Assunção uma capital repleta de história e shoppings para muitas compras

Dec 31, 1969
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 (Foto: Tales Azzi)

(Foto: Tales Azzi)

Ela não é tão bonita quanto Santiago, nem tão divertida quanto Buenos Aires. É apenas simpática, o que, como se sabe, inclui um pouco dessas duas qualidades. É difícil voltar de lá maravilhado, mas também não dá para sair reclamando. Assunção é agradável e tranquila, ainda que seja completamente desconhecida dos turistas brasileiros, vítima de um certo preconceito histórico. Basta dizer que você está indo para a capital do Paraguai – e que sua intenção principal não é fazer compras – e verá a reação de surpresa do seu interlocutor seguido da pergunta seca “Por quê?” ou “para quê”.

Vencer o estereótipo de lugar desinteressante e sem nada para fazer é o primeiro desafio de quem decide viajar para Assunção. É preciso primeiro ignorar o preconceito de quem pensa que a América do Sul só vale a pena na Argentina, Chile e – vá lá – no Peru. Para estes, o Paraguai é um destino tão exótico e pouco provável quanto o Suriname, e que só se justificaria mediante dúzias de sacolas cheias de produtos baratos comprados em Ciudad del Leste. 

Se a terra dos guaranis não é lá o destino dos sonhos dos brasileiros, não dá para negar que pagando pouco por uma viagem internacional, com passagens aéreas, hospedagem em hotel de bom nível, city tour e passeio de navio é bastante tentador, bem mais do que certas comprinhas duvidosas em Ciudad del Leste. Restava saber apenas se a relação preço e qualidade se aplicava a viagem. 

City tour

Rio Paraguai - Passeio de canoaAssunção é uma cidade que parece familiar. Na barraquinha de um camelô rola som de axé da banda Terra Samba. Vendedores de algumas lojas falam um portugues perfeito. Até a publicidade é bem conhecida: bares com bandeira da Brahma, posto de gasolina Petrobrás e até um Banco do Brasil.

Assunção é uma cidade de médio porte. Tem cerca de 600 mil habitantes – e o dobro disso considerando a grande Assunção. Não há edifícios altos nem avenidas largas. É agradável e arborizada, além de bastante amigável com os visitantes, tanto na simpatia dos paraguaios como também do ponto de vista da locomoção. As ruas do centro, onde está o melhor do comércio, os cassinos e os prédios históricos, é facilmente esquadrinhada na primeira caminhada. Nas lojas da rua Palma, onde está o outlet da Adidas, a Galeria Central, especializada em eletrônicos e informática é uma boa dica para algumas compras.

Descendo de qualquer rua do centro são dois ou três quarteirões até a margem do Rio Paraguai, que em tupi-guarani quer dizer “água que vem do mar”. Ali estão os principais prédios históricos, como a Catedral de Assunção e o Palácio do Governo, também chamado de Casa dos Lopez, de onde o Imperador Solano Lopez teve a infeliz ideia de jogar o país numa guerra de expansão territorial contra Argentina, Brasil e Uruguai entre os anos de 1864 e 1870 e que terminou num dos maiores genocídios da história do continente. O Paraguai era o mais desenvolvido país sul-americano na época. Foi o primeiro a inaugurar uma estação de trem financiada por uma economia autosuficiente sem dívidas com bancos ingleses. Saiu da guerra completamente destroçado. Quase toda a população masculina foi morta. Mesmo hoje as cicatrizes do episódio são visíveis. Como consolo ficou um forte orgulho nacional pelas mulheres, já que coube a elas a tarefa de reconstruir o país, homenagem prestada num grande monumento na entrada da cidade e na nota de vinte mil guaranis.

Um pouco dos detalhes da guerra contra a Tríplice Aliança, como eles chamam por lá a Guerra do Paraguai – é contada pelos guias durante o city tour, que incluiu o Palácio do Governo, o Museu do Congresso – instalado no antigo prédio do Senado –, e a Praça dos Desaparecidos – criada em homenagem aos mortos da ditadura de Stroessner, que governou o país entre 1954 e 1989. De quebra, passamos pelo Museu do Barro, que reúne uma coleção riquíssima de esculturas indígenas e do folclore popular paraguaio.

Não deixe de fazer o tour del Lago Yupacaraí, que passa por minúsculas vilas que bordeiam o imenso lago, que é a verdadeira praia dos moradores de Assunção. Antes a dica é parar na estação de trem de Trinidad, construída em 1861, onde uma velha maria-fumaça, com vagões de madeira, apita e chacoalha aos domingos rumo a vizinha Areguá, a 32 km de capital paraguaia. 

A última parada acontece em São Bernardino, que é o principal balneário de férias dos assuncenos. No verão os barcos e jet esquis tomam conta das águas do lago, os bares e sorveterias enchem de gente e as festas varam a madrugada na danceteria Coyote. É um passeio tranquilo, as novidades estão nos detalhes, nas construções antigas, nas cerâmicas de Areguá e no bucolismo das vilas. 

Crucero Paraguay

Navio Crucero ParaguayA outra parte do roteiro é um passeio no Crucero Paraguay, navio que uma vez por mês zarpa rio acima em direção a região conhecida como Chaco.

O Crucero Paraguay tem capacidade para 54 passageiros. Não oferece luxo, mas não falta conforto. A embarcação foi construída sobre a carcaça de um antigo navio de guerra norte-americano. Mas ganhou estrutura toda em madeira envernizada, do piso às paredes. O barco é estável e sobre o espelho d´água do Rio Paraguai não há balanço algum. As cabines são confortáveis, com frigobar, telefone, TV, e um banheiro grande. São quatro categorias, com tamanhos que variam de 15 m2 a 22 m2.

Os proprietários da embarcação são um grupo de empresários franceses, o que se traduz na boa gastronomia servida à bordo. Mas o cardápio é fixo, não há menu com opções, o que pode ser um problema para um vegetariano. O prato principal pode ser um filé de tilápia com purê de batatas ou um medalhão com risoto, seguido de mousse de limão ou brownie. As refeições também incluem couvert, prato de entrada e vinho. Já a rotina à bordo é bastante tranqüila, os passeios são rápidos e sobra bastante tempo para descansar, admirar o visual e tomar sol no deque ou bebericar no bar.

Cavaleiro em Villa Hayes - UruguaiA primeira parada do návio é na Villa Hayes, um pequeno povoado à margem do Rio Paraguai. A atração no local é um curioso museu do sr. Salvador Garozzo, instalado no interior de uma casa simples, inteiramente tomado por bugigangas antigas que o vivaz senhor de 86 anos foi juntando ao longo das décadas: máquinas de escrever, rádios, ferramentas agrícolas usadas por colonos, armas da Guerra do Paraguai, moedas, fotos e outras tralhas quase pré-históricas. O segundo passeio é no final da tarde, uma volta de lancha por um braço do Rio Paraguai.

No segundo dia à bordo do navio o passeio é na sede de uma pequena fazenda. A primeira atividade do dia é ordenha, mas nem todos se agradaram com a idéia de tirar leite da vaca. Até porque a principal atividade do dia era o passeio de canoa em outro afluente do rio Paraguai e depois o regresso à Assunção. 

Para aproveitar o tempo restante da viagem a dica é sair para caminhar à noite pelas ruas de Assunção, que por sinal é muito mais seguro que o centro de uma grande cidade brasileira. Uma das opções no local é o Lido Bar, em frente a Praça dos Heróis, lá é servida a típica sopa paraguaia, que apesar do nome é uma torta para comer de garfo e faca, feita com milho, queijo e cebola. Outra especialidade nacional é o villaroy de pollo, uma espécie de bolo com recheio de frango.

Sair à noite na capital do Paraguai é um dos grande prazeres locais. A cidade tem ótima vida noturna, bons restaurantes e pubs – concentrados tanto no Centro como no bairro Las Carmelitas – além de cassinos e danceterias. Com a vantagem extra dos preços camaradas. Mas lá é assim mesmo. Paga-se baratíssimo por refeições e hospedagens, e os preços em geral são cerca de 50% menos do que os praticados por aqui. A conta em qualquer restaurante é sempre uma surpresa agradável, assim como a própria Assunção, cujo único pré-requisito é esquivar-se dos preconceitos.