Ao norte de Madagascar, um arquipélago de ilhas que encanta todos os visitantes
Uma tartaruga de porcelana, dessas que lembram brindes de parque de diversão, funciona como peso de papel sobre meus cadernos de notas. Chama-se Esmeralda e foi uma lembrança que ganhei do governo das ilhas Seychelles quando estive lá pela primeira vez. Esmeralda é o simbolo nacional desse arquipélago de 115 ilhas no Oceano Índico, um pouco ao norte de Madagascar, um pouco a leste da África, no bom caminho para a Índia.
Segundo a lenda, é a mais velha tartaruga do mundo, com presumíveis 215 anos de idade. Consta que, em 1808 — o ano em que D.João VI chegou ao Brasil —, o velho quelônio estava a bordo de um navio pirata — a região era infestada de corsários —, chamado Hirondelle, que naufragou ao lado de Bird Island, hoje ocupada por um resort de luxo. Salvou-se, porque estava destinada a virar sopa dos marujos.
Conheci Esmeralda, imensa, 298 quilos de placidez, movendo-se com a lentidão esperada na bela ilha de mar verde e cristalino, como são as que ficam no Oceano Índico. Seychelles, alguém deve se lembrar, ficou conhecida no Brasil porque foi ali que o ex-presidente Collor decidiu passar sua lua-de-mel com Rosane. Tem bom gosto o ex-amigo de PC Faria.
A capital, Victoria, fica na ilha de Mahé, que é a maior do arquipélago, mas, por excesso de urbanização, não é tão bonita quanto as demais. Há uma refinaria que estraga a paisagem próxima da capital. Lembro-me que, como acontece tantas vezes, minha mala não teve o prazer de conhecer o arquipélago. Pude apenas comprar uma bermuda e uma camiseta a preços extorsivos no pequeno e caríssimo comércio local — onde tudo vem de muito longe e sempre há turistas com sobras de numerário. As ilhas são espetaculares. Praslin, que fica muito perto, tem o Valée de Mai, uma floresta que produz um coco de formato sensual a partir do qual se faz um licor doce chamado Coco D’Amour. Dizem que é afrodisíaco. Pelo sim, pelo não, o fato é que todo mundo compra.
La Digue é a ilha mais primitiva e mais bela. Ali, trilhas para ciclistas, pedestres e charreteiros conduzem a preciosidades como Source D’Argent, uma praia de areias brancas enfeitada por pedras que parecem estranhamente entalhadas à mão, produzindo um resultado a la Gaudí.
Cada vez que olho para minha Esmeralda de porcelana, volto imediatamente a esse lugar encantado, onde se fala francês, uma variedade de papiamento e come-se comida créole, como no Caribe e em New Orleans. Lembro-me que fiz uma visita à diminuta Ilha Moyenne, onde vive (será que vive ainda?) o jornalista inglês Brendon Grimshaw. Há anos, Brendon cavoca a ilha diligentemente em busca de um tesouro pirata de 50 milhões de dólares. Tem mapas e referências. Não sei porque, mas ficou-me a impressão de que quando Esmeralda apagar 400 velinhas, o tesouro dos piratas não terá aparecido. Ou alguém, mais esperto, entenderá que o verdadeiro legado dos bucaneiros é o próprio arquipélago em que eles se escondiam.
O Olhar do Hipopótamo
Pedido de permissão
Permitam-me utilizar este espaço para fazer alguma publicidade pessoal. É possível que vocês já tenham lido sobre o tema na última edição de Viaje Mais, mas é com prazer que lhes anuncio o lançamento, pela Editora Europa, de meu mais recente livro O Olhar do Hipopótamo. O título é, na verdade, o nome de uma das dezenove aventuras que viví ao longo de minhas jornadas pelos cinco continentes. Nesse caso, refere-se a um hipopótamo específico, habitante do delta do Okavango, em Botswana. Diante de seu olhar hostil, a bordo de uma embarcação muito frágil, passei momentos de tensão, até que… bem, o resto você fica sabendo na página 92, das 258 que compõem o volume.
Apuros
Esse é apenas um dos apuros pelos quais você vai passar lendo O Olhar do Hipopótamo. Entre um relato e outro, será colocado de férias dentro de um freezer, despencará de um balão entre as feras de uma savana na fronteira do Quênia com a Tanzânia, terá de dormir uma noite inteira sobre uma pedra de gelo dentro de um quarto a cinco graus abaixo de zero etc.
Compensações
Em compensação, vou colocá-lo a bordo de uma Mercedes conversível percorrendo o litoral do Mediterrâneo da Espanha à Itália; vou convidá-lo para experimentar a sensação de navegar no maior veleiro do mundo (não apenas da atualidade, mas de todos os tempos) e terei a oportunidade de embarcá-lo, também, no transatlântico mais chique do planeta, dentro do qual até os elevadores falam alemão.
O grande Amyr
O Olhar do Hipopótamo tem prefácio de Amyr Klink, que dispensa apresentações. O célebre aventureiro e navegador foi generoso em seus comentários sobre o livro. Deixou a impressão (muito honrosa) de que o grande viajante sou eu — e não ele, que todos conhecem. Aproveito o espaço para agradecer ao autor de Cem dias entre o céu e o mar, admitindo, humildemente, ao homem que atravessou o Atlântico em um barco a remo, que eu seria incapaz de igualar seu feito. Nem mesmo na Lagoa Rodrigo de Freitas ou na Represa do Guarapiranga.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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