Toscana desperta todos os sentidos com sua arte, gastronomia e enologia
A Toscana, na região centro-oeste da Itália, passeia pelo imaginário de muitos: daqueles que amam vinhos, dos apaixonados pelas artes e ainda de quem assistiu a filmes ou viu em um pôster alguma paisagem bucólica típica da região. Todos os sentidos entram em ação. A música pode ser de Giacomo Puccini, o perfume e o gosto são dos vinhos e das massas especiais, o toque é das folhas das vinhas e do cipreste. Tanto as paisagens quanto as artes são um banquete para os olhos. Na prática, são tantas as atrações, que fica difícil escolher os destinos. A região admite inúmeros roteiros e cada mudança de cidade e de estrada se transforma em uma doce despedida.
Grande parte dos roteiros que contemplam a Toscana começam por outras partes da Itália como Roma ou Milão, já que são essas as primeiras paradas dos vôos brasileiros no país. O roteiro de oito dias sugerido na Itália foi dedicado exclusivamente à Toscana. Pisa, a cidade da torre mais famosa da Itália, pode ser o início e o fim da viagem que vai passar por Lucca, Florença, Siena e por lugares pequenos e românticos, nos arredores das cidades maiores.
Lucca, o começo
Lucca tem ruas estreitas, em parte exclusivas para pedestres, causando uma impressão de aconchego. Na hora do jantar, restaurantes pequenos à luz de velas fazem pensar que a cidade de Giacomo Puccini foi feita para os pares. Pode ser atravessada a pé em poucos minutos, já que, diferentemente de muitas cidades da Toscana que ficam no topo das colinas, Lucca é plana.
No início do século 19, quando a muralha que envolve a cidade perdeu sua característica militar, ela foi transformada em um charmoso passeio público repleto de árvores, permitindo ao visitante ter belas vistas da cidade. Estando dentro do centro histórico, vale a pena se perder sem orientação por um tempo. Os palácios e as construções monumentais merecem momentos de pura contemplação.
A Via Fillungo, principal rua de compras que atravessa o coração de Lucca, fica cheia de casais e famílias a passear. A Piazza San Michele, onde está a catedral San Michele in Foro, abriga palácios renascentistas que hoje são usados para fins comerciais – grande parte deles são bancos. A fachada da catedral, em mármore, compete em beleza com outra grande catedral, San Martino, construída no século 13.
Além de circular por tudo a pé, uma perspectiva interessante para conhecer a cidade é de cima da Torre dei Guinigi. Cinco minutos é o tempo que se leva para subir os 230 degraus da torre medieval de 41 metros de altura. A graça da torre está nas oliveiras centenárias que crescem em seu topo.
Lá de cima é possível ver a bonita Piazza del Mercato, curioso anfiteatro romano no meio da cidade que teve o desenho oval preservado. Também a Catedral San Martino destaca-se na paisagem. A fachada de mármore de San Martino foi construída em três fileiras e cada uma das colunas de sustentação é diferente das outras. Sobre as colunas pode-se ver cenas de caça.
Ainda no centro histórico, a alguns passos da Piazza San Michele está a casa onde nasceu Puccini, autor de óperas imortais como Tosca e Madame Butterfly, hoje um museu. Todo ano, no outono, o Teatro Giglio exibe ao menos uma obra do músico italiano.
Em meio dia é possível ter um panorama geral da cidade. Foi então que descobri, no centro de informações turísticas, que valia a pena explorar um pouco os arredores de Lucca. Eram várias as opções sugeridas. Algumas delas só poderiam ser alcançadas de carro. Escolhi duas pequenas cidades em dava para ir de ônibus.
Barga e Castelnuovo
Ainda que Barga e Castelnuovo sejam cidades encantadoras, o caminho para alcançá-las, ao norte de Lucca, pela região do vale do Rio Serchio, é lindo.
O Rio Serchio cruza a pequena Castelnuovo di Garfagnana e oferece simpáticos recantos e belas vistas das pequenas pontes. A Piazza Umberto I, no centro da cidade, é dominada peloLa Rocca, castelo erguido inicialmente no século 11. Hoje, a estrutura que se vê é fruto de alterações e ampliações ocorridas do século 13 ao século 16, o que faz com que a construção conservada tenha ares renascentistas.
Falar sobre Castelnuovo significa falar sobre o coração da chamada Alta Garfagnana, região de florestas, mármores, lagos e pequenas cidades. Tanto Castelnuovo como Barga são pontos de apoio para quem pretende fazer esportes ou explorar a região montanhosa de Garfagnana e o Parco Naturale delle Alpi Apuane.
Depois de um passeio a pé pela cidade, chega a hora de seguir para Barga. No ponto mais alto da charmosa cidade fica a catedral, que passou por diversas ampliações e reformas após sua construção no século 11. Símbolo da força da fé, duas cabeças de leões esculpidas ficam no topo das colunas que enfeitam a porta de entrada da catedral. O terraço que cerca a construção é um local privilegiado para visualizar o vale do Serchio e as montanhas que envolvem a cidade com seus picos nevados. Deixe-se perder sem roteiro pelas ruelas medievais. Nelas estão casas e palácios construídos nos séculos 15, 16 e 17.
Florença: cheiro de arte
Florença representa ainda hoje a época efervescente de criação e de mudanças, em que o homem se via como centro e passava a interpretar e a criar o mundo com novas lentes. Por isso e por ter abrigado um número incontável de gênios da arte, a cidade tem atrações de sobra.
Ao caminhar pelo centro da cidade é possível fazer um roteiro que passa por importantes pontos. Comece pela imensa catedral gótica Santa Maria del Fiore, que teve a cúpula concluída em 1436 por Brunelleschi. A catedral domina a paisagem da cidade. À direita, fica a torre do campanário, revestida de mármores brancos, verdes e vermelhos, planejada por Giotto em 1334. No museu dell’Opera del Duomo estão obras como uma das Pietá, esculpida por Michelângelo.
Em menos de dez minutos de caminhada, alcança-se a Piazza della Signoria e o Palazzo Vecchio, prefeitura da cidade, cuja construção começou em 1299. Na mesma praça, está a Loggia della Signoria, com estátuas como o Perseo de Cellini.
Na seqüência, caminhe até a Galleria Uffizi, um dos mais importantes museus da Itália, fundado em 1581 por Francesco I de Médici. A galeria tem obras de pintores italianos e estrangeiros, dos séculos 12 ao 18, como Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli, Rafael e Michelângelo, entre outros. As filas, porém, são um pouco assustadoras.
Depois, vá até a Ponte Vecchio, cartão-postal que merece a fama, construída em 1345. Aproveite o pôr-do-sol sem pressa ou, se ainda for dia, suba até a Piazzale Michelangelo. O panorama da cidade que a praça oferece é programa indispensável e o passeio a pé é muito agradável. No centro da praça há uma cópia de bronze do Davi, de Michelângelo.
A Basílica de San Miniato al Monte, logo acima, foi construída entre os séculos 11 e 13 e pode ser considerada como uma das mais importantes construções no estilo românico florentino.
De volta ao centro, Florença não deixa descansar por muito tempo. A Galleria dell’Accademia espera para mostrar famosas esculturas de Michelângelo, como a estátua original de Davi. Também a Casa Buonarroti abriga retratos, desenhos e obras de Michelângelo como a Batalha dos Centauros. Nas proximidades, a basílica franciscana de Santa Croce, iniciada em 1295, guarda sepulturas de alguns ilustres homens da Itália, além de famosos afrescos de Giotto. A alguns passos dali está o Bargello, que exibe uma extensa coleção de esculturas renascentistas. Construído em 1255, transformou-se em museu em 1865 e tem salas dedicadas ao trabalho de Michelângelo, Donatelo e Cellini, entre outros. O Palácio Pitti, por sua vez, reúne vários museus, entre eles a Galleria Palatina, com obras de Tiziano, Rubens e Rafael.
E isso é o começo, porque Florença guarda muitos tesouros. Ver tudo é impossível, vai ser preciso escolher. Mas o ônibus que parte para Siena aguarda e não pode mais esperar.
Sabores de Siena
Se a Torre de Pisa, ícone da Itália, gera curiosidade, e se conhecer a veia artística de Florença é quase obrigatório, o que amarra de vez o coração do visitante são as delícias que o perfume do vinho chianti e as paisagens bucólicas que as pequenas cidades oferecem.
Notadamente turística, Siena é uma cidade de delícias como o panforte, delicioso doce de frutas cristalizadas e amêndoas, ou as pizzas gigantes, vendidas aos pedaços, recém-saídas do forno.
Um dia em Siena é o suficiente para tomar um grande sorvete na impressionante Piazza del Campo e fazer um passeio pelas ruelas medievais da cidade, conhecendo a catedral (duomo), com bela fachada de mármore em estilo gótico.
A Piazza del Campo, do século 12, é circundada por elegantes palácios. O Palazzo Pubblico, construído em 1289, permanece até hoje como prefeitura de Siena. Do lado esquerdo fica a Torre del Mangia, uma das mais altas da Itália, com 102 metros de altura e 505 degraus a serem escalados em troca de belas vistas da Toscana. Dedique uns minutos de atenção para a Fonte Gaia, mais ao centro da praça, decorada com estátuas de mármore. É nesta praça que ocorre, em julho e agosto, o famoso festival Palio, provavelmente a mais antiga corrida de cavalos do mundo.
A Catedral de Siena é considerada uma das mais espetaculares da Itália. Em seu interior, o chão é desenhado com cenas em mármore e há painéis de Nicola Pisano, feitos entre 1265 e 1268. Muitas estátuas da fachada da catedral foram substituídas por cópias, sendo que as originais encontram-se no museu dell´Opera del Duomo. Outra igreja que merece uma visita é a de San Domenico. Num dos altares está exposta a cabeça da padroeira da cidade, Santa Catarina de Siena, que morreu de derrame em 1380.
Na rota do vinho
Vale a pena ficar uma noite a mais na cidade, curtir a animação em bares e restaurantes e, no dia seguinte, aproveitar um dia de passeio pela região de Chianti. Alcançar as belas estradas e depois as pequenas cidades da região de ônibus é tarefa complexa, já que a região rural não é servida por muitas opções de transporte público. Optando pelo ônibus, em um dia é possível conhecer apenas uma das pequenas cidades do Chianti, pois há poucos horários de partida e poucas linhas que interligam as cidades.
Neste caso, alugar um carro é a melhor solução. As poéticas estradas, bem sinalizadas e com suas belas paisagens, têm apenas um defeito: falta o acostamento para parar o carro e tirar todas as fotos desejadas. Com toda a beleza de ciprestes, oliveiras, vinhedos e diversos roteiros que levam a castelos, não há dúvida de que valeria investir não só um, mas alguns dias para desfrutar da beleza e dos sabores da região.
Tanto Castellina quanto Radda e Gaiole merecem uma visita. Gaiole parece ser a menor delas, mas tem todo o charme especial das casas à beira do pequeno rio que passa pela região. Além do que as vilas e pequenas cidades oferecem, há estradinhas de terra entre os vinhedos que são um tentador convite para se perder pelas belas paisagens. O final da temporada na região do Chianti pode significar a despedida mais difícil da viagem.
As delicias das uvas Sangiovese
Um toque de ervas e sabores agridoces de frutas vermelhas: é assim que entendidos descrevem os tintos italianos. O chianti é provavelmente o vinho mais famoso da Itália e tem como base a uva sangiovese – aproximadamente 75% da bebida é produzida com ela. A variedade de garrafas que se espalham pelas pequenas e grandes lojas de Siena ou por adegas pela Toscana afora é, no mínimo, instigante.
A Toscana produz desde vinhos leves e simples – os chamados vinho da casa – até os mais ricos, que se encaixam entre os melhores produzidos na Europa. Os tintos mais conhecidos da Toscana são o Brunello di Montalcino, Vino Nobile di Montepulciano e o Chianti.
Montalcino, ao sul de Siena, pode ser considerada a região top de linha dos vinhos da Toscana. É de lá que vem o renomado brunello. Tanto ele quanto o rosso de Montalcino trazem uma variação da uva sangiovese, que recebeu o nome de brunello ou sangiovese grosso (graúda).
Mas como escolher um vinho entre tantas garrafas? Algumas informações encontradas nos rótulos são indicadores de qualidade. A sigla DOCG, classificação mais alta na hierarquia das regiões vinícolas italianas, significa Denominazione di Origine Controllata e Garantita. A indicação Chianti Classico aponta a região de origem e o rótulo traz o símbolo do gallo nero (galo negro). A palavra Classico indica a parte central, a melhor de uma região.
Um bom chianti clássico é produzido no belo Castello di Brolio. Outra região de destaque, talvez a melhor sub-região do Chianti após a região Classico, é Rufina, nas proximidades de Florença.
Despedida em Pisa
Saí de Siena e do Chianti com o coração recarregado e, de trem, alcancei o destino final: Pisa. Uma cidade medieval, com a torre mais famosa do mundo e o Rio Arno parece interessante. É, mas não parece tão imperdível, como outras partes da bela Toscana. A torre gera muita curiosidade e é digna disso. Por causa do subsolo arenoso, ela começou a inclinar antes mesmo do final da construção. Ainda assim, a construção continuou até o término, em 1350. Após ter sido fechada por um período, para que engenheiros fizessem intervenções na estrutura, a torre foi reaberta para visitação em dezembro de 2001.
Mas no imponente Campo dei Miracoli, a torre é apenas parte do que merece atenção. A catedral e o Batistério diluem a atenção do visitante pela majestade das construções. A fachada da catedral do século 12 impressiona com os desenhos coloridos. No interior do Batistério chama a atenção o púlpito de mármore de 1260, esculpido por Nicola Pisano.
Além de todas as belezas, os próprios visitantes acabam sendo atração e chamam a atenção de outros por causa das poses curiosas que fazem em frente à torre. A alguns passos do Campo dei Miracoli, vale também visitar a Piazza dei Cavalieri, centro estudantil da cidade.
A viagem acaba com a impressão de que a Toscana parece mais um país, tantos são os destinos que valeriam ainda a pena desbravar. Arezzo, Volterra, Montalcino, Montepulciano, San Gimignano, Livorno... ficarão para uma próxima vez. A primavera dos tons verdes enfeitados pelo colorido das primeiras flores, o verão dos girassóis, o outono das uvas... sempre há um bom motivo para chegar. A Toscana é mesmo deslumbrante.
Cidade do Renascimento
Dizem que Florença teria sido o amor de Michelângelo. Hoje, o inverso é que vale. Há também quem diga que a Itália dos séculos 15 e 16 teria sido a guia do futuro. O homem renascentista, inquieto e movido pela razão, buscava resolver os enigmas do mundo por meio de novos parâmetros. O Renascimento na Toscana coincide com o apogeu de Florença, no governo dos Médici. E é neste contexto de apogeu e oposição à Idade Média que a cidade viveu uma explosão de gênio e talento, com a valorização das artes e o resgate de expressões clássicas antigas como a escultura.
A família Médici ficou no poder em Florença quase que ininterruptamente entre 1434 e 1743. Como uma das famílias mais poderosas da cidade, os Médici foram responsáveis por promover a realização de grandes obras do Renascimento. Tudo isso, que mais parece teoria, transpira nas telas, nas esculturas e na arquitetura da bela Florença. O mais ilustre representante do Renascimento teria sido Michelângelo.
Junto dele, grandes nomes como Botticelli e Rafael estão representados por suas artes pela cidade. Outros destaques: Brunelleschi, na arquitetura, é conhecido pela cúpula de Santa Maria del Fiore; Donatelo, pela escultura do Davi de bronze no museu do Bargello e Masaccio pela pintura dos afrescos da Capela Brancacci, na Igreja Santa Maria del Carmine.
Entre idas e vindas a Florença, Michelângelo (pintor, escultor e arquiteto), manifestava um apreço especial pela cidade. A Galleria dell’Accademia abriga a sua escultura mais famosa: Davi. Na Casa Buonarroti encontram-se retratos, desenhos e outras obras do autor. A pintura Sagrada Família está na Galeria Uffizi e teve importância como fonte de inspiração para pintores maneiristas, sendo considerada, por suas cores e formas, obra precursora dessa escola.
Especialidades da cozinha
Além de todas as delícias que sempre fazem o nome da cozinha italiana, a Toscana oferece especialidades. Uma delas é o queijo pecorino, disponível em muitas variedades e feito com leite de cabra. Outra especialidade é o azeite. As oliveiras espalhadas pela paisagem são a prova. Carnes e vegetais também são fortes na cozinha toscana. O feijão branco é usado em sopas e o molho de coelho ao vinho tinto é popular sobre a pasta.
Ao passar por Siena, não deixe para comprar depois o que pode ser comprado ali. Há massas e doces que não mais serão vistos do mesmo jeito, com a mesma variedade e pelo mesmo preço em outras cidades da Toscana. No centro histórico há lojas grandes e pequenas que vendem os produtos da região.
Massas curiosas feitas com limão e pimenta, manjericão ou azeitonas são espetaculares e merecem ocupar um espacinho na mala. Mas a estrela da cidade talvez seja o panforte, um tipo de torta doce de frutas cristalizadas e amêndoas. Guloseimas como o cantucci, biscoito firme de amêndoas, acompanha com maestria um capuccino. Aliás, a Itália não é feita só de bons vinhos. Aproveite o tempo em um dos atraentes cafés que cruzar o seu caminho para tomar um capuccino. O café com leite por lá é fabuloso e espumante. Também o zuccotto é uma especialidade doce da Toscana, uma espécie de pão-de-ló recheado com chocolate, amêndoas e creme. Mas, e as pizzas? Pizzas gigantes vendidas aos pedaços em minipizzarias, nas ruas de Siena, impressionam o turista. Vale experimentar pela diversão de sair pelas ruelas comendo uma megafatia.
Quando se fala em comer bem, vale uma dica: em cidades menores, como Lucca ou Radda, come-se melhor e por menor preço do que perto dos pontos turísticos das cidades grandes, como aos pés da Torre de Pisa. Outro lembrete importante é que a siesta pode ter um papel decisivo para o seu estômago.
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