Itália é destino que surpreende a cada esquina com sua arquitetura histórica preservada
- Itália é destino que surpreende a cada esquina com sua arquitetura histórica preservada
- Salvação por uma capela
- Muito o que ver nas praças
- Rumo à terra da grappa
- Cerâmica, tradição de Bassano
- Treviso, pitoresca e fashion
- Agradáveis refúgios de Treviso
- Obras de Palladio em Vicenza
- As villas de “campo” de Vicenza
- Romeu e Julieta, os Scaligeri...
- Para o padroeiro de Verona
Salvação por uma capela
Com uma história que remonta a tempos bem longínquos, Pádua, com pouco mais de 200 mil habitantes, é um lugar cheio de atrações que exploram o passado e onde a quantidade de bicicletas chama a atenção – como a cidade é plana, os moradores usam a magrela para trabalhar, transportar pequenas compras e até para passear com o cachorro.
Um dos principais pontos turísticos fica ao norte do centro histórico, a cinco minutos de caminhada da estação ferroviária. Trata-se do conjunto de museus que ocupa construções religiosas do século 14, anexo à Igreja dos Eremitani e ao lado da estupenda Cappella degli Scrovegni, o grande destaque desse complexo por ser a obra-prima de Giotto, que viveu entre 1266 e 1337 e foi o primeiro italiano a ser considerado um mestre das artes.
A pequena e maravilhosa capela, onde se pode notar a dramaticidade e a noção espacial que Giotto imprimia às suas obras, foi encomendada ao artista em 1303 por Enrico Scrovegni, que pretendia “salvar” a alma de seu pai do inferno, já que ele era agiota, uma profissão condenada pela Igreja naqueles tempos. Para demonstrar a devoção da família, o pintor recobriu o interior da construção com belos afrescos retratando diversas passagens da vida de Cristo, além de episódios da vida de Maria e de seus pais, Joaquim e Ana. Giotto também pintou uma das paredes com a sua interpretação para a cena bíblica do juízo final, em que Scrovegni aparece, na parte inferior da pintura, oferecendo uma representação da capela à Virgem como forma de redenção.
Além da força narrativa que as imagens transmitem, outro destaque da capela é o teto todo pintado na cor azul royal, que dá uma grande vivacidade aos afrescos e foi uma inovação e tanto para a época, quando o teto dos templos usualmente tinham tons dourados.
Para preservar as delicadas e antigas pinturas, as visitas diárias são feitas com um número restrito de pessoas por vez, que, antes de entrarem na capela, ficam 15 minutos numa antessala que funciona como câmara de descontaminação, onde também assistem a um vídeo que detalha esse trabalho de Giotto.
O ingresso para a visitação da capela também dá direito a circular pelo Museu Cívico Eremitani, ao lado da capela, que apresenta um vasto acervo de peças remanescentes dos tempos romanos – cerâmicas, esculturas de bronze, mosaicos e até túmulos –, obras renascentistas e pinturas das escolas veneziana e flamenga realizadas entre os séculos 15 e 18. E como Giotto é o grande nome do pedaço, há uma seção dedicada inteiramente a ele, onde está um grandioso crucifixo que pertencia à Cappella degli Scrovegni.
Para finalizar o tour pelo complexo, passe na Igreja Eremitani, erguida a partir de 1276 e que guarda impressionantes túmulos, bem como os afrescos de Mantegna que restaram depois que a igreja foi bombardeada na 2a Guerra Mundial, retratando os martírios de São Cristóvão e São Tiago.
Mas, em Pádua, em termos de igreja, não tem para outra: a mais famosa e certamente a mais visitada é a Basílica de Santo Antônio, que homenageia o pregador português que se inspirou nas ações de São Francisco de Assis e acabou virando um santo com fama de casamenteiro.
Curiosamente, apesar de ter levado uma vida humilde, Santo Antônio ganhou uma basílica portentosa para abrigar seus restos mortais, datada do século 13 e com clara influência da arquitetura bizantina, já que exibe torres tipo minarete e uma série de domos. Na praça da basílica, há uma estátua equestre do soldado Gattamelata, produzida por Donatello e tida como um dos grandes destaques da Renascença italiana.
Por dentro, a igreja não é menos grandiosa, com várias imagens sacras esculpidas por Donatello e um altar-mor com lindos relevos sobre os milagres do santo, mais uma sala de relíquias, que incluem a língua e a arcada dentária que teriam sido dele. Mas o que os fiéis mais querem é tocar e orar junto ao túmulo do santo, perto do qual ficam fotos e cartas de pedido e de agradecimento por graças alcançadas, e receber a bênção de um padre, oferecida ao longo do dia num altar lateral.
Além das fotos tiradas e da identificação por visitar o templo de um santo tão popular e querido pelos brasileiros, o momento pode ficar marcado com a compra de algum souvenir – imagem do santo em diversos tamanhos, ter ço, oratório, velas decoradas... –, à venda numa série de tendas e lojas ao redor da igreja, onde também estão a Scuola del Santo e o Oratorio di San Giorgio. Nesses prédios interligados pode-se vislumbrar uma série de afrescos, entre eles as primeiras pinturas de Ticiano.
Para descansar e ainda se deslumbrar com a arquitetura do entorno pegue a Via Belludi, que começa na própria praça da basílica. Ela leva diretamente ao Prato della Valle, uma ampla e bela praça que, não bastasse uma vista interessante da igreja emoldurada pelas estátuas, conta com fontes e pontes. Tudo ladeado por antigos prédios de diferentes estilos, como um de influência mourisca que abriga departamentos da prefeitura. O cantinho é ideal para um pit stop à sombra de uma árvore e para saborear um lanche rápido antes de retomar as andanças rumo ao centro histórico.
Por lá, antes de se perder pelas ruas estreitas e praças antigas, cumpra a missão de visitar o Duomo de Pádua e seu Batistério. O Duomo, se comparado à Basílica de Santo Antônio, é extremamente simples, mas com seus domos dotados de janelas, vitrais transparentes, mármores claros e uma pintura branca, aparenta uma incrível luminosidade e leveza. Já o Batistério, das paredes ao topo do domo, é inteiramente ornamentado com fantásticos afrescos de Giusto de' Menabuoi, que, com cenas do Antigo e Novo Testamentos, resistem desde 1375.
Muito o que ver nas praças
Com as principais atrações vistas, dê-se ao luxo de andar meio que a esmo pelo pedaço. Não vai ser difícil acabar nas históricas e movimentadas piazze padovanas, como a dei Signori, em que se destaca a torre do Palazzo del Capitanio, que estava sendo restaurada e tem um relógio astronômico de 1344, e outros antigos prédios. Sob as arcadas dessas construções estão lojas, cafés, restaurantes e várias bancas e rotisserias que vendem queijos, frios, garrafas de vinho, patês e outras suculentas especialidades italianas.
Só uns passos mais, é sério, e você estará nas praças della Fruta e delle Erbe, com direito a um mercado e ao grandioso Palazzo della Ragione (Palácio da Razão), o maior salão sem divisões da Europa, com essas incríveis dimensões: 80 metros de comprimento, 27 metros de largura e 27 metros de altura, em que 333 coloridos painéis – pintados de 1420 a 1425 para substituir os afrescos de Giotto, os quais tinham sido destruídos por um incêndio – fazem referência aos meses do ano, representando as atividades de cada estação, os deuses que as regem e os signos do zodíaco. No salão, que além da visitação, recebe apresentações musicais e exposições, fica uma réplica da estátua de Gattamelata, aquela que está na praça da Basílica de Santo Antônio, feita em 1466, exatos 14 anos após a criação da original.
Rumo à terra da grappa
Em Pádua é possivel se hospedar em uma hotelaria com bons preços e cuja posição geográfica permite fazer vários passeios bate-volta por cidades menores que se revelam agradáveis surpresas, siga para Bassano del Grappa. Aos pés do Monte Grappa, Bassano é um dos lugares onde se fabrica a bebida que leva o nome dessa montanha, que vem a ser o digestivo preferido dos italianos.
Mesmo de trem (ou de ônibus, já que em muitos horários a administração ferroviária põe ônibus para fazer o trajeto entre os dois municípios), não é preciso partir muito cedo, pois Bassano é pequena e quase tudo o que tem de ser visto fica nos arredores da Ponte Vecchio (ou degli Alpini), o principal cartão-postal local.
Emoldurada pelo Monte Grappa e ladeada por construções medievais, a ponte que cruza o Rio Brenta, levando ao bairro Borgo Angarano, existe possivelmente desde 1209, tendo sido destruída e reconstruída várias vezes. O atual modelo, apesar de ter sido bombardeado na Segunda Guerra Mundial, segue a estrutura desenhada em 1569 por Andrea Palladio, o arquiteto que deixou sua marca em diversas cidades do Vêneto.
Assim, a ponte é feita de madeira, material mais flexível e apto, portanto, a aguentar a quantidade de água que vaza para o rio na primavera, com o degelo nas encostas do Monte Grappa. Ela também é recoberta com um telhado, suportado por pilastras laterais onde os turistas param para fotos e para curtir o belo visual. Como a grappa, aguardente feita com o que não foi aproveitado para a produção do vinho e que chega a ter 40º de teor alcóolico, é um dos produtos típicos de Bassano, antes de atravessar a ponte é possível experimentá-la em duas grapperie bem tradicionais.
Junto da ponte está a mais antiga delas, a Nardonni, que existe desde 1779 e fabrica diversos tipos da bebida, como a “branca”, a envelhecida por diferentes períodos de tempo e a que leva licor para ficar menos forte, cujas garrafas também podem ser compradas ali.
E no fim da ruazinha que leva à ponte fica a Poli Grappa, misto de museu, centro de degustação e loja dessa produtora que surgiu em 1898. Na parte do museu estão equipamentos de cobre (que parecem os mesmos para destilar a cachaça brasileira), instrumentos e documentos, além de uma sala que exibe um vídeo, em inglês e em italiano, que mostra como o digestivo é feito pela Poli, cuja sede fica em Schiavon, a 12 quilômetros de Bassano, e pode ser visitada.
O espaço também traz painéis explicativos, alguns deles reforçando que não é porque a bebida é feita com as “sobras” da uva que ela é inferior. Assim, descreve o painel, com cem quilos da fruta, 85 quilos viram o mosto que origina o vinho e 15 quilos vão para a grappa. Com essas quantias, fazem-se 111 litros da bebida de Baco e apenas um litro do puríssimo digestivo a 40º.
Abastecido pela bebida local (sem exageros, claro, porque ela realmente é forte), siga pela Ponte Vecchio. Mas, se você é daqueles que gostam de histórias de guerra e de ver armas e uniformes, a caminhada nem vai durar muito. No fim da Vecchio, no subsolo da Taverna Al Ponte, fica o Museu das Tropas Alpinas Italianas, o qual, num espaço pequeno, reúne fotos e uma série de apetrechos relacionados a batalhas que se desenrolaram na região, já que o Monte Grappa serviu de base militar nas guerras mundiais e em outros conflitos – na montanha há até um Memorial Militar, em honra dos milhares de soldados que morreram ali, além do túmulo de um general e a Capela de Nossa Senhora de Monte Grappa.
A não ser por uma ou outra construção interessante, como o Palazzo Bonaguro, e um caminho à beira-rio que propicia um visual muito legal da ponte com o casario e o Monte Grappa ao fundo, no lado de lá da ponte não há muito o que ver.
Cerâmica, tradição de Bassano
Então, reatravesse a Vecchio, voltando para o lado de Bassano onde você inicialmente estava, e procure pelo Palazzo Sturm, onde estão instalados o Museu Remondini, dedicado a essa que foi uma importante e renomada gráfica e criadora tipográfica no século 18, e o Museu da Cerâmica. O espaço conta a história desse artigo que, como a grappa, também é muito associado à cidade, que a produziu principalmente entre os séculos 17 e 18.
A visita é um colírio para os olhos, seja pela arquitetura do palácio do século 18, pelos afrescos que dão um toque todo especial principalmente aos primeiros cômodos da ala dedicada à cerâmica e, claro, pela magnífica e extensa coleção dessas peças. Assim, estão expostos objetos de maiólica (cerâmica vitrificada decorada), de porcelana e outras variações feitas ao longo dos séculos em várias partes do mundo, incluindo as produzidas localmente por fábricas como a Mainardi (que funcionou entre 1669 e 1719) e a Antonibon, que, em seu auge, nos anos de 1730, ficou famosa pelo uso do verde-escuro na cerâmica, combinando-o com azul e amarelo.
Como em Pádua e em outras cidades que você vai conhecer aqui, o centro de Bassano é cheio de pracinhas, que ostetam igrejas e construções cheias de história. Na Piazza Garibaldi, por exemplo, está a Igreja de São Francisco, erguida pelo rei Ezzelino II depois de sua volta da Terra Santa, no século 12 – e, para variar, é lindamente ornamentada.
Do outro lado da praça, impossível passar batido pela Torre Cívica, de 40 metros de altura, na qual há pouco tempo foi autorizada a subida e que descortina um excelente panorama dos arredores, quando se vai notar uma outra torre, parte do antigo Convento de São Francisco. Apesar de manter a igreja e o claustro, o local atualmente abriga o Museu Cívico, onde estão tesouros como uma extensa coleção de pinturas de Jacopo dal Ponte, impressões feitas pela família Remondini, achados arqueológicos e muitos estudos e peças de Antônio Canova, um grande expoente da escultura neoclássica.
Treviso, pitoresca e fashion
Outra cidade que vale a pena conhecer é Treviso, uma pequena cidade (tem pouco mais de 80 mil habitantes) cujo centro histórico, não bastasse ter longos trechos de muralhas, é cortado por canais e pontes, o que lhe rende comparações, em menor escala, obviamente, com a vizinha Veneza.
No Corso del Popolo na rua estreita, a maioria das construções antigas foram transformadas em comércio, principalmente de roupas femininas e com vitrines bem fashion. Não à toa, a United Colors of Benetton, ou simplesmente Benetton, nasceu lá e tem uma megaloja um pouco mais adiante, na Piazza dell’Indipendenza.
Uma outra opção é seguir pela Via Calmaggiore, que sai da Piazza dei Signori e também é tomada de lojas nos arcos dos prédios antigos. A rua leva ao imponente complexo formado pela basílica – em cujo interior fica-se embasbacado com a Anunciação, de Ticiano, e com a Adoração dos Magos, de Il Pordenone, ambas do século 16 –, pelo Batistério e Palácio do Bispo.
Agradáveis refúgios de Treviso
De volta pela mesma Via Calmaggiore, entrando na Via Martiri della Libertà e seguindo até a Via São Leonardo, você poderá acessar dois “esconderijos”: a cênica região de Buranelli e a igreja-museu Santa Caterina. Na primeira, que com seu casario debruçado sobre as águas faz jus às comparações com Veneza, contando até com gansos e rodas d’água em alguns pontos, há uma ilha onde funciona a Pescheria, o secular e tradicional mercado de peixe, que surgiu com a ligação feita entre algumas ilhas do canal Cagnan Grande.
Na igreja-convento-museu Santa Caterina, é curiosa a sensação de paz que acompanha a visita. Pode ser a certa ambiguidade testemunhada nesse templo, que ao mesmo tempo em que tem um aspecto singelo, é esplendorosa ao exibir tesouros como os afrescos da Cappella degli Innocenti (Capela dos Inocentes). E também os executados por Tomaso da Modena no século 14, numa fantástica sequência de pinturas que retratam a vida e o martírio de Santa Úrsula, as quais passaram por um longo restauro antes de voltarem a ser exibidas ao público. E ainda há os aprazíveis claustros com jardins e um ótimo museu, no tamanho ideal para quem já andou um bocado pela cidade, com artefatos arqueológicos e obras de arte de vários períodos.
Obras de Palladio em Vicenza
Uma das cidades mais ricas do Vêneto desde o século 15 fazia parte da República de Veneza, Vicenza tem como chamariz a variada e estupenda arquitetura, em boa parte obra de Andrea Palladio (1508-1580), um homem que começou trabalhando como pedreiro e, em 50 anos de ofício, ganhou o título de mais influente arquiteto de seu tempo.
Uma mostra do estilo grandioso que ele trouxe à cidade pode ser conferido na bela e espaçosa Piazza dei Signori, onde estão construções como a Basílica Palladiana, iniciada em 1549 sobre um prédio do século 12 e do qual restou apenas a torre, de 82 metros, com sino. Com um telhado verde de cobre, uma balaustrada tomada de estátuas de deuses gregos e romanos e duas majestosas fileiras de colunas, o palácio serviu para abrigar, com muita elegância e estilo, a prefeitura. Na porção noroeste da praça, a Loggia del Capitaniato, cujas salas superiores ainda recebem os vereadores locais, também é obra do arquiteto.
Para continuar contemplando o trabalho de Palladio, passeie calmamente pela Contrà Porti e pela rua que leva seu nome, a qual também tem como ponto de interesse a Igreja de Santa Corona. Ela foi erguida em 1261 para guardar um espinho que teria sido retirado da coroa de Cristo e guarda o túmulo de Luigi da Porto, autor do romance Romeu e Julieta, base para que William Shakespeare escrevesse uma de suas mais famosas peças.
As duas vias reúnem imponentes palácios que ele projetou para os ricos de Vicenza, além de uma série de construções góticas venezianas bem graciosas, com sacadas e janelinhas pintadas. Na Contrà Porti, estão (e podem ser visitados) os palazzi Thiene – ele parece de pedra, mas, na realidade, foi feito com um tijolo leve e ordinário, criativamente trabalhado para aparentar ser de pedra – e Barbaran da Porto, considerado Patrimônio Mundial pela Unesco e ricamente decorado.
Barbaran foi a única mansão urbana efetivamente terminada tal e qual o planejado por Palladio, que também aqui bolou ótimas soluções para adaptar o projeto ao que queria seu dono. Uma medida foi fazer o primeiro piso com quatro colunas maciças na fachada, que não só ajudavam a suportar o andar superior como resolviam o problema de simetria na casa. Outras obras dele nessa rua são o Palazzo Isoppo da Porto, inacabado, e o Palazzo Valmarana, considerado uma de suas mais excêntricas criações.
Volte ao Corso Andrea Palladio – o que é fácil porque a Contrà Porti cruza essa rua – para visitar outro projeto incrível do mestre, o Teatro Olímpico. Executado por seu discípulo Vincenzo Scamozzi (Palladio morreu pouco depois do início das obras, em 1580) e inaugurado em 3 de março de 1585 com a apresentação de Édipo-Rei, trata-se do teatro fechado mais antigo da Europa.
Se o pátio, um jardim com esculturas que remontam ao período da abertura do espaço, já é um arraso, espere até entrar nesse templo das artes, que ainda hoje recebe apresentações de ópera e de teatro.
Assim, o arquiteto planejou um recinto que lembrasse os teatros e arenas ao ar livre que haviam existido na Grécia e em Roma, dotado de um teto pintado de azul e com nuvens, para remeter ao céu, e com uma arquibancada em semicírculo. Já o cenário foi concebido por Scamozzi, que, levando em conta que uma tragédia grega marcaria a estreia da casa, ali fez uma representação da cidade grega de Tebas, com as “ruas” pintadas em perspectiva para dar a ilusão de profundidade.
Uma visita que, se é bacana hoje em dia, imagine para os espectadores daquela época – e que pode levar a mais um trabalho de Palladio, bem em frente ao teatro: o Palazzo Chiericatti, onde funciona o Museu Cívico de Vicenza. Além de quadros dos Tiepolo, Veronese e de artistas locais como Bartolomeo Montagna, deve-se abrir os olhos para admirar o grande e colorido afresco que recobre o teto do saguão de entrada da mansão, o qual traz um homem nu iluminado pelo sol e cercado por figuras, nos quatro lados do teto, que remetem aos signos do horóscopo.
As villas de “campo” de Vicenza
Para quem ainda tem fôlego para mais Palladio, vale pegar, na Via Roma, a linha 8 de ônibus e conferir que não foi só a área urbana que o grande arquiteto embelezou. O ônibus deixa os turistas a cinco minutos a pé da Villa Almerico Capra, mais conhecida como La Rotonda.
A casa de campo, construída entre 1550 e 1552, é o projeto mais famoso e copiado de Palladio, que não viveu a tempo de saber que réplicas de sua imponente villa foram erguidas em lugares tão diferentes como Londres (Inglaterra), Nova Délhi (Índia) e São Peterburgo (Rússia). O motivo de tanta admiração? A harmonia do projeto, em que os quatro lados da construção quadrada, cada qual adornado por uma sequência de colunas, lembrando a estrutura de um templo grego, são exatamente iguais, envoltos por um telhado de terracota sobre o qual está um domo.
Dessa graciosa casa – que tem a parte externa e os jardins abertos à visitação de terça a domingo, enquanto seu interior pode ser conhecido às quartas-feiras, uma curta trilha a pé leva a outra esplendorosa villa, a Valmarana Ai Nani, projetada em 1688 por Antônio Muttoni.
Nani significa anões, que, no muro da construção, existem em forma de estátuas de pedra. Quem pagar o ingresso tem acesso às duas partes internas do complexo, a villa propriamente, que guarda afrescos de Tiepolo representando os deuses do Monte Olimpo assistindo a cenas que se passam nos épicos dos gregos Homero e Virgílio, e a Foresteria, que funcionava como casa de hóspedes. Nela, também há pinturas, feitas por Giandomenico, filho de Tiepolo, que se inspirou na vida camponesa e nas estações do ano para compor suas obras.
Romeu e Julieta, os Scaligeri...
De Vicenza, nada mais natural do que seguir para Verona, uma das cidades mais bonitas desse roteiro pelo Vêneto e, prepare os pés, com uma infinidade de coisas para ver. Há vários vestígios romanos, o castelo de uma poderosa família que governou a cidade nos séculos 13 e 14, muitas igrejas imponentes, praças tomadas de turistas e até uma casa ambientada como se fosse a morada da personagem Julieta, da peça shakesperiana Romeu e Julieta, além de outros espaços fictícios relacionados a essa famosa história de amor sem final feliz.
Com atrações tão diversas e ainda espalhadas por vários pontos, é uma boa ideia reservar ao menos dois dias para visitar as atrações de Verona sem tanta correria – e munido do Verona Card, que, comprado nas tabacarias e válido por um ou três dias, garante entrada nos principais pontos turísticos, como a Arena, na Piazza Brà, normalmente onde todo mundo começa seu passeio. Trata-se do “Coliseu” local – em tamanho, ele só perde para esse colega romano e para o anfiteatro de Santa Maria Capua Vetere, na região de Nápoles –, que, finalizado em 30 d.C., era o palco para os então adorados combates entre gladiadores.
Com o passar do tempo, a vocação da preservadíssima Arena foi mudando, tendo recebido execuções, touradas e, desde 1913, grazie a dio, sempre entre junho e agosto, um famoso Festival de Ópera, que teve apresentações de Carmen, Aida, Turandot, O Barbeiro de Sevilha e Tosca, além da participação do tenor Placido Domingo, na edição que acaba de ser encerrada.
Da Arena, minha sugestão é seguir para o Castelvecchio e, de lá, para as atrações mais afastadas, voltando ao buchicho do centro histórico só no finzinho da tarde, quando as praças e ruas estão um pouco mais calmas.
O grande Castelvecchio, às margens do Rio Adige, foi erguido entre 1355 e 1375 por Cangrande II, membro da família Della Scala, também conhecida como Scaligeri, que em 1263 começou a governar Verona e trouxe paz a uma cidade até então refém de rivalidades entre famílias poderosas, exatamente como se passa na história de Romeu e Julieta.
Hoje, seus cômodos com pé direito alto abrigam um museu de arte e de artefatos que vão dos período romano e do começo do cristianismo à Idade Média, compreendendo peças de prata, sarcófagos de mármore, espadas, armaduras, joias e quadros assinados por artistas como Giovanni Bellini, Carpaccio, Veronese e Tiepolo, entre outros. A Ponte Scaligero, que liga o castelo ao outro lado do rio, também é herança daquela época de “paz vigiada”, quando fazia parte do sistema de defesa de Castelvecchio. Bom que os tempos são outros e todos que passam por ali só querem ter vistas legais do Adige e das construções de muitos séculos atrás ao longo do rio.
Para o padroeiro de Verona
Uma caminhada de 15 minutos, primeiramente à beira-rio e depois por umas ruazinhas que contam com placas indicativas, leva àquela que talvez seja a mais exuberante igreja românica do norte da Itália, a San Zeno Maggiore. Eregida no século 12 para ser o templo de San Zeno, padroeiro de Verona, o santuário tem tantos detalhes que, se o turista está sem um guia ou não pega o folheto ali distribuído, perde um monte de detalhes incríveis.
A começar pelo tom listrado da fachada, que, típico das construções românicas da cidade, é obtido com a alternância de fileiras de tijolo rosa com calcário de cor marfim. Já a rosácea (vitral na fachada) simboliza a Roda da Fortuna, ou seja, a sorte ou a falta dela na vida dos homens, enquanto um pórtico, datado de 1138, protege as cenas bíblicas registradas acima do portão de madeira.
Por dentro, a suntuosidade continua. O teto da nave, todo dourado, tem a forma de quilha de navio (parece o interior de um navio virado), nave essa que guarda a peça de altar Virgem e Menino com Santos, uma linda obra de Andrea Mantegna. A igreja ainda ganha um “andar” para baixo – onde fica a cripta com arcos abobados que abriga o túmulo com os restos mortais de San Zeno, morto em 380 d.C. –, mais o interessante claustro, que de um lado tem arcoa românicos arredondados e, do outro, arcos góticos ogivais.
Agora, prepare-se para um percurso razoavelmente longo até o Teatro Romano/ Museu Arqueológico, quando se deve atravessar, em qualquer ponte, para o outro lado do Rio Adige. No caminho, dá para fazer um pit stop no também belo Duomo, onde se pode vislumbrar ruínas de igrejas que ali existiram no início da era cristã e o batistério do século 8o, com uma enorme pia batismal de mármore toda esculpida com passagens da vida de Cristo.
Do século 1o a.C., o teatro ao ar livre, cuja arquibancada em formato de semicírculo é o que está mais conservado na estrutura, segue sua vocação para espetáculos, sobretudo no verão. Atrás dele há um rochedo, sobre o qual foi construído um convento, hoje transformado em museu arqueológico, que propicia uma vista suspirante de Verona, especialmente ao pôr-do-sol. O acesso até lá é por um elevador que atravessa a própria rocha, levando a um acervo de peças romanas e gregas que incluem mosaicos quase completos, várias estátuas e bustos, lápides, pequenas esculturas de bronze, cerâmicas e uma coleção de moedas de prata, que homenageiam vários imperadores romanos.
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