Descubra os recantos das excêntricas ilhas de Malta emoldurados por sua bela arquitetura barroca
Malta é um país realmente singular. Formado por três pequenas ilhas (Malta, Gozo e Comino), tem apenas 316 km2 de área territorial, não possui rios nem montanhas – o curso de água mais caudaloso é um ribeirão com um metro de largura e pouco mais de meio metro de profundidade, muito pouco para abastecer a demanda crescente de uma população de quase 400 mil habitantes. Quase toda a água consumida no país vem de três plantas de dessalinização de água do mar, um processo caro e que demanda grandes quantidades de energia elétrica – que por sua vez é 100% obtida a partir da queima de petróleo, o que encarece tanto a água como a eletricidade e aumenta a dependência energética.
Apenas 20% dos bens de consumo são produzidos no país, o restante é importado. Com pouquíssimas fábricas, a maioria de produtos de alta tecnologia onde trabalham muitos estrangeiros, Malta se orgulha de ter no turismo a mais forte bandeira. Rodeada por águas de um azul turquesa que remetem a visuais do Caribe, o lugar é visitada o ano todo por enxames de turistas (principalmente italianos), ávidos por um oásis de tropicalidade em plena Europa. E dá-lhe tropical: de junho a agosto, no verão, as temperaturas ultrapassam facilmente os 38º C, sufocante para padrões europeus. Mesmo no inverno, de dezembro a fevereiro, o frio é ameno, devido à posição geográfica: a 100 km da Sicília, no extremo sul da Itália e a pouco mais de 300 km da Tunísia, no norte da África.
Habitada desde o longínquo ano de 5200 a.C. e com achados arqueológicos datados de 3800 a.C., Malta foi disputada por fenícios, cartagineses, romanos, árabes e normandos, mas tem história dividida em três períodos principais: o da ocupação árabe, entre 870 e 1090; o da Ordem dos Cavaleiros de São João, que recebeu a ilha dos espanhóis em 1530 depois de expulsa da Ilha de Rodes pelos otomanos; e o da ocupação britânica, iniciada em 1801 e encerrada com a independência do país, em 1964.
Caráter multicultural
Foram as sucessivas invasões que moldaram o caráter multicultural de Malta. É nítida em toda parte a forte influência árabe, assim como a italiana, esta por sua vez presente na comida, no modo de vida e na arquitetura. Os clássicos varais de roupas na varanda, tão comuns em Nápoles e outras regiões da Itália, são uma cena característica nas vielas estreitas de Valetta, onde moradores disputam concursos de embelezamento em cada viela, recobrindo a frente das casas com arbustos, vasos e arranjos elaborados, amenizando a aridez monocromática do amarelo onipresente. E muitas casas possuem varandas de madeira e vidro que se projetam acima das calçadas, lembrando um tempo onde era proibido às mulheres sair às ruas, quando estes terraços funcionavam como um observatório para aplacar o tédio feminino.
A rocha calcária, que em outras eras geológicas era submersa por um oceano de nível mais elevado, é o principal elemento das construções e cor predominante da paisagem urbana. Ao ser extraído o calcário é branco. Mas, com o passar do tempo, o sol vai amarelando-o e, nesse processo, a rocha adquire varias nuances, predominando a tonalidade creme. Parte dessas rochas abriga conchas pré-históricas e fósseis marinhos delicadamente preservados.
A rocha branco-amarelada, aliada a posição geográfica de Malta, com privilegiada e duradoura luminosidade, faz com que o arquipélago seja palco frequente de megaproduções hollywoodianas. Filmes como Gladiador, Conde de Monte Cristo e Tróia foram rodados lá, e centenas de produções mais modestas continuam aportando às ilhas.
Ainda em Gozo, visitei um peculiar vilarejo de casinhas de madeira coloridas em em uma tranquila enseada. À volta, penhascos emolduram um litoral recortado e marcado por baías e enseadas de águas tranqüilas. Por toda parte, vão e vêm embarcações lotadas de visitantes extasiados com o calor, a cor e a temperatura das águas. Defronte à vila de Gozo, ao lado da pequena praia, belíssimos e enormes arcos de calcário destacam-se do azul intenso do mar.
A língua maltesa é falada apenas no arquipélago. Origina-se principalmente de dialetos árabes da Tunísia, vizinho africano mais próximo, mas possui influências do italiano e do inglês. É o único idioma arábico a utilizar o alfabeto latino. Uma mistura surpreendente e incompreensível para brasileiros. O povo maltês é cordial e anfitrião e gosta de discorrer sobre as belezas do país.
Barroco europeu
Em Valetta as vielas estreitas são pontilhadas de bares, restaurantes de comida siciliana e frutos do mar, sempre repletos de turistas. À noite, a cidade adquire outro visual. Quase inteiramente cercada por muralhas e fortificações, luzes estrategicamente posicionadas, são acesas e valorizam sobremaneira o aspecto cênico. Além disso, Valetta é considerada um dos expoentes do barroco europeu, com centenas de estátuas, esculturas e monumentos a céu aberto.
De manhã, vale ir até a vila pesqueira de Marsaxlokk (pronuncia-se mársach lóc), a poucos quilômetros de Valetta, cuja baía repleta de barquinhos, emoldurada pelas construções barrocas da “avenida” da praia compõe um visual vibrante e colorido.
Ainda em Marsaxlokk, perambule pelas barracas de artesanato que oferecem, dentre um mundaréu de quinquilharias e inutilidades domésticas, belos bordados malteses, doces típicos e garrafas de bajtra.
Se você aprecia algo mais sofisticado, vá jantar no restaurante do Hotel Meridién, na movimentadíssima Balutta Bay (baía de Balutta), a cerca de 25 km de Valetta. Outra boa pedida é caminhar pelas vielas e fortificações do lado oposto da baía, nas cidades fortificadas. De lá apreciei o visual do Upper Barakka Gardens, jardim público erigido em 1661, do qual se tem uma visão privilegiada do Grand Harbour e das três cidades fortificadas por onde andei – Vitoriosa (Bírgu, para os malteses), Cospicua e Senglea.
Cidade silenciosa
Outro roteiro é Mdina, a “cidade silenciosa”, perdida no tempo, com becos e vielas tranquilas, igrejas e casarios antigos. Fica a 21 km de La Valleta e é muito fácil chegar lá, seja de carro, táxi ou ônibus.
Um terremoto em 1663 destruiu importantes construções medievais, sicilianas e normandas, mas muita coisa foi restaurada e a cidade parece um mundo de outros tempos. Há algumas vidrarias de estilo Murano que produzem maravilhas artesanais de vidro, em estilo autenticamente maltês e preços salgados.
Vale ainda uma visita aos penhascos de calcário de onde se tem a visão da impressionante Blue Grotto, ou Gruta Azul, gigantesca formação calcária a beira mar. Mais interessante do que a visão superior dessa obra de arte geológica é um passeio de barco no interior da gruta, que tem um arco natural, teto em abóboda e iluminação suavemente refletida pela areia branca no fundo de águas rasas e cristalinas.
Por fim, não se esqueça de trazer para casa uma garrafa de bajtra para brindar em maltês: “sahhiet!” (sarrít, saúde!).
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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