Inclua Recife, Maracaípe e Muro Alto no roteiro quando for a Pernambuco
Pense num lugar arretado de bom para passar as férias. Que tenha história, cultura popular, praia e ótima gastronomia. Misture uma gente simpática, que vive de bom humor e sabe receber. Está aí a síntese de Recife. Para melhorar ainda mais o caldo, acrescente as melhores praias do litoral sul de Pernambuco, como Calhetas, Porto de Galinhas, Maracaípe, Muro Alto, a sensacional Praia dos Carneiros e... pronto. Não falta mais nada. Confira um roteiro que inclui não só a capital Recife como também todas essas praias. Para isso, você precisará não mais do que uma semana de folga, um carro alugado e algum espírito de aventura.
Nesse esquema de viagem independente gasta-se mais do que comprando um pacote básico de sete dias para Recife oferecido pelas operadoras. Você pode até fazer isso para aproveitar os preços tentadores dos pacotes, o que normalmente é praticamente o mesmo valor só das passagens aéreas a partir de São Paulo ou Rio (e ainda contam com hospedagem, traslados e city tour).
Mesmo assim, uma semana é tempo de sobra para ficar circulando apenas por Recife. Considere a possibilidade de gastar um pouco mais para turbinar a sua viagem, apontando a bússola em direção às praias do litoral sul do Estado. Basta alugar um carro ou então optar pelos pacotes conjugados de Recife com Porto de Galinhas.
Recife? Boa Viagem!
Vale deixar bem claro que Recife não é um mero ponto de partida para quem deseja percorrer o litoral pernambucano. A cidade tem um centro histórico bem interessante e uma vida cultural agitada, sem contar os muitos bares e os bons restaurantes. Você perceberá isso rápido, embora a primeira impressão ao desembarcar no aeroporto dos Guararapes seja de um certo corre-corre de cidade grande. Recife é a terceira maior capital do Nordeste (atrás de Salvador e Fortaleza), com um milhão e meio de habitantes, fora os turistas.
Sorte que seu lugar será na orla da praia de Boa Viagem, a mais central de todas. Há também as praias do Pina e Piedade, mas é na Boa Viagem que rola o burburinho. Lá ficam os grandes hotéis que fazem uma fileira de arranha-céus de frente à praia. O calçadão que separa a larga avenida da areia fofa tem muitas barraquinhas e um constante movimento de gente fazendo ginástica. O trecho mais bem frequentado fica na altura do número 3.200 da Avenida Boa Viagem, em frente ao prédio Acaiaca. Mas quase toda a praia vive sempre cheia.
O único problema é que o banho de mar só é permitido até a barreira de arrecifes que acompanha toda a faixa litorânea. O motivo? O risco de ataque de tubarão para quem se aventurar além deles – e há muitas placas vermelhas na praia para lembrar os banhistas.
Os tubarões começaram a aparecer por ali em 1992, logo após a construção do Porto de Suape, em Cabo de Santo Agostinho, a 20 km dali. A obra mexeu com o equilíbrio marinho naquele pedaço do litoral e fez com que algumas espécies de tubarões migrassem para a região costeira de Recife. Mas as vítimas (46 casos foram registrados) eram sempre surfistas que buscavam as ondas depois dos arrecifes. Hoje, o surfe está proibido.
Segundo o engenheiro de pesca Fábio Hazin, presidente da CEMIT, órgão estadual que coordena o combate aos ataques de tubarões, faz um ano e meio que nenhum caso é registrado graças à vigilância na orla realizada pelo corpo de bombeiros. “Até os arrecifes, pode-se tomar banho de mar sem nenhum problema”, garante Hazin.
Giro no Recife Antigo
Depois de curtir aquela básica rotina de praia: banho de sol, petiscos, almoço mais tarde e uma “siesta” opcional, é hora de dar umas voltas pela cidade. Siga direto ao Recife Antigo, o bairro histórico com ruas de pedras e casarões do século 19. Por ali, o negócio é caminhar pela Rua do Bom Jesus, onde há alguns barzinhos e as construções estão melhor conservadas. Como a rua é pequena, você logo chega na Praça do Marco Zero, às margens do Rio Capibaribe, de onde se avista a torre de cristal, um monumento de forma fálica e gosto discutível, que homenageia o maior ceramista de Recife, Francisco de Brennand.
Dali, você pode retornar pela mesma rua ou fazer outros caminhos só para constatar que, com exceção da Rua Bom Jesus, as antigas fachadas dos casarões no Recife Antigo andam meio decadentes e clamando por uma mão de tinta. Se o relógio já tiver apontado cinco da tarde, nem pense duas vezes e ocupe logo uma mesinha do Arsenal do Chopp, só para ver a cidade passar já bem acomodado.
O curioso é que o bairro do Recife Antigo fica numa ilha, separada do continente pelo Capibaribe, e ligado a cidade por um conjunto de pontes, tão bonitas na paisagem urbana quanto impraticáveis do ponto de vista do tráfego. O bairro tem uma concepção arquitetônica que segue o modelo de Amsterdã. E não por acaso, já que os holandeses num passado distante ocuparam a cidade por 14 anos (entre 1630 e 1645). Apesar do pouco tempo, foram responsáveis por grandes tranformações no traçado da então chamada Vila dos Arrecifes, que não passava na época de um pequeno povoado de pescadores e marinheiros. A sede da capitania de Pernambuco era a vizinha Olinda (Recife só seria elevado à condição de capital em 1823). O interesse dos invasores era dominar o comércio de açúcar, cada vez mais doce e lucrativo, e o porto de Recife era passagem obrigatória.
Coube ao conde Maurício de Nassau governar a nova colônia holandesa. Homem astuto e apreciador de artes, Nassau trouxe em sua comitiva muitos artistas e cientistas. Foi em sua administração que aconteceram os primeiros estudos sobre flora e fauna no Brasil, além da construção do primeiro observatório astronômico das Américas. Mas a maior obra de Nassau foi a construção da Mauristaad, ou "Cidade Maurícia", onde hoje está plantado o bairro de Santo Antônio, no centro. É nesse bairro, aliás, que ficam outros cartões-postais famosos da cidade, como a Rua da Aurora e o Largo de São Pedro.
Caldeirão cultural
E não foram só os holandeses que deram o ar da graça na capital pernambucana. Por conta da vocação portuária, Recife sempre foi um pólo de influências estrangeiras. O que em parte explica o caldeirão cultural e artístico que a cidade se tornou. No campo das letras são filhos da terra: Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Penna Filho, Nélson Rodrigues e Ariano Suassuna (este, só fez nascer na Paraíba). Na música então, Recife é o berço do frevo, do maracatu, do caboclinhos e do mangue beat da trupe de Chico Science.
Os recifenses sabem disso e batem forte no peito de orgulho e uma certa megalomania – no bom sentido, claro. Só mesmo eles para chamar Recife de "Veneza Brasileira", por causa de seus rios e pontes, ou afirmar que os rios Capibaribe e o Beberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico bem ali do ladinho da cidade, conforme escreveu João Cabral em poema.
Os recifenses sabem cantar o hino de Pernambuco em qualquer ritmo, adoram festa, fazem de tudo por um bolo-de-rolo e um caldinho de sururu (bom para ressaca, gripe e dor-de-corno) e sempre que voltam de uma longa viagem cantam aquela velha música do Alceu Valença: "Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço...".
Em Olinda
Nem parece, mas Olinda é uma outra cidade. Você anda dez minutos de carro, atravessa uma ponte e, sem perceber, já chegou. São apenas 8 km a partir do centro de Recife. Se for até lá de carro alugado, tome cuidado para não atropelar caçadores-mirins de turistas, pois eles quase se jogam na frente do veículo para pegá-lo logo na primeira curva do centro histórico. É um perigo.
O passeio em Olinda começa pelo Alto da Sé, onde fica a Igreja Nossa Senhora da Sé, a primeira a ser construída no Brasil, em 1540. O recifense é capaz de ir até lá só para comer a famosa tapioca do Alto da Sé, enquanto os turistas olham o artesanato nas barraquinhas e assistem às apresentações de frevo e maracatu que rolam todos os dias em horários imprevisíveis.
É lá a principal concentração dos tais guias-mirins. Eles estão sempre a sua espera para lhe oferecer um city tour a pé e metralhar uma aula de história. Mas quer um conselho? Aceite a companhia de um deles, até porque o passeio é bem legal. Apesar da sucessão de datas e nomes que eles falam, há algumas histórias e detalhes arquitetônicos bem curiosos. Além disso, a caminhada passa pelas principais ruas e ladeiras da parte histórica. Mas prefira os guias de camiseta amarela, que são da Associação de Condutores, e combine o preço antes.
Caminhar pelas ruas estreitas de Olinda é um grande barato, apesar das ladeiras. Então, reponha as energias no restaurante Oficina do Sabor (Rua do Amparo,335). E será impossível não se arrepiar se você tiver a chance de ouvir uma bandinha de frevo tocar a Vassorinha, trilha sonora principal do Carnaval de rua mais espontâneo do Brasil. O pernambucano tem bronca do axé e a prefeitura proíbe som alto nas casas. Quem desobedece é multado. Tudo para manter a tradição. Melhor assim.
Porto de Galinhas
Já com um carro alugado em seu poder não perca tempo para esticar sua viagem em direção às ao litoral sul seguindo pela BR-101. A primeira bela praia que surge no roteiro é a Pedra do Xaréu, no município de Cabo de Santo Agostinho, a 33 km de Recife. É uma praia pequena e vazia, mais frequentada pelos próprios pernambucanos. É que os turistas seguem direto para a praia de Calhetas, que fica um pouco mais à frente. É uma praia muito bonita também, mas seria até melhor se os três restaurantes não espalhassem tantas mesas de plástico com nomes de cerveja em quase toda a faixa de areia.
Dali, sua próxima parada será Porto de Galinhas, uma das raras praias brasileiras que conseguiram virar grife, tal como Búzios, no litoral carioca, Trancoso, na Bahia ou Pipa, no Rio Grande do Norte. Fica a apenas 60 km de Recife, ou menos de uma hora de carro.
O que atrai tanta gente para Porto de Galinhas não é só o mar de águas calmas, mornas e cristalinas deste pedaço do litoral. O cenário dá um show em horário matinal a ser consultado. É que durante a maré baixa, as piscinas naturais ficam à mostra e ninguém perde o passeio de jangada até lá. Mesmo que isso signifique pular cedo da cama e enfrentar uma longa fila na praia, embaixo do sol escaldante. Porto lota no verão e há muito mais banhistas do que jangadeiros.
Já se for na baixa temporada, são os jangadeiros que irão disputá-lo no "gogó", mas o preço é tabelado para o passeio de 40 minutos a uma hora, tempo em que você pode nadar à vontade nas piscinas e caminhar sobre os arrecifes.
Já a vila, apesar de pequena é bem incrementada. Tem ótimos restaurantes, lojinhas com vitrines chamativas e gente bonita desfilando pra lá e pra cá, principalmente à noite. Tudo acontece em apenas três ruas que formam um triângulo.
Enquanto os adolescentes se concentram na esquina da Rua Esperança com a Beira-mar, a galera bate ponto no Bar do Fiteiro, na Rua Beijupirá, para um aquecimento antes de tomar o rumo do Biroska (um bar dançante bem legal), do Chiva (mais estiloso e alinhado) ou do Ponto X (a maior e mais animada boate). E a balada só acaba de manhã, com o sol alto no horizonte.
Muro Alto e Maracaípe
Praia em Porto de Galinhas não quer dizer só piscina natural. Para qualquer lado que você for sempre haverá um pedaço de areia tranqüilo a sua espera. As vizinhas praia do Cupe, Muro Alto e Maracaípe são perfeitas para quem quiser fugir da muvuca. Reserve um ou dois dias para curti-las como se deve. São todas bem fáceis de chegar de carro. Se já não estiver com um, alugue na vila. Os bugueiros vão tentar convencê-lo a fechar negócio no passeio que eles chamam de ponta-a-ponta, dura três horas e inclui essas três praias. Também é legal e custa o mesmo da diária do carro, mas não é você que faz os horários.
A praia do Cupe, a mais próxima de Porto, é onde aliás ficam as melhores pousadas. Bem extensa, areia fofa e clarinha, mar de ondas fortes e alguns trechos com buracos, mas os bombeiros estão de olho.
Muro Alto vem logo em seguida. Já foi uma praia deserta há oito anos, mas hoje virou uma condomínio de resorts. No final de 2005, dois novos empreendimentos foram inaugurados, o Beach Class Resort e o Parthenon Marulhos, que se juntaram ao excepcionais Nannai e ao Summerville.
Então prepare-se para o visual de Maracaípe, acessada por uma estradinha de terra de dois quilômetros, que sai de Porto e leva até a Vila de Todos os Santos. No canto da praia, o chamado de pontal de Maracaípe, o rio de mesmo nome deságua no mar e tira suspiros de todo mundo. Lá, as jangadas levam a um passeio pelo mangue com uma parada no surreal bar do Galo, um botequinho flutuante no meio do nada, onde os jangadeiros mergulham para capturar cavalos-marinhos e mostrar ao turistas. É claro que depois eles soltam os bichos, pois o cavalo-marinho virou atração e sustento para eles, jangadeiros, os mesmos que por sinal acreditavam no efeito afrodisíaco dos bichinhos, que quase desapareceram por causa disso.
Quando voltar do passeio pelo manguezal, dê um tempinho por ali mesmo no barzinho do Marcão só para ver o pôr-do-sol tingir de dourado as areias e a água do rio. Mas depois que o sol vai embora, Maracaípe se esvazia. À noite, o único barulho na praia vem das ondas batendo. Se quiser paz e um cantinho zen para dormir fique por ali, na Pousada Xalés de Maracaípe, sem dúvida, uma das melhores opções de hospedagem da região.
E ainda tem Carneiros
Muita gente esquece o resto do litoral pernambucano para passar vários dias só em Porto de Galinhas. Não é um absurdo, mas chega a ser um erro. Até porque, mais adiante fica a desbundante Praia dos Carneiros, no município de Tamandaré.
A praia tem um trecho de mar aberto com areia branquinha e um bonito coqueiral e outro com arrecifes de frágeis formações (cuidado ao pisar) onde há uma rica vida marinha: ouriços (vá de sandálias), peixinhos, caranguejos e crustáceos de formas e cores variadas. E assim como em Porto de Galinhas, a maré baixa faz aparecer piscinas de água cristalina entre os arrecifes, nas quais ninguém perde a chance de um mergulho.
O melhor é que Carneiros está quase sempre vazia. Há três restaurantes na beira da praia, algumas poucas casas e uma simpática igrejinha branca, que aliás foi a primeira construção de lá. Chegar em Carneiros só nos barco que saem de Rio Formoso (paga-se pela travessia, que inclui o almoço em um dos restaurantes) ou de carro, seguindo para Tamandaré, a 65 km de Porto de Galinhas, e depois seguir por uma estradinha de terra.
O problema em ir de carro é que toda a praia está cercada por áreas particulares. Os únicos acessos são para os tais restaurantes, que cobram uma espécie de consumação mínima por pessoa, para a refeição, que é boa e farta, estilo buffet self-service.
A Praia dos Carneiros é o ponto mais distante de Recife até onde vale a pena esticar a viagem antes de entrar em Alagoas. Se você quer ir antes onde muita gente irá num futuro próximo vá para Carneiros hoje. Mas aproveite e passe antes por Recife, dê um giro em Olinda, caia na balada em Porto de Galinhas, ande de jangada em Maracaípe... O litoral de Pernambuco é assim: águas mornas e gratas surpresas.
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