Lisboa uma curiosa mistura de tradições com modernidades

Dec 31, 1969
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A primeira dificuldade é como chamar o garçom. Não há, em Portugal, uma palavra, nome ou jeito de se fazer isso. Ou melhor, há. Mas ela é impraticável. Chama-se “empregado de mesa”. “Ô, empregado de mesa!”, você, então, deveria dizer. Mas não: soa esquisito demais. Até para eles. O jeito mais adequado, você logo aprende, é erguendo um dos braços, apontando o indicador para cima e dizendo, com voz firme: “se faz favor” (pronuncia-se, “sefazfavoire”). Feito isso, o milagre se consuma e um cardápio, não raro escrito à mão e em papel de pão, aterrisa na sua mesa. Surge, então, o segundo problema: entendê-lo!

Que venha a comida, "ora pois"

Prato do dia: açorda de gambas. Hum...parece bom. Mas o que será “açorda”? E “gambas”? Você, então, muda de linha e o problema continua: amêijoas na cataplana ou alheiras do mirandela? Sei não...Entremeada ou febras ao pirí-pirí? Xiiii. Pipis ou rojões do mar – que diabos será isso? Sapateira ou costelas de borrego? Fique com este! Pelo menos, você sabe o que é, ainda que não tenha a menor ideia de qual bicho ele provêm. Outra saída é pedir um cardápio em inglês, onde, em respeito aos estrangeiros (para eles, os brasileiros não são), os pratos vêm explicados. Fiz isso algumas vezes, para entender minha própria língua em Lisboa.

A rigor, as únicas coisas que dão para compreender bem num cardápio de Portugal são os preços dos pratos – todos baratíssimos, por sinal, e facílimos de avaliar pelos brasileiros: basta tirar dois zeros dos valores em escudos para tê-los, mais ou menos, em reais. Assim, os 1 100$ daquela indecifrável açorda de gambas viraram familiares R$ 11 por um dos pratos mais típicos de Portugal: uma papa de massão de pão e ovo (a açorda) com camarões (as gambas). Ah! Era isso?

Você vai se surpreender o tempo todo em Lisboa. E não apenas com os nomes diferentes para coisas iguais, na nossa própria língua (a propósito: amêijoas são vôngoles; alheiras, um marisco; rojão do mar, peixe; sapateira, caranguejo; e borrego, carneiro). Há, também, a questão dos preços. Portugal ainda é um dos países mais em conta da Europa. O único lugar do exterior onde podemos pensar em reais e não em dólares, até por conta dessa tal facilidade cambial. Nada choca o bolso. Os preços se equiparam aos do Rio e São Paulo – às vezes, mais baratos! Nem parece que você está na Europa.

Aliás, Portugal traz uma curiosa sensação de familiaridade para nós, brasileiros. Você viaja 11 horas, atravessa o Atlântico e parece que desembarcou no mesmo lugar. Tudo lembra, mais ou menos, a sua rua, a sua cidade, o seu vizinho – seja você descendente de italianos, libaneses ou japoneses. Sente-se, estranhamente, em casa. A televisão passa a mesma novela, a Ana Paula Arósio anuncia o seu xampoo nos cartazes de rua e os letreiros falam uma língua que você conhece bem, embora, muito provavelmente, vá morrer de rir com o que está escrito neles. “Há pipis”, anunciavam alguns, nas vitrines dos restaurantes. Serão banheiros?, pensei. Não. Eram moelas de galinha (pronuncia-se “g’linha”), que jamais poderiam ser toiletes, porque “banheiro” em Portugal é o salva-vidas que fica na praia para socorrer os banhistas.

Diversão garantida

Os “elétricos” são a maneira mais divertida de passear por LisboaO melhor de qualquer viagem a Portugal é que você começa a rir já no próprio avião da Tap, que “descola” do chão e tem “hospedeiras” para atender aos passageiros. Foi com uma delas, por sinal, que tive meu primeiro embate na língua de Camões. Pedi um band-aid e ela fez “Hã?” Mudei para esparadrapo e ela quase teve um ataque de riso. Apontei, então, para o dedo ferido e me trouxeram um “penso rápido”, que não passava de um band-aid  – e aí quem riu fui eu.

Horas depois, eu já estava em Portugal, tomando um café no melhor lugar de Lisboa para isso: o lendário Café A Brasileira, onde você pode até dividir a mesa com a estátua de Fernando Pessoa, pagando menos do que no Brasil por um cafezinho legitimamente brasileiro: 90$, ou menos de R$ 1. Em seguida, saí para passear pela cidade, que é tão pequena que no segundo dia você já estará reconhecendo os turistas pelas ruas e até ensinando os caminhos para os estrangeiros, como se houvesse nascido ali. De certa forma, nasceu. Só que em outro país. Primeira parada: os famosos pastéis de nata de Belém (procuncia-se “B’láim”).

– Onde é? – perguntei após descer do bonde, que não é bonde e sim “elétrico”, da mesma forma que trem não é trem e sim comboio, que, por sinal, eles dizem “combóio” – Ora, é no prédio onde está escrito “os famosos pastéis de B’láim, pois” –  respondeu uma senhora, usando a típica lógica portuguesa. A mesma que faz com que os táxis de Lisboa só acendam a plaquinha do teto quando estão cheios, de forma que, à noite, ninguém consegue visualizar os táxis livres – só os ocupados.

Em Belém, onde por um mísero R$ 1,40 você experimenta o doce mais doce da sua vida, embora ele chame-se “pastel” e não leve sal algum, aproveitei para conhecer outro ícone de Portugal: a Torre de Belém, que todo brasileiro conhece bem das latas de azeite. Depois, embarquei no city tour mais típico e barato da cidade: o elétrico 28 (diz-se “bonde” no Brasil, já que eles acham que quem fala engraçado somos nós). Pelo preço de uma passagem (R$ 1,70, mas pode sair bem mais em conta se você comprar o passe de uma semana para os transportes públicos de Lisboa, por R$ 9,60), passeei pelas ladeiras tortuosas  da Alfama e, em seguida, fui provar outra iguaria típica da cidade: a Ginjinha.

Que venha a bebida

Ginjinha, licor de Lisboa– Com ou sem? –  foi logo querendo saber o balconista, com visível saco cheio, já que é obrigado a perguntar a mesma coisa a todo mundo que entra naquele minúsculo boteco, no Largo São Domingos, onde só vende uma única bebida: a tal ginjinha. –  Com ou sem, o quê? –  Ginjas, oras – e, em seguida, derramou uma dose de um líquido vermelho com umas bolinhas dentro: as tais ginjas, que são uma espécie de cereja banhada por um licor muito doce, a ginjinha. Gostei e pedi outra. E ele: – Com ou sem?

A Lisboa de 2001 é uma curiosa mistura de tradições com modernidades. Nas ruas do Bairro Alto, as senhoras ainda vestem-se de preto da cabeça aos pés, mas, nas praias de Cascais, as mulheres já fazem topless abertamente (para algumas, o mais sensato seria pôr mais roupas e não tirá-las). Os jovens abusam das gírias, mas ainda tratam-se por “vós”, na segunda pessoa do plural. No metrô (pronuncia-se métro, com o acento invertido e em outro lugar), o nome das estações aparece em modernos painéis digitais nos próprios vagões, mas para subir as ladeiras do centro, os lisboetas ainda usam velhos funiculares, com condutores que picam os bilhetes. E apesar de os shopping centers terem explodido com a fúria de brasileiros em compras em Miami, os varais da casas ainda extrapolam as janelas e invadem as ruas com vistosos cuecões ao vento, feito bandeirolas.

Aliás, nenhum outro país incorporou com tamanha intensidade o jeito americano de fazer compras. A tal ponto que, hoje, alguns dos principais pontos turísticos de Lisboa são os shopping centers, que lá, adequadamente, eles chamam de “centros comerciais” – bem, isso faz algum sentido. Pensando bem, também é coerente chamar os balcões de Achados e Perdidos de “Perdidos e Achados”, porque, afinal, para achar alguma coisa você precisa, primeiro, perdê-la, não é verdade? E de cabelereiro de homens os salões de beleza, “porque barbeiro é para fazer a barba e não cortar o cabelo”, conforme explicou um jovem português num dos próprios shoppings, ou melhor, centros comerciais da cidade. O Colombo, por exemplo, o maior de Lisboa, tem uma praça de alimentação de fazer inveja a Nova York – se não na quantidade de restaurantes, com certeza na variedade deles, já que agora incluem até a nossa brasileiríssima picanha e alguns almoços por quilo. Um chamava-se Prego e Cia. Entrei para ver se tratava-se de alguma loja de material de construção, mas encontrei apenas sanduíches (eles dizem “sandes”, não me pergunte por quê) de bifes no pão: os tais pregos, que quando são servidos no prato viram bitoques.

“Os bitoques tanto podem ser de carne de porco quanto de vaca”, tentou me explicar um funcionário. “Já os pregos só podem ser de carne porco...Ou de vaca, se o senhor desejar...” Não entendeu? Nem eu.

Como já foi dito, numa mesa de Portugal o importante é atentar para as sutilezas da língua, já que no sabor tudo será bom. Marisco é qualquer coisa que venha do mar. Guarnecido significa sempre “com batatas”. E água lisa significa sem gás. Além disso, há a curiosa inversão das palavras. “Javali de churrasco” quer dizer “churrasco de javali”, “carnes de ensopado”, “ensopado de carnes”, e assim por diante. É preciso, também (pronuncia-se “tábain”), atenção com o couvert, porque cada item é cobrado separadamente. Inclusive o pão, que, no entanto, jamais deve ser recusado, pois desde os tempos de Jesus que comer com ele à mesa é tradição em Portugal. Sorte que nada custa caro. Pelo contrário.

Passeios gastando pouco

O Ocenarium do Parque da Expo, passeio obrigatórioÉ perfeitamente possível aproveitar muito bem Lisboa gastando pouco. Um casal sem grandes exigências, dorme, come e passeia por pouco mais de US$ 50 por dia, por pessoa, e incluindo até algumas extravagâncias, como a visita ao Oceanarium, o maior aquário da Europa, onde pelo preço de um ingresso de R$ 17 você desce ao fundo do mar e não molha um dedo sequer. O segredo dessa economia está em aproveitar as oportunidades. Todas as casas de fado, por exemplo, cobram caro pelo jantar típico, mas liberam os shows para qualquer turista após às 23 horas pelo preço de uma simples imperial, que vem a ser o nosso chopinho. Vá, nem que seja só para ver como os portugueses ficam felizes em sofrer com um fado. Alguns até choram. Mais: a maioria dos bares e discotecas da nova região das docas não cobra ingresso, nem consumação mínima: paga-se apenas pela bebida e a farra sai de graça. A propósito: Lisboa tem hoje uma das noites mais intensas da Europa, embora ela comece tão tarde que a impressão é que o dia irá raiar antes que o pessoal resolva sair para dançar.

Para completar, alguns dos pratos mais famosos da cidade se escondem em restaurantes extremamente populares, como as tradicionais cervejarias Portugália e Trindade. A primeira serve ótimos bifes, a partir de R$ 15. A outra, o melhor bacalhau à Brás da cidade, por menos de R$ 14. Nas duas, o ambiente é tipicamente familiar, com mesas de madeira, azulejos na parede, uma certa algazarra e pratos fartos e baratos. Você vai se sentir absolutamente à vontade. Desde que, é claro, consiga entender o cardápio e chamar o garçom.

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