Conheça o litoral de Moçambique com ilhas paradísicas e hotéis luxuosos

Feb 09, 2012
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Beleza e pobreza raramente rimam fora do mundo das palavras. Uma das exceções pode ser Moçambique, um país pobre em termos materiais, mas extremamente belo. Os anos difíceis da guerra civil, iniciada logo depois de sua independência de Portugal, em 1975, e que se arrastou até 1992, só agora estão sendo superados por um vigoroso crescimento econômico (o índice foi de 6,2% em 2010), mas que ainda não tem se refletido, de fato, na vida da população mais pobre.

Apesar das dificuldades enfrentadas por grande parte do povo, Moçambique é um destino seguro e acolhedor. Com os brasileiros, a relação é ainda mais especial, por conta da língua compartilhada. Embora os moçambicanos tenham um sotaque bastante diferente, eles compreendem bem o português falado por brasileiros. Isso se deve, em boa parte, às novelas da Rede Globo exibidas lá, sem dublagem – e que fazem o maior sucesso.

Com cerca de 2.400 km de litoral, Moçambique é um destino cheio de opções tanto para quem está a fim de uma viagem com sabor de aventura como para quem busca conforto e exclusividade. Sim, você leu direitinho. Além de um destino para mochileiros que acham o máximo pegar um barco e navegar por horas para chegar às melhores praias, o país africano é um verdadeiro paraíso tropical, com ilhas cercadas por uma impressionante água turquesa e resorts cheios de mordomias.        

Para satisfazer esses dois tipos de viajantes, o Viaje visitou o país e indica dois destinos incríveis. Um é a Ilha de Moçambique, primeiro assentamento português na costa do Oceano Índico. O outro é o Arquipélago de Quirimbas, reserva natural banhada por uma água azulzinha e que mescla ilhas com resorts super bem estruturados e outras com bucólicos cenários de ruínas e ruas de areia. Antes de conhecer esses lugares especiais, confira uma escala na capital moçambicana, Maputo. 

Capital aprazível 

A Ilha de Moçambique e o Arquipélago de Quirimbas ficam na porção norte do País. Para chegar aos dois lugares, a maneira mais fácil é a partir de Maputo, alcançada desde o Brasil pelos vôos, com conexão na África do Sul, da South African Airways. Para os que dispõem de um ou dois dias a mais, vale a pena conhecer a capital, situada no extremo sul de Moçambique, antes de partir para explorar o norte do país.

A cidade é lembrada como uma das mais aprazíveis capitais da África subsaariana. O mar, na ampla Baía de Maputo, e as ruas bastante arborizadas – com pré- dominância dos floridos jacarandás – são os aspectos que mais contam para essa apreciação. Apesar de ainda ter muitos prédios abandonados e ruas mal pavimentadas, Maputo vive um boom, com construções sendo erguidas por toda a parte.

O dia na capital pode começar com uma caminhada pelo centro da cidade. O marco da região é a Praça da Independência, onde estão a catedral, a sede da prefeitura e o hotel Rovuma, um dos mais tradicionais de Maputo.

No cantinho da praça fica o Centro Cultural Franco Moçambicano, que abriga exposições e eventos culturais. Instalado em uma mansão de estilo mediterrâneo, com amplas varandas, o local também conta com um café e uma loja de artesanato e roupas, que comercializa uma bela seleção de artigos. Confira a programação do local, pois são frequentes as apresentações de música moçambicana de boa qualidade.

Subindo desde a Praça da Independência, é fácil chegar à larga Avenida 24 de Julho. Essa é uma das principais vias de Maputo, onde dá para perceber que os carros circulam na mão inglesa – influência dos países vizinhos, todos ex-colônias britânicas. Mesmo não tendo sido colonizados pelos ingleses, Moçambique, assim como Ruanda, são os únicos países “estranhos no ninho” da Commonwealth, organização que reúne 55 nações que compartilham laços com a Inglaterra.

Uma outra influência, essa trazida do Oriente, são os tuk-tuks, triciclos cobertos e usados como táxi. A corrida num desses tem custo próximo ao do táxi convencional, mas vale a pena apostar no inusitado meio de transporte. Apesar de pequeno, o tuk-tuk é aberto nas laterais, propiciando uma sensação de liberdade. 

Vista da baía 

A Avenida 24 de Julho, ampla e arborizada, concentra os principais pontos comerciais da cidade. Ao final dela surge o mar, visto do alto da colina. Basta andar um pouco mais para chegar ao Jardim dos Namorados, onde os banquinhos escondidos sob a sombra das árvores convidam à contemplação da paisagem. Perto dali, o Hotel Cardoso é outro lugar perfeito para uma pausa, seja na hora do almoço ou no fim da tarde. O hotel conta com uma área externa com piscina e vista privilegiada para toda a Baía de Maputo.

A parte mais agitada da cidade está na Baixa, em torno da Avenida 25 de Setembro, paralela à 24 de Julho. Na Baixa estão a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, construída pelos portugueses no século 19, e o Mercado Municipal, que fica aberto o dia todo e conta com uma grande variedade de produtos a preços bem mais em conta do que os praticados em hotéis e restaurantes. A região também abriga a mesquita central de Maputo e a embaixada do Brasil, que acolhe exposições de arte.

A passagem pela Baixa revela ainda a Casa Elefante, loja que oferece uma grande variedade de capulanas. Esse é o nome dado aos cortes de tecido usados pelas moçambicanas nas mais diversas situações, seja como saia ou vestido de corpo inteiro, seja para funções utilitárias, como carregar uma criança nas costas. Gostou e quer trazer uma peça para o Brasil? Peça, então, dicas à vendedora de como envolver o tecido junto ao corpo e prendê-lo, já que esse é o “pulo do gato” da capulana.

Antes de partir do sul do país, mais um tour é recomendado. É o que leva à Ilha de Inhaca, uma reserva ecológica situada a duas horas de barco de Maputo, distância suficiente para garantir um dia relaxante à beira-mar – e onde não é má ideia ficar hospedado, ao menos de um dia para o outro. 

Ilha de Moçambique 

Rumando para o norte, uma das melhores possibilidades de passeio é a Ilha de Moçambique. Ao descer no aeroporto de Nampula, chamada de “capital do norte”, o turista depara-se com uma realidade muito diferente da de Maputo. Nampula é uma das cidades que mais crescem no país e sofre com os problemas de uma desordenada migração de pessoas vindas do campo.

A Ilha de Moçambique fica a cerca de 200 km à leste de Nampula. O trajeto pode ser feito em uma “chapa”, como são chamados os ônibus de pequeno porte que suprem a maior parte da demanda por transporte no país. As “chapas” são baratas, porém contam com dois inconvenientes: elas precisam encher para o motorista partir e param a toda hora no caminho – garantia de uma viagem lenta e apertada.

Como alternativa, dá para contratar um taxista no aeroporto de Nampula. Custa por caro, mas com margem para pechinchar.

A estrada atravessa uma planície pontilhada de curiosas e pontiagudas montanhas de pedra. No caminho, a passagem pelos vilarejos é uma aventura. Pessoas andam pela rodovia e vendedores ambulantes disputam espaço para oferecer mercadorias aos ocupantes dos carros e dos ônibus que passam. E para finalmente deixar o continente e chegar à Ilha de Moçambique, é preciso atravessar, ainda, uma ponte de quase 4 km.

Apesar de ser um destino turístico por sua importância histórica e pela beleza das paisagens, a Ilha de Moçambique – que tem o ritmo de uma cidade do interior, mesmo sendo densamente povoada – ainda atrai poucos visitantes, devido à dificuldade de acesso. Desse modo, a região é um lugar em que o viajante chega e instantaneamente vira, entre os moradores, uma espécie de atração.

Caminhar pelas ruas com uma câmera mais robusta chama a atenção, principalmente das crianças, que abordam os forasteiros pedindo para serem clicadas. É a deixa para turistas que gostam de fotografar. Não bastasse fazer belos retratos, o viajante ainda ganha um senhor sorriso dos nativos, que adoram se ver no monitor da máquina fotográfica. Uma relação de troca certamente vivenciada em poucos lugares do mundo.

Ser olhado a todo momento pode parecer desconfortável, mas logo dá para se acostumar. Principalmente porque os ilhéus são extremamente pacíficos, mesmo convivendo com uma situação socio­econômica adversa. Ao caminhar pelas ruas, de dia ou de noite, a sensação de segurança é plena. 

Sob o peso da história 

As construções da Ilha de Moçambique guardam muitas histórias. Tanto que o vilarejo, chamado de “cidade de pedra”, foi listado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Entre os vários prédios que mantêm a estrutura de séculos atrás estão a Fortaleza de São Sebastião, o mais antigo forte erguido por europeus na África Subsaariana (data da metade do século 16); a porta da casa onde viveu o navegador Vasco da Gama, que ali aportou pela primeira vez em 1498; e a Capela de Nossa Senhora do Baluarte, de 1522.

Antes mesmo de os portugueses fincarem raízes na ilha, ela já servia de entreposto para comerciantes árabes, cuja influência se fez mais presente que a da cultura portuguesa. Prova disso é que a religião muçulmana é dominante na região – há 55 mesquitas no vilarejo, incluindo a mais antiga de Moçambique, construída no século 16 e ainda hoje em atividade.

Apesar de cheia de vida, a Ilha de Moçambique parece parada no tempo, envergada sob o peso da própria história. É que muitas casas foram sendo abandonadas conforme a região perdia importância no cenário nacional. O primeiro baque foi a transferência da capital para Maputo, em 1898, e, depois, a construção do porto de Nacala, em 1970. Em 2003, a cidade sofreu as consequências de um ciclone, que deixou muitos estragos.

Por essas circunstâncias e pelas dificuldades financeiras enfrentadas pela administração local, é comum se deparar com ruínas, que tornam o cenário estranhamente mais belo e selvagem. Hoje, a “cidade de pedra”, cujas construções coloniais foram o grande impulso para o lugar alcançar o título de patrimônio da Unesco, se contrapõe à “cidade de macuti”, nome dado ao material feito com folhas de palmeira e usado para erguer as casas populares.

Com esse quê de decadência, a Ilha de Moçambique é um destino sob medida para mochileiros e para quem viaja desapegado de luxos. O colorido desbotado das casas e os diversos tons de azul do mar criam um cenário e um clima especiais. Junte o fato de inexistirem hotéis refinados e a dificuldade de acesso e tem-se um lugar de charme bem peculiar.

Além do lado histórico, a ilha oferece alguns trechos de praia. Porém, a melhor opção para curtir o mar é fazer um passeio de barco até a Ilha de Goa. Ou preparar uma viagem para conhecer as praias do continente, atividade que toma um dia inteiro. 

Isolamento em Quirimbas 

Da Ilha de Moçambique, a melhor maneira de chegar ao Arquipélago de Quirimbas, que está um pouco mais ao norte, quase na fronteira com a Tanzânia, é voltar a Nampula. Lá, deve-se pegar um vôo até Pemba, capital da Província de Cabo Delgado e que dá acesso ao arquipélago.

Em Quirimbas, o toque especial é o isolamento do lugar. Partindo de Pemba, só se chega a Ibo, a principal ilha do pedaço, depois de seis horas a bordo de um barco. E nos barcos à vela, construídos quase que artesanalmente pelos ilhéus, a viagem pode durar até dois dias – o trajeto ainda é feito assim pelos nativos.

Para quem se hospeda no resort Matemo, na ilha de mesmo nome, o transporte desde Pemba, em um monomotor, está incluso. O mesmo vale para os que ficarem no Medjumbe, resort de luxo situado em uma pequena ilha particular do arquipélago. Há também alguns lodges e quartos para alugar em casas na Ilha de Ibo.

Para ir até Ibo em um vôo fretado, num trajeto de cerca de 15 minutos, é preciso combinar o preço e o dia da viagem com o táxi aéreo, que opera segundo a demanda da temporada.

Além de muito mais rápido, o deslocamento aéreo permite ao viajante ter a dimensão da beleza e da amplitude de Quirimbas. Os diferentes tons de azul do mar são interrompidos por bancos de areia clara e por regiões de manguezal. Os barcos à vela, esparsos, são como pequenos pontos perdidos na imensidão.

Matemo é uma das maiores ilhas do arquipélago e abriga alguns vilarejos, os quais vivem basicamente da pesca. A construção do resort trouxe aos nativos oportunidades de emprego e um excelente ponto para a venda do pescado. O que faz o turista se sentir em casa não é tanto o luxo do lugar, mas o largo e sincero sorriso dado por praticamente todos os moradores com os quais se cruza, mesmo tipo de sensação experimentada na Ilha de Moçambique.

Com praia particular, em um local de natureza praticamente intocada, amplos chalés com vista para o mar e todos os serviços inclusos – refeições, bebidas e atividades como mergulho, canoagem e passeio de barco –, o resort que leva o nome da ilha é a glória para momentos de pleno relaxamento. Casais em lua de mel também encontram ali o refúgio perfeito. 

Mais ruínas em Ibo 

Para quebrar um pouco o isolamento desse paraíso tropical, vale a pena visitar a Ilha de Ibo, que fica a cerca de 30 minutos de barco de Matemo. No percurso, é possível observar os pescadores trabalhando em alto-mar – desde suas canoas, alguns chegam a exibir o “troféu” do dia, como enormes lagostas.

Ibo faz lembrar a Ilha de Moçambique, guardadas as proporções. As histórias são parecidas. Ibo foi o segundo assentamento português no litoral moçambicano. Era a capital do Estado de Cabo Delgado até perder o posto para a cidade de Pemba. Hoje, os vestígios dos poucos monumentos deixados pelos portugueses confundem-se com as ruínas das casas abandonadas por comerciantes e membros da administração estatal, que mudaram-se da ilha.

A sensação que se tem ao visitar Ibo também é parecida com a que acompanha o passeio na Ilha de Moçambique. O cenário em ruínas e as ruas de areia vão revelando sua beleza aos poucos. O contato com a população local é algo que conforta e faz o viajante se sentir em casa, embora as crianças de Ibo sejam muito mais comedidas e tímidas que as da outra ilha.

No caso de Ibo, é ainda mais difícil encontrar quem se expresse bem em português, o que pode ser confundido com acanhamento. O mwane, dialeto falado no arquipélago, tem algumas semelhanças com a língua árabe, assim como o makhuwa, falado na Ilha de Moçambique.

Ao visitar Ibo, carregue um pouco de dinheiro para comprar lembranças. Na Ilha, há artesãos que produzem belíssimas peças de prata e que abrem um amplo sorriso aos brasileiros, pois foi um grupo de voluntários do Brasil quem lhes ensinou o ofício.

A Fundación Ibo (fundacionibo.org), financiada com doações recolhidas na Espanha, também tem ajudado a formar artesãos na ilha. Uma lojinha com artigos feitos por eles, a partir de tecido e esculturas de pau preto – especialidade do artesanato moçambicano –, foi montada no Forte de São João Batista. A visita ao monumento também oferece uma bela vista para o mar e uma espécie de viagem no tempo.

Nessa hora, a imaginação se deixa levar a épocas remotas, nesse canto da África  Negra banhado pelo Índico onde se cruzaram árabes, portugueses, indianos e chineses – e que os brasileiros apenas começam a descobrir.

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