Deslumbre-se com as paisagens de Lisboa repletas de prédios antigos
No mirante do Castelo de São Jorge, no alto de uma das colinas de Lisboa, a vista é a mais encantadora e didática possível. É fácil entender a cidade daquele ponto. Está tudo ali: o mosaico dos telhados, as roupas secando nas janelas, as praças e o Rio Tejo. Poetas inspirados nesse panorama – e olha que Lisboa é a terra de Camões e Fernando Pessoa – fizeram juras de amor à cidade. Alguns a cortejaram como se fosse uma sedutora mulher e o rio, o eterno namorado, cujas águas conectam Lisboa ao Atlântico e ao passado glorioso das grandes navegações.
Os romanos, que sabiam das coisas, escolheram justamente aquele platô para erguer a fortaleza que protegeria as dominações e povoados às margens do Tejo por volta de 200 a.C. A visão romântica local, porém, prefere a versão de que o burgo teria sido fundado pelo herói mítico Ulisses. O certo mesmo é que Lisboa sempre foi muito cobiçada. Além dos romanos, esteve nas mãos de fenícios, visigodos e mouros até a reconquista em 1147 por Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.
Em 1755, um terremoto devastador quase a destruiu completamente e Lisboa teve de ser reconstruída. A cidade ainda seria testemunha de outros eventos dramáticos, como o assassinato do rei D. Carlos I em 1908, e o golpe de estado que culminou na Proclamação da República dois anos mais tarde.
Lisboa é uma das capitais europeias com menor população. Tem cerca de 600 mil habitantes. É pequena e fácil de ser explorada a pé, já que as principais atrações no centro estão todas a distâncias relativamente curtas uma da outra. É um grande prazer perder-se nas ruelas dos bairros antigos, subir aos mirantes, curtir os cafés e saborear a excelente gastronomia à base de peixes e frutos do mar. A capital portuguesa é uma das principais portas de entrada da Europa – e está escancarada o ano inteiro. O idioma também facilita as coisas para os brasileiros, ainda que o português falado por lá não seja exatamente o mesmo daqui.
Muitos visitantes, no entanto, a utilizam como mero ponto de partida para explorar os arredores, com esticadas para Cascais, Sintra, Óbidos e Fátima. Não é má ideia. Mas desprezar uma vivência – quatro dias pelo menos – em Lisboa é um grande desperdício. A cidade tem atrações históricas fantásticas e um charme de antigamente que se mistura a um momento de grande efervescência cultural. Uma reportagem publicada no jornal The New York Times, no final de 2009, dá conta de que Lisboa é a capital da vez na Europa ao passar por uma espécie de La Movida lusitana, numa analogia à agitação cultural pela qual passou Madri, do final dos anos de 1970 até o final dos anos de 1980, após a queda da ditadura do general Francisco Franco.
Lisboa é culta. Tem adoração pela história, as artes e as letras. Com a vantagem extra que os museus de lá não têm as longas filas como acontece em Paris ou Roma. Além disso, há um astral alegre, talvez influência dos dias ensolarados e do verão digno dos trópicos. Nos finais de semana, os trens do Cais do Sodré partem cheios de gente com chinelo e roupa de banho rumo ao litoral de Cascais.
É verdade que ultimamente os lisboetas andam meio preocupados. O motivo é a situação econômica do país, num momento de crescimento baixo e desemprego em alta. Pergunte a qualquer morador e ouvirá um fado de lamentações sobre o assunto. O governo luta para equilibrar as contas públicas, cujo déficit chegou a alarmantes 9,3% do PIB, muito acima do teto de 3% que a União Europeia recomenda para a boa saúde financeira dos países membros. Para isso, Portugal terá que suspender investimentos, como o início das obras do TGV, o trem de alta velocidade, que ligaria Lisboa ao Porto, postergado para daqui a dois anos.
Os lisboetas, porém, não perdem a fé, e têm à disposição muitos santos a recorrer. A cidade é abençoada por São Vicente, o padroeiro, ainda que a preferência seja por Santo Antônio, o santo das causas perdidas. Ir à capelinha de Santo Antônio, na Alfama, para deixar os pedidos e agradecimentos por graças alcançadas é uma tradição local.
Além disso, qualquer resquício de pessimismo há de se diluir diante da amplidão que se avista do alto do mirante do Castelo de São Jorge: os telhados, o rio, as montanhas no horizonte... E se a imagem for pouco, eles ainda podem lembrar de seus grandes poetas, como Manuel da Fonseca, que escreveu: “Tejo que leva as águas, correndo de par em par, lava a cidade das mágoas, leva as mágoas para o mar”.
Na ruas da Baixa
Um passeio por Lisboa invariavelmente começa pela Baixa, o bairro que concentra os hotéis e a zona comercial da cidade. Edifícios neoclássicos alinham-se em ruas simétricas e planejadas, já que toda aquela área teve que ser reconstruída após o terremoto de 1755. A Rua Augusta e a Rua do Ouro são as vias principais, bastante agitadas e constantemente cortadas pelos eléctricos, os simpáticos bondinhos amarelos que são a cara de Lisboa.
As duas ruas interligam as duas maiores praças da Baixa, a do Comércio, que é centralizada pela estátua do Rei José I montado num elegante corcel, e a do Rossio, o coração pulsante da cidade e importante ponto multicultural. Nos arredores estão diversas salas de cinema e o Teatro Municipal, além de ótimos cafés, como o Nicola e a Pastelaria Suíça.
É difícil resistir a uma parada para contemplar a bela fonte barroca ao final do Rossio. Assim como ningúem deixa de se admirar com a beleza do Elevador da Santa Justa, a apenas cem metros da tal fonte, seguindo pela Rua do Ouro. Trata-se de uma torre em estilo gótico, construída em 1902, atribuída ao mesmo arquiteto que projetou a Torre Eiffel, em Paris – mas há controvérsias sobre isso. O que importa é que o Elevador da Santa Justa – que fica lindíssimo à noite com uma iluminação especial – conduz em poucos segundos da Baixa ao chamado Bairro Alto. E o desembarque do ascensor se dá num mirante que se debruça em outra bela vista da cidade.
Nos labirintos da Alfama
Seguindo pela Rua da Alfândega, que parte da Praça do Comércio, você chega bem rápido a Alfama, o bairro mais tradicional de Lisboa. Plantado em uma colina à beira do Tejo, lá se encontra o legado da presença mourisca dos tempos remotos. As ruas labirínticas e estreitíssimas (algumas tão estreitas que vizinhos de frente podem se cumprimentar, estendendo as mãos das janelas), seguem em traçados indecifráveis, interligadas por arcadas e escadarias.
Caminhar calmamente pelas vielas é uma das melhores coisas a fazer em Lisboa. Alfama era o bairro dos marinheiros e das prostitutas. Ali surgiu o fado, a música que melhor representa a alma portuguesa, inicialmente cantado às mesas de tabernas e bordéis. Ainda hoje, a Alfama mantém-se como um bairro popular, mas sem o astral marginal de outros tempos.
Algumas ruelas abrem-se para pátios internos onde há igrejas barrocas e pequenos restaurantes típicos, que os portugueses chamam de tasquinhas, adornados com réstias de alho e de pimenta.
Lá também são preservados costumes de antigamente, entre eles o hábito de falar da vida alheia. Senhoras vestidas de xale preto juntam-se à porta enquanto esperam as roupas que secam às janelas. Senhores de boina jogam gamão nos botecos. As varinas passam com a cesta de vime na cabeça para vender o peixe de casa em casa, e servem de pretexto para mais encontros fofoqueiros à luz do dia, como bem convém à velha mania.
Explorar a Alfama só é possível a pé, pois não há espaço para circulação de carros em ruas tão estreitas. E no sobe e desce de ladeiras, os pontos de descanso costumam ser a Igreja da Sé e o Mirante de Santa Luzia, que estão no caminho para quem vai até o Castelo de São Jorge, no ponto mais alto da colina da Alfama.
A tradição do Bairro Alto
Voltando em direção à Baixa, rumo à colina do lado oposto, está o Bairro Alto, que também preserva as características da Lisboa tradicional, com charmosas ruas emolduradas por prédios antigos. Durante o dia, mantém o clima parecido com a Alfama, com roupas nas janelas feito bandeirolas e donas de casa batendo papo à porta de casa.
À noite, porém, tudo se transforma. As ruas ficam tomadas de jovens e turistas que bebem e conversam, em frente aos bares. Muitas casas de fado estão por ali. E nada melhor para familiarizar-se com o estilo do que assistir a um show. Os cantores e músicos se apresentam em meio ao jantar, que costuma ter cardápio típico, que pode ser um caldo verde de entrada e um belo prato de bacalhau com vinho português. Mas isso é só um aperitivo da madrugada, que ferve mesmo nas Docas de Alcântara, onde estão as megadanceterias cujo som é comandado por DJs internacionais. A atmosfera boêmia do Bairro Alto há tempos atraiu jornalistas e intelectuais para a região, que já abrigou a sede dos dois jornais mais importantes da cidade, o Diário de Notícias e o Diário de Lisboa. As primeiras cafeterias da cidade surgiram ali. E justamente por isso, não há lugar melhor para uma bica (cafezinho). No Largo do Chiado, está um representante bem tradicional, o Café A Brasileira, aberto desde 1905. Ganhou fama por ser o preferido de Fernando Pessoa, homenageado no local com uma estátua de bronze. Tirar uma fotografia ao lado da estátua de Pessoa é outro ritual típico dessa cidade cheia de agradáveis clichês.
Vale a pena caminhar também pela Rua da Bica e descer de funicular até a beira do Tejo para conhecer o Mercado da Ribeira. O ideal é que seja hora do almoço, pois de frente ao mercado, ao lado da estação de trem, há um restaurante pequeno, instalado num antigo galpão, o Cais do Sodré, que serve um peixe grelhado divino.
História e pastéis de Belém
Do centro até o bairro de Belém você gasta cerca de € 8 de táxi – ou bem menos se tomar o ônibus 28 ou 43, que saem da Praça da Figueira. É um trajeto rápido, de 15 minutos, mas o mergulho na história o levará a cinco séculos no passado, ao período das navegações portuguesas. Todas as atrações do bairro giram em torno do tema. Lá está a Torre de Belém, que qualquer brasileiro conhece das latas de azeite e se tornou um ícone de Portugal. Daquele ponto onde está a torre partiram caravelas que desbravaram o mar tenebroso, habitado à época por “monstros marinhos e com um intransponível abismo no fim da linha”. Vasco da Gama – que em Portugal goza de fama muito maior do que Pedro Álvares Cabral – seria o autor do feito mais surpreendente, ao contornar o continente africano rumo aos portos do Oriente em 1498.
O rei D. Manuel I, para comemorar o sucesso de tamanha empreitada naval, mandou erguer ali perto o portentoso Mosteiro dos Jerónimos, bem no local em que antes ficava a capela de Santa Maria, onde os navegantes iam pedir proteção à véspera das longas viagens. Internamente, o templo impressiona pela beleza da arquitetura em estilo manuelino, todo em pedra, com detalhes esculpidos no forro, altares e colunas. Grandes personalidades da história de Portugal estão sepultadas lá dentro, como o próprio Vasco da Gama e os poetas Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa.
À beira do Tejo, de frente ao Mosteiro dos Jerónimos, está o Padrão dos Descobrimentos, um monumento em forma de caravela construído para comemorar as grandes descobertas d’além mar. Você vai perceber que Belém pode ser um passeio para o dia inteiro se incluir no roteiro visitas ao Museu Nacional dos Coches, que guarda carruagens nobres usadas entre os séculos 17 ao 19, e o Museu da Marinha, com réplicas de caravelas e navios portugueses.
Para muita gente, porém, nenhuma dessas atrações históricas se compara a um pit stop na famosa Fábrica dos Pastéis de Belém, que desde 1837 faz o melhor pastel de nata de Portugal. Ir até lá devorar meia-dúzia de pasteizinhos em formato de empada é o que dez em cada dez turistas em Lisboa fazem. E com razão, já que o doce feito nessa fábrica é inigualá-vel. Tanto que a casa vive lotada e os garçons não param de zanzar entre as mesas com os pratinhos carregados do quitute de massa crocante e recheio cremoso. O gerente da casa, Vítor Domingos, informa que, num só dia, podem ser produzidos até 40 mil doces para atender a multidão de clientes.
Até o presidente português Cavaco Silva é fã do tal pastel de Belém. Segundo Domingos, às vezes ele aparece às escondidas, no meio do expediente, para um café e um lanchinho. Senta-se à mesa, abre o jornal na frente do rosto e passa despercebido como um cliente qualquer. Os seguranças chegam depois, esbaforidos, quando percebem que o político saiu do palácio presidencial sem ser notado.
Gastronomia portuguesa
Outro ponto forte de uma viagem a Lisboa é aproveitar a gastronomia portuguesa. É muito fácil comer bem na cidade, e sem pagar muito por isso. A predominância são os peixes, com destaque para o bacalhau, além das carnes e doces. A maior concentração de bons restaurantes está nas ruas da Baixa e no Bairro Alto.
O único problema é entender o cardápio. Estão escritos em português, obviamente, mas isso não significa que sejam compreensíveis. A menos que você já saiba, por exemplo, o que é uma açorda de gambas ou uma espetada de tamboril. Já provou uma sapateira? E alheiras do mirandela? E costeleta de borrego?
O “empregado de mesa” pode ajudá-lo com explicações, apesar de cordialidade e simpatia no atendimento não ser o ponto forte dos garçons lisboetas. Há ainda a opção de pedir um cardápio em inglês, recurso válido mesmo que seja para entender o próprio idioma – a propósito, açorda é um tipo de massa feita com pão e ovo; gambas são camarões; espetada de tamboril, espeto de peixe; alheiras, um tipo de marisco; sapateira, caranguejo; e borrego, carneiro.
Descobrir como há nomes diferentes para coisas iguais é uma das grandes curiosidades de uma viagem à terra de Camões. Algumas situações são cômicas. Se você vir, por exemplo, em alguma vitrine um cartaz escrito “temos prego”, não pense que se trata de uma loja de materiais de construção. Prego nada mais é do que bife no pão. Também não é preciso se constranger ao pedir um bitoque ao garçom, pois é apenas o prego, só que servido no prato, com arroz e salada.
Se ler um outro cartaz que informe “há pipis”, quer dizer apenas que ali é servido um prato à base de moela de galinha. Não tem nada a ver com banheiro que, aliás, é como eles chamam o salva-vidas, aquele que fica na praia a socorrer os banhistas. E se por acaso você estiver no alto do mirante do Castelo de São Jorge e ouvir alguém dizer “bestial, bué bestial”, quer dizer apenas que a vista dali é maravilhosa, muito maravilhosa.
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