Chapada dos Guimarães é o point do ecoturismo no verão brasileiro
Ela é a menos famosa das chapadas brasileiras. Mesmo assim, reserva uma surpresa atrás da outra. A Chapada dos Guimarães, pertinho de Cuiabá (apenas 65 km), no Mato Grosso é considerada o centro geodésico da América do Sul, o que significa dizer que sua distância é a mesma entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Medido oficialmente, porém, o chamado centro geodésico fica num pilarzinho acanhado no centro de Cuiabá. Mas quem se importa com detalhes diante de uma paisagem daquelas: imponentes paredões rochosos pré-históricos e a planície pantaneira aos pés? Pouco importa a equidistância dos oceanos. O que vale é bater perna e admirar tudo. A beleza da Chapada dos Guimarães é muito maior do que a sua fama.
Cachoeiras e quedas d'águas à vista

O coração da América do Sul é um dos melhores points de ecoturismo do Centro-Oeste brasileiro. Desde Cuiabá, leva-se cerca de uma hora de carro até a cidade de Chapada dos Guimarães, a porta de entrada para conhecer a região. A estrada até lá já vale um passeio.
Há dois mirantes e três cachoeiras pelo caminho (Mata Fria, Cachoeirinha e dos Namorados). Por conta disso, muitos não chegam à cidade, param nas atrações à margem da rodovia. O mais procurado delas é o balneário da Salgadeira, que oferece restaurante, vista para os paredões e uma queda d’água de 10 metros de altura.
A Chapada vive basicamente do turismo de final de semana, recebem uma leva de visitantes vindos da capital mato-grossense. Nos outros dias, a rotina segue tranquila. A maioria dos restaurantes da cidade nem abre as portas.
Na cidade, não há muitas diferenças entre um pacato vilarejo. As construções barrocas de 1779 e a praça central, ampla e bem arborizada com a igreja de Nossa Senhora de Santana ao fundo, fazem da cidade um cenário tipicamente interiorano. Isso se não fossem as diversas cachoeiras, incontáveis e indescritíveis do lugar.
A população local fala em 180 quedas d´água, a maioria inacessíveis, descendo pelas encostas ou abrigadas na área de um Parque Nacional, criado em 1989. A mais famosa de todas é a Cachoeira Véu de Noiva, que despenca bem no vértice de um cânion de rocha arenítica a uma altura de 86 metros, formando uma lagoa lá embaixo. É um dos cartões-postais da Chapada dos Guimarães. Antes, fechada para visitação há meses, por causa de um acidente que feriu quatro pessoas em 2008.
Muralhas de arenito
A cidade foi plantada no alto de um platô, à beira de um grande degrau geográfico que separa o Planalto Central, na parte alta, da planície cuiabana, lá embaixo. Não se trata de uma serra, mas de uma elevação brusca de terreno, delimitada por paredões avermelhados de arenito que se estendem por 280 km. As muralhas íngremes surgem na paisagem sem nenhum aviso ou pré-cordilheira capaz de atenuar a inclinação. Em alguns pontos, os paredões alcançam até 800 metros de altura, o bastante para amenizar o calorão do Centro-Oeste. No alto da Chapada, a temperatura é bem mais amena do que em Cuiabá. No inverno, os termômetros podem chegar próximo a zero grau.
Quem para diante do mirante Portal do Inferno, à margem da MT-251, já pode sentir uma boa vertigem ao olhar para as profundezas do cânion. No mirante do Centro Geodésico, bem pertinho da cidade, a vista descortina-se em ângulo de 180º. À noite, dá para ver as luzes de Cuiabá no horizonte. Mas o melhor visual está reservado à Cidade de Pedra, seguindo meia-hora por uma estrada de terra cheia de costelas de vaca. Após uma trilha curta, chega-se diante do cenário mais famoso da Chapada, frente a frente com os grandes paredões.
A longo dos milênios, a ação do vento e das chuvas criou interessantes formas nas rochas e nas bordas dos precipícios. Algumas formações rochosas parecem ter sido esculpidas por mãos humanas, o que até gerou a hipótese de que povos teriam habitado a região. Há quem duvide. Só não há como duvidar das inscrições rupestres encontradas em algumas cavernas, que indicam a presença humana a quase dez mil anos. Já foram catalogados 46 sítios arqueológicos, entre desenhos nas rochas e vestígios de cerâmicas.
Visitações
Há muito o que ver e fazer fora da área do Parque Nacional. Nos arredores, o que não faltam são belas cachoeiras. Uma das mais legais é a da Martinha, com maior volume de água da Chapada, formando um poço para nadar às braçadas – mais evite ir até vá lá no final de semana, pois é um reduto de farofeiros, com churrasqueiras portáteis e isopor com bebidas. O acesso é muito fácil, bem ao lado da estrada que leva a Campo Verde.
Vale a pena reservar uma tarde para ir a Caverna Aroe Jari, ou Morada das Almas, na língua dos índios bororos, a maior caverna de arenito do Brasil, com amplo pórtico de entrada e extensão de 1.400 metros. A caminhada até ela leva uma hora. Bem perto fica a Gruta da Lagoa Azul, uma piscina natural de água cristalina dentro que reflete uma incrível cor azul. Mas ninguém pode experimentá-la, pois o banho ali é proibido.
Se o objetivo é um local mais tranquilo e isolado, contrate um guia na cidade para fazer roteiros que pouca gente conhece, como visitar a Cachoeira do Marimbondo ou a da Geladeira.
A Chapada dos Guimarães passou por um longo ciclo de metamorfoses iniciado a cerca de 500 milhões de anos, quando tudo por lá estaria debaixo de gelo. Depois, virou fundo de mar, o que seria explicado pelos fósseis de conchas marinhas encontradas aos montes. Mais “recentemente”, há cerca de 15 milhões de anos, o surgimento da Cordilheira dos Andes provocou o afundamento da planície pantaneira, deixando à mostra os tais paredões de arenito. Hoje, a Chapada é a terra do cerrado. Abriga uma das mais extensas porções desse ecossistema que sofre com a expansão das lavouras de soja e pastagens de gado.
Caminhar pelas trilhas é entender um pouco da beleza discreta do cerrado, marcada por uma vegetação baixa, com árvores de casca grossa e galhos retorcidos. Os guias que conduzem os visitantes pelas trilhas seguem apontando uma infinidade de plantas e ervas medicinais que não existem em nenhuma outra parte do planeta. Há uma farmácia inteira nas matas. O chá da folha de uma plantinha chamada pau-doce, por exemplo, ajudaria a curar dor de cabeça. Já um banho de assento preparado com casca de barbatimão teria o poder não só de tratar as crises de hemorróidas, como também o de tornar as moças novamente donzelas. Os (principalmente “as”) turistas adoram esse comentário...
Turísmo místico
Além da natureza, Chapada dos Guimarães desenvolveu uma outra vertente para atrair visitantes, o misticismo. Começou na década de 1970, quando o lugar ganhou fama de possuir uma espécie de energia cósmica, o que seria explicado, em parte, por sua posição geográfica, localizada no mesmo paralelo de outros pontos adorados por quem acredita no brilho mágico de um cristal, como Macchu Picchu, por exemplo – há uma lenda ridícula, sem pé nem cabeça, de que um “túnel” ligaria as duas localidades.
Comunidades alternativas acreditavam que ali nasceria o embrião de uma futura civilização, justa e perfeita. A isso somou-se as histórias de luzes misteriosas e óvnis pousando sobre o platô do Morro de São Jerônimo, o ponto mais alto da região.
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