Volte no tempo visitando as cidades históricas, Ouro Preto, Mariana e Tiradentes

Dec 31, 1969
0 votos | Votar

Não há época mais especial para viajar pelas cidades históricas de Minas Gerais do que abril, mês de Semana Santa e de homenagem à Inconfidência. O clima de festa está no ar e se mistura à beleza dos casarões coloniais e às ruas de pedras irregulares que brotaram com a riqueza do ouro garimpado no século 18. Cinco das cidades mais importantes do roteiro – Ouro Preto, Maria­­na, Congonhas do Campo, Tiradentes e São João del Rei – ficam próximas umas das outras e é perfeitamente possível conhecer todas em uma semana de férias. O percurso total, para quem sai de São Paulo, tem cerca de 1.500 km (ou 1.200 km para quem vem do Rio de Janeiro).

O mais “didático” é seguir direto para Ouro Preto, mas nada impede de inverter o trajeto e começar por Tiradentes, que fica no caminho. A seguir você confere um roteiro sugerido por Viaje Mais para curtir o melhor das cidades históricas de Minas Gerais, em dias recheados de igrejas barrocas, museus, feijão tropeiro e mineirices em geral.

Nas ruas de Ouro Preto

Casarões coloniais do Largo do Rosário, em Ouro Preto.Ouro Preto foi a maior e mais importante cidade do ciclo do ouro mineiro, uma espécie de metrópole do século 18 graças ao garimpo. É uma cidade para ser degustada, comida com os olhos. Presente e passado se misturam a todo momento num passeio por entre os casarões centenários. As montanhas da Serra de Itacolomi fazem a moldura natural da cidade e no alto de cada morro desponta uma igreja. A melhor forma para explorar Ouro Preto é a pé, para contemplar calmamente o mais importante patrimônio pultural e histórico do País, tombado pela Unesco em 1960.

Comece o roteiro pela Praça Tiradentes, o marco zero da cidade, onde está o Museu da Inconfidência, que abriga móveis e peças sacras do século 18 – e até os túmulos dos inconfidentes. No centro da praça, observe o monumento em bronze e granito que serviu para expor a cabeça do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Desça a Rua Claudio Manoel e entre na Igreja de São Francisco, a obra-prima da arquitetura barroca mineira. Admire a impressionante pintura do forro, feita por Manoel da Costa Athayde e a beleza dos entalhes em pedra-sabão da portada e do altar, esculpidos por Aleijadinho. Essa mesma pedra serve hoje como base para o artesanato local: panelas, pratos, caixas, imagens... Quase  todos compram na feirinha que fica bem de frente à igreja, no Largo de Coimbra.

Bem próximo, descendo a rua um pouco mais, conheça a Mina do Chico Rei, a única mina de ouro aberta à visitação na cidade.  Não passa de um túnel apertado e úmido, onde mal cabe uma pessoa de pé. Mas que transmite a ideia de como deveria ser a extração artesanal de ouro feita por escravos providos apenas de marreta e picareta. Nessa época, Ouro Preto era quase um queijo suiço: há duas mil bocas de minas ao redor da cidade, de onde saíram toneladas de ouro ao longo de cerca de 150 anos.

Se o passeio abrir o apetite, aproveite a  boa comida mineira preparada em fogão a lenha. Retorne em direção à Igreja de São Francisco e, bem ao lado dela, faça uma parada no restaurante Bené da Flauta (Rua São Francisco de Assis, 32). Note que no cardápio a carne de porco é a vedete do prato máximo da casa: o feijão-de- tropeiro, que leva bisteca, linguiça, couve, arroz e dois ovos fritos. E a viagem histórica se transforma também em gastronômica. Tem gente que ganha uns quilinhos a mais, pois nada é light na tradicional cozinha mineira. Mas dá para queimar as calorias. Basta cami­nhar mais um pouco pelas ladeiras.

Mina da Passagem

A Praça Tiradentes, coração de Ouro PretoComece por outra grande atração de Ouro Preto: a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, internamente toda decorada com ouro. É um deslumbre, fruto da extravagância e da riqueza que gozavam as irmandades cristãs dos tempos do garimpo. Segundo historia­dores, a opulência das obras era sinônimo de status para cada ordem religiosa.

Como os negros eram proibidos de frequentar as igrejas dos brancos, construíam as próprias, caso da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cujo grande difefen­cial é a forma curvilínea das paredes.

Internamente, não tem a riqueza das outras. O folclore local divulga que os negros juntaram recursos para erguer seus templos graças ao ouro que conseguiam esconder na boca ou nos cabelos.

Saindo do Largo do Rosário, visite a Casa dos Contos, o antigo local de pesagem e fundição de ouro, hoje um museu. Nesse casarão, o ouro era transformado em barras e recebia o brasão da coroa portuguesa. As salas guardam as ferramentas que ajudavam no processo de fundição, além de utensílios usados para castigar escravos fujões, pois no local também havia uma prisão.

De volta à Praça Tiradentes, siga na direção da Igreja do Carmo, especificamente para a casa anexa, onde fica o curioso Museu do Oratório. Lá está uma coleção de oratórios dos séculos 18 ao 20, de diversos tipos e tamanhos. Esses objetos eram usados no culto religioso doméstico, tão fundamental em qualquer casa mineira como a pia ou a cama. Ocupava lugar de destaque nos quartos – ou mesmo na sala. Na coleção, há peças valiosas, com esculturas e pedras preciosas, e outros pequenos e populares, usados em viagens.

Almoçar no restaurante Casa do Ouvidor (Rua Conde de Bobadela, 42) é uma boa iniciativa antes de reservar a tarde para conhecer a Mina da Passagem, no caminho para Mariana. É a mais bela e antiga mina da região.

Funcionou até 1985, já com sistema de garimpo industrial, até que as perfurações atingiram um lençol freático que inundou boa parte das galerias. Você pode  entrar na mina a bordo de carrinhos sobre trilhos, os mesmos usados pelos mineradores. O passeio dura cerca de 30 minutos e inclui uma caminhada por entre os túneis subterrâneos até a beira de um lago azul que existe lá dentro.

Trem para Mariana

As igrejas de São Francisco de Assis(à esq.) e Nossa Senhora do Carmo (à dir.)Quase colada a Ouro Preto, Mariana não tem o mesmo brilho da vizinha, mas muito se orgulha de ser a primeira cidade de Minas. Foi lá, às margens do riacho que corre pelos vales, que o bandeirante paulista Fernão Dias Paes, pelos idos de 1690, teria encontrado ouro por acaso, ao mergulhar a gamela na água para matar a sede. A descoberta provocou uma incrível corrida pelo ouro naquela época do Brasil-colônia.

“Berço de Minas Gerais” e “Primeira Capital de Minas” são dizeres nas placas de acesso a Mariana, primeiro povoado mineiro, elevado à categoria de vila em 1711 e sede do bispado anos mais tarde. Para ir até lá, o mais legal é tomar a velha maria-fumaça, que apita e chacoalha nos 19 km do trajeto. O trem, restaurado há quatro anos, preserva os bancos de madeira e a velha locomotiva movida a carvão. Uma dica: vá no lado esquerdo ter uma melhor vista para a paisagem das montanhas.

O trem tem saídas nos finais de semana e leva uma hora no percurso, saindo pela manhã e retornando no final da tarde. É pouco tempo para Mariana, mas garante o suficiente para conhecer as principais atrações, como a Catedral Basílica da Sé, que também reúne obras dos maiores expoentes da arte barroca mineira: esculturas de Aleijadinho e pinturas de Mestre Athayde.

Destaque para o órgão alemão Schnitger, montado em 1751, o mais antigo do Brasil – é possível ouvi-lo nas missas de domingo, pela manhã.

O Museu de Arte Sacra, instalado num casarão de 1770, também está no roteiro obrigatório. Reúne algumas das principais obras de artistas brasileiros do século 18, todas com temas religiosos, como bustos de santos em madeira e pinturas à óleo.

Uma das melhores épocas para ir a Maria­na é durante a Semana Santa. Os festejos começam na Sexta-Feira da Paixão, quando os fiéis, cobertos por lençóis percorrem as ruas do centro histórico na chamada Procissão das Almas. No sábado, há encenação da Paixão de Cristo e, no domingo de Páscoa, a população enfeita as ruas com tapetes de serragem colorida.

Os Profetas e Tiradentes

A pequena Tiradentes pode ser conhecida num passeio a pé ou a cavaloDe Ouro Preto são cerca de 250 km até Tiradentes, ou 3 horas de carro, seguindo via Ouro Branco até o asfalto da BR-040.  No meio do caminho faça uma parada estratégica em Congonhas do Campo, bem à margem da rodovia. A parada tem boa justificativa: visitar a Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, no topo do morro mais alto da cidade, que ganhou status de Patrimônio da Humanidade da Unesco em 1985. É ornamentada por um adro onde estão os famosos Doze Profetas, esculturas de pedra-sabão em tamanho natural, obra-prima de Aleijadinho.

Elas foram esculpidas entre 1800 e 1805, finalizadas quando o artista tinha 60 anos, provavelmente muito debilitado pela hanseníase que consumiu dedos dos pés e mãos.

Compõem o conjunto, na praça em frente à igreja, outras seis cúpulas, chamadas de Capelas dos Passos, com 64 figuras esculpidas em madeira por Aleijadinho e seus discípulos. Juntas, elas retratam cenas da Paixão de Cristo. O passeio deve ser feito com um guia, pois há muitas informações curiosas sobre esse trabalho de Aleijadinho.

Tiradentes, que também preserva um precioso patrimônio histórico, é a próxima parada. O ponto alto desse conjunto arquitetônico pode ser visto no dia seguinte, caso você chegue cansado da viagem. Trata-se da Matriz de Santo Antônio, um esplendor do barroco brasileiro que tem a fachada atribuída a Aleijadinho e o interior forrado de ouro.

Um concerto no órgão de 1788, restaurado há pouco mais de um ano e com a mesma afinação dos tempos em que chegou de Portugal, é  atração nas noites de sexta-feira. Precede o  concerto um espetáculo de som e luz, que, narrado pelo ator Paulo Goulart, conta a história da igreja e dos símbolos e imagens que a adornam.

Num roteiro a pé, conheça ainda as igrejas de Nossa Senhora do Rosário (erguida pelos negros), a de São João Evangelista (frequentada pelos mulatos), a de Nossa Senhora das Mercês, além da Casa do Padre Toledo – sede da primeira reunião dos inconfidentes, hoje um museu com móveis e objetos do século 18 – e o Chafariz de São José, com as três fontes funcionando desde 1749. Esse circuito pode ser feito, ainda, de charrete ou de jardineira – de onde se tem uma outra pers­pectiva de Tiradentes. Este tour é realizado à noite, quando a parte histórica da cidade é iluminada apenas por pontos de luz dentro de grandes lampiões. O motorista-guia Luiz Fernando Neves conta “causos” locais e mostra efeitos de luz e sombra em cons­truções como a Matriz de Santo Antônio.

Para fechar o dia, aproveite as muitas opções gastronômicas da cidade. A culinária mineira tradicional reina no Virada’s do Largo e na Estalagem do Sabor, além do self service Calabouço e no Bar do Celso, opções mais econômicas. Já o Tragaluz sofisticou as iguarias mineiras com pratos como galinha d’angola com ravióli de abóbora.

Bichinho e maria-fumaça

A charmosa maria-fumaça que liga Tiradentes a São João del ReiNos passeios pelo centro histórico de Tiradentes, as mulheres, principalmente, não vão resistir às muitas lojinhas de artesanato e de itens para decorar a casa. Muitas dessas peças vêm do pequeno distrito de Vitoriano Veloso, ou simplesmente Bichinho, a 8 km de Tiradentes, que pode ser visitado na manhã do último dia do tour.

Por lá, o grande destaque é a Oficina de Agosto, cujas “grades” para pendurar na parede, enfeitadas com sequências de namoradeiras, carrinhos e até bumbuns femininos são a cara do artesanato local. Também chamam a atenção as peças de madeira do artesão Naninho; as folhagens, flores, lustres e abajures com ferro batido de João Neto Teixeira; e as toalhas de mesa e colchas de fuxico, crochê e patchwork da Ponto e Nó nos Fundos.

Dá para gastar horas em Bichinho, mas se for entre sexta e domingo, trate de estar de volta antes das 13h (ou das 17h) para pegar a charmosa maria-fumaça (de 1881) que, nesses dias e horários, parte da estação ferroviária de Tiradentes. O percurso de 12 km, às margens do Rio das Mortes e da Serra de São José, segue até a vizinha São João del Rei, onde há um Museu Ferroviário e até um vagão que oferece roupas de época, para que o turista seja fotogrado com jeito de antigamente. Uma lembrança que tem tudo a ver com esse rico e saboroso encontro com a história brasileira.

Para comentar é preciso autenticar-se. Clique aqui para se autenticar.