribbean, o navio tem tudo o que se espera de uma cidade flutuante: cabines amplas, teatro, áreas temáticas para crianças e adolescentes, lojas duty free, cassino, duas piscinas, seis jacuzzis, spa e por aí vai, tudo isso espalhado por 11 deques (andares). O Vision of the Seas preserva os padrões que agradam ao público europeu e os norte-americanos em geral, com ambientes tranquilos, jantares elegantes e festas que terminam, invariavelmente, antes da 1 hora.

A embarcação do navio surpreende pela quantidade de tripulantes conterrâneos que trabalham a bordo. Em todo lugar encontra-se um brasileiro, seja como camareiro, atendente de loja, ajudante de cozinha, barman, garçom, animador e até diretor de cruzeiro. O português é fluente a bordo que muitas vezes se esquece que está prestes a atravessar o Estreito de Gibraltar rumo ao Mar Mediterrâneo.

Paulo, Fernanda, Daniel, Flávio, Bruno, Eliza... Os nomes familiares nos crachás deixam claro que a Royal Caribbean investiu forte no carisma e na simpatia dos brasileiros para se preparar para a temporada verde-amarela. 

Tapas ao lado de Picasso

Muralhas do Gibralfaro, castelo em Málaga. Espanha.Málaga é uma das cidades mais charmosas da região da Andaluzia, no sul da Espanha. Por ficar em um ponto estratégico da Península Ibérica, a 100 km do Estreito de Gibraltar, o lugar fundado pelos fenícios foi dominado por diversos povos importantes, como os romanos e os árabes. A melhor opções é contratar um city tour para conhecer o máximo possível – esse é um dos problemas de viajar de navio, os passeios em terra costumam ser curtos, de seis a oito horas no máximo.

Pertinho do porto há uma estação da Málaga Tour, operadora que administra aqueles ônibus vermelhos de turismo que partem rumo aos locais mais interessantes da cidade. O ingresso tem preço acessível e após uma volta completa, o visitante pode descer em qualquer uma das paradas, já que um novo ônibus passa a cada 15 minutos e o tíquete vale para o dia todo, passeio ideal para bservar o clima tipicamente mediterrâneo na região.

Em meio a longos calçadões arborizados e praias de areia um tanto escura, fortificações mouras surgem sobre os morros a cada curva que o ônibus faz. Alheios a tudo isso, os conterrâneos de Pablo Picasso (sim, foi lá que o artista nasceu) tocavam a vida sem pressa. Belas moças  desfilavam em motonetas cor-de-rosa enquanto os rapazes falavam alto, feito bons espanhóis, mas num clima de pura calmaria.

Não ligue para as touradas, mas o nome da arena chama a atenção: La Malagueta, como a pimenta. As portas ficam abertas o dia todo e qualquer um pode entrar para fazer fotos. Há até um museu que conta um pouco da história das touradas, com roupas típicas de toureiros e tudo o mais.

Uma das opções de passeios é o Gibralfaro, o castelo que domina boa parte da paisagem de Málaga. Paga-se pouco pela entrada e o ingresso dá direito a uma visita ao Alcazaba, palácio aos pés da fortaleza. Do alto dos muros levantados pelos árabes é possível ter uma incrível vista da cidade, que inclui a arena La Malagueta e o belíssimo porto.

Após uma boa caminhada dentro da área do castelo, chega-se ao Alcazaba (se preferir, vá com o ônibus do city tour, que para na porta). O palácio construído entre os séculos 11 e 14 sobre uma grande rocha guarda jardins, torres de vigia, pátios e salas com arquitetura típica árabe. De lá, é possível seguir a pé para o centro histórico da cidade, onde fica a imponente Catedral de Málaga, um agradável calçadão repleto de lojas e a Plaza de la Merced, vizinha do edifício onde Picasso nasceu em 1881.

Ao lado do prédio histórico, onde há um museu dedicado ao artista, tive a “árdua” tarefa de curtir o que se faz de melhor na Andaluzia: comer. Entre os inúmeros restaurantes com mesinhas na calçada uma opção é saborear tapas, pequenas porções de frios, pastas e outras iguarias muito bem temperadas e servidas na Espanha. 

Dia de Kaká na Tunísia

Ruínas de Cartago, importante cidade-estado na antiguidade.Após um dia inteiro de navegação o Vision of the Seas chegou no destino mais pitoresco do cruzeiro: Túnis, a capital da Tunísia.

Para aproveitar melhor o tempo em terra a dica é contratar um passeio oferecido pela agência de excursões do navio, que levaria a duas cidades da região, Cartago e Sidi Bou Saïd. 

Localizada ao lado de Túnis, é hoje um lugar rico, repleto de casarões e palácios modernos que dividem espaço com dezenas de sítios históricos. Entre eles, destacam-se as tumbas de um cemitério púnico de crianças, que os cartagineses sacrificavam em nome de divindades; os restos de um antigo porto; um aqueduto ao ar livre e as impressionantes ruínas dos Banhos de Antônio, um dos maiores do Império Romano.

A parada nas termas é obrigatória, a paisagem é repleta de edificação do complexo que ainda permanecem de pé, com mais de cinco metros de altura, e das construções romanas erguidas sobre as cartaginesas (hoje descobertas), tudo ressaltado pelo mar azul-esverdeado que fica ao fundo. 

Em Sidi Bou Saïd, Tunísia, as contruções usam as cores branca e azul.A cidade de Cartago é repleta de casinhas com fachadas brancas e azuis, o lugar é uma espécie de Santorini da Tunísia. Não fossem algumas fachadas árabes, uma mesquita e as placas com alfabeto local, seria difícil acreditar que o navio não tinha errado o caminho e atracado na famosa ilha grega.

Pegando um taxi é possível chegar com rapidez à Avenida Habib Bourguiba, espécie de boulevard parisiense, com direito a mesinhas de café espalhadas pelas calçadas e tudo o mais, mostrando que a colonização francesa deixou mesmo marcas na Tunísia.

Não é preciso de muito tempo para perceber o quanto o país africano é moderno. Mulheres com costumes mulçumanos dirigem Peugeots, Renaults e Citroëns e dividem as calçadas com moças de calça jeans e camiseta. Às vezes, andam até de mãos dadas. As roupas em geral são discretas (decotes e saias curtas não pegam bem), mas os jovens saem das escolas com penteados moderninhos e ouvindo seus iPods, já que os colégios rigidamente islâmicos foram fechados há muito tempo por lá.

Na Porte de France, o portal que dá acesso à medina, palavra árabe usada para delimitar as cidades históricas, é onde pulsa a Túnis original, com uma grande mesquita marcada por uma torre alta que vigia de perto um emaranhado de ruelas onde funciona o souk (mercado árabe).

O lugar não é bonito nem romântico, com uma profusão de aromas, cores e sons – mas é divertido à beça. Pelo menos se você estiver com uma camisa do Brasil. Em pouco mais de meia hora, vendedores de narguilés, tecidos, tapetes, perfumes, temperos, joias e peças de vestuário com marcas ocidentais falsificadas oferecem seus produtos.

Na terra dos cavaleiros

Palácios e fortificações da ilha de Malta, no MediterrâneoApós o Vision of the Seas navegar a noite toda o próximo destino seria Malta, já na Europa, um dos lugares mais belos do mundo para visitar de navio. Isso porque, enquanto o transatlântico se prepara lentamente para atracar, uma sucessão de fortes e palácios se descortina por uma espécie de “avenida aquática” que se prolonga por um dos braços de mar da península de Valetta, a capital do país.

Malta é a principal ilha do arquipélago homônimo, formado ainda pelas ilhotas de Gozo e Comino. Situada entre a Tunísia e a Sicília, sul da Itália, a região foi palco de batalhas de fenícios, bizantinos, árabes, romanos e mais um monte de gente. Em 1530, foi doada pela Espanha aos cavaleiros da Ordem de São João, criada na época das Cruzadas e que havia sido expulsa da Grécia.

Saber um pouco dessa história é importante para entrar no clima da ilha, já que até hoje ela parece viver um ambiente pós-medieval. E você sente isso assim que segue do porto até a Republic Street, a principal rua de Malta. No caminho, não é difícil ficar perplexo diante da quantidade de prédios com o mesmo tom pardo de cor e sacadas de madeira colorida que pareciam formar uma única estrutura e tomavam conta da paisagem. Aqui e ali, surgiam ruelas com grandes escadarias de onde se vê o mar para qualquer lado que você arrisque olhar. De um dos pontos mais altos da cidade o visual é o porto recortado por três pequenas penínsulas (conhecidas como as Três Cidades), cobertas por fortes e cercadas por marinas.

Já na Republic Street, duas construções despertam a atenção: o Palácio dos Grão-Mestres e a Co-Catedral de São João. Em ambos conheci um pouco mais da história maltesa e vi obras de arte como a Degolação de Batista, feita por Caravaggio na época em que o pintor italiano morou em Malta e foi consagrado como cavaleiro. A tela está exposta em um pequeno museu da Co-Catedral de São João, cujo interior é todo recoberto de ouro e o piso repleto de pinturas abriga os túmulos dos membros da Ordem.

Centro histórico de Valletta, capital de MaltaO mais curioso é que, a despeito de tantas edificações históricas e contos de cavaleiros, Valleta revela um caráter mais contemporâneo que se reflete em uma espécie de Torre de Babel. Parecidos com os italianos, os nativos falam maltês, língua que teve origem no árabe, e preservam situações típicas da colonização inglesa, como cabines telefônicas e caixas postais vermelhas, mão de trânsito invertida e ônibus amarelos da década de 1950, que levam os turistas para cima e para baixo.

Na cidade vizinha chamada Mdina (sem o "e"), que era a antiga capital do país, o lugar é uma miniatura de Valleta e tem como atração principal sua própria Co-Catedral (que justifica o prefixo co das duas maiores igrejas do país). Vale a pena o passeio guiado para entender porque a região é conhecida como a Cidade Silenciosa. No meio das pequenas ruelas que cortam o vilarejo estão as torres medievais e renascentistas que se revelavam a cada beco.

Antes de voltar para o navio é possível fazer algumas compras no porto de Valleta, que é extremamente organizado e tem um duty free cheio de produtos. É difícil sair dele sem a insígnia de uma cruz de Malta, um pequeno cavaleiro de enfeite, um ônibus inglês da década de 1950 de miniatura ou algo do tipo.

Despedida em Atenas

Em Atenas, o Partenon é destaque entre as ruínas.Mais um dia de navegação se passou até o Vision of the Seas chegar ao ponto final do cruzeiro: a Grécia. Pela manhã o navio já deixa o porto de Pireus para trás e segue até o aeroporto de Atenas, situado a uma hora de distância.

O trajeto de trem entre o aeroporto e a região consume mais de uma hora, mas vale cada minuto. Do caminha dá para avistar o patrimônio da humanidade, cujas principais edificações foram construídas entre os anos 500 a.C. e o século 5º da era cristã, uma experiência inesquecível. A saída da estação de metrô é quase um museu, pois expõe vasos e outras peças clássicas encontradas durante as escavações – sendo a primeira vista da Acrópole, que, em grego, significa "cidade alta".

No local compra-se o ingresso que dá acesso ao complexo e também à Ágora Antiga. O passeio ocorre pelo Dionisius Aeropagitou, um amplo e arborizado calçadão que leva, sem dificuldades, para os principais templos dos arredores, como o Teatro de Dionísio e o Odeão de Hedores Ático. Basta seguir adiante e pronto: os monumentos aparecem por todos os lados, uns mais impactantes que os outros.

Depois de passar pelos Propileus, a grande porta de entrada da Acrópole, que é margeada de um lado pelo Templo de Atena Nike e do outro pela vista da Ágora Antiga, chega-se ao Partenon. O templo dedicado à deusa Atena, construído e decorado entre 447 e 432 a.C., é a obra-prima mais célebre da Grécia. Sua presença acima de todas as outras edificações chama a atenção pela sequência perfeita de colunas e pelos incríveis detalhes arquitetônicos.

Diante de tamanha beleza e com a magnífica vista de boa parte de Atenas ao fundo – com destaque para o templo de Zeus Olímpico à esquerda –, à terra em que Sócrates, Platão e outros célebres atenienses reuniam oradores para discutir filosofia e política ao ponto de mudarem a história da humanidade.