Índia propicia passeio de compras a lugares sagrados

Dec 31, 1969
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A Índia não é apenas um outro país. É um outro mundo do ponto de vista ocidental. Esqueça o que ouviu ou mesmo leu sobre esse exótico destino e vá de coração aberto. Essa cultura de tempos ancestrais pode ser a oportunidade de vivenciar um outro estado de espírito.

E viajar pelo país que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo tem seus atrativos, como ver todo o processo de produção da matéria-prima ao longo das estradas – desde, por exemplo, o algodão sendo colhido e pesado até sua transformação em novelos ou enchimento para colchões e travesseiros. Mais tarde, viram brilhosos fios trabalhados em teares manuais para serem vendidos como deslumbrantes tecidos para saris, os coloridos panos que as indianas enrolam no corpo.

A vida acontece à beira das estradas onde mulheres com saris fazem desde o trabalho nas plantações até quebrar pedras a marretadas, agachadas. Nos vilarejos, ao longo das estradinhas, estão pequenas vendas e lojas com as portinhas abertas geralmente com serviços de alfaiates, barbeiros, mecânicos de bicicletas, entre outros.

O que destoa consideravelmente das lembranças de décadas passadas é a facilidade em ligar para o Brasil, poder usar telefones, ouvir celulares com toques de mantras em toda parte e até usar o serviço de computação ambulante nas calçadas. A Índia se juntou ao seleto clube de países com tecnologias avançadas nas áreas de informática, exportando softwares para mais de 90 países. Mas ainda com toda a modernidade, sofre com os apagões que costumam ocorrer ao anoitecer.

Lugares sagrados

Não é de se admirar que depois de milhares de anos de hinduísmo, vivendo a yoga no cotidiano, os indianos ainda convivam naturalmente com o sagrado e o mundano. Apa­rentemente não há programação melhor para eles do que ir a um templo.

Qualquer passeio com a família ou fim de semana inclui um local de adoração, dos menores aos maiores, dos mais simples aos mais exuberantes, dos mais antigos aos mais modernos, dos mais sujos aos mais limpos, dos mais procurados (lá não existe fila indiana, é na base do empurra-empurra mesmo) aos mais retirados.

É muito comum ver ônibus escolares com dezenas de crianças entrando em algum templo para reverenciar as deidades. No centro do país, no estado de Maharashtra, a cerca de 30 km da cidade de Aurangabad, se localizam as cavernas sagradas de Ellora e Ajanta, inteiramente escavadas e esculpidas nas montanhas entre os anos 200 a.C. e 650 d.C. e hoje consideradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

As cavernas hinduístas, budistas e jainistas foram escavadas de cima para baixo nas montanhas, por monges das três religiões que ali residiram do século 20 a.C. ao 70 d.C.

Há mosteiros, galerias, templos, moradias, saletas de meditação, escadarias, fachadas, pilares, áreas livres e até andares escavados e decorados nas pedras dessas montanhas. As cavernas sagradas de Ajanta têm o interior repleto ainda de pinturas coloridas com a história de cada deidade.

Das 34 cavernas que se estendem pelos dois quilômetros de montanhas, a que suspende a respiração é a de número 16 que, por causa disso, deve ser a última a ser visitada. A grandiosidade e o detalhamento fizeram com que a obra levasse cerca de 150 anos para ser concluída. Chamada de Kailas, representa a montanha de mesmo nome, situada no Himalaia, conside­rada a morada de Shiva, um dos deuses da trilogia hindu e repre­sentante da suprema realidade.

Com 81 metros de comprimento e 33 de altura, Kailas é a maior estrutura do mundo formada por uma única pedra. Já na entrada do pátio interno, o visitante é surpreendido por dois pilares talhados medindo 17 metros de altura. Na área central, dezenas de esculturas de elefantes em tamanho natural sustentam o templo. Várias escadas dão acesso aos três andares inteiramente esculpidos, do chão ao teto, com cenas dos épicos Ramayana e Mahabharata, da vida de Krishna, bem como de Shiva e Parvati, sua esposa.

A enorme quantidade de esculturas, dese­nhos e pinturas nas cavernas de Ajanta retratando a figura de Buda é impressionante. As obras mostram em detalhes a vida do fundador do budismo, o meditador Siddharta Gautama. Com valor artístico e cultural, esses trabalhos atraem visitantes do mundo todo.

Passeios

Interior das cavernas de Ellor, próximo a Aurangabad, Índia. Foto Nyrce LevinMais um destino sagrado muito procurado por indianos e ocidentais é a bela cidade de Pushkar, provavelmente a mais típica em se tratando de Índia. Com um belo lago ladeado por largos e compridos degraus, conhecidos como ghats, e rodeada por construções pintadas de branco, lembra Varanasi, a cidade construída há cerca de 2.500 anos à beira do Rio Ganges, onde os indianos se banham e rea­lizam rituais como purificação da alma. Considerado um lugar de peregrinação, com cerca de 400 templos, Pushkar é o único local do mundo onde existe um templo dedi­cado a Brahma, o deus da criação. Segundo a mitologia hindu, a cidade seria a mais antiga de todas, sendo o primeiro lugar que o deus hinduísta teria criado na Terra.

Além de conhecida como cidade religiosa, Pushkar é famosa pela pitoresca feira anual de camelos que. Os animais a serem vendidos são enfeitados e adornados até com joias de prata. No evento, também são promovidos corridas e concursos de beleza de camelos.

Ainda ao norte do país, um lugar também imperdível é Udaipur, no Rajastão, à beira do Lago Pichola. Um local de sonho, fundado em 1559, com palácios de antigos marajás, hoje transformados em hotéis no centro do lago. Uma visita ao Palácio da Cidade no alto do morro vale a pena, assim como ao Templo de Vishnu. Em ambos os lugares tive a sorte de ver parte da família real e sua comitiva.

Os indianos são muito atenciosos com os ocidentais. Apesar de aco­lhedores, eles acabam admirando mais os turistas que tentam se adaptar aos costumes do país. Assim, todos os passeios pela Índia, a lugares sagrados ou não, serão melhor aproveitados se o visitante se ajustar um pouco aos códigos de conduta da cultura local. Lembre-se: a maneira ocidental de vestir é totalmente diferente da indiana. Não há necessidade de enrolar nos lindos e coloridos saris que as indianas usam sempre, mas um punjabi (calça tipo pantalona e um vestido com xale combinando por cima) é uma solução prática e confortável no caso das mu­lheres.

Também no Rajastão está a bela Jaipur, a capital, conhecida como a cidade cor-de-rosa por ter tido várias construções pintadas nessa cor quando o príncipe Albert, marido da rai­nha Vitória da Inglaterra, visitou a Índia em 1883. Hoje, no entanto, a cor está bastante esmaecida e um dos poucos remanescentes é o famoso Palácio dos Ventos.

Com 953 janelinhas na fachada, lembrando uma colmeia, o Hawa Mahal foi construído originalmente para que as mu­lheres da corte real assistissem à vida cotidi­ana sem serem vistas pelo lado de fora. Erguido em 1799, no coração de Jaipur, na rua do Bazar, tem o exterior como melhor vista. Mas os cinco andares valem a pena ser visitados, não só pela beleza arquitetônica como também pela rara coleção de armas do século 15 lá expostas, como espadas adornadas por jóias e marfim, adagas e armaduras. Também merecem um passeio o Palácio da Cidade, o Observatório Solar e o Forte Âmbar, que pode ser alcançado a bordo de elefantes, em um trajeto que começa desde a base da colina.

Porém Jaipur – como Mumbai, Délhi ou outras grandes cidades indianas – não escapa do trânsito caótico, da buzina a todo momento, poluição, sujeira, calor e muita gente. Mas não se vê ou ouve nenhuma manifestação de violência. Ninguém ao menos xinga.

Ao norte de Délhi, Amritsar, fundada em 1577, é o reduto dos seguidores do sikhismo. É lá que está o belíssimo Templo Dourado que, para os sikhs, equivale à Catedral de São Pedro dos católicos. Milhares visitam diariamente o templo que, recoberto de cobre em 1802, tem a fachada dourada.

Compras

Mangaldas Market, mercado de tecidos de Mumbai. Foto Nyrce LevinA Índia é fascinante com o colorido infinito das roupas das mulheres, sempre enfeitadas dos pés à cabeça, com piercings, anéis, pulseiras, brincos, colares, pingentes, braceletes, pintura nos olhos, enfeites nos dedos dos pés e no tornozelo, echarpes e xales. Tudo isso desde as 4h da manhã até a meia-noite.

Aí entra um atrativo incomparável a qualquer país do mundo, as compras. É bom levar uma mala quase vazia para ser enchida na volta com dezenas de objetos sempre com preço muito atrativo para os ocidentais. Pechinchar é sempre bem-vindo, mas sem estresse, como tudo no país.

Aproveite que você pode trazer até 64 quilos divididos em duas bagagens para comprar presentes por preços bem acessíveis. É possível encontrar lindas lembrancinhas, daquelas que fazem muito sucesso entre as mulheres.

Em Mumbai, antiga Bombaim, perto da região dos hotéis mais procurados pelos turis­tas estrangeiros, estende-se por vários quarteirões a famosa Colaba Causeway, avenida com diversas lojas e centenas de ambulantes que oferecem, das 9 da manhã às 9 da noite, produtos dos mais variados. Ali você encontra bolsas, almofadas, tapetes, colares, colchas, sandálias, anéis, brincos, xales, pulseiras, pier­cings, echarpes, vestidos, saias, mantas, saris, túnicas, incensos, tecidos, esculturas e objetos de cobre, bronze, lápis lazuli, pedras semipreciosas, mármore e muito mais.

Há também os mercados como o Mangaldas Market, especializado em tecidos. São mais de 400 bancas internas repletas de tecidos de seda e algodão bordados e de todas as cores. Ou a região chamada de Zaveri Bazaar, composta por várias ruas, com dezenas de joalherias vendendo artigos em ouro e prata, e outras lojas especializadas em bijuterias sofisticadas com pedras das mais variadas cores e modelos. Vá com tempo livre.

Outro bairro interessante em Mumbai é o Bhuleshwar Bazaar, uma espécie de 25 de Março com uma dimensão bem maior, com muitas ruas e becos repletos de bijuterias de todas as formas. Embora não seja muito fácil caminhar, já que circulam por lá além dos compradores, homens carregando enormes caixas que serão enviadas por atacado para o comércio do mundo inteiro, vale a pena pelo pitoresco desse atrativo lugar.

Caso prefira compras mais sofisticadas, o Emporium Central Cottage fica bem próxi­mo à área dos hotéis. É onde se encontra em um só local uma imensa variedade de objetos de decoração e de uso pessoal de muito boa quali­dade. Outra loja muito procurada por turistas é a Fabíndia, no mesmo bairro, com roupas femininas e masculinas, de estilo mais ocidental.

Em Mumbai

Indiano posa diante do Forte de Gwalior, norte da Índia. Fotos Nyrce LevinEntre os muitos atrativos de Mumbai, a segunda maior cidade depois de Délhi, está um passeio à ilha de Elephanta, com cavernas que lembram as de Ellora e Ajanta. O tour sai das proximidades de outro ponto turístico, o Hotel Taj Mahal, construído em 1903 em estilo colonial. Mesmo que você não se hospede nele, vale também visitá-lo. O hotel tem uma boa livraria, com vasto material sobre a Índia e oferece um excelente café da ma­nhã. Além dos luxuosos banheiros, sempre aproveitados por turistas.

Outro conjunto arquitetônico colonial é a Universidade de Mumbai, com belos jardins e uma escadaria externa em caracol. Vale uma passada na biblioteca, próxima à universidade, não só pelo acervo, como pelo mobiliário e pela vista que se tem da sacada para a movimentada metrópole.

O que ajuda muito a vida do turista é que grande parte da população fala ou entende inglês, devido à colonização inglesa que acabou só em 1947. Já com o sotaque, leva um tempi­nho se acostumar. Os comerciantes e vendedores sempre estão dispostos a compreender os visitantes, uma vez que quase todos são vistos como turistas americanos com dólares. Aí entra o jeitinho brasileiro de pechinchar, pois frequentemente o preço que nos cobram é bem mais alto que o normal.

O que também facilita a comunicação com os indianos é que eles são muito curiosos e interessados na cultura ocidental. Porém, a linguagem corporal usada por eles pode nos confundir. Lá, os sinais de sim e não com a cabeça não têm significado algum. As res­postas positivas que incluem a vasta gama de “legal”, “Ok”, “sim”, “tudo bem”, “pode ser”, “certo”... são feitas com um leve balançar la­teral de cabeça, parecendo uma delicada dancinha de pescoço, impossível de se reproduzir. E por razões culturais, as respostas nega­tivas são geralmente evitadas.

Costumes

Encantadores de serpentes nas ruas de Jaipur, Índia. Foto Nyrce LevinA exuberância assumida em meio à carência visível é considerada por muitos o poder mais nobre na cultura indiana. E por falar em exa­gero, prepare-se para a pimenta. Como dieta rápida e básica é muito eficiente. Juntamente com a quantidade de água mineral (em garrafa) que se deve tomar pelo calor, pode-se calcular uns três quilos perdidos por mês.

A comida é extremamente picante e não adianta pedir sem pimenta. Seria o mesmo que solicitar uma comida sem sal em qualquer restaurante no Ocidente. Na Índia, o que não é apimentado é doce. Mas para tirar a fortidão dos pratos, é oferecido ao final das refeições um pires com sementes de erva-doce misturadas com açúcar em pedacinhos. Um santo remédio.

A tradicional comida indiana é servida numa espécie de bandeja redonda, com borda de alumínio, acompanhada pelos deliciosos rotis e chapatis. São pães, no formato de uma panqueca aberta, feitos em fornos a lenha. Os indianos pegam a comida com pedaços des­ses pães, segurados com três dedos da mão direita, antes de levados à boca. Pode-se co­mer assim, o que dá um sabor especial, ou usando garfo e faca, ofere­cidos na maioria dos restaurantes.

Na Índia não se costuma tomar bebida alcoólica e todos bebem tranquilamente os copos de água colocados sempre à mesa com a refeição. Mas não tome água que não seja mineral de garrafa para não ter problemas digestivos e estomacais. Também aos ocidentais é aconselhável tomar banho de boca fechada e escovar os dentes também com água mine­ral. 

Já entre um chá ou um café, prefira o tchai, herança inglesa muito gostosa, feito com chá preto, leite, gengibre, canela, cravo e cardamomo. E como é fervido, não traz problema algum. Experimente também a variedade de doces e aproveite para trazer as famosas especiarias indianas, entre elas o curry.

Programe a viagem para os meses de novembro a fevereiro para não pegar nem o calor escaldante nem as chuvas torrenciais das monções. O inverno indiano é muito agradável. Na cidade de Agra, onde está o famoso Taj Mahal, chega a ser necessário um xale devido ao vento forte.

Taj Mahal

O Taj Mahal, ÍndiaO Taj Mahal é um dos poucos lugares bem tratados. Cercado por grama e canteiros de flores, com um chafariz central e passarelas que possibilitam uma vista sensacional dessa maravilha toda feita em mármore branco, o mausoléu foi erguido em 1631 pelo imperador Shah Jahan em memória da esposa favorita, chamada por ele de Mumtaz Mahal, que morreu ao dar a luz ao 14º filho. O Taj, como é chamado esse Patrimônio da Humanidade, levou 17 anos para ser construído por cerca de 20 mil homens ajudados por mil elefantes, que transportavam artesãos e materiais trazidos de outras partes da Índia e de outros países da Ásia.

A filosofia da não-violência seguida por Mahatma Ghandi, o grande estadista indiano, ainda é hoje um dos aspectos mais intrínsecos da cultura e filosofia hindu. Basta observar que as buzinadas constantes nunca são levadas como ofensa pessoal. Ninguém liga, exceto os bois e as vacas sagrados, que rapidamente saem do caminho.

É durante uma viagem a esse país que em 10 mil anos de história nunca atacou nenhum outro que podemos nos descobrir e seguir a ideia do próprio Gandhi: “O único tirano que aceito nesse mundo é a pequena voz silenciosa que há dentro de mim”.

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