Além de exótico, o Marrocos tem cidades imperiais e ruínas romanas

Dec 31, 1969
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Encontros mais que exóticos

Encantadores de serpente na medina de MarrakeshMarrocos remete ao imaginário de lugar exótico, quase mítico, repleto de cores ensolaradas, raras especiarias, cobras venenosas passeando pelo pescoço de árabes corajosos, mulheres de véus esvoaçantes, palácios misteriosos, camelos, desertos, dançarinas sensuais... Na chegada ao país das tapeçarias, dos majestosos jardins, do couscous e do tajine a recepção é feita pelo sufocante assédio de pseudoguias suados e mau-encarados. Tipos que não largam do pé dos visitantes.

Em Tanger a rodoviária é precária e é normal atrasos de quase três horas nas partidas. No café do terminal, desprovido de qualquer glamour o açúcar é farto como o sol, o chá de especiarias e hortelã é tomado sem parcimônia ao longo de todo o dia.

Na falta de álcool (proibido aos muçulmanos), o chá ganha a divertida alcunha de “uísque marroquino”. É possível encontrar cerveja, mas para viajantes latinos, a prosaica bebida é tão cara que é considerada luxo. 

Depois de uma viagem de três horas de ônibus é possível vislumbrar os muros de Chefchaouen e a entrada para a medina local. Sempre cercadas por muros brancos, cor-de-terra ou amarelados, as medinas são as antigas cidadelas medievais, formadas por passagens labirínticas, casinhas coladas umas às outras e dezenas de lojas apinhadas de mercadorias comandadas por vendedores insistentes. Seu propósito original era oferecer um local seguro para negociar, morar e rezar. Ainda hoje, grande parte delas é ocupada pelos souqs – mercados onde se vende de jóias a babouches, de tapetes a espadas, de espelhos a luminárias –, mas também abrigam hospedarias sem frescura e simpáticos bistrôs. Ao redor das medinas ficam as cidades modernas, com infraestrutura, grandes edifícios, avenidas e serviços como em todo grande centro.

Aninhada nas montanhas do Rif, Chefchaouen é pequena, aconchegante e encantadora. Oferece bistrôs charmosos, romanticamente iluminados, comida de primeira e uma atmosfera tranqüila. Foi fundada em 1471 por mouros e judeus exilados da Andaluzia, da qual herdou as raízes arquitetônicas e uma desconcertante coloração azulada. Séculos mais tarde, a população local continua não economizando na tinta e faz de Chaouen, como os marroquinos a chamam, um sonho azul. Um azul mágico e fresco que pinta portas, janelas, muros, paredes, chão e céu. Delícia caminhar pelas ruelas estreitas cercadas de muros e casas que parecem moldadas à mão, e tomar sol na praça Uta El Hammam, que abriga uma fonte e é entrada de uma kasbah. No norte da África, o termo designa cidadela ou construção fortificada. Nesse vilarejo, a kasbah virou um pequeno museu de instrumentos musicais, armas e fotografias antigas. A construção data do século 18 e é relativamente simples, mas os jardins conferem um tom grandioso ao lugar.

A fartura de oliveiras no Marrocos abastece os souqs com azeitonas nos mais diversos tamanhos, cores e sabores; e azeites claros, escuros, encorpados, suaves, temperados com ervas, pimentas e outras especiarias. Os frutos dessa árvore, somados a castanhas, amêndoas, laranjas e queijos caseiros, garantem um piquenique nas montanhas do Rif. Nos arredores a paisagem é um rio de água pura e poucas casas cor de terra, típicas de pastores berberes.

Berberes são os habitantes ancestrais do norte africano, e sua presença remonta ao menos dez mil anos: antecederam a chegada dos fenícios, dos romanos e dos bizantinos. O termo berbere vem de “bárbaro”, coisa de gregos e romanos que assim se referiam às outras civilizações. Mas eles se autodenominam imazighen (homens livres) e se orgulham das raízes guerreiras: até recentemente, nas montanhas do Rif, uma das maiores ofensas era dizer “seu pai morreu na cama”. No século VI, a maioria das tribos se converteu ao Islã e adotou o idioma árabe. Os que permaneceram isolados, principalmente nas montanhas e nos desertos, conservaram tradições que, desde 2001, tendem a ser preservadas: o rei Mohammed 6º autorizou o ensino do idioma berbere e criou um instituto para difundir essa cultura.

Cidades imperiais e ruínas romanas

Uma das 9.500 vielas da medina de FezFès, a cidade fundada em 789 com um alto muro, deixa antever a formidável Medina com um enorme labirinto com 9.500 vielas. As iguarias da região são legumes no vapor, e a diferença entre tajine e coucous é básica: ambos são ensopados, mas o segundo leva grãos de sêmola. As opções de sabores nos dois pratos são sempre as mesmas em todos os restaurantes de todas as cidades: carneiro, frango, carne ou legumes. 

A medina de Fès tem tantas atrações quanto tem falsos guias. Ali a malandragem é a moeda mais valorizada do mercado e ser brasileiro não traz nenhuma vantagem.  Para escapar do assédio agressivo dos marmanjos, é indicado contratar o serviço de um adolescente cadastrado, que leva os visitantes por vielas cheias de gente e mulas carregadas de mercadorias. A céu aberto, em valas repletas de tintas coloridas, o couro recém-arrancado dos bois é curtido e tingido como nos tempos imemoriais. Vale a pena testemunhar o passo-a-passo da milenar produção artesanal de babouches, pufes, bolsas e outros artigos de couro.

Todas as pessoas lavam os pés antes de entrar no santuário. Mesmo sem poder participar de rituais religiosos, em qualquer cidade do país é impossível não ouvir os chamados melodiosos, cantados do alto de dezenas de minaretes, anunciando o horário de uma das cinco orações diárias obrigatórias para todo muçulmano. Minarete é uma espécie de torre das mesquitas, normalmente encimadas por uma cúpula com janelas e um alto-falante que transmite os chamados que, antigamente, eram cantados por fiéis.

Em Meknès

Mausoléu da família real na cidade imperial de Meknès.Meknès é uma cidade rodeada por uma muralha de 40 km de ameias e torres. Com dez séculos de história, a cidade imperial passou por fases de apogeu, marcadas por construções de jardins, fontes e palácios. Depois, veio o declínio, ao perder a importância política e administrativa. O momento glorioso se deu no fim do século 17, sob o reinado do sultão Alaouite Moulay Ismaïl: quando se tornou capital do país e vestiu-se de um urbanismo legendário de estilo hispano-mourisco, com paisagismo à la Versaille. Contemporâneo de Luis XIV, Moulay Ismaïl se inspirou em seus famosos jardins...

O ponto alto da viagem arquitetônica de Meknès fica na cidade imperial, espaço ainda mais amplo que a medina e por ela ligada por portas monumentais na praça El Hedime. O portal principal, Bab el-Mansour, perfeitamente preservado, tem quase 300 anos, 16 metros de altura e impressiona pelo capricho das inscrições árabes e dos zellijs, mosaicos de cerâmica esmaltada em forma de rosáceas, estrelas e outros intrincados desenhos geométricos.

Nessa kasbah imperial existem palácios suntuosos, fabulosos jardins, cursos d’água e cocheiras para até doze mil cavalos. Testemunha dos áureos tempos, o mausoléu da família real é aberto à visitação: ao cruzar o imponente pátio e atravessar arcos cobertos de mosaicos estonteantes, há uma seqüência de salões e uma fonte para ablução, que precedem o santuário. Depois, escadas levam ao cemitério da família Alaouite e ao fabuloso mihrab, nicho excepcionalmente decorado que, nas mesquitas, indica a direção de Meca.

Na região é possível visitar a cidade de Volubilis, a 33 km de táxi, com muitas ruínas de uma vila romana, declarado Patrimônio Mundial da Unesco, Volubilis é um sítio arqueológico do século 2/3 d.C, onde se pode entrar nas casas em ruínas, passear pelo capitólio e ver bem de perto (inclusive pisar, se desejar) os mosaicos no chão.

Inferno e céu

A ampla praça de Jemaa el-Fna, na famosa Marrakesh, uma das  grandes cidades do MarrocosCoração de um dos principais centros islâmicos do mundo, a medina de Marrakesh concentra figuras exóticas, como encantadores de serpentes, contadores de histórias, acrobatas e músicos gnaoua. Descendentes de escravos, originários da África Negra, os gnaoua são também os videntes e médiuns. Embora muçulmanos, cultuam os jinn (espíritos) e seus ritos fazem lembrar um pouco o candomblé.

Na ampla praça Jemaa el-Fna, bem no centro da Medina, o preparo de comidas e bebidas ocorre a céu aberto, envolto em caloroso e barulhento comércio, com centenas de tendas vendendo de tudo. Uma curiosidade local são as barraquinhas de suco de laranja espremida na hora. São umas 40 ou 50, uma ao lado da outra, oferecendo o mesmo produto e ao mesmo preço. Os clientes são “conquistados” no gogó: 50 barraqueiros gritando ao mesmo tempo quando um incauto se aproxima.

No final da tarde a boa pedida é descansar em um café, com amplo terraço voltado para a praça, e assistir a cidade cor de tijolo pegar fogo e, ao anoitecer, ganhar nova aura com o acender das luzes de todas as barraquinhas foi algo redentor.

Se a medina é riquíssima em vida, cores e imagens, são os palácios escondidos por altíssimos muros e rodeados por jardins caprichosamente traçados que levam ao devaneio. Hoje em dia é possível transpor esses muros e sentir a sofisticação da moradia marroquina num riad, tradicional residência árabe das classes altas. Portas de madeira maciça abrem-se para salões amplos e um pátio central, com fontes e jardins pontuados por palmeiras centenárias.Desfrutando de todo o conforto e segurança, saboreando um típico chá marroquino servido, à sua escolha, no terraço ou no salão decorado com zellijes. 

A caminho de Toubkal

Trilha para a o Monte Toubkal, no Vale de Dadès

Atlas é uma cadeia montanhosa que abastece de água e fertiliza as planícies marroquinas, além de fazer a alegria de esquiadores nas pistas de Oukaïmeden. Outro local que vale a visita é Imlil, um vilarejo berbere a 1.800 metros de altitude, onde tem início a trilha para o pico mais alto do Marrocos, o Monte Toubkal (4.167 metros).

Após 9 horas de caminhada, chega-se ao Toubkal Hut (3.207m), refúgio de pedra que pertence ao Clube Alpino Francês, único lugar para dormir naquela região. Cercado de uma neve fina e quebradiça, o refúgio construído em 1938 ofere jantar a preço amigável. 

A subida ao cume da montanha dura quatro horas, mas a visão do desértico e imponente Vale Dadès, pontilhado de oásis e vilarejos, compensa o esforço. Para descer são seis horas direto do cume para a hospedaria em Imlil.  

Bela Adormecida

Muros de antiga fortificação em Essaouira.Descoberta por mochileiros nos anos de 1960, Essaouira foi sendo revelada aos poucos, como um segredo sussurrado ao vento. Acabou atraindo intelectuais, pintores, escritores, músicos, atores e cineastas de várias parte do mundo inteiro. Esse verdadeiro refúgio-fetiche é uma cidadezinha voltada para o mar, cuja medina é constantemente açoitada pelas frias e agitadas águas do Atlântico.

De suas muradas contempla-se o mergulho preciso das gaivotas e o entardecer, enquanto apaixonados por surfe e vela curtem os ventos fortes e regulares. Lá, as margens são sorvidas sem pressa, com o prazer de quem tomou café da manhã na praça, caminhou por ruas limpas e calmas, viu dromedários na areia da praia e saboreou iguarias marinhas fresquíssimas, numa tenda rústica do tradicional mercado pesqueiro do píer.

Porto usado pelos fenícios no século 7 a.C, Essaouira sofreu ocupação romana e lusitana até ser dominada por sultões do Saara, que ali trocavam ouro, sal, açúcar, plumas de avestruz e também escravos negros por produtos manufaturados da Europa. No século 18, um deles, Sidi Mohamed Ben Abdellah fundou a cidade tal qual está agora. O sultão convidou um arquiteto francês para redesenhá-la e essa mistura cultural deu ar cosmopolita à cidade. Na medida do possível, bien sûr, pois trata-se de um país árabe, de raiz islâmica, que enquadra a vida dos cidadãos nos mínimos detalhes. Praticamente todas as marroquinas usam vestes tradicionais e cobrem a cabeça. Raras eram as jovens, ao menos nas medinas, a desafiar os costumes com rostos maquiados ou roupas justas. 

Todos os anos, em junho, a cidade é tomada pela alegria do Festival Gnaoua e Músicas do Mundo, quando os maâlem convidam nomes do jazz, pop, rock ou world music a explorar novos caminhos musicais.

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