Tiradentes é parada obrigatória para quem vai para Minas Gerais
O estilo colonial das casas, as simpáticas janelas envidraçadas, o calçamento de pedra da rua, a torre da igreja ao fundo, com fachada de Aleijadinho e mais de 500 quilos de ouro em seu interior, a torna a segunda mais rica do Brasil. Mas ainda falta algo nela. Algo tão comum nas cidades brasileiras que, em princípio, nem nos damos conta da sua presença. Ou, no caso, da sua ausência.
Não, não são os automóveis, que também existem por aqui, embora em menor número até do que as charretes que levam os turistas para passear pelas ruas de piso irregular, onde, se já é difícil caminhar, imagine então dirigir. Também não são as multidões caminhando para lá e para cá, como costuma acontecer em locais de apelo turístico, como é o caso desta cidade, uma das mais famosas do circuito histórico de Minas Gerais. O que falta nesta foto é um mero detalhe – tão insignificante que você, muito provavelmente, ainda nem notou. Mas que exemplifica bem por que Tiradentes é o que é. E o que é? Bem, continue lendo que você vai descobrir.
Foi, aliás, por causa desse simples detalhe que a Globo transformou Tiradentes num cenário permanente para suas minisséries de época. Já foram filmadas ali Os Maias e Hilda Furacão, entre outras histórias, o que transformou certos famosos, como Ana Paula Arósio, Luana Piovani e Marcos Palmeira, freqüentadores tão corriqueiros da cidade quanto o charreteiro Marquinhos, que todo mundo olha e jura que é o Milton Nascimento, já que um tem a cara do outro e ambos vivem por lá.
É fácil encontrar personalidades em Tiradentes, seja de que área for. De tempos para cá, a cidade virou um desses redutos chiques do Brasil. Como uma espécie de Búzios sem praia. Tem até um Festival de Gastronomia, em agosto, que está entre os mais concorridos do país. Nas rodas sociais, pega bem dizer que está indo para Tiradentes. Você será olhado com admiração e uma ponta de inveja. Mas melhor mesmo é ficar um tempinho por lá.
Não muito, é verdade, porque a cidade é minúscula e três ou quatro dias bastam para você ver tudo, fazer todos os passeios e decorar todos os caminhos. Mas, como Tiradentes faz parte do chamado circuito das cidades históricas e não fica distante de outros centros turísticos, como São João del Rey e Ouro Preto, ela pode – e deve! – entrar em qualquer roteiro mais longo por Minas Gerais. Muito provavelmente, inclusive, será a melhor de todas as paradas. Porque não há quem não saia de lá meio apaixonado pela cidade. A razão disso tem a ver com aquele tal detalhe que você ainda deve estar tentando adivinhar.
Bem-vindo à cidade das compras
Tiradentes é a mais preservada das cidades coloniais brasileiras. Mais até do que Ouro Preto que, no entanto, é bem mais famosa. É, no mínimo, mais autêntica e bonitinha. Uma espécie de cidade-presépio, no interior de Minas Gerais. Mas não é só isso o que encanta quem a visita. Quem vai sempre gosta, por um conjunto de razões dentre as quais a arquitetura colonial adequadamente restaurada é apenas mais uma.
Há, por exemplo, a questão da qualidade das pousadas, já que boa parte delas tem instalações acima da média. Algumas são quase mini-hotéis exclusivos, perfeitos para quem privilegia a mordomia e não se incomoda em pagar um pouco a mais por isso. Mas nem tanto assim, o que é outra característica positiva da cidade. Mesmo as melhores pousadas cobram preços decentes para o que oferecem, desde que fora das épocas mais movimentadas. E quem não quer gastar tanto assim tem a opção de dormir igualmente bem, pagando menos da metade disso. Porque sobram pousadas em Tiradentes. E todas mantêm a tradição de um farto café da manhã, com muito bolo e pão de queijo.
Outro ponto positivo da cidade são as compras. Nem o mais sovina dos turistas consegue sair de Tiradentes de mãos abanando. A região produz um dos artesanatos mais originais e de bom gosto do país. Como curiosas bonecas de madeira que imitam pessoas na janela e são uma espécie de símbolo da cidade. Ou os quadros feitos com graciosas miniaturas de madeira, as famosas "bundinhas", que hoje decoram, por exemplo, o sofisticado spa do novo Club Med, em Trancoso, e são originárias da Oficina de Agosto, de Bichinho (o nome do lugar é esse mesmo!). Bichinho, inclusive, é um passeio obrigatório: um reduto de artistas e artesãos, a menos de sete quilômetros de Tiradentes, que produz interessantíssimas peças de madeira e ferro a preços módicos, como uma Bali de Minas Gerais. Além disso, a cidade é pródiga em mobiliário antigo, o que a torna uma espécie de Meca para arquitetos e decoradores.
Onde comer
E há os restaurantes, todos pequenos no tamanho mas enormes na qualidade da comida. Tanto que Tiradentes tornou-se uma referência para gourmets de todo o país, embora – e é aí que está a diferença! – com preços que qualquer turista pode pagar. A cidade tem pelo menos uns vinte endereços onde comer é mais do que um grande prazer: é quase a verdadeira razão de estar ali. Há quem diga que em Tiradentes deveria ser sempre noite, só para ter o pretexto de jantar várias vezes por dia. O cardápio é eclético: vai de pratos franceses afrescalhados à mais típica cozinha mineira de fogão a lenha. Na porta do restaurante Viradas do Largo, uma plaquinha diz muito sobre a importância da culinária na atual vida da cidade: "A pressa é inimiga da refeição". E ali é mesmo.
Principalmente porque não há razão alguma para ter pressa num lugar onde o padre ainda anuncia pelos alto-falantes da paróquia as notícias mais relevantes da vila, como o desaparecimento do cachorrinho da casa tal ou o início das festas de comemoração do aniversário do filho mais ilustre da terra, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, que dá nome à cidade, mas que, tecnicamente, nasceu mesmo numa fazenda da hoje vizinha Ritápolis. De qualquer modo, foi em Tiradentes que aconteceram as primeiras reuniões dos inconfidentes, que mais tarde, de uma forma ou de outra, levaram à independência do Brasil. E muitas delas aconteceram na casa do então Padre Toledo, hoje transformada em museu e, claro, nome de restaurante.
Comer no Padre Toledo é prazer na certa. No Aluarte, onde a cozinha é aberta e há até um sofá ao lado do fogão a lenha para você ficar conversando com a cozinheira enquanto ela prepara os pratos, também (experimente as pizzas fritas, por R$ 20). Já o Sapore D´Italia serve massas divinas por R$ 15, enquanto no econômico Spaguetti quase nada do cardápio passa dos R$ 10. O Dona Xepa tem tradição no típico frango com ora-pro-nóbis (se não souber o que é, veja o quadro ao lado), que custa R$ 20, enquanto o acanhando Uai permite, por esse mesmo valor, provar metade de dois pratos diferentes.
Mas, em popularidade e fama de economia, a unanimidade local é o simplérrimo Restaurante da Mercês, que funciona nos fundos da casa da própria dona e serve pratos enormes por preços mínimos. Um feijão tropeiro, que vem a ser um quase banquete mineiro, com ovos, farinha, bacon, lingüiça, mandioca, lombo, torresmo, couve, arroz e, naturalmente, feijão. Para acompanhar, serve Mate Couro, um refrigerante tipicamente mineiro. Onde é? Nem precisa de endereço: todo mundo na cidade conhece e ensina.
Afinal, o centro histórico de Tiradentes não tem mais que meia dúzia de ruas, todas tão bem conservadas quanto as velhas Maria-Fumaça (as últimas do Brasil, por sinal) que, nos fins de semana, ligam à vizinha São João Del Rey por uma ferrovia inaugurada ainda por D. Pedro I – é, de longe, o passeio mais original da cidade. Nele, o que mais chama a atenção são as pedras pé-de-moleque do calçamento por onde rangem as charretes e o casario colonial impecável, como nos tempos da Inconfidência. Tudo é tão bem-preservado que você nem nota que, a despeito de as casas hoje usarem lâmpadas em vez de lampiões, não há fio algum comprometendo a paisagem. Porque em Tiradentes não existem postes. E, caso você ainda não tenha descoberto, é justamente isso o que falta naquela foto.
Estrutura para hospedagem
Tiradentes já tem mais de 60 pousadas, além de casas particulares que, nos festivais e datas especiais, alugam quartos e recebem hóspedes. Com tamanha oferta, não é muito difícil encontrar lugar, desde que não haja nenhum evento especial na cidade – senão, lota rapidinho. Se for um fim de semana normal, porém, não precisa nem fazer reserva. O mais complicado, no caso, será escolher uma entre tantas ofertas. Por isso, o melhor é chegar, visitar algumas pousadas (já vale como passeio) e escolher a que melhor combina com seu estilo. Mas, na grande maioria dos casos, é perfeitamente possível negociar valores, especialmente se forem mais de duas noites ou dias de semana.
Numa pousada como a Maria Bonita , que tem uma agradável área interna os preços são baseados na temporada, assim como na bem-localizada Pousada do Largo, que fica na praça principal da cidade. Outras boas opções são as interessantes Pousada Vagalume, São Francisco, Pé de Serra, Berço da Liberdade e Brisa da Serra. Cada uma tem o seu charme, como a agradável Pousada da Terra, que fica afastada da cidade e tem um gostoso clima de fazendinha, além de um chalé, chamado Casinha da Vovó, que é uma graça.
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