Ouro Preto é um roteiro histórico que abriga muitas riquezas naturais e atrações turísticas para toda a família

Feb 09, 2012
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A Praça Tiradentes, coração de Ouro Preto, onde foi exposta, em 1789, a cabeça do mártir da Inconfidência Mineira (Foto: Editora Europa/Viaje Mais)

A Praça Tiradentes, coração de Ouro Preto, onde foi exposta, em 1789, a cabeça do mártir da Inconfidência Mineira (Foto: Editora Europa/Viaje Mais)

“Aos oito dias do mês de julho do ano de mil setecentos e onze, neste Arraial das minas geraes do oiro preto (...), na forma das ordens de Sua Majestade (...) determina erigir neste mesmo Arraial uma nova povoação (...), atendendo às riquezas que prometiam as minas, que há tantos anos lavram nestes morros e ribeiras (...) e que o nome da Villa seja Villa Rica de Albuquerque.” 

Assim foi lavrado o termo de fundação de Ouro Preto, antiga Vila Rica, a mais importante cidade do Brasil colonial, que recentemente completou 300 anos. A criação da cidade ocorreu duas décadas depois da famosa expedição do bandeirante paulista Antônio Dias Paes, que, a caçar índios naquele sertão distante, encontrou ouro às margens de um riacho. O minério de alto quilate vinha envolto em uma camada de óxido de ferro – daí a cor preta das pepitas retiradas pelas gamelas.

A notícia provocou um grande alvoroço, e a corrida do ouro teve início no Brasil. Mesmo privada de recursos, encravada em meio às montanhas de Minas Gerais, Vila Rica encheu de gente. “Das vilas, recôn­cavos e sertões do Brasil vão bran­cos, pardos e pretos, e muitos ín­dios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda condição de pessoas: homens e mulheres, mo­ços e velhos, pobres e ricos, no­bres e plebeus, padres e clérigos”, anotou o jesuíta italiano João Antônio Andreoni, na obra Cultu­ra e Opulência do Brasil, de 1711, ao descrever a sociedade ouro­pretana que se formava.

Os portugueses cuidaram para dar à cidade o aspecto digno de sua fama e riqueza. E logo ela se tornou, no sentido literal, a pérola mais preciosa da colônia.

Muito ouro e muito luxo

Entre 1700 e 1799, foram ex­traídas cerca de 900 toneladas de ouro dos cascalhos dos riachos e das du­as mil bocas de minas que existiam nos arredo­res de Ouro Preto. E isso sem levar em conta a quan­tia contrabandeada.

A riqueza do garimpo cobriu de luxo a elite portu­guesa e finan­ciou a construção de casarões e igrejas, ornamentadas com o me­lhor da arte barroca. Vila Rica prospe­rou rápido e, em 1750, já era o princi­pal centro in­telectual do Brasil. Nessa época, a cidade tinha cerca de 150 mil habitantes, a maior parte compos­ta de escra­vos na labuta das mi­nas. Era uma das mais promisso­ras cidades do mundo, uma metró­pole do século 18, maior do que Nova York e São Paulo no mesmo período. 

Presente e passado

Quem caminha pelas ruas de pedras de Ouro Preto percebe que o tempo ali parou um pouco. Pre­sente e passado misturam-se nas fachadas centenárias e nos altares ta­lhados em madeira e ouro das i­grejas. A Serra do Itacolomi faz uma moldura natural à cidade e traz uma brisa fria ao cair da tar­de. Do alto dos mirantes, im­pres­siona a vista do labirinto de ruelas tortuosas, com igrejas despontan­do no alto de cada morro.

Primeira cidade brasileira tom­bada como Patri­mônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1980, Ouro Preto guarda o maior conjunto arquite­tônico do perío­do colonial. Em parte do centro histórico não se veem postes, pois a fiação elétrica é subterrânea, de modo a não descarac­terizar o cli­ma de antigamente. Sempre há um ângulo, um detalhe interes­sante, um canto fotogênico nesta cidade que é a preferida de quem gosta de história, cultura e feijão-tropeiro.

Ouro Preto tem um charme que encanta e aguça a criativi­dade. Ao olhar o casario e as montanhas que rodeiam a cidade, não é peciso es­forço para imagi­nar os escravos trabalhando no garimpo da Mina do Chico Rei. Ou pensar nos inconfidentes em reu­niões notur­nas, sob a luz dos can­deei­ros, a tra­mar contra a Coroa por­tuguesa e desenhar o símbolo do levante re­vo­lucionário com os dizeres libertas quae sera tamen: liber­da­de ainda que tardia, em latim, que hoje es­tampa a ban­deira mineira.

Quem entra na Igreja de São Francisco de Assis, a obra-prima do barroco mineiro, poderia até ouvir Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, batendo martelo e cinzel para esculpir a pedra-sa­bão dos púlpitos. Ou então o a­paixo­nado poeta Tomás Antônio Gon­zaga, que costurou de pró­prio punho, com fios de ouro, o vesti­do nupcial da noiva, a quem dedicou o inspi­rarado poema Marília de Dirceu.

A bruma das manhãs trata de acentuar ainda mais os mistérios de Ouro Preto, que estão ali, es­cancarados, para quem se dispu­ser a desvendá-los. Basta ter olhos atentos e um bom par de pernas para caminhar pelas ladeiras. 

A restauração

Sorte que nem tudo está preso ao passado em Ouro Preto, e a ci­dade passa por um elogiável pro­cesso de restauração, iniciado há seis anos. No começo do novo mi­lênio, o efeito do tempo sobre as construções, em forma de in­filtra­ções, rachaduras e até incên­dios, evidenciava o mau estado de con­servação das igrejas e mo­numentos.

Extraoficialmente, a Unesco a­meaçou retirar o título de Patri­mô­nio da Humanidade e encami­nhou um relatório ao Iphan (Ins­tituto do Patrimônio Histórico e Arquite­tônico Nacional), claman­do cuida­dos com a manutenção dos casa­rões, atenção à poluição visual e ao trânsito caótico no centro antigo. O incêndio no Hotel Pi­lão, na Praça Tiradentes, em 2005, foi a gota d’água do desca­so com o precioso patrimônio local.

A ameaça surtiu efeito e, no ano seguinte, iniciou-se a guinada para recuperar Ouro Preto. Pri­meiro com a iniciativa da Vale do Rio Do­ce, que finan­ciou a reativa­ção da velha maria-fumaça, a qual circula entre a cidade e Mariana. O projeto exigiu o restauro de locomotiva, vagões, estações e linha férrea, que tem, no total, 18 km de extensão. Hoje, passear no trem é um dos mais agradáveis programas que se pode fazer em Ouro Preto.  

No mesmo ano, teve início a obra de restauro da antiga Casa da Ópera, atual Teatro Municipal, reaberto em 2007. Foram gastos cerca de R$ 500 mil, com recur­sos do Banco Interamericano de De­senvolvi­mento (BID), para reerguer e reativar o teatro, datado de 1769. Nessa época, as mulheres eram proibidas de atuar e os papéis fe­mininos eram ence­nados por ho­mens. Hoje, o Teatro Municipal de Ouro Preto é o mais anti­go em funcionamento na Amé­rica Lati­na. Tem acústica elogiável, capa­cidade para 400 pessoas e, após a reforma, ganhou um bar-café e um mo­der­no sistema anti-incêndio.

Ao mesmo tempo, um progra­ma de restauro das igrejas e de casarões particulares teve início por meio de empréstimos, com juros amigáveis, obtidos junto à Caixa Econômica Fe­deral. Isso já ga­ran­tiu a recu­pe­ra­ção de meia cen­tena de edifícios.

Apoio da prefeitura

A prefeitura, por sua vez, aderiu ao esforço de preservação ao criar a Secretaria de Patrimô­nio e Desenvolvimento Urbano, que passou a coordenar projetos de melhoria no núcleo antigo, em parceria com o Iphan. Diversas interferências foram feitas nesse sentido. O antigo Horto Botânico de Villa Rica, localizado entre a rodoviária e a Igreja de Nossa Se­nhora do Pilar – e que seria trans­forma­do num lixão –, deu lugar ao Parque Horto dos Contos. Esse  agora é um trecho arbo­rizado com trilhas, playgrounds, fontes e an­fiteatro. A Praça Tira­dentes, marco zero da cidade, teve a área de esta­ciona­mento reduzida.

Outra medida foi a criação de termi­nais de ôni­bus nas saídas da ci­dade, para reduzir a circulação de coletivos no centro. Já o progra­ma Museu Aberto espa­lhou placas explicativas na frente das igrejas e casas mais impor­tantes. E os guias – uma antiga reclamação dos visi­tantes, que costumavam ser aborda­dos insis­tentemente por eles – pas­saram a receber treinamento e ga­nharam credenciamento na Secre­taria de Turismo. É fácil identificá-los pelo crachá e pela camisa da associação de condutores local.

Nos finais de semana, chegam tantos turistas a Ouro Preto que as ruas estreitas quase não dão conta de absorver o fluxo de veícu­los, de forma que é preciso parar o carro para que os outros, que vêm em sentido oposto, possam passar.

Pousadas e restaurantes

As melhorias já foram sentidas pelo empresa­riado mineiro que, animado com o renasci­mento de Ouro Preto, vol­tou a investir no turismo da cidade. O resultado é a abertura de diversas pou­sadas, cafeterias e bares nos úl­ti­mos dois anos. É o caso das pousadas do Ou­vidor, dos Ofícios, Laços de Minas, Solar de Maria e do Hotel do Tea­tro, todos confortavelmente equi­pa­dos com camas box, edredons ma­cios e, com exceção da Pousada dos Ofícios, móveis de antiquário. Jun­tos, esses empreendimentos amplia­ram consideravelmente o nível de conforto em Ouro Preto.

O tradicional Hotel Solar do Rosário mudou de mãos e passou por uma ampla refor­ma. Trocou o jeitão francês pelo autêntico estilo mineiro. A casa ao lado foi anexada para que fossem erguidos novos apartamentos, e o hotel se transfor­mou no maior do centro histórico, com 41 quartos.

Para quem tanto caminha pelas ruas de pedra e clama por uma pau­sa para descansar as pernas e tomar um café, há a nova cafeteria Barro­co & Barraco, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. É o lu­gar certo para provar o melhor pão de queijo da cidade: o Formaggio Mineiro, macio e de casca delicada, que leva 40% de queijo na receita (seis unidades custam R$ 12). Para acompanhar, peça um espresso com café Braúna, marca da cidade mi­neira de Ervália, que merece ser provado com chantili gelado e ras­pinhas de la­ranja (R$ 4).

A cafeteria, mistura de brechó e loja de artesanato, tem apenas quatro mesas no interior e duas do lado de fora, bem de frente ao Lar­go do Rosário. Nos finais de sema­na, o proprietário Danilo Avelar, que é músico, leva o piano para fo­ra do espaço e promove um happy hour ao ar livre. Na falta de mesas, o pes­soal se aco­moda na mureta da igre­ja, en­quan­to passam as ban­dejas com pães de queijo quen­tinhos.

Na Rua Direita, o corredor boê­mio de Ouro Preto, cheia de bares e sempre tomada por es­tudantes das faculdades, também há novi­dade. No subsolo do res­tau­rante Café das Gerais, agora fun­cio­na o Escada Baixo, um pub no melhor estilo londrino, com rock inglês, ba­dalar de sino e en­cerramento dos serviços às 2h. A casa é um dos poucos lugares onde se encontra o chope Ouro­pretano, que começou a ser pro­duzido em uma pequena fábrica artesanal, pertencente aos proprie­tá­rios da Pousada dos Ofí­cios.

O pub Escada Baixo tem dois ambientes, um deles inti­mista, com luzes em néon, e outro no quintal, nos fundos do casarão. O espaço é coberto por um toldo que simula a célebre pintura do forro da Igreja de São Francisco de Assis, pintada por Manoel da Costa Athayde, o Mestre Athayde, um dos expoentes do barroco mineiro. Uma pequena amostra do talento que Ouro Preto tem para unir passado e presente com harmonia e criatividade.

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