Recife é cidade histórica com grande influência holandesa

Dec 31, 1969
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Nos Tempos de Holandeses Há 350 Anos chegava ao fim uma ocupação que mudou a paisagem e os costumes de Recife, chamado de Mauristaad por quase três décadas Foi bem nesta linha, onde o azul do mar encontra o céu, que despontaram as 65 embarcações da armada holandesa numa tarde de fevereiro de 1630.

Os moradores da pacata e próspera Vila Olinda ainda se recuperavam de um ano repleto de festejos pelo nascimento do príncipe Baltazar, filho do rei Felipe IV com Isabel de Bourbon, os espanhóis que reinavam sobre Portugal. Mas lá, nos navios, ninguém queria saber de festa. Os mais de sete mil homens que haviam atravessado o oceano estavam ávidos por explorar o açúcar, o ouro doce da nova terra.

Assim começava uma invasão de três décadas, que entrou para a história como o Brasil Holandês. No início do século 17, a capitania de Nova Lusitânia, como era chamado o estado de Pernambuco, era a mais próspera do Brasil Colonial devido ao crescente plantio de cana-de-açúcar em suas terras férteis. Em 1608, 77 engenhos produziam anualmente quase 3.000 toneladas de açúcar.

A riqueza da cana fez da sociedade pernambucana uma das mais prósperas do Brasil Colonial, com grandes casarões nas propriedades rurais, damas desfilando vestidos de seda e cavalheiros armando seus cavalos com adornos de prata. A capitania era também uma das maiores da colônia. Nessa época, os seus limites somavam uma faixa de terra de 60 léguas, entre a foz do Rio São Francisco e do Rio Igaraçu, que se estendia do litoral até os limites do Tratado de Tordesilhas a oeste. Atraídos pela próspera e crescente produção de açúcar, os invasores desembarcaram em Pernambuco para fazer riqueza e construir história.

A construção da Mauristaad

A fase marcante do Brasil Holandês começou em 1637, com a chegada do conde João Maurício de Nassau. Nassau era um jovem oficial da cavalaria holandesa ligado à família real. Astuto, vaidoso, apreciador de artes e com poucos recursos para sustentar tantos atributos, aceitou a missão de governar a colônia holandesa no Brasil. Em Haia, Nassau havia iniciado a construção de um luxuoso castelo e estava atolado em dívidas devido à suntuosa obra. Nessa situação, os rendimentos extras que poderia conseguir no Brasil se tornaram ainda mais atraentes.

A vaidade, aliada a uma vocação renascentista, fez com que Nassau trouxesse um séquito de artistas e cientistas para Pernambuco. Aqui, ele deu início aos primeiros estudos científicos sobre a fauna e a flora das Américas, instalou o primeiro observatório astronômico do Novo Mundo. Mas a síntese de suas ambições foi a construção de Mauristaad, do holandês, a “Cidade Maurícia”. O projeto demandou levantamentos cartográficos e empreendeu o classicismo arquitetônico dos Países Baixos nas ruas do Recife. Com a ajuda do arquiteto Pieter Post, Nassau definiu pessoalmente o traçado da nova cidade, que ocupou a região onde hoje é o bairro de Santo Antonio, no centro de Recife. Formada por 15 ruas estreitas, ela foi construída para abrigar os sete mil holandeses.

A vila dos Arrecifes (hoje conhecida como Recife Antigo) comportava poucas residências e os aluguéis, devido à pouca oferta, chegavam a ser seis vezes mais caros que na Holanda. E os avanços da obra foram sendo retratados com primazia. O traçado da cidade, assim como os castelos de Nassau e as paisagens litorâneas, estão eternizados nos desenhos de Frans Post, artista plástico que integrou a comitiva de Nassau. Ao lado dele, Albert Eckhout dedicou seu talento para ilustrar a fauna, a flora e os moradores nativos.

A derrocada dos holandeses

Em 1644, Nassau voltou para a Holanda e sua saída catalizou a crise do açúcar. É que os senhores de engenho estavam endividados com a Companhia das Índias Ocidentais (WIC), que transportava o açúcar para a Europa. Como Nassau tinha amizade com esses agricultores, ele mantinha adiada a cobrança, apesar das pressões da matriz holandesa. O Supremo Conselho do Recife, que assumiu o comando da região, foi implacável. Ameaçados, os donos das terras voltaram sua ira contra os invasores, pregando a intolerância religiosa, atacando assim um dos pilares da administração maurícia.

A revolta pegou os holandeses despreparados. Isso porque três anos antes, Portugal havia selado uma trégua com eles para ganhar apoio na guerra de independência da Espanha. Achando-se seguros, os chefes de Nassau não enviaram mais reforços para Pernambuco porque estavam em guerra com a Inglaterra. Os homens que ficaram na Cidade Maurícia pouco conheciam o território pernambucano e, mesmo assim, resistiram por um bom tempo.

Em 1654, depois da derrota na Batalha dos Guararapes, não havia mais o que fazer. Os pernambucanos os fizeram assinar a rendição e, logo em seguida, pagaram na mesma moeda o tratamento que receberam dos invasores: queimaram e destruíram as casas da Cidade Maurícia. Os astutos holandeses não ficaram no prejuízo e cobraram de Portugal uma indenização.

A herança holandesa que ficou no mapa

Poucos são os resquícios arquitetônicos da herança holandesa em Recife, mas o legado artístico e a influência no traçado urbanístico da cidade ainda podem ser conferidos. Entre as obras mais importantes da Cidade Maurícia, estão o Palácio de Friburgo, sede do governo, e a Casa da Boa Vista, residência oficial de Nassau. A área onde foi construído o Palácio de Friburgo é hoje ocupada pela Praça da República, Teatro Santa Isabel e os Palácio da Justiça  e do Governo do Estado. No local onde foi erguida a Casa da Boa Vista hoje está a praça do Carmo  e a basílica, construída em 1687.

A igreja tem um frontispício barroco, altar-mor revestido em ouro, nove altares laterais e imagens de profetas hebreus e de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife, em tamanho natural. O torreão da igreja teria pertencido à Casa da Boa Vista. Foi nas proximidades do Palácio do Governo que o conde holandês ergueu a Ponte Maurício de Nassau, a primeira da América Latina, quase no mesmo local onde hoje está a ponte com o mesmo nome e que dá acesso à avenida Marquês de Olinda. A obra foi idealizada para facilitar o acesso da Vila dos Arrecifes (uma ilha) à Cidade Maurícia.

Com 12 m x 8 m de largura, sua construção foi iniciada em 1642 e inaugurada dois anos depois. Devido ao custo elevado, parte dos pilares foram feitos de pedra e o restante de madeira. A herança holandesa também está presente nos fortes das Cinco Pontas, o que não é verdade, tem quatro, e do Brum, o nome escolhido em homenagem ao chefe do conselho holandês Johan Bruyne, responsável pela finalização da obra iniciada pelo governador Matias de Albuquerque, em 1629. O forte do Brum foi construído a partir das pedras retiradas dos arrecifes durante a maré baixa e hoje abriga o Museu Militar. Nas Cinco Pontas, que apesar do nome tem apenas quatro pontas, está o Museu da Cidade do Recife. Os dois museus abrigam documentos referentes ao período holandês.

Os empreendedores de Nassau

Impulsionada pela liberdade religiosa dos dirigentes holandeses e em busca das riquezas do açúcar e do intenso comércio, o comunidade judaica da Holanda ajudou a ocupar Pernambuco. Chegaram a somar 1.450 integrantes que se deram muito bem enquanto durou o domínio holandês. Aqui foram senhores de engenho, mercadores, vendedores de escravos e banqueiros.

A maioria se instalou na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus, recentemente reformada e abrigo de vários prédios históricos. Nessa rua foi fundada a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel. Seus vestígios foram descobertos recentemente a partir da superposição de mapas antigos. Durante as escavações da restauração foram descobertos oito níveis diferentes de pisos, correspondentes aos sucessivos aterros feitos para o assentamento da cidade. No prédio antigo, foi encontrado um Mikvê, um poço de 1,70m de profundidade e 0,70m de diâmetro, utilizado em banhos de purificação.

Segundo a tradição, as mulheres tomavam o banho sete dias após o fim do período menstrual e os homens, no Yomkippur, o dia do perdão para os judeus. O espaço é aberto à visitação e tem no seu primeiro andar a réplica de uma sinagoga. Ao final da rua do Bom Jesus está a Torre Malakoff, um observatório astronômico. De seu andar superior onde é possível ter uma vista privilegiada de onde a cidade começou, com suas construções imponentes até hoje. Os judeus tiveram que abandonar toda essa estrutura em 1654, quando foram explusos junto com os demais holandeses. Embarcaram nos mesmo navios e seguiram para os Estados Unidos. Lá ajudariam a erguer na Ilha de Manhatam a Nova Amsterdam, atual Nova York, território barganhado junto aos índios.