Descubra roteiros multiculturais em Nova Délhi e conheça de perto um pouco da história da Índia

Dec 31, 1969
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A primeira impressão não é das melhores: trânsito caótico, indigentes nas calçadas, lixo espalhado... Como toda grande metrópole, Nova Délhi não se mostra logo de cara ao visitante de primeira viagem. É preciso tempo, envolvimento e até certa benevolência para perceber um pouco de sua riqueza multicultural, fruto de quase 3 mil anos de história. É uma das cidades mais antigas do mundo e porta de entrada da Índia. Mas quem chega pode ficar um pouco ressabiado a princípio. Talvez porque ninguém fique indiferente diante de uma população de 50 mil moradores de rua. Em cada farol há vários deles pedindo esmola, apesar da mendigagem ser prática proibida por lei municipal. A cidade exige um olhar livre, sem preconceito, reprovações ou comparações negativas, sob o risco de ver tudo sobre o prisma do mau-gosto e do desagradável. Requer uma capacidade de ver além de uma  primeira impressão pessimista. Algo como observar uma bela paisagem através de uma janela suja. Com os sentidos atentos e a mente liberta (um pouquinho que seja) de conceitos ocidentalizados, é possível perceber os traços da herança milenar, os cheiros dos temperos, o desvario das cores, a beleza das arquiteturas, a pluralidade de rostos, deuses e religiões desse lugar único que é a capital da maior democracia do planeta.

Nova Délhi não é um destino indicado para o descanso ou relaxamento. O que vale ali é a experiência de uma viagem no sentido mais profundo da palavra. O trânsito, por exemplo, é um estresse por si só. Aparentemente, é incompreensível entender como tantos tuc-tucs (triciclos verde-amarelos que servem como táxi), ônibus caindo aos pedaços, motos, carros, gente e riquixás (as bicicletas com bancos, que também servem como táxi) convivem nas ruas lado a lado, disputando cada centímetro de espaço. A única regra consiste em buzinar, o tempo todo e sem motivo. Sorte que as autoridades de trânsito removeram as vacas das ruas da cidade. Os animais são considerados sagrados na religião hindu, que é seguida por 80% da população da Índia. Os donos das vacas aproveitam o leite, mas quando este acaba, os bichos são soltos. Há milhões de vacas perambulando pelas ruas da Índia. Vez ou outra, alguma é atropelada e o motorista arca não apenas com o prejuízo do próprio veículo mas também com o olhar enfurecido dos transeuntes por causa da morte do pobre bovino.

A remoção das vacas foi mais um passo na direção da modernidade que a ca­pital indiana tanto busca. A cidade orgu­lha-se pela eficiência em diversas áreas de altíssima tecnologia, como microeletrônica e energia nuclear. Exporta para o mundo inteiro profissionais especializados em softwares e biotecnologia. É o principal motor da prosperidade econômica do país. Conta com uma rede hoteleira sofisticada e ofertas de emprego que não existem em nenhuma outra cidade da Índia. Mesmo assim, com cerca de 14 mi­lhões de habitantes, sofre as mazelas de grande metrópole de Terceiro Mundo, como o inchaço urbano, o trânsito caótico, a poluição e a pobreza.

Uma van turística em city tour em Nova Délhi segue esmurrada a cada semáforo por pedintes e vendedores ambulantes ávidos por rúpias. Também é quase impossí­vel caminhar pelas ruas sem que alguém tente lhe empurrar alguma bugiganga. Os vendedores reconhecem um estrangeiro à distância. E é inútil recusar, eles simplesmente não desistem. Os guias aconselham a ignorá-los totalmente se não estiver interessado em comprar. Na feira de Chandni Chowk, no centro antigo da cidade, um vendedor é capaz de grudar no seu pé o tempo que for preciso até fechar negócio, se na primeira investida você demonstrar algum interesse pelo produto. É a velha técnica de vencer o adversário pelo cansaço. Perto dos ambulantes de Nova Délhi, os vendedores de colares do Pelourinho, em Salvador, são café-com-leite.

Em compensação, ao lado das avenidas incrivelmente congestionadas, há templos religiosos e fantásticas construções seculares onde internamente não existe o mesmo burburinho. É o caso do Red Fort, Forte Vermelho ou Lal Qila para os indianos, o mais imponente e visitado monumento histórico de Délhi. Do outro lado dos dois quilômetros de muralhas, erguidas com pedras avermelhadas, há um oásis de paz, longe do assédio dos vendedores e pe­dintes que ficam do lado de fora do portão. O Red Fort foi erguido sob ordem do impe­rador Shah Jahan, o mesmo que ordenou a construção do Taj Mahal, em Agra, a cerca de 260 km dali. As obras do Red Fort duraram dez anos, finalizadas em 1638, quando o imperador transferiu para Délhi a sede do poder político.

História e cultura

Uma das vielas superlotadas de Shahjahnabad, Nova DélhiCom cerca de três mil anos de fundação, Délhi é uma das primeiras cidades do mundo. Sua história confunde-se com a própria história da Índia. Surgida como ponto de passagem, em função de rotas de comércio entre o norte e o su­l indiano, as coisas por ali floresce­ram meio misturadas desde o início. É tarefa digna de Shiva tentar entender a complexa e multifacetada formação da sociedade local. São centenas de povos e etnias que deixaram heranças. Pelas ruas da cidade ouve-se nada menos do que 18 idiomas oficiais. A cultura muçulmana, por exemplo, tem em Nova Délhi a mais forte presença na Índia. Vindos da Pérsia (atual Irã) e da Turquia, os muçulmanos chegaram no final do século 12 e lá se instalaram como donos do pedaço por cerca de 500 anos. Deixaram, além das muitas mesquitas, outra importante atração turística da cidade, a Qutab Minar, a Torre dos Muçulmanos, com 73 metros de altura e detalhes esculpidos nas pedras que foram retiradas dos templos destruídos dos hindus.

Os ingleses chegaram em 1803 para anexá-la ao império britânico. Em 1911 iniciaram as obras da parte nova de Dé­lhi, com avenidas largas e os atuais prédios da administração pública. Nada que lembrasse as ruelas estreitíssimas e superlotadas do centro antigo. Lá estão bancos, cafés, embaixadas e os melhores restaurantes da cidade. Os monumentos mais importantes dessa região são o India Gate, um portal em pedra construído em homenagem aos mortos da Segunda Guerra Mundial, e o Museu de Arte Mo­derna, bem próximo. A inauguração oficial de Nova Délhi como cidade planejada aconteceu em cerimônia em 1931, exa­tos 16 anos antes da independência da Índia, que culminou após longa campa­nha de desobediência civil às leis britânicas liderada por Mahatma Gandhi, um dos grandes personagens do século 20.

“O Pai da Nação”

O Raj Ghat, memorial a Mahatma GandhiGandhi foi o líder espiritual e político que uniu a sociedade indiana e fez hindus e muçulmanos lutarem juntos pela soberania do país. Uma luta baseada na não-violência, em protestos pacíficos, e que incluía toda uma filosofia carregada de princípios de paz, desarmamento e cuidado com o meio ambiente. Todas as notas de rúpias trazem estampadas o rosto do "Pai da Índia", e em quase todas as cidades do país há representações de sua imagem, envolto em panos brancos e sandálias.

Gandhi foi assassinado em 1948, meses após a independência, e seu corpo, seguindo a tradição hindu, foi cremado no Parque Raj Ghat, em Nova Délhi. No local, há um memorial em homenagem: uma plataforma de mármore preto com uma lamparina ao centro cuja chama nunca se apaga. Em sinal de respeito, deve-se tirar os sapatos para aproximar-se do memorial. Os indianos vêm de longe, em romaria, prestar respeito à Gandhi em Raj Ghat. Assim como fazem diversos chefes de estado em visita à Índia. Faz parte dos protocolos oficiais e da política de boa vizinhança.

Qualquer visitante também pode ir ao Raj Ghat. A atração faz parte de quase todos os city tours que, num único dia, passam pelas principais atrações e monumentos da cidade, como os mencionados Red Fort e Qutb Minar, além do Humayun’s Tomb, um belíssimo templo de 1570, de arquitetura imponente  circundado por um enorme jardim persa. É uma obra quase tão impressionante quanto o Taj Mahal, mas feita de pedras averme­lhadas em vez do mármore branco, onde estão guardadas as tumbas de diversos imperadores indianos.

Para vivenciar um pouco da face mais autêntica da cidade, a melhor opção é contratar um guia na recepção do hotel e caminhar a pé pelas ruelas do centro antigo. Entre nas mesquitas. Vá à feira de Chandni Chowk, pechinche bastante (faz parte do ritual de compra) e aproveite os preços baratíssimos de xales, camisas, sacolas, sandálias... Aos poucos as surpresas da cidade apagam aquela primeira impressão de pobreza e de ruas congestionadas. Depois de um tempo, talvez você começe até a achar que os tuc-tucs e riquixás são bem simpáticos e ficam bem naquele trânsito que, pensando bem, nem é tão caótico assim.

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