Ouro Preto é um roteiro histórico que abriga muitas riquezas naturais e atrações turísticas para toda a família

A Praça Tiradentes, coração de Ouro Preto, onde foi exposta, em 1789, a cabeça do mártir da Inconfidência Mineira (Foto: Editora Europa/Viaje Mais)
“Aos oito dias do mês de julho do ano de mil setecentos e onze, neste Arraial das minas geraes do oiro preto (...), na forma das ordens de Sua Majestade (...) determina erigir neste mesmo Arraial uma nova povoação (...), atendendo às riquezas que prometiam as minas, que há tantos anos lavram nestes morros e ribeiras (...) e que o nome da Villa seja Villa Rica de Albuquerque.”
Assim foi lavrado o termo de fundação de Ouro Preto, antiga Vila Rica, a mais importante cidade do Brasil colonial, que recentemente completou 300 anos. A criação da cidade ocorreu duas décadas depois da famosa expedição do bandeirante paulista Antônio Dias Paes, que, a caçar índios naquele sertão distante, encontrou ouro às margens de um riacho. O minério de alto quilate vinha envolto em uma camada de óxido de ferro – daí a cor preta das pepitas retiradas pelas gamelas.
A notícia provocou um grande alvoroço, e a corrida do ouro teve início no Brasil. Mesmo privada de recursos, encravada em meio às montanhas de Minas Gerais, Vila Rica encheu de gente. “Das vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, padres e clérigos”, anotou o jesuíta italiano João Antônio Andreoni, na obra Cultura e Opulência do Brasil, de 1711, ao descrever a sociedade ouropretana que se formava.
Os portugueses cuidaram para dar à cidade o aspecto digno de sua fama e riqueza. E logo ela se tornou, no sentido literal, a pérola mais preciosa da colônia.
Muito ouro e muito luxo
Entre 1700 e 1799, foram extraídas cerca de 900 toneladas de ouro dos cascalhos dos riachos e das duas mil bocas de minas que existiam nos arredores de Ouro Preto. E isso sem levar em conta a quantia contrabandeada.
A riqueza do garimpo cobriu de luxo a elite portuguesa e financiou a construção de casarões e igrejas, ornamentadas com o melhor da arte barroca. Vila Rica prosperou rápido e, em 1750, já era o principal centro intelectual do Brasil. Nessa época, a cidade tinha cerca de 150 mil habitantes, a maior parte composta de escravos na labuta das minas. Era uma das mais promissoras cidades do mundo, uma metrópole do século 18, maior do que Nova York e São Paulo no mesmo período.
Presente e passado
Quem caminha pelas ruas de pedras de Ouro Preto percebe que o tempo ali parou um pouco. Presente e passado misturam-se nas fachadas centenárias e nos altares talhados em madeira e ouro das igrejas. A Serra do Itacolomi faz uma moldura natural à cidade e traz uma brisa fria ao cair da tarde. Do alto dos mirantes, impressiona a vista do labirinto de ruelas tortuosas, com igrejas despontando no alto de cada morro.
Primeira cidade brasileira tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1980, Ouro Preto guarda o maior conjunto arquitetônico do período colonial. Em parte do centro histórico não se veem postes, pois a fiação elétrica é subterrânea, de modo a não descaracterizar o clima de antigamente. Sempre há um ângulo, um detalhe interessante, um canto fotogênico nesta cidade que é a preferida de quem gosta de história, cultura e feijão-tropeiro.
Ouro Preto tem um charme que encanta e aguça a criatividade. Ao olhar o casario e as montanhas que rodeiam a cidade, não é peciso esforço para imaginar os escravos trabalhando no garimpo da Mina do Chico Rei. Ou pensar nos inconfidentes em reuniões noturnas, sob a luz dos candeeiros, a tramar contra a Coroa portuguesa e desenhar o símbolo do levante revolucionário com os dizeres libertas quae sera tamen: liberdade ainda que tardia, em latim, que hoje estampa a bandeira mineira.
Quem entra na Igreja de São Francisco de Assis, a obra-prima do barroco mineiro, poderia até ouvir Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, batendo martelo e cinzel para esculpir a pedra-sabão dos púlpitos. Ou então o apaixonado poeta Tomás Antônio Gonzaga, que costurou de próprio punho, com fios de ouro, o vestido nupcial da noiva, a quem dedicou o inspirarado poema Marília de Dirceu.
A bruma das manhãs trata de acentuar ainda mais os mistérios de Ouro Preto, que estão ali, escancarados, para quem se dispuser a desvendá-los. Basta ter olhos atentos e um bom par de pernas para caminhar pelas ladeiras.
A restauração
Sorte que nem tudo está preso ao passado em Ouro Preto, e a cidade passa por um elogiável processo de restauração, iniciado há seis anos. No começo do novo milênio, o efeito do tempo sobre as construções, em forma de infiltrações, rachaduras e até incêndios, evidenciava o mau estado de conservação das igrejas e monumentos.
Extraoficialmente, a Unesco ameaçou retirar o título de Patrimônio da Humanidade e encaminhou um relatório ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional), clamando cuidados com a manutenção dos casarões, atenção à poluição visual e ao trânsito caótico no centro antigo. O incêndio no Hotel Pilão, na Praça Tiradentes, em 2005, foi a gota d’água do descaso com o precioso patrimônio local.
A ameaça surtiu efeito e, no ano seguinte, iniciou-se a guinada para recuperar Ouro Preto. Primeiro com a iniciativa da Vale do Rio Doce, que financiou a reativação da velha maria-fumaça, a qual circula entre a cidade e Mariana. O projeto exigiu o restauro de locomotiva, vagões, estações e linha férrea, que tem, no total, 18 km de extensão. Hoje, passear no trem é um dos mais agradáveis programas que se pode fazer em Ouro Preto.
No mesmo ano, teve início a obra de restauro da antiga Casa da Ópera, atual Teatro Municipal, reaberto em 2007. Foram gastos cerca de R$ 500 mil, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para reerguer e reativar o teatro, datado de 1769. Nessa época, as mulheres eram proibidas de atuar e os papéis femininos eram encenados por homens. Hoje, o Teatro Municipal de Ouro Preto é o mais antigo em funcionamento na América Latina. Tem acústica elogiável, capacidade para 400 pessoas e, após a reforma, ganhou um bar-café e um moderno sistema anti-incêndio.
Ao mesmo tempo, um programa de restauro das igrejas e de casarões particulares teve início por meio de empréstimos, com juros amigáveis, obtidos junto à Caixa Econômica Federal. Isso já garantiu a recuperação de meia centena de edifícios.
Apoio da prefeitura
A prefeitura, por sua vez, aderiu ao esforço de preservação ao criar a Secretaria de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano, que passou a coordenar projetos de melhoria no núcleo antigo, em parceria com o Iphan. Diversas interferências foram feitas nesse sentido. O antigo Horto Botânico de Villa Rica, localizado entre a rodoviária e a Igreja de Nossa Senhora do Pilar – e que seria transformado num lixão –, deu lugar ao Parque Horto dos Contos. Esse agora é um trecho arborizado com trilhas, playgrounds, fontes e anfiteatro. A Praça Tiradentes, marco zero da cidade, teve a área de estacionamento reduzida.
Outra medida foi a criação de terminais de ônibus nas saídas da cidade, para reduzir a circulação de coletivos no centro. Já o programa Museu Aberto espalhou placas explicativas na frente das igrejas e casas mais importantes. E os guias – uma antiga reclamação dos visitantes, que costumavam ser abordados insistentemente por eles – passaram a receber treinamento e ganharam credenciamento na Secretaria de Turismo. É fácil identificá-los pelo crachá e pela camisa da associação de condutores local.
Nos finais de semana, chegam tantos turistas a Ouro Preto que as ruas estreitas quase não dão conta de absorver o fluxo de veículos, de forma que é preciso parar o carro para que os outros, que vêm em sentido oposto, possam passar.
Pousadas e restaurantes
As melhorias já foram sentidas pelo empresariado mineiro que, animado com o renascimento de Ouro Preto, voltou a investir no turismo da cidade. O resultado é a abertura de diversas pousadas, cafeterias e bares nos últimos dois anos. É o caso das pousadas do Ouvidor, dos Ofícios, Laços de Minas, Solar de Maria e do Hotel do Teatro, todos confortavelmente equipados com camas box, edredons macios e, com exceção da Pousada dos Ofícios, móveis de antiquário. Juntos, esses empreendimentos ampliaram consideravelmente o nível de conforto em Ouro Preto.
O tradicional Hotel Solar do Rosário mudou de mãos e passou por uma ampla reforma. Trocou o jeitão francês pelo autêntico estilo mineiro. A casa ao lado foi anexada para que fossem erguidos novos apartamentos, e o hotel se transformou no maior do centro histórico, com 41 quartos.
Para quem tanto caminha pelas ruas de pedra e clama por uma pausa para descansar as pernas e tomar um café, há a nova cafeteria Barroco & Barraco, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. É o lugar certo para provar o melhor pão de queijo da cidade: o Formaggio Mineiro, macio e de casca delicada, que leva 40% de queijo na receita (seis unidades custam R$ 12). Para acompanhar, peça um espresso com café Braúna, marca da cidade mineira de Ervália, que merece ser provado com chantili gelado e raspinhas de laranja (R$ 4).
A cafeteria, mistura de brechó e loja de artesanato, tem apenas quatro mesas no interior e duas do lado de fora, bem de frente ao Largo do Rosário. Nos finais de semana, o proprietário Danilo Avelar, que é músico, leva o piano para fora do espaço e promove um happy hour ao ar livre. Na falta de mesas, o pessoal se acomoda na mureta da igreja, enquanto passam as bandejas com pães de queijo quentinhos.
Na Rua Direita, o corredor boêmio de Ouro Preto, cheia de bares e sempre tomada por estudantes das faculdades, também há novidade. No subsolo do restaurante Café das Gerais, agora funciona o Escada Baixo, um pub no melhor estilo londrino, com rock inglês, badalar de sino e encerramento dos serviços às 2h. A casa é um dos poucos lugares onde se encontra o chope Ouropretano, que começou a ser produzido em uma pequena fábrica artesanal, pertencente aos proprietários da Pousada dos Ofícios.
O pub Escada Baixo tem dois ambientes, um deles intimista, com luzes em néon, e outro no quintal, nos fundos do casarão. O espaço é coberto por um toldo que simula a célebre pintura do forro da Igreja de São Francisco de Assis, pintada por Manoel da Costa Athayde, o Mestre Athayde, um dos expoentes do barroco mineiro. Uma pequena amostra do talento que Ouro Preto tem para unir passado e presente com harmonia e criatividade.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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