Muito frio, muito quente, muito bom

Dec 31, 1969
0 votos | Votar

Por muitos anos, a Europa foi, para mim, sinô­nimo de inverno. As passagens, na­queles idos em que os aviões ainda faziam escala em Dacar, no Senegal, eram muito mais caras que as de hoje – e só ficavam relativamente acessíveis na baixíssima temporada, quando os dias em Londres, Paris ou Zurique eram muito curtos e in­variavelmente gélidos. Nada disso me demovia da ideia de viajar ao Velho Mundo o tanto quanto possível. O que significava economizar o salário de dois anos de repórter iniciante ainda sem compromissos familiares para torrá-lo nos cenários quase sempre escuros dos autores que me embalaram a juventude.

Dessas viagens – sempre longas, para fazer o dinheiro render –, guardo lem­branças de cidades que não existem mais. Como a Lisboa triste como o mais triste dos fados que conheci na agonia da ditadura Salazar; ou a Madri suja, pobre e militarizada dos tempos de Franco. A bem da verdade, só fui conhecer uma Europa quente em minha primeira viagem a trabalho, durante os 60 dias de cobertura da Copa da Espanha em 1982 – sim, aquela que Paolo Rossi nos arrancou como se tira o doce de uma criança.

E ponha quente nisso. Na Andaluzia (onde ganhamos da Rússia, da Nova Zelândia e da Escócia), descobri o calor de verdade. Dias e noites como não existem no Brasil, sequer em Cuiabá ou Teresina.

Hoje, revejo os blocos de anotação de viagens mais recentes. Quase todos eles registram tem­peraturas ao redor dos 40ºC. Na Grécia. Na Turquia. Em Por­tugal. Na Itália e na Espanha. No roteiro de carro que o fotógrafo Mar­celo Spatafora e eu fizemos pela mesma Andaluzia em junho de 2007, anotei, estupefato, que às seis da tarde, em Córdoba, o termômetro do carro anun­ciava um calor de 52ºC. Os da rua, exa­gerados, chegavam aos 54ºC. Não havia viv’alma nas ruas. Nem na piscina do hotel. As pessoas fugiam do ar livre para os porões ou os ambientes refrigerados.

Você talvez suponha que ao expô-lo aos extremos térmicos de minhas jornadas europeias, a proposta seja dissuadi-lo de viajar para lá. Ao contrário: assim como apresenta condições tão diferentes de esta­ção para estação, a Europa muda de cor, de atitude e de temperamento a cada nova viagem que se faz. A Paris invernal das árvores nuas e da movimentação elegante de sobretudos, foulards e cachecóis pelos bulevares é tão poderosamente instigante quanto a Paris estival, dos parques lu­xuriantes e das jornadas de bicicleta às margens do Sena.

E o mesmo raciocínio se aplica à toda Europa, com a única restrição de que, na maioria dos países, as cozinhas fecham muito antes de o sol se pôr no verão – e pelo menos eu não vejo graça nenhuma em jantar com o sol a pino. Já os espanhóis não padecem desse mal. O calor pode ser colossal, mas nunca é tarde para jantar.

A Europa em pílulas

Quem é Europa?

Para todos os efeitos, a mitologia registra que a origem do continente europeu se perde nos tempos, mas o berço de sua primeira civilização é a ilha de Creta (hoje parte da Grécia), antiga morada de Zeus, o mais poderoso dos deuses da civilização helênica. Pois eis que Zeus apaixonou-se por uma ninfa e foi buscá-la em algum lugar não-identificado do Oriente Médio. Por se tratar de um deus, optou por trazê-la a nado, em suas costas. A ninfa, que teria chegado a Creta desfalecida de cansaço, chamava-se Europa. E assim ganhou nome uma porção do planeta.

700 milhões, apesar de tudo

O continente europeu é pouco maior que o Brasil e ocupa menos de 8% da superfície sólida do planeta. Oficialmente, contudo, ele se estende desde o arquipélago de Açores, no Oceano Atlântico, até os Montes Urais, na Rússia. De norte a sul, a Europa se esparrama entre os meridianos 35 e 71N. Nessa porção de terra, ao fim de milênios de guerras, pragas e cataclismas, residem, ainda, 700 milhões de habitantes.

A virtude e o castigo

Se você alugar um carro na Europa e decidir rodar, digamos, uns dois mil quilômetros em suas férias (o que é uma grande pedida), será possível mudar, dia após dia, de arquitetura, gastronomia, idioma e cultura. Em um trajeto semelhante nos Estados Unidos, o máximo que você conseguirá será uma mudança de paisagens: as cidades serão sempre parecidas, os hotéis pertencerão às mesmas redes, os restaurantes terão o mesmo sabor. A virtude da Europa é a diversidade – infelizmente, também, a razão pela qual o continente viveu conflagrado durante quase toda a sua história.

Um hotel no extremo

O extremo ocidental da Europa é o Cabo da Roca, em Portugal. Trata-se de um imponente promontório sobre o Atlântico, que abriga um farol e desafia as ondas violentas do mar nesse trecho da costa do município de Sintra. De minhas anotações: há um hotel, o Fortaleza do Guincho, na praia homônima, cujos quartos são voltados para a pequena extensão de terra onde a Europa começa (ou termina). É um cinco estrelas e tem um restaurante estrelado no guia Michelin.

Você sabe falar euskera?

Nem o mais completo dos poliglotas conseguirá se comunicar na língua natal de todos os habitantes da Europa. Nesse intrincado continente, pratica-se mais de ma centena de línguas e dialetos, entre eles o euskera (do País Basco), cuja origem é completamente desconhecida – e não tem nenhuma outra língua que a ela se assemelhe.

Para onde vamos (e não vamos)

A Europa dos brasileiros é a Europa latina: no geral, temos forte predileção pelos países nos quais conseguimos compreender alguma coisa como França, Espanha, Itália e Portugal. No grupo dos mais visitados, a exceção é a Inglaterra que, segundo pesquisas, nos pegou com os Beatles, com James Bond e, claro, com as delícias da monarquia mais falada do mundo. A Alemanha, em função dos negócios – e, mais recentemente, de suas novas atrações –, vem conquistando novos adeptos. Conta-se nos dedos, entretanto, os brasileiros que vão à Bielo-Rússia, à Geórgia ou à Albânia. Se você já esteve em um desses lugares, escreva para mim.

Para comentar é preciso autenticar-se. Clique aqui para se autenticar.