Conheça parte da história do Brasil pelas ruas da bela cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais
Minas Gerais é o Estado que abriga o maior conjunto do patrimônio histórico brasileiro. Sabará, Tiradentes, Congonhas do Campo, Mariana, São João Del Rei, Diamantina e Serro compõem esse verdadeiro museu barroco ao ar livre. Ouro Preto, a 95 km de Belo Horizonte (MG), encabeça a lista por sua riqueza e por ter sido berço da Inconfidência Mineira (1789), o primeiro grande movimento revolucionário da história do Brasil.
Vila Rica, a região que respira ouro
Importante centro econômico, Vila Rica (a cidade seria nomeada Ouro Preto apenas em 1823) nasceu com a descoberta do ouro que, na região, era encontrado coberto por uma fina camada de óxido de ferro, o que tornava o metal mais escuro.
Por causa da riqueza, a região que circunda o Pico do Itacolomi chamou atenção de portugueses e bandeirantes paulistas, que ali se fixaram por volta de 1698. A busca desenfreada pelo ouro e a precária ocupação do território fizeram com que paulistas lutassem contra os “forasteiros”, ou seja, portugueses, baianos e pernambucanos. O confronto passou para a história como a Guerra dos Emboabas, e terminou em 1709 com a derrota dos paulistas.
Com o desenvolvimento da atividade, os arraiais mineradores cresciam rapidamente. Os limites dos arraiais de Antônio Dias e Ouro Preto se tocaram no morro de Santa Quitéria, onde hoje está a Praça Tiradentes – e a rua principal acabou por ligar as três colinas que dariam o contorno da futura cidade. O arraial de Ouro Preto formaria com o de Antônio Dias o núcleo de Vila Rica, nome apropriado para a região.
As construções – capelas, igrejas, pontes, fontes, casas e museus, hoje admiradas como belos exemplares da arte barroca mineira – foram erguidas em sinal de devoção cristã e ostentação de poder, época em que a influência eclesiástica também valia peso de ouro. A produção aurífera atingiu o apogeu entre 1730 e 1760.
É nessa época que são erguidas as mais sofisticadas construções barrocas e a vida social da vila passa a ser coberta de pompa e circunstância.
Inconfidentes
Mas, por volta de 1760, a decadência do ouro anunciava o colapso econômico que estaria por vir. As dificuldades de extração do minério levaram os portugueses a criar novos impostos, como a derrama, taxa compulsória sobre os pagamentos atrasados do quinto do ouro.
Começava a nascer o inconformismo que uniu parte da elite de Vila Rica, culminando na Conjuração Mineira, movimento alimentado por ideias iluministas e pela influência das revoluções francesa e norte-americana. A proclamação da Independência do Brasil era uma de suas principais bandeiras. Mas uma denúncia do coronel Joaquim Silvério dos Reis ao Visconde de Barbacena pôs tudo a perder. Os líderes do movimento foram punidos com o exílio. Apenas o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi condenado à morte.
As marcas da tentativa de revolução podem ser vistas, ainda hoje, em Ouro Preto, a começar pela Praça Tiradentes, onde se encontra uma estátua do alferes libertário. Neste local, após o esquartejamento de seu corpo, a cabeça ficou exposta ao horror público. Projeto do italiano Virgilio Cestari, a estátua foi inaugurada em 21 de abril de 1894.
Na mesma praça, fica o Museu da Inconfidência, antiga Câmara Municipal e cadeia. A construção, iniciada em 1784, sediava a estrutura administrativa, política e judiciária de Vila Rica, e, embora seja a primeira edificação em estilo neoclássico de Minas Gerais, as portas e janelas demonstram características barrocas. O prédio foi transformado em museu em 1944, ano do bicentenário de nascimento do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, e traz obras de Aleijadinho, o nome mais importante do barroco mineiro.
Por causa da efervescência econômica e cultural dos áureos tempos, Ouro Preto foi a capital mineira até 1897, então substituída por Belo Horizonte, cidade planejada para isso. Enquanto foi capital, a ex-Vila Rica viu a vida cultural ser reforçada com a criação de duas escolas de nível superior: a Escola de Farmácia, em 1839, primeira da América Latina, e a Escola de Minas de Ouro Preto, criada por ato de Dom Pedro II, em 1876, e implantada pelo francês Claude-Henri Gorceix. A Escola de Minas reúne acervo de minerais com mais de 20 mil amostras do mundo inteiro e, em 1984, uma sala especial foi organizada sob moderna concepção museológica.
Segundo especialistas, a perda do papel administrativo de sede do Estado foi determinante na conservação da antiga Vila Rica, pois, dessa forma, o crescimento imposto às capitais brasileiras no século 20 foi bastante amenizado, o que ajudou a manter o conjunto arquitetônico, artístico e natural da ex-capital. Contudo, as cidades históricas de Minas só seriam redescobertas como local de interesse turístico em 1924, quando foram visitadas pelos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e pelo poeta francês Blaise Cendrars.
Os artistas que renovavam a cena estética e cultural brasileira revalorizaram o barroco mineiro como arte nacional, despertando o interesse pela figura de Aleijadinho no Brasil e no mundo.
Em 1933, a cidade passou a ser Monumento Nacional e, em 1938, foi tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
Com a criação da Universidade Federal de Ouro Preto, em 1969, a cidade retomou sua vocação artística e cultural. Em 1980, após estudos feitos por uma equipe de especialistas da Unesco, foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Igrejas em destaque
O hábito religioso ainda é seriamente cultivado na sociedade de Ouro Preto. O conjunto de 27 igrejas e capelas, ricamente adornadas, envolve os cultos católicos em clima de pura arte. Exemplar tipicamente barroco, a Igreja de São Francisco de Assis espanta pela beleza e pelo contraste do ouro com a vida simples levada pelo santo que dá nome à casa paroquial.
A planta do edifício, a tribuna do altar-mor e os altares laterais, além das esculturas da portada, púlpitos e a capela-mor, são obra do mestre Aleijadinho.
A pintura do forro da igreja foi feita de forma tridimensional por Manuel da Costa Ataíde, grande artista da época, responsável por feitos em outras igrejas. A construção da Igreja de São Francisco de Assis foi iniciada em 1766 e terminada somente em 1810, marcando a terceira fase do barroco mineiro, caracterizado pela aproximação com o rococó, estilo então em voga na Europa.
As festas religiosas continuam a ser grande atrativo para visitantes, pois ainda são comemoradas segundo a tradição setecentista. Na ocasião da Semana Santa e de Corpus Christi, a população local realiza grandes procissões em que os participantes usam trajes próprios e carregam santos e aparatos litúrgicos enquanto caminham sobre as ruas enfeitadas de serragem colorida e flores, formando um tapete de cores desenhos, ao som dos sinos que os acompanham. Também são realizados autos e montagens litúrgicas, em que são encenados as histórias bíblicas.
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