São Luís encanta turistas com paisagens cheias de lagoas, cachoeiras e praias
A natureza no Maranhão encanta e atrai cada vez mais turistas. A começar pelas areias douradas permeadas por lagoas cor de esmeralda dos Lençóis, passando pelos meandros do Delta do Parnaíba ou ainda pelas cachoeiras e trilhas da Chapada das Mesas. O que todas essas atrações têm em comum para quem vai conhecer a região é justamente o ponto de partida, a capital São Luís.
A cidade também tem seu charme, e o principal: uma história emocionante. Foi fundada pelos franceses, tomada pelos portugueses, dominada pelos holandeses e reconquistada pelos portugueses. E merece uma visita com olhar mais atento, que revele seus mistérios.
São ruas que exalam história. O centro antigo abriga o maior número de casas coloniais portuguesas no Brasil – mais de 3.500 casarões e sobrados que datam dos séculos 18 e 19, muitos deles com fachadas de azulejos portugueses e franceses, principalmente nos bairros da Praia Grande e Desterro.
O conjunto arquitetônico, que pemitiu que a cidade recebesse o título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco em 1997, vem sendo restaurado pelo Projeto Renascer e abriga museus, bares, lojas de artesanato... Perder-se a pé por seus becos, ladeiras, escadarias e ruas é uma viagem ao passado que pode levar apenas um dia e terminar numa noite animada, ao som de reggae nas mesinhas na calçada dos bares da Praia Grande.
Homenagem ao Rei-menino
O passeio pelo centro histórico pode começar pela curta e arborizada Avenida Pedro II, onde fica o Palácio dos Leões, que hoje é a residência oficial do governador do Estado. Foi exatamente lá, na ilha chamada pelos índios de Upaon-Açu (ilha grande) que a comitiva do francês Daniel De La Touche, o senhor de La Ravardière, aportou para, em 8 de setembro de 1612, dar início à construção do Forte Saint Louis – fundando, assim, a cidade de São Luís, batizada em homenagem ao futuro rei da França, Luís XIII, então um menino sob a tutela de Maria de Médicis.
A tentativa de estabelecer a colônia da França Equinocial no atual Maranhão não foi uma aventura. Já havia na ilha uma feitoria fundada por Jacques Riffault em 1594 e administrada por Charles dês Vaux, que mantinha boas relações com os indígenas e acabou facilitando muito o trabalho de La Touche. Pouco tempo depois já havia, além das atividades de extração de pau-brasil, culturas de algodão e fumo, entre outras atividades.
O Palácio dos Leões é, portanto, o marco da fundação da cidade. Construído pelos portugueses sobre o forte Saint Louis no final do século 18 e reformado inúmeras vezes, guarda apenas dois baluartes da antiga fortificação. Seus cinco salões sociais abrigam um acervo composto de peças de mobiliário trazidas da Europa, além de uma bela coleção de telas e gravuras e pode ser visitado, com direito a guia, às segundas, quartas e sextas, das 14h às 17h30.
A santa de Guaxenduba
O sonho da colônia da França Equinocial não durou muito. A notícia do sucesso dos franceses alvoroçou a corte portuguesa, e logo um destacamento de tropas, chefiada por Jerônimo de Albuquerque, foi enviado para Guaxenduba, nome das terras que ficavam em frente à ilha de São Luís, próximo à foz do rio Munim.
Albuquerque ergueu no local o Forte de Santa Maria em outubro de 1613, mas logo enfrentou o cerco dos franceses. Mesmo surpreendidas por tropas mais numerosas e que ainda contavam com o apoio de mais de 2.000 nativos, as forças de Albuquerque venceram. A vitória surpreendente na chamada Batalha de Guaxenduba foi atribuída à Nossa Senhora, que teria aparecido para transformar areia em pólvora e seixos em projéteis para ajudar os portugueses.
Para homenagear a santa milagrosa, os portugueses ergueram a Igreja da Sé Nossa Senhora da Vitória, em 1629. Ela fica a poucos passos do Palácio dos Leões, seguindo pela mesma Avenida Pedro II. A Sé foi reconstruída várias vezes até 1922, quando assumiu o estilo neoclássico. No interior, o destaque fica para o altar, todo trabalhado em ouro e que resiste até hoje.
Água para as tropas
Após alguns armistícios e negociações entre as coroas francesa e portuguesa, sempre em vão, Albuquerque recebe reforços e a ordem de invadir a ilha e conquistar o forte. E, novamente, o caminho pelas vielas de São Luís revela mais pedaços de sua história. A Fonte das Pedras, na Rua Antônio Rayol, ladeada pela Rua da Inveja, no Desterro, é a nascente onde os portugueses acamparam antes do assalto final ao Forte. Hoje, suas carrancas jorram água pelas bicas de bronze numa praça arborizada e aprazível.
Os franceses são definitivamente expulsos do Maranhão em 1615. A trégua, no entanto, não dura muito. Em novembro de 1641 foi a vez dos holandeses invadirem São Luís. Por ordem de Maurício de Nassau, que já dominara Pernambuco, o almirante Jon Lichthardt e o coronel Koin Anderson chegam com 18 navios e cerca de 2.000 homens. Os invasores profanaram a Igreja do Desterro e saquearam a cidade, lá permanecendo por pouco mais de 2 anos. A Fonte das Pedras também serviu de base de apoio e suprimento de água aos invasores.
Há ainda outra fonte no centro histórico de São Luís, a Fonte do Ribeirão, entre a Rua das Barrocas e a Rua dos Afogados, no Largo do Ribeirão. A construção em alvenaria abriga uma malha de galerias subterrâneas que, acredita-se, eram usadas pelos padres jesuítas como meio de comunicação entre as várias igrejas da cidade.
Reconquista
A presença holandesa em São Luís foi breve, mas suficiente para que toda a cidade fosse destruída e saqueada. Os portugueses resolvem, então, retomar o que sobrara da devassa. Sob o comando dos capitães-mor Antônio Munis Barreiros Filho e Antônio Teixeira de Melo, as tropas conseguem invadir a ilha e, na Batalha do Outeiro, em novembro de 1642, obtêm uma retumbante vitória, conseguindo se estabelecer no Convento do Carmo, no atual Largo do Carmo. A igreja fica exatamente entre a Fonte das Pedras e a Sé Nossa Senhora da Vitória, e é outro dos pontos obrigatórios do passeio.
Muniz Barreiros morre em conseqüência de ferimentos do combate, mas Teixeira de Melo consegue, finalmente, retomar o Forte de São Luís. Os holandeses são definitivamente expulsos no ano de 1644. Além de marcos importantes na história da colonização do Estado, o centro histórico de São Luís revela muitos outros pontos de interesse. A rua Portugal, por exemplo, abriga o maior conjunto de sobrados azulejados – num deles fica o Museu de Artes Visuais, com um acervo interessante de obras de artistas maranhenses, além de imagens de manifestações da cultura popular, como o boi-bumbá, tambor de crioula e outras.
A Rua Portugal é o local perfeito para o fim do passeio. Seguindo ao lado das fachadas azulejadas, com as costas para o pôr-do-sol na Baía de São Marcos, chega-se ao Largo do Comércio, onde as mesinhas dos bares já estarão na rua, como que à sua espera. É o convite para relaxar e curtir os encantos de uma cidade que tem muita história para contar.
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