Dez motivos para ir ao Pantanal, uma das regiões mais preservadas do Brasil

O cavalo é o “meio de transporte” oficial no Pantanal e todas as fazendas oferecem cavalgadas (Foto: Editora Europa/ Revista Viaje Mais)
- Dez motivos para ir ao Pantanal, uma das regiões mais preservadas do Brasil
- Curtir as fazendas
- Ver bichos, muitos bichos
- Percorrer a Transpantaneira
- Cavalgar e acompanhar comitivas
- Pescar
- Encantar-se com Bonito
- Explorar a Chapada dos Guimarães
- A boa comida Pantaneira
- O birdwatching
- Embarcar no Trem do Pantanal
As fazendas abrem as porteiras para mostrar um incrível zoo a céu aberto. Sem contar que, a partir desta região, é possível também explorar os rios cristalinos de Bonito,os cânions e cachoeiras da Chapada dos Guimarães...
Curtir as fazendas
O Pantanal é uma das regiões mais isoladas do Brasil e, por isso mesmo, uma das mais preservadas também. Lugar de mata virgem e de animais selvagens. Fica distante dos grandes centros e, em muitos pontos, só se pode chegar de barco ou de avião. É justamente essa autenticidade, aliada a uma boa dose de exotismo e rusticidade, que faz do Pantanal um lugar tão fascinante. Estrangeiros vêm de longe para explorar a região e são maioria nas fazendas que se adaptaram, com profissionalismo e bom nível de conforto, para receber os hóspedes.
E a hora de ir para lá é quando as águas baixam (de maio a outubro) e o Pantanal se transforma num imenso zoológico a céu aberto, que ocupa boa parte dos Estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, estendendo-se, ainda, para o Paraguai e a Bolívia. Se você nunca foi, confira dez excelentes razões capazes de, finalmente, convencê-lo a ir até lá. Pois o Pantanal é o bicho.
Ver bichos, muitos bichos
O Pantanal, tanto do Mato Grosso como do Mato Grosso do Sul, já oferece alguns bons hotéis e pousadas. Mas a melhor e mais original forma de explorar a região é hospedando-se nas fazendas que se adaptaram para receber visitantes.
Algumas gostaram tanto da ideia que mudaram de vez a atividade principal, trocando os bois pelos turistas. Outras converteram parte da propriedade em minipousadas, sem abrir mão de tradições, como a comida feita no fogão a lenha e o atendimento pantaneiro, que se traduzem em hospitalidade e numa guampa de tereré – espécie de chimarrão, só que preparado com água gelada, sempre à espera dos turistas ao fim dos passeios.
A autenticidade é a grande vantagem das fazendas pantaneiras. Em muitas, o visitante pode acompanhar a lida diária dos peões, como a marcação de bezerros e a condução de boiadas. Outro ponto positivo é que os bichos estão ali mesmo e muitas vezes nem é preciso ir longe para vê-los, já que as fazendas não ficam próximas à natureza: estão dentro dela.
Comodidades urbanas, como TV no quarto e sinal de celular, não há. Mas essas privações são compensadas pelas paisagens e pelo encontro constante com os animais. As diárias incluem todas as refeições e passeios: safáris em jipes 4x4, cavalgadas, pesca de piranhas e observação de pássaros.
Para chegar às fazendas é preciso ir para Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, ou então para Cuiabá, no Mato Grosso. Depende apenas do que pretende: conhecer o Pantanal Norte ou o Sul. São três as estradas principais que levam à planície pantaneira. Uma delas é a BR-262, que liga Campo Grande a Corumbá, passando por Miranda, ambas no Mato Grosso do Sul – a última serve como portão de entrada para o Pantanal Sul. É ali que estão o Refúgio Ecológico Caiman e as Fazendas São Francisco e Santa Inês.
Percorrer a Transpantaneira
Outra via é a chamada Estrada-Parque, uma estrada de terra que segue por 120 km e liga Miranda e Corumbá. A estrada, plana e arenosa, leva às diversas pousadas e também à MS-80, acesso para o Pantanal de Nhecolândia, região de riquíssima vida selvagem, onde está a Pousada Mangabal, instalada na Fazenda Pouso Alto. No período de seca, entre maio e outubro, até carros de passeio percorrem a Estrada-Parque e a MS-80. Nos outros meses do ano, quando chove além da conta, até veículos 4x4 sofrem com os atoleiros – a região de Nhecolândia, por exemplo, pode ficar inacessível por terra. Nessa época, só é possível chegar às fazendas do pedaço de avião.
A terceira estrada é a Rodovia Transpantaneira, no Mato Grosso, que de rodovia só tem o nome. É um estradão de terra construído sobre aterros, para barrar a água das cheias e ser transitável o ano inteiro. Liga Poconé, que fica a 100 km de Cuiabá, por asfalto, a Porto Jofre, na divisa com o Mato Grosso do Sul, mas sem alternativa para seguir em frente. Quem vai tem de voltar por ela mesma. O que é ótimo, pois os 127 km de trajeto são um show, cheio de jacarés, capivaras e aves à beira da pista.
Há diversas fazendas e lodges de selva ao longo do caminho, como o Araras Eco Lodge e o Jaguar Eco Lodge.
O Pantanal é o equivalente brasileiro à savana africana, um gigantesco santuário onde os animais circulam livres, leves, soltos e ao alcance dos olhos. Mesmo nos arredores das fazendas dá para ver antas, capivaras, macacos, veados, tucanos, araras, tuiuiús e muitos, muitos jacarés.
As fazendas organizam safáris fotográficos parecidos com os que são feitos nos parques da África: os visitantes seguem em veículos 4x4 com bancos na carroceria, acompanhados por um guia experiente, que pode ser um peão da fazenda ou um biólogo. A bordo, o grupo de turistas se mantém “armado” com binóculos e câmeras fotográficas, sempre à espera dos flagrantes de animais, que ocorrem a todo instante.
Muitos safáris são realizados à noite, com potentes holofotes iluminando as margens das lagoas, para observação da fauna de hábitos noturnos. É o momento de maior expectativa, já que existe a chance de o veículo topar com uma onça-pintada. Encontros com esse felino são raros, mas é comum encontrar pegadas do bicho nas estradas das fazendas.
A melhor época para ver os bichos do Pantanal é no período de seca, entre junho e novembro. Nesse período, os animais se concentram nas poucas lagunas que resistem à falta de chuvas – e as aves juntam-se a eles para aproveitar a abundância de peixes encurralados nessas águas.
Já nos meses de chuva e cheia dos rios, de dezembro a maio, o Pantanal transforma-se num pântano semialagado. A maioria dos caminhos fica submersa, o que dificulta a locomoção por terra – e fica bem mais difícil encontrar os animais.
Obra iniciada em 1972, a Rodovia Transpantaneira era um dos símbolos da campanha para desenvolver os rincões do Brasil, durante o regime militar. A ideia inicial era interligar Cuiabá e Corumbá por uma via que atravessaria toda a planície pantaneira, de norte a sul. Mas a construção esbarrou em problemas técnicos. As cheias pantaneiras “afogaram” a estrada e os engenheiros acabaram desistindo de lutar contra a força das águas. O projeto ficou reduzido aos 145 km que ligam Poconé a Porto Jofre.
A estrada foi erguida sobre um aterro, a uma altura que não é possível ser alcançada pela água. Larga e recoberta por cascalho, é percorrida até por carros de passeio. Apenas no período de chuva (de outubro a abril/maio) a rodovia pode ficar cheia de atoleiros, vencidos só por veículos 4x4.
As 127 pontes ao longo do trajeto – uma a cada 2 km – dão um certo charme à viagem e aumentam o clima de aventura. O limite de velocidade de 60 km/h é ideal para que o viajante admire a paisagem e não corra o risco de atropelar capivaras, veados, tamanduás, jacarés e outros bichos que cruzam a pista.
A maioria dos hotéis e fazendas do Pantanal Mato-Grossense é acessada por essa estrada, incluindo os meios de hospedagem mais sofisticados, como o Araras Ecolodge.
Próximo ao final do trajeto, em Porto Jofre, região mais selvagem da Transpantaneira, o Jaguar Eco Lodge tem acomodações modestas, mas garante maiores chances de ver a onça-pintada. Um quadro-negro no restaurante do hotel assinala as datas dos últimos avistamentos de onça. São, em média, quatro a cada mês.
Cavalgar e acompanhar comitivas
O cavalo é o “meio de transporte” oficial do Pantanal, o único capaz de atravessar matas, charcos e alagados. Por isso, quase todas as fazendas oferecem cavalgadas. Para quem gosta de galopar, não há lugar melhor. Os campos são planos e vastos e os cavalos, bem treinados e acostumados a carregar turistas inexperientes.
Para quem quiser ir mais longe e de fato mergulhar no universo pantaneiro, existem roteiros com alguns dias de duração, interligando várias fazendas. Na região de Miranda, há a chamada Rota Pantaneira, uma cavalgada de cinco dias que percorre 90 km e, no caminho, passa por cinco fazendas – Baía Grande, Santa Inês, Olhos D’Água, Pequi e Aguapé. O roteiro só é oferecido para grupos de, no mínimo, 12 pessoas. Custa R$ 1.800 por participante, com hospedagem e todas as refeições.
Na Fazenda Santa Inês também rola um tour em que o turista acompanha uma comitiva: jornadas de transporte de gado pela planície pantaneira. O percurso dura um dia inteiro, desde o amanhecer – quando é servido o legítimo quebra-torto, o café da manhã dos peões –, seguindo por 18 km, percorridos em torno de oito horas, com parada para almoço. Custa R$ 350 por pessoa.
Outro roteiro, no Pantanal de Nhecolândia, é a Cavalgada das Vazantes. Realizada em oito dias, passa por três fazendas: a Pouso Alto, a Baía das Pedras e a Barra Mansa.
Um dos pernoites ocorre num acampamento rústico na mata, que tem a estrutura erguida em alvenaria e itens como fogão a lenha, iluminação por lamparina e chuveiro com água aquecida por serpentina. A saída com dois participantes custa
R$ 4.200 por pessoa, valor que inclui o transporte aéreo desde Aquidauana, onde tem início o percurso, o qual parte da Fazenda Pouso Alto. Para um grupo de seis pessoas, o valor individual cai para R$ 3.500.
Pescar
A embarcação típica do Pantanal é a chalana, um barco fechado que, muitas vezes, torna-se a única forma de locomoção na região, já que na cheia dos rios as estradas, tomadas pelas águas, ficam submersas. São esses barcos que levam os visitantes a passeios pelos rios para a pesca artesanal de piranhas, peixe que morde a isca com muita facilidade e serve de ingrediente principal para um saboroso caldo, um dos pratos regionais mais típicos.
A pesca no Pantanal, no entanto, é levada bem mais a sério, já que a atividade é uma das mais importantes para a economia do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Nos rios pantaneiros, são encontradas centenas de espécies de peixes – algumas, como o jaú, podem chegar a pesar 100 quilos.
A turma da isca e do anzol segue para Corumbá, a 400 km de Campo Grande e às margens do Rio Paraguai, onde há diversos hotéis especializados e barcos-hotéis que mantêm piloto e cozinheiro a bordo. Já do lado mato-grossense, o point é Cáceres, a 210 km de Cuiabá.
Mesmo quem nunca pescou pode fisgar peixes de muitos quilos. Mas é preciso seguir as regras de preservação, como o limite de pescado que pode ser trazido e o respeito ao período de desova, de novembro a fevereiro, época da piracema, quando os cardumes sobem os rios para desovar.
Encantar-se com Bonito
Bonito, uma das capitais brasileiras do ecoturismo, fica ao lado do Pantanal sul-mato-grossense, de forma que é possível juntar, sem grandes dificuldades, os dois destinos numa mesma viagem.
Bonito preserva rios cristalinos nos quais a boa é fazer snorkelling nos rios da Prata e Sucuri, para ver cardumes de peixes nadando a centímetros do nariz. Sem contar os tours para as cachoeiras – a Boca da Onça, por exemplo, é a mais alta do Mato Grosso do Sul, com 156 metros de queda – e para a famosa Gruta do Lago Azul. As agências oferecem ainda um vasto cardápio de esportes de aventura, como boia-cross, rapel e mergulhos em rios.
Bonito fica apenas a uma hora de carro de Miranda, porta de entrada para diversas fazendas pantaneiras, caso da Caiman e da São Francisco, que têm acesso fácil por estradas de terra. Juntar Bonito e Pantanal Sul é uma dupla imersão no mundo natural e até outubro, período de seca na região, é o momento certo para ir até lá. Se essa for a pedida, há pacotes que combinam os dois lugares. Eles não custam pouco, mas são práticos porque incluem passagem aérea, todos os traslados, passeios diários e a maioria das refeições.
Explorar a Chapada dos Guimarães
Quem vai conhecer o Pantanal Norte tem a opção de esticar até a Chapada dos Guimarães, a 70 km de Cuiabá, e assim unir as duas mais belas paisagens do Mato Grosso.
Esta região de cerrado, com cânions e cachoeiras monumentais, parte dentro de uma área considerada parque nacional, é um grande degrau geográfico que separa o Planalto Central, na parte alta, da planície cuiabana, na parte baixa. Os paredões avermelhados de arenito estendem-se por
280 km e podem chegar a 800 metros de altura em alguns pontos.
Desde Cuiabá, basta tomar o asfalto da MT-251 – e ficar preparado para as primeiras surpresas. Ainda no caminho para a cidade de Chapada dos Guimarães, base para explorar a região, há mirantes e cachoeiras bem ao lado da estrada. Mas para chegar às atrações mais conhecidas, como a Cidade de Pedra (mirante com a melhor vista da Chapada), a Gruta do Lago Azul e a Trilha das Cachoeiras, dentro da área do parque nacional e que passa por sete quedas- d’água, é preciso contratar guias credenciados na cidade.
No entanto, a Cachoeira do Véu da Noiva, atração mais conhecida do parque, está fechada para visitação desde abril de 2008, com o objetivo de reformular a trilha de acesso e aumentar a segurança.
A Freeway (veja o telefone de contato e o site na pág. ao lado) tem pacote de cinco noites conjugando Pantanal e Chapada. Preço a partir de R$ 4.100 por pessoa, incluindo aéreo, hospedagem em quarto duplo e passeios.
A boa comida Pantaneira
A rica culinária pantaneira serve-se de ingredientes conhecidos, mas com nomes que você provavelmente nunca ouviu falar. É o caso do caribéu, que nada mais é do que um ensopado de carne-seca com mandioca. Quebra-torto é como os peões chamam o café da manhã, à base de arroz de carreteiro (com carne-seca), para dar “sustança” na lida diária no campo. A carne-seca, assim como a farinha, tem espaço nas mesas das fazendas e nos pratos dos peões, pois são alimentos que não estragam quando levados nos acampamentos das comitivas.
A influência vinda do outro lado da fronteira é a sopa paraguaia, que na realidade é uma torta de queijo com milho. Chipa é tão somente o pão de queijo, e a saltenha, um pastel de trigo com recheio de galinha. Já a mojica é um ensopado à base de pintado (peixe) e mandioca.
As diferentes especialidades preparadas com peixe são o ponto forte da gastronomia pantaneira: além de pintados, pacus, piraputangas e dourados são estrelas em muitos pratos. Destaque para a costela de pacu frita, as ventrechas, tão deliciosas quanto a piraputanga assada na brasa, servida sem as espinhas. O caldo de piranha é um clássico regional e dizem que é afrodisíaco. O maior exotismo fica por conta da carne de jacaré, que vem de algumas fazendas de criação que existem no Pantanal. O gosto lembra peixe e a consistência é de carne de frango.
Nenhum prato, porém, é tão aguardado quanto o churrasco pantaneiro, servido geralmente à noite, depois dos passeios, acompanhado de “causos de onça” e moda de viola. Para fechar cada refeição vale o furrundum, um doce de cidra com rapadura. E para digerir toda essa fartura de comida, aposte num licor de pequi.
O birdwatching
Os pássaros dão um show no Pantanal. É o canto deles que destranca os portões do amanhecer, como escreveu o poeta Manoel de Barros. Araras, pica-paus, carcarás, tuiuiús, garças, colhereiros e outras 670 espécies estão em toda parte. É fácil vê-los ao longo do ano, mas, para os praticantes de birdwatching – a observação de aves –, o melhor período é na época da cheia dos rios, de outubro a fevereiro, quando a água da chuva traz os peixes, o grande banquete dos pássaros.
A Fazenda Caiman é uma das mais especializadas no tema. Recebe observadores amadores e ornitólogos do mundo inteiro, coordenados por Victor Nascimento, nativo da fazenda que hoje é um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Só na área da Caiman, ele catalogou 380 espécies.
Com uma potente luneta Leica, Nascimento guia os visitantes pela beirada dos capões, para a focagem de pássaros. Os passeios podem levar um dia inteiro, dependendo do interesse de cada grupo.
Embarcar no Trem do Pantanal
Partindo de Campo Grande, dá para chegar até Miranda por meio do Trem do Pantanal, reativado em setembro de 2009 após ficar inoperante por duas décadas.
A viagem de 220 km tem ritmo lento. A composição segue a apenas 27 km/h, para que os passageiros possam admirar a paisagem. Nesse suave movimento, o trem completa o trajeto em nove horas, descontando o pit stop em Aquidauana para o almoço e outras duas paradas, em Piraputanga e Taunay, para a compra de artesanato indígena.
O Trem do Pantanal está ligado à história da região, pois foi, por muitos anos, a única ligação entre os dois principais polos econômicos do Mato Grosso do Sul, a capital Campo Grande e Corumbá. Era um dos trechos do famoso “trem da morte”, que partia da Estação da Luz, em São Paulo, passava por Bauru (SP) e Corumbá, seguindo até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, rota que embalou as aventuras dos mochileiros que iam a Machu Picchu nos anos 1970 e 1980.
O comboio tem ar-condicionado e janelas amplas. Guias acompanham cada saída e dão explicações sobre a história do trem e da região que ele atravessa, enquanto no vagão-bar rolam apresentações culturais. Saídas de Campo Grande apenas aos sábados e feriados, às 7h30 com a Pantanal Express.
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