Alter do Chão oferece umas das praias mais belas do Brasil

Dec 31, 1969
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Qual é a praia mais linda do Brasil? Pergunta difícil... Afinal, nosso litoral tem cerca de oito mil quilômetros de extensão. É cheio de prainhas e praiões de todos os tipos. Além disso, há concorrentes de peso numa escolha assim: as praias de Noronha, Jericoacora, Porto de Galinhas... Para o jornal inglês The Guardian, no entanto, a mais bela praia do Brasil não é nenhuma dessas. Aliás, não fica nem no litoral. É uma praia de rio, fincada no coração da floresta amazônica, na desconhecida Alter do Chão, uma pequena vila à margem do Rio Tapajós, a 32 km de Santarém, no Pará. "Alter do Chão é a resposta da floresta ao Caribe," escreveu o correspondente Tom Phillips na reportagem publicada no The Guardian, na qual foram escolhidas as dez faixas de areia mais deslumbrantes do nosso país. Foi uma surpresa.

Quase ninguém é capaz de entender o que Alter do Chão tem de tão especial para desbancar até os mais célebres "paraísos" da costa brasileira. Pois o mérito da escolha cabe ao rio Tapajós, um dos maiores afluentes do Amazonas. Nos períodos de seca, entre agosto e dezembro, o curioso fenômeno da vazante faz o nível da água do rio baixar em aproximadamente dez metros, emergindo, ao longo de suas margens, centenas de praias de areia fofa, branquinha, com água azul e cristalina, e que, pensando bem, justificam a escolha do jornal inglês.

Alter do Chão, por enquanto, tem fama apenas regional por aqui. Os turistas são quase todos moradores da vizinha Santarém e outras cidades próximas, que fazem passeios do tipo bate-e-volta nos finais de semana. Talvez isso mude um pouco daqui pra frente. Primeiro porque o mundo inteiro já ficou curioso em conhecer os encantos dessa vila do Tapajós que tem o mesmo nome de uma cidade portuguesa do Alentejo. Segundo porque chegar até lá não é tão complicado quanto parece. Ainda que esteja plantada no âmago da Floresta Amazônica, uma hora de carro a separa de Santarém, onde fica o aeroporto mais próximo. O maior inconveniente é ter que tomar um voo de conexão em Manaus ou Belém. Outra alternativa é seguir pela BR-163, a Cuiabá-Santarém, única grande rodovia que conecta a segunda maior cidade do Pará ao restante do país, mas o caminho é muito longo e inviável para quem sai do Sudeste ou do Sul do país.

Santarém

Santarém - Encontros dos rios Amazonas e TapajósAlter do Chão - se não for a mais bela, sem dúvida, é a mais original de todas - é apenas um dos motivos para você considerar a hipótese dessa viagem. Acredito que conhecer a Amazônia pode ser, em muitos casos, culturalmente mais enriquecedor do que ir para o exterior. As paisagens da floresta, a exótica culinária paraense, com suas frutas e muitos sabores, e a chance de presenciar um pouco do modo de vida das populações ribeirinhas, são um mergulho num outro Brasil, que nos acostumamos a ver apenas em documentários de TV.

Santarém já é uma bela amostra dessa diversidade. E o impacto começa imediatamente, no clima. Basta colocar os pés para fora do avião e sentir o mormaço quente e úmido do ar amazônico. É mais ou menos a sensação de entrar numa sauna. O calor tropical é realmente implacável, especialmente nessa época do ano. Qualquer sombra vira uma dávida de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da cidade que os moradores gostam de chamar de "Pérola do Tapajós". Santarém é mais do que um simples ponto de partida para ir a Alter do Chão. Vale reservar ao menos um dia inteiro para circular pela cidade, que foi fundada por portugueses em 1661 e tem muitos casarões coloniais, ainda que decadentes. É um grande barato parar diante do porto para observar o movimento dos barcos e entender como funciona o transporte na Amazônia. Como praticamente inexistem estradas, os barcos são a única forma para chegar na grande maioria dos lugares. Obidos, Oriximiná, Porto Trombetas, Parintins... ficam a distâncias medidas em horas de navegação. De Santarém a Belém são dois dias inteiros para ir, e outros três dias e meio para voltar. A volta leva mais tempo por conta da correnteza. E o pessoal vem de longe para fazer compras em Santarém. Nos finais de tarde, um batalhão de carregadores das lojas e supermercados trabalham para colocar as mercadorias vendidas nas embarcações: geladeiras, móveis, motos, alimentos em geral, tudo, viaja através dos rios para as mais diversas localidades ribeirinhas.

Ilha do Amor - Alter do chãoSantarém tem cerca de 300 mil habitantes e está assentada num local estratégico do ponto de vista da locomoção: bem em frente a encontro das águas do rios Tapajós e Amazonas. Subir ao mirante para ver o espetáculo das águas barrentas do Amazonas unir-se às águas azuis do Tapajós é o programa predileto dos santarenos. As águas de ambos os rios seguem lado a lado sem se misturar por quilômetros devido a  diferenças de temperatura, densidade e velocidade da correnteza. No mirante, há quiosques que preparam comidas típicas, como o tacacá, o vatapá (que, na realidade, é um prato nordestino mas os paraenses adoram), e o bolinho de piracuí, feito com farinha de peixe e batata. O lugar fica lotado. Tem gente que leva cadeiras, isopor e aparelho de som e faz a maior farofa numa turminha de amigos. Outro programa clássico é caminhar pela orla que é toda decorada com motivos de cerâmica indígena. Santarém também dá praia, mas nenhuma tão bela quanto as de Alter do Chão. O ponto de encontro acontece na loja Yamada, cujo quarto andar foi transformado em choperia, de onde se tem uma vista encantadora para o pôr-do-sol. 

A Praia

Tapajós - Movimento balneário de praia - Alter do ChãoEm Santarém todo mundo só fala em Alter do Chão e faz mil elogios ao "Caribe da Amazônia", como o lugar ficou conhecido por lá. Antiga aldeia indígena dos Boraris, a vila de Alter do Chão desenvolveu-se como entreposto das embarcações que faziam a viagem Belém-Manaus, um trajeto economicamente aquecido pelo ciclo da borracha durante o século 19.

Vivem atualmente no vila cerca de 6 mil pessoas que, durante o ano quase todo, seguem o ritmo diário de uma típica comunidade de pescadores ribeirinhos. Entre setembro e novembro, quando as águas do Tapajós baixam e os turistas começam a chegar, a vila se transforma num alegre balneário de praia. Tudo por conta da Ilha do Amor, que surge à superfície bem em frente a vila.

Na realidade, não se trata de uma ilha. É uma língua de areia que avança de uma margem até quase a outra do Tapajós. Chamam de ilha porque é preciso ir de canoa até ela. Os canoeiros ficam de prontidão aos montes para levar os banhistas. No auge da vazante é possível atravessar caminhando. A paisagem é encantadora: a areia fofa e branquíssima, a água morna e cristalina, breuzeiros e cajueiros aqui e ali dando sombras e galhos para os banhistas pendurarem as redes. Há quiosques com mesas para quem quiser passar o dia entre cervejinhas e petiscos. Um grande tambaqui com cerca de quatro quilos - um dos peixes mais saborosos da Amazônia - grelhado na brasa, para fartura de uma família inteira, é vendido a preço de banana em qualquer uma das barracas. E se a praia estiver vazia é só chorar que o preço cai ainda mais. Em nenhuma outra praia brasileira você poderá comer um peixe tão bom pagando tão pouco. Nos finais de semana e feriadões, porém, rola uma certa muvuca, com direito a isopor, banana boat, caiaque e castelinho na areia. O repórter do The Guardian não deve ter levado isso em consideração, ou então esteve lá num dia tranquilo, durante a semana, e só reparou na beleza da paisagem.

Quem se dispuser a explorar a região de Alter do Chão deve procurar uma das agências de turismo na vila que oferecem diversos passeios de barco.

Um deles leva a um igapó chamado de Floresta Encantada, que poderia muito bem ser chamado de Floresta Alagada. Outros seguem rumo às comunidades ribeirinhas que vivem da extração de látex, como a de Jamaraquá, dentro da área da Floresta Nacional dos Tapajós. Os estrangeiros adoram esse tipo de passeio e mostram-se muito mais curiosos em relação à grande floresta equatorial e seus habitantes do que os próprios brasileiros.

Homem-boto

Ponta do Cururu, uma praia na outra margem do Tapajós, onde todo mundo vai nos finais de tarde para ver o pôr-do-sol e nadar junto aos botos que brincam perto da areia. Esses simpáticos primos do golfinho são os moradores mais ilustres de Alter do Chão e podem ser vistos quase todos os dias nadando próximos às praias. Sao também os personagens da mais famosa lenda amazônica, segundo a qual o bicho poderia se transformar à noite em homem para seduzir e engravidar as caboclas. O homem-boto veste roupa branca, usa chapéu e sabe usar de galantismo para conquistar as moças nas noites de festa.

Carnaval do Sairé - Alter do chãoO tal do homem-boto pode ser visto aos montes pelas ruas da vila nos dias de Sairé, uma das mais famosas festas folclóricas da Amazônia, uma espécie de Festival de Parintins do Pará, só que com a disputa das agremiações de botos, o Tucuxi (cinza) e Cor-de-rosa, fazendo às vezes dos bois Garantido e Caprichoso. Durante os cinco dias de Sairé, Alter do Chão ferve de gente e vive um clima de carnaval fora de época, que sempre coincide com o início da temporada de praias, na primeira quinzena de setembro. A festa tem origem há cerca de 300 anos, mistura rituais indígenas dos Boraris, que habitavam a região, e católicos dos jesuítas que realizaram missões colonizadoras pela bacia do Rio Amazonas. É dividida em cerimônias religiosas, com missas e procissões durante o dia, organizada pelos moradores mais antigos, e shows artísticos durante a noite. O auge do evento acontece no Sairódromo, a arena montada especialmente para as apresentações dos grupos de botos, que contam, da forma mais carnavalesca possível, com carros alegóricos e fantasias, o enredo da famosa lenda amazônica. Ao lado do Sairódromo, a praça fica tomada de barracas de palha e mesas para servir lanches e bebidas ao povão. Quem tem grelha e isopor coloca na calçada para vender espetinho e cerveja, e cada um ganha uns trocos como pode. Depois da meia noite o carnaval de rua toma conta e a paquera rola solta entre caboclas e homens-boto.

A festa cresce a cada ano e já está bem conhecida em todo o Pará e, aos poucos, vai ganhando fama nacional. Assim como a própria Alter do Chão, que começa a ser falada e a desertar a curiosidade geral. Tal como aconteceu no passado com Jericoacoara depois que o jornal americano Washington Post publicou uma lista que a incluia entre as dez mais belas praias do planeta. Não se surpreenda, portanto, se a história se repetir no coração da Amazônia e Alter do Chão ganhar pousadas e restaurantes transados, receber turistas do mundo inteiro e se transformar em um novo sinônimo de férias na praia. Mesmo porque, na polêmica lista do jornal inglês The Guardian, a praia de Alter do Chão ficou à frente todas as outras, até de Jeri. 

Gastronomia

Gastronomia do Pará - Alter do chãoUm dos maiores atrativos do Pará é sua rica culinária regional, a mais genuinamente brasileira já que veio dos índios. É recomendável ter curiosidade e mergulhar nos sabores amazônicos, sem dúvida um dos grandes baratos de qualquer viagem pela região Norte do Brasil. Portanto, saia do trivial e ao menos prove algumas das comidas típicas, como o tacacá, um caldo feito com goma de mandioca, camarão seco, pimenta-de-cheiro e jambu, uma folha que causa uma leve dormência nos lábios. E também é complementado com o tucupi, um sumo amarelo da raiz da mandioca, que precisa ser fervido por horas para deixar de ser venenoso, e que é também base do prato mais conhecido do Pará: o pato no tucupi.

Bem tradicional é a maniçoba, uma espécie de feijoada mas com folha de maniva no lugar do feijão. O detalhe é que a tal folha precisa ser cozida por sete dias seguidos para perder a toxidade. Quando pronta vai à panela mistura com todo tipo de carne e é servida com arroz e farinha. Só a aparência é que não agrada muito. É uma gororoba mesmo, uma massa escura, que parece lodo. Só de olhar muitos nem provam. Mas quem se arrisca, gosta, pois o sabor é delicioso. Nos supermercados, a maniçoba é vendida congelada, basta acrescentar as carnes à gosto.

A base da alimentação paraense, no entanto, são os peixes. Pirarucu, Tucunaré, Tambaqui, Pacu, Jaraqui... Todos deliciosos, preparados grelhados na brasa, fritos na manteiga ou refogados com tomate, cebola, ovos e batatas. Numa única semana, qualquer paraense devora quilos e quilos desses peixes, cujos filés carnudos são acompanhados geralmente de pirão e muita farinha de mandioca. Para tiragosto faz sucesso o charutinho frito, um peixe pequeno que parece a agulhinha do litoral paulista, e o bolinho de piracuí, feito com batata e farinha de peixe.

Já em relação as frutas há uma lista de nomes que um paulistano nunca ouviu falar: araça, murici, cupuaçu, teperebá, uxi, bacuri, bacabá... E o bom mesmo é prová-las em sucos ou nos sorvetes, o que cai muito bem sob o sol tropical paraense.

O açaí, por sua vez, já é mais conhecido. Mas para a culinária paraense esse pequeno coquinho roxo de uma palmeira que dá feito capim na Amazônia é bem mais do que uma simples fruta. Serve como uma das base da alimentação. Em muitos casos substitui o arroz. Uma tijela de açaí, acompanhada de farinha e filé de peixe é o almoço diário de muitos paraenses. Se é bom? Vai do gosto, mas que é, no mínimo, diferente, isso é.

Em Santarém, não deixe de ir ao restaurante Mania de Pizza (Travessa Barjonas Miranda, 55), onde o chef Sandro Motta, que depois de fazer curso de culinária na Itália, começou a criar pratos que mesclam a gastronomia italiana com ingredientes tipicamente paraenses. Dessa mistura surgiu uma de suas especialidades como o risoto paraense, feito com arroz arbóreo mas com os ingredientes do tacacá. E outras invencionices como o risoto de pato no tucupi, pizza de muzzarela com cupuaçu e escondidinho de pirarucu. 

A nova maravilha do Brasil

Ilha do Amor - Alter do chãoVocê já deve ter ouvido essa história. Um importante jornal gringo publica uma reportagem que revela uma nova maravilha do Brasil. O mundo inteiro fica curioso. Os turistas começam a chegar. O lugar fica cada vez mais falado e, depois de algum tempo, se transforma em um novo sinônimo de férias no paraíso. Foi assim com Jericoacoara, a mais desejada praia do Ceará, quando o jornal Washington Post a incluiu entre as dez faixas de areia à beira-mar mais lindas do planeta numa reportagem. Agora é a vez do jornal inglês The Guardian eleger a mais bela praia do Brasil, que não está no Rio de Janeiro, nem no Nordeste. Não está nem no litoral. A mais bela praia do Brasil é de rio e fica no coração da Amazônia, em Alter do Chão, um minúsculo vilarejo plantado à margem do Rio Tapajós, a cerca de 32 km de Santarém.

Mas isso pode ser apenas questão de tempo. Logo, logo, o lugar deve começar a ser falado na mesma proporção em que novas pousadas e restaurantes surgirão para acolher cada vez mais visitantes. Tal como aconteceu no passado com Jericoacora, depois que uma certa reportagem de outro jornal estrangeiro, o Washington Post, a inclui numa lista das dez mais belas praias do planeta numa reportagem.  Se a história se repetir, não seria um completo absurdo supor que Alter do Chão entre de vez para o mapa do turismo nacional. Mesmo porque a praia paraense ficou a frente de Jericoacoara na lista do The Guardian. 

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